05 – Documentários

docu

Quem me conhece sabe que sinto um amor enorme pela ficção. Um amor tão grande que eu realmente pretendo viver até o fim da minha vida disso, de escrever e criar inúmeras histórias que vivem na minha cabeça.
Mas uma pequena parte de mim também sente uma atração pela realidade. E essa parte é fascinada por documentários.
Comecei a me interessar por documentários a partir da adolescência (existe criança que curta documentários?), quando a minha insônia começou a atacar sem piedade. Ligava a tv de madrugada e, quando não estava vendo algum anime no Cartoon, estava vendo algum documentário. Lembro que os primeiros que me atraíram foram os de história, principalmente pela Grécia, minha paixão enorme e “inexplicável”. O que começou com uma pretensão de me fazer dormir acabou se transformando em mais um motivo para me manter acordada até o sol raiar!
Os documentários são os melhores amigos das pessoas insones. Numa madrugada onde só passam filmes de terror, programas religiosos e o “interessantíssimo” 1001 noites (pra quem não sabe é aquele programa de madrugada super necessário onde se vende um anel por 10 milhões! Mas não se preocupe, você pode pagar em até 1000 vezes sem juros!), os documentários são a salvação para aqueles que não possuem o dom de dormir à noite. Eles realmente ensinam, te fazem questionar e refletir sobre inúmeras questões e, pelo menos no meu caso, me inspiram a escrever com as histórias mostradas.
Documentários são tão legais que até os mais chatinhos têm suas vantagens: te ajudam a finalmente dormir!
Eu amo documentários porque eles mostram a realidade de uma forma poética. É assim que vejo, é assim que sinto. É diferente da realidade crua e fria dos jornais. Talvez seja pela leve trilha sonora (às vezes) presente. Não sei. Só sei que o que mais me fascina é a simplicidade. Num mundo de blockbusters (não me entendam mal, eu amo blockbusters também!), onde se gastam 200 milhões pra produzir um filme de 2 horas, tudo o que os documentários possuem é um par de câmeras, histórias reais, interessantes e muita, muita vontade de realizar algo.
Na Tv Brasil, de madrugada, tem o Doc Tv – Latinoamérica (creio que não preciso explicar que são documentários produzidos especialmente na América Latina, né?). Sempre que estou acordada (e não estou vendo o programa do Jô) eu fico vendo e dificilmente há algum que não me interessa. São pessoas tão simples, mas com uma história de vida tão rica! Eu já chorei inúmeras vezes e fico pensando como o nosso continente é meio que excluído de tudo. A Europa e os Estados Unidos são muito interessantes, acreditem, sou totalmente influenciada por “eles”… Mas depois que passei a acompanhar esse programa, eu abri os olhos pro quanto a nossa América é rica e ninguém percebe isso. Talvez seja por vivermos aqui e, de certa forma, todos sermos levemente parecidos. Acho que o que está próximo não interessa muito às pessoas, porque estamos sempre olhando para longe, para o que não temos, ansiando o que não possuímos e, com isso, esquecemos de valorizar o que temos.
O que mais me chama atenção é ver pessoas, principalmente mulheres, do interior da Argentina ou da Bolívia que mal sabem o que é globalização e que nunca ouviram falar na palavra “internet” em toda a sua vida. E está tudo ótimo pra elas. Elas dão depoimentos sobre a vida no campo, sobre como cuidam da casa, dos filhos, do ambiente ao redor… e não é fingimento! Por aqueles adoráveis sorrisos desdentados e o brilho nos olhos, você percebe que elas realmente sentem aquilo, que elas realmente são felizes com o que a vida deu pra elas. Neste mundo não há materialismo, não há mídias ou estudos psicológicos para avaliar a mente de cada um, eles não são rotulados por nada, eles são simplesmente… eles. E isso tudo aqui do nosso lado, quase atravessando a rua! São mundos paralelos que estão grudados e eu acho isso fascinante! Poder conhecer novas culturas, cada característica de um povo, por menor que seja… Cada lugar tem algo lindo a ensinar e essa foi uma das coisas magníficas que aprendi com os documentários.
Talvez eu só seja mesmo esquisita, mas eu creio, sinceramente, que o mundo seria um lugar 1% melhor se todo mundo passasse a ver documentários. Tem pra todos os gostos! Eu fico mesmo inspirada com a vida de pessoas simples, mas também amo os documentários do History Channel, principalmente no que se diz a óvnis e o famosíssimo Triângulo das Bermudas. Eu juro, posso passar horas vendo e nunca me canso.
O preconceito com documentários ainda é muito grande, mas as pessoas pelo menos deveriam tentar. Claro que nem todo mundo vai gostar, vão achar chato e isso é natural, nós temos gostos diferentes, mas acho que a chave pra isso tudo é perder esse preconceito (aposto que tem gente que nunca viu um documentário na vida e fala mal!) e tentar ver pelo menos dois tipos de documentários (seja de História, animais, ciência espacial, produção de filmes, pessoas… Enfim, tem pra todo o tipo de gente!), pra ter pelo menos uma margem de comparação. Talvez não acreditem, mas… Acho que se vocês encontrarem o documentário certo, vão ter uma experiência única e vão começar a ver a vida de uma forma diferente também.

Dicas de documentários:

Uma Verdade Inconveniente – Davis Guggenheim e Al Gore
Tiros em Columbine – Michael Moore (esse eu só vi metade, mas já foi o suficiente pra amar!)
A Marcha dos Pingüins – Luc Jaquet
100.000 – De Juan Márquez (Os amantes de cachorro não vão se arrepender de ver!)
Promessas de Um Novo Mundo – Carlos Bolado, B.Z Goldberg, Justine Shapiro

Canais interessantes para ver Documentários:

– Tv Brasil (Infelizmente o único de canal aberto que me lembro agora, enquanto programas religiosos monopolizam 80% dos canais abertos)
– Animal Planet
– History Channel
– Globo News

Vagalume.

firefly

Hey, vagalume
Traga de volta o meu amor
Voe junto com o vento para longe
Até ao tempo transpor.

Hey, vagalume
Não se esqueça de brilhar
Quando na janela dele pousar
Permita sua beleza enfeitiçar.

Vivendo neste planeta Terra
Só vemos ódio, dor e guerra
Não seria a coisa mais bela
Acordar com um vagalume na janela?

Então, por favor, vagalume
Segure em suas mãos quando o encontrar
Seja atencioso e ensine-o a voar
Para que ele possa a mim voltar.

Eu estarei aqui esperando
Tentando segurar o meu pranto
Eu estarei aqui esperando
E a ele sempre amando.

Por favor, vagalume
Traga o meu amor assim que começar o dia
Traga o meu amor para a minha alegria
E livre-me desta vida vazia.

Feche Os Olhos.

ffeee3

Feche os olhos.
Feche os olhos e fuja enquanto é tempo.
Enquanto ainda existe um coração inteiro e uma alma que reluz.
Fuja para bem longe e se salve enquanto tudo ainda é colorido.
Antes que desbote, antes que esgote, antes que vire preto e branco.
Apague os diálogos em sua mente.
Apague o cenário, apague os atores, as atrizes…
As cenas debaixo da chuva, as palavras mais doces e os sorriso mais cálidos.
Pegue uma borracha e apague sem pena.
Amasse a folha, borre a tinta, mas apague tudo antes que vire um livro com final trágico.
Ainda há tempo.
Os ponteiros do relógio podem girar ao contrário.
O erro mais encantador já feito pode ser consertado.
É melhor acordar do sonho antes que vire pesadelo.
Desapegue-se da ideia antes que vire sentimento.
Feche as cortinas, termine o show do teatro antes que ele vire o show da vida.
Feche os olhos.
Durma.
Fuja da realidade.
Apenas fuja…
Antes que seja tarde.

(Need, capítulo 25)

1969.

69

Uma imagem.
Uma imagem de um homem em uma colina.
Clima fresco e sol ao céu.
Ele olha para cima.
Seus olhos são azuis.
Calmos.
Serenos.
Como o mar em uma tarde de outono.
Uma lágrima cai de seus olhos.
Uma outra gota escapou de seu mar.
Ele lembra dela.
Quem é ela?
Alguém do passado.
Claro!
Pois é sempre o passado que nos faz chorar.
Quem é ela?
Alguém ausente em seu presente.
Por quê?
Não era para ser.
Mas por que não era para ser?
Por que não foi?
Não sei.
Apenas não era para ser.
Será?

Mudança de cenário.
Mudança de imagem.
1969.
Os sinos da igreja tocam.
Um casamento.
Um casal saindo da igreja.
Chuva de arroz.
Felicitações.
Lamento.
Dele.
Apenas dele.
Uma mulher loira com batom vermelho sobre os lábios.
E ele na platéia.
Um par de olhos azuis a observava de longe.
Azuis como o mar.
Como o mar tempestuoso.
Lívidos.
Raivosos.
Um par de olhos azuis e uma mulher com batom vermelho.
Por que ele foi?
Queria vê-la pela última vez.
Mas a que preço?
Vê-la amarrada a outro para sempre em nome de Deus?
Para ele valia.
Naquela hora.
Naquele momento.
Pois tinha fé.
Tinha esperanças.
Tinha sonhos.
Valia, claro que valia!
Por ela sempre valeria!
Por um amor verdadeiro sempre vale.
No último momento ela renunciaria.
No último momento ela desistiria.
Ele sabia.
Ele sabia que, no último momento, ela não casaria.
Bastava olhar.
Era só soltar a mão daquele que jamais poderia amá-la de verdade e olhar.
Apenas um aceno com a cabeça e um olhar para que ele pudesse abrir caminho pela multidão, pegá-la pelo braço e partir.
Para longe.
Para sempre.
Ela fugiria.
Ele sabia.
Mas não sabia de verdade.
Se enganou.
Ela não olhou.
E dentro de um carro preto com seu novo marido entrou.

O que aconteceu depois?
Ele não lembrava.
O que aconteceu antes?
Ele não lembrava.
Ele não lembrava de mais nada.
Nada.
Todas as memórias reduziram-se a uma só.
Reduziram-se a um momento só.
A um momento em 1969.
O ano que se perdeu.
A mulher da sua vida saindo da igreja amarrada a outro em nome de Deus.
Para sempre.

Retorno de cenário.
Retorno da imagem.
Um homem em uma colina.
Cabelos grisalhos.
Clima fresco e sol ao céu.
Olhos azuis.
Azuis da cor do mar.
Ele olha para baixo.
Suspira.
Memórias.
Era apenas o que teria.
Memórias de 1969.
O ano que levou embora toda a sua alegria.

04 – Adultos e Crianças.

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Esses dias a questão sobre o que é ou o que não é ser adulto tem povoado minha mente. Talvez seja porque estou com 21 anos e,sendo considerada pela psicologia do desenvolvimento como um “adulto jovem”, ainda estou meio que nessa transição.
E acho que algumas de minhas conclusões (já que preciso de muito mais tempo e maturidade para responder completamente todas as minhas perguntas), não são muito boas.
Eu me considero uma pessoa profunda, emocionalmente falando, extremamente analisadora e totalmente chata. Se uma formiga passa na minha frente, eu vou questionar porque ela está passando ali naquela hora, porque está sozinha (já que as formigas vivem em grupo)  e o que a levou estar ali naquele momento (ou seja, sou quase um caso de internação, mas tudo bem). O ponto dessa enrolação toda é dizer que eu sei o quanto isso pode ser insuportável para a maioria das pessoas (já deixaram isso bastante claro) e por isso procuro esconder esse meu lado analisador, profundo, dramático (eu seria uma boa escritora de novela mexicana, sério mesmo), questionador… E o que acaba sobrando para as pessoas? A minha metade retardada, que ri mais alto do que deveria, que fala mais alto que um velho surdo, que é tarada por Disney, que faz mais barulho do que uma hiena quando entra numa livraria… Enfim. No fim das contas, é o que mostro e, por conseqüência, é a parte que dou para as pessoas “julgarem”.
Uma das coisas que mais ouço – como sempre, de pessoas que não conhecem nem 10% do iceberg, que sou eu – é que sou infantil demais. Que tenho que parar de usar blusas do Mickey porque já sou adulta, que tenho que sair mais de casa, que tenho que aprender a beber (é muito difícil pra esse povo bitolado entender que existem sim pessoas no mundo que não gostam nem do cheiro de álcool? Beterraba fede, eu não como. Peixe fede, eu não como. Álcool fede, eu não bebo. Minha vida é definida pelo meu nariz. Ponto.) e, claro, a crítica mais freqüente de todas, que não podia deixar de ser citada: “Pare de ser tão sensível e dramática, você não é mais uma criança”. Paro não. Porque essa minha hiper sensibilidade e meus dramas são o que me fazem criar minhas histórias e, juro, não trocaria isso por nenhuma “maturidade” no mundo.
Acredito que isso não aconteça só comigo. Essa é a nossa realidade. Você é duro, você é adulto. Você é sensível, você é infantil. É fato. Infelizmente, mas é. Quando você se cortava quando criança, era normal berrar até o sangue parar de jorrar de seu dedo. 20 anos mais tarde, se você se corta e chora, você é fraco, fresco, quer chamar atenção, mesmo que a dor seja exatamente que você sentia quando era criança. E o que fazemos? Prendemos o choro até nossa garganta dizer chega (só eu sinto dor na garganta quando estou prendendo muito o choro?) e quando colocamos um curativo nessa ferida. Sei que foi um exemplo bem tosco, mas espero que tenha conseguido transmitir meu ponto de vista.
Seja na parte física ou emocional, ser adulto virou antônimo de sensibilidade. Não se deve chorar por mulher, não se deve discutir (porque ser adulto é deixar as questões fluírem e esquecer), não se deve importar demais com nada e é estritamente proibido sentar-se no balanço de um parquinho porque aquilo é coisa de criança.
A gente vive dizendo que a sociedade é hipócrita e, na maioria das vezes concordamos, mas somente em assuntos mais “sérios” e “discutíveis” como política, religião, ética… Porque, claro, somos todos adultos, vamos falar mais sobre o quê? Mas a hipocrisia está o tempo todo à nossa volta. Você é hipócrita quando briga, finge não se importar e vai molhar o travesseiro no silêncio da noite. Você é hipócrita quando torce o nariz para desenhos animados na rua, mas morre de rir quando vê Bob Esponja em casa. Você é hipócrita quando critica alguém por ser sensível demais, mas chora até ficar roxo quando o time é rebaixado.
Perante a sociedade, os adultos são permitidos apenas chorar quando um parente morre e olhe lá. Porque, como dizem, há jeito pra tudo, menos pra morte. E tem alguns que nem isso, que fecham a cara e dizem que ‘faz parte da vida’ e não derramam numa lágrima nem numa situação extrema assim. Infelizmente, existem muitos assim pelo mundo. Que sempre dizem que está tudo bem, que tudo pode ser resolvido e que se escondem tanto dentro de si a ponto de recusar qualquer ajuda, até mesmo das pessoas que ama.
Tornamos-nos uma espécie incapaz de expressar nossa dor e sensibilidade. Uns tem menos, outros têm mais (a não ser que você seja um psicopata, mas isso é uma discussão para depois), mas todo mundo é frágil em alguma coisa. Não dá pra julgar maturidade ou imaturidade por causa disso. Principalmente quando essa pessoa não fica nem 1 hora perto de você para ser julgada. É muito difícil não julgar. O ser humano é um ser extremamente julgador. Mas ficar apontando, torcendo nariz e dizendo que você deve agir de uma forma ou de outra, é muito chato. É mais ou menos o que eu coloquei no post abaixo, no “Pessoas Tóxicas”. Seja feliz julgando todo mundo, mas julgue apenas na sua mente. Viva sua vida de juiz em paz e deixa o outro viver feliz com a sua.
Acho que todo mundo é muito maduro em certos assuntos e completamente infantil em outros. TODO MUNDO. Por mais que você aparente ser equilibrado, com a profissão mais séria e respeitável do mundo, você tem um ponto fraco que vai te tirar da “normalidade”. É melhor aceitar isso logo do que depois ficar surtando porque surtou (essa frase fez algum sentido?).
Até mesmo esse espaço aqui… A intenção inicial era falar de coisas sérias, de forma séria, como aquelas crônicas maravilhosas de jornais. Mas quem disse que eu consigo? Eu sou dividida entre uma criança de 8 anos e uma velha de 80. Por mais que eu tente aparentar ter 21, dependendo da situação, ou é a Cuera de 8 anos que aparece ou é a de 80. Então esse espaço deu nisso, eu falando de coisas sérias, mas de forma retardada. É o que eu sou, juro que já tentei mudar, mas não consigo. É mais forte que eu. Como disse há pouco, resolvi aceitar isso, porque colocar uma cara séria no meu rosto e fingir que não sinto nada é impossível pra mim.
Aposto que muitas pessoas “maduras” vão achar tudo isso um absurdo e irão continuar colocando a armadura de ferro a fim de se proteger das inúmeras flechas que o mundo nos joga diariamente. Mas espero que muitos entendam também que é permitido se importar quando uma briga com alguém amado ocorrer, que é permitido chorar em finais de filmes ou livros, que é permitido dar uma de louco em público quando se está muito alegre e que aprendam que filmes da Disney ensinam muito mais do que American Pie.
Está tudo bem ser criança enquanto se é adulto e seria interessante que as pessoas entendessem isso ou pelo menos aceitassem. Porque, como diz a filosofia da mamãe: “Aquele que mantém seu espírito de criança em si com certeza é um ser humano melhor”.

Olha Só, Que Azar!

olha só

Coloquei meu melhor vestido
Aquele branquinho, estampado com flores azuis.
Coloquei meu melhor vestido e também um par de sandálias brancas para combinar
Tudo, tudo para ver meu amor passar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Coloquei um banco frente à porta de casa e comecei a estampar almofadas
Para que você visse o quão boa esposa eu poderia dar
Eu costurei, costurei
E a tarde inteira esperei
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Eu compus uma canção de amor
Compus uma canção inspirada nesse seu sorriso perfeito
Que por inteira me faz arrepiar
Peguei o violão, dedilhei algumas notas
E até me arrisquei a cantar
Tudo isso apenas para que você pudesse me notar
Eu compus uma canção e esperei você passar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Alguns rapazes passaram
Outros até mesmo pararam
Pararam e perguntaram
O que uma moça de vestido branco com estampas de flores azuis
Fazia todo dia ali sentada
Seja com um violão ou com uma almofada
Na frente da porta de casa.
Eles sim passaram
E também pararam
Pararam e me chamaram para sair
Assim, sem compromisso
Assim, sem rebuliço
“É apenas um convite”, diziam eles “que pode a sua vida mudar”.
“Oh, não!”, respondia com delicadeza. “Muito obrigada pelo convite, senhor, mas eu não posso ir. Não posso daqui sair, pois estou esperando o meu amor.”

Um a um, eles desistiram
E em conquistar meu coração não mais insistiram
Porque, olha só, que azar!
Por uma moça apaixonada eles foram se apaixonar.

Naquela pequena cidade do interior
Um rumor sobre minha história não tardou a começar
Um rumor sobre uma moça que por um impossível amor
Para sempre iria esperar.

Tapei meus ouvidos
Recusei-me a escutar
Pois as palavras do povo eram apenas ruídos
Que jamais poderiam me afetar.

O tempo não tardou a passar
Eu continuava costurando, costurando
Ou dedilhando e cantando
Sem parar
Fiz de tudo para o tempo matar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Foi em uma tarde de abril
Que a vida novamente resolveu me sabotar
Você reapareceu com seu sorriso, seu andar, seu olhar
Na exata hora em que meu estômago começou a gritar
Um minutinho com certeza não iria atrapalhar
E para a cozinha fui cozinhar
Mas, olha só, que mundo vil!
Depois de tanto esforço, você nem me viu.

Essa é a história que tenho para contar
Da menina que desesperou de tanto esperar
Da menina que, com fome, resolveu cozinhar
E deixou de ver, mais uma vez, o seu amor passar.

Pilares.

pilares

Era uma doce tarde de outono quando um par de olhos apaixonados a avistou.
Sentada no banco da praça coberta por folhas secas, que caíam das árvores incessantemente, ele a observou perdida em profundos pensamentos.
Hesitou em aproximar-se.
Talvez preferisse ficar sozinha.
Talvez não desejasse uma voz banal entupindo seus ouvidos com palavras desperdiçadas.
Mas foi impossível dar meia volta e se afastar. Ela estava ali, à sua frente, com um espaço vazio no banco, como se este estivesse reservado para ele. E o semblante melancólico o fez perguntar se ela realmente não precisava de uma simples companhia.
Seguindo seus instintos – aqueles irritantes, que o faziam apenas desejar estar ao lado dela, mesmo que nenhuma palavra precisasse ser dita –, ele aproximou-se e sentou-se ao seu lado.

— No que pensas? – Perguntou sem mais delongas, curiosíssimo para ler aquela mente misteriosa.
— Em buracos. – respondeu baixinho com os olhos fixos em uma árvore seminua à sua frente.
— Buracos? – franziu o cenho, pondo o cérebro para trabalhar, a fim de decifrar sua linguagem constante de enigmas e metáforas. – Como assim?
— Buracos… – repetiu. – Aquela coisa preta, profunda, vazia. Buracos e mais buracos, por todos os cantos, por todos os lugares. Apenas buracos e não sei como escapar deles.
— Onde estão?
— Aqui dentro. – a ruiva colocou a palma sobre o lado esquerdo do peito. – É grande, é oco, é vazio. Acho que sempre esteve aqui, durante toda a minha vida. Sempre consegui tapá-lo. Porém, agora… – um suspiro pesado escapou de seus lábios. – Já tentei de tudo. Ciência, Filosofia, Literatura e Arte… Desde pequena, sempre foram o bastante. Desde pequena era só recorrer a eles e pronto! A mágica estava feita, o buraco estava tapado e o mundo podia ser colorido outra vez. Mas ultimamente nada tem adiantado. E sinto medo. Sinto medo do vazio fundo e eterno. Não quero cair nele.
— Você cita Ciência, Filosofia, Literatura e Arte… – disse ele, esperando tranqüilizá-la. – São quatro pilares para a saúde mental de alguém como a gente. Mas esqueceste um. O mais especial. O mais importante.
— Qual? – os olhos melancólicos finalmente caíram sobre os dele, ansiando por uma resposta imediata.
— Amor. – disse com ternura, expressando nas pequenas quatro letras a intensidade de seus sentimentos, ainda que ela não tenha notado.
— Amor… – a palavra soou estranha em seus lábios, como um tempero desconhecido e distinto, do qual nunca antes havia provado. – Amor… Já ouvi que isso pode matar. Já ouvi que isso pode causar buracos mais ainda profundos. Buracos que Ciência, Filosofia, Literatura e Arte jamais poderão fechar.
— Não é tão ruim se for correspondido…
— Mas não é este o mais difícil? Não é este exatamente o perigo? – perguntou de forma inocente e levemente temerosa. – Não o ser?
— Talvez… – respondeu incerto, um pouco confuso com suas rápidas indagações. – Mas, quem sabe, no fim, todo o risco valha a pena?

Ele esperou longos segundos por uma resposta que jamais chegou.
Ela tornou a encarar a árvore seminua à sua frente e mergulhou no mar profundo de seus pensamentos.
O rapaz não sabia se a conversa havia terminado ali. Com ela era assim: o assunto nascia e morria com a mesma velocidade, na mesma freqüência. E tudo que restava fazer era esperá-la dar o próximo passo.
E deu.
A garota levantou-se de repente e foi caminhando a passos lentos do banco, onde o espaço vazio deixado por ela começou, pouco a pouco, a deixar buracos vazios dentro dele.

— Aonde vai? – tomou a decisão de perguntar e a viu parar de repente e virar-se para ele.

A doce tarde de outono começava a se transformar em um maravilhoso crepúsculo jamais visto antes por simples olhos humanos.
Abrindo um sorriso singelo, digno de seus olhos doces e inocentes, que fez seu coração disparar violentamente dentro do peito, ela respondeu:

— Voltarei para a Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. – ela deu de ombros e suspirou. – No fim, é só o que me resta.
— E o amor?
— Não é exato. – respondeu. – Eu preciso de resultados, de contas certas que sempre terminem de forma coerente. Preciso de respostas corretas, textos que tenham um início, meio e fim e paisagens prontas pintadas à tinta óleo dentro de uma bela moldura. Preciso da precisão; da lógica que apenas Ciência, Filosofia, Literatura e Arte podem me dar.
— Precisão? – enrugou a testa, pensando no absurdo que estava dizendo. – Você nunca encontrará lógica ou coerência em nenhum deles. A Ciência não consegue provar todos os mistérios do mundo; na Filosofia sempre há mais perguntas do que respostas; na Literatura sempre existe margem para inúmeras interpretações; e a Arte, mesmo que concreta e precisa, também abre espaço para infinitas indagações. Monalisa está aí para provar o meu ponto. – ele finalmente levantou-se e ficou de frente para ela, encarando-a diretamente nos olhos. – O fato é que na vida nada é preciso; nada é seguro. Nem mesmo o 2 com 2… às vezes dá 4, às vezes vira 22. Tudo depende do ponto de vista. O mesmo com o amor: às vezes correspondido, às vezes não correspondido. Às vezes tapa buracos, às vezes abre outros mais profundos. A verdade é que nunca irá saber se não tentar.
— Prefiro deixar este para os poetas. – rebateu com toda a doçura de uma criança e toda a experiência de um idoso. – Estes falam e vivem de amor. Mas o que sou eu? Quem sou eu? Como serei digna de algo tão importante, de algo tão forte? Eu não sei brincar de fazer amor. Nunca aprendi e, honestamente, nem sei se desejo aprender deste jogo sem regras. Acho lindas as palavras afetuosas, os sentimentos sem limites, toda aquela carga que parece vir de outras vidas. Mas como irei fazê-lo? Como irei vivê-lo? Não sei, não sei como lidar com ele, não sei como aceitá-lo. Não sei como acreditar nele. Tudo o que sei é viver de Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. É tudo o que sou. É tudo o que sempre serei.

Ele abaixou os olhos e desistiu. Tirou o exército de palavras de campo e alçou a bandeira branca do silêncio.
O que haveria mais a ser dito?
Ao parecer, o par de olhos apaixonados nunca veria o outro par à sua frente olhá-lo com a mesma intensidade, com o mesmo amor.

— O buraco se foi. – ela disse de repente, fazendo-o alçar os olhos, completamente surpreso, pois acreditava que ela já tinha ido embora. – Não sei o que houve, não sei explicar. – ela sorriu de forma tímida enquanto encarava suas próprias mãos. – Você chegou e ele foi embora… O vazio. Você chegou e ele não está mais aqui.
— Fico feliz em ter ajudado. – ele bem que tentou reprimir o largo sorriso bobo que teimava em se abrir em seus lábios, mas foi impossível. Com certeza estava com o semblante mais estúpido do mundo grudado em sua face. Semblante este que refletia toda a sua excitação e alegria. Por que não é isso do que o amor é feito? Não é isso que o amor provoca? Palavras fugazes e encontros singulares que podem significar o mundo para quem ama? – Se houver mais buracos, se eles se abrirem outra vez, fazendo-a cair em todo o seu céu de escuridão e desespero… Sabe onde me encontrar.
— Você deveria sorrir mais. – ela tornou a encará-lo, agora com um brilho em sua íris. Um brilho que, por um momento, por um simples momento, ele pensou significar algo mais. – Eu sei que isso não tem nada a ver com o que estamos falando, mas achei necessário dizer. Porque gosto quando você o faz. As pessoas costumam preferir os olhos, dizem que são o espelho da alma, mas… Eu sempre vou preferir sorrisos.
— Sorrirei mais… – ele já o estava fazendo sem perceber. – Se assim desejar. Se você gosta, se você realmente se importa, o farei para deixá-la mais feliz. Mesmo quando quiser chorar.
— Ótimo, obrigada. – ela mordeu com força os pequenos lábios rosados e perguntou-se o que estava acontecendo.

Buracos… Buracos profundos, vazios, cheios de escuridão e desespero, onde estavam agora?
Procurou por eles em pouquíssimos segundos dentro de si, mas não os encontrou.
Eles não haviam desaparecido, sabia disso. Não haviam se fechado; de fato, não sabia se esse milagre poderia acontecer algum dia.
Mas agora, eles já não mais incomodavam.
Agora, ao invés de buracos, havia letras. Letras que navegavam junto à sua corrente sanguínea, fazendo com que esta esquentasse de repente. Letras embaralhadas, misturadas, que, pelo menos por agora, não faziam sentido algum.
Que palavra formariam essas letras? Ciência? Filosofia? Literatura? Arte?
Que palavra era tão poderosa que havia fechado tão rapidamente seus buracos, como se estes nunca houvessem existido?

— Café… – escutou a palavra escapulir dos lábios à sua frente, arrancando-a de seus pensamentos confusos. – Literário. – completou. – A duas quadras aqui, no espaço Ernest Hemingway. Sei que não gosta de café, mas misturado com livros… Acho que não terá problema nenhum. Você quer ir? – indagou, tremendo como uma folha empurrada pelo vento. Uma resposta negativa iria matá-lo.

Ah, se ela soubesse! Se soubesse o quanto era importante, o quanto apenas uma palavrinha saída daqueles lábios finos e perfeitos, poderiam fazer toda a diferença em sua medíocre e sem graça vida…

— Café Literário? Claro! – ela quase berrou devido à excitação. E estava tão animada e feliz que nem notou quando os dedos dele envolveram-se sutilmente ao redor de suas mãos, conduzindo-a para fora do parque. – Deus, como eu não fiquei sabendo? Acho que fiquei tão obcecada pelo especial sobre Nostradamus que está passando a semana inteira no History Channel que fiquei totalmente por fora das novidades literárias! Gosh, eu queria não ter de escolher entre Ciência, Filosofia, Literatura e Arte, mas sinto que o Nostradamus terá que viver sem mim hoje.
— E o que faremos em relação ao café? – sentiu seu corpo enrijecer após a pergunta, pois a ruiva entrelaçou seus dedos ao redor dos dele também, deixando todo o seu corpo completamente em êxtase com o toque.
— Bem… – ela torceu os lábios ao pensar na resposta que rapidamente encontrou. – Na companhia certa ele pode se tornar agradável. Você estará lá, não é?
— Sempre. – soprou as letras bem devagar, esperando que ela entendesse os inúmeros significados daquela palavra.

Ela era inocente demais e ingênua demais em assuntos amorosos para entender toda a sinceridade que poderia haver em um sempre, mas confiava que um dia iria descobrir.
Talvez a pequena ruivinha nerd apenas não tinha encontrado a pessoa certa. E… Oh! Ele rezava, ele clamava, implorava para todos os deuses que pudessem existir atrás do céu sobre suas cabeças, que pudesse ser ele. Que pudesse ser ele o escolhido, o certo, o único.
Pois foi o que sempre desejou desde a primeira vez em que seus olhos se cruzaram.

— Para Nostradamus não sentir muito a sua falta, conte-me sobre o que você aprendeu nesse especial.
— Você realmente quer saber? – ela parecia realmente chocada com a pergunta.
— Por que não iria?
— Não sei… – ela deu de ombros e deixou que um suspiro solitário atravessasse seus lábios. – Pessoas acham chato. Pessoas não querem saber de Nostradamus ou Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. É tudo sobre o que sei falar. E é tudo o que elas não querem ouvir. Talvez seja por isso que sou a eterna solitária: Sempre quero falar do que as pessoas não querem ouvir.
— Bem, estou aqui agora, não estou? – o aperto sutil que deu em sua mão a fez arrepiar-se de cima a baixo. E foi impossível não franzir o cenho ante essa sensação tão estranha, tão nova. – Estou aqui e quero escutar-te. Então, fale sobre Nostradamus! Fale sobre Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. Eu gosto de ouvir. Eu gosto de aprender. Principalmente quando vem de você.
— Eu acho que você pode se arrepender disso…
— Eu tenho certeza que não.

Após abaixar por alguns momentos o rosto e sentir que suas bochechas começavam a queimar, a pequena garota tomou coragem e desandou a falar sobre Nostradamus e tudo que pudesse envolvê-lo.
Ela adorava falar. E ele adorava escutá-la.
Porque no fim, pelo menos para eles, este casal estranho que adorava discutir sobre coisas que a maioria das pessoas normais detestava ouvir, tudo se resumisse mesmo à Ciência, Filosofia, Literatura e Arte.
Mas… Ah! Quem poderá negar? Quem poderá evitar?
A palavra de 4 letras cresce e cresce sem parar, a cada toque, a cada olhar.
Ela cresce, cresce, cresce e continua crescendo, sem que possam fazer nada para impedir.
Porque, mesmo que a ruivinha ainda não saiba, mesmo que negue, mesmo que não fale, ela precisa de cinco palavras para tapar buracos, cinco pilares sustentando-a, para poder passar por esta vida sentindo-se como um todo, não apenas a metade deste:
Ciência.
Filosofia.
Literatura.
Arte e…
Ah! De amor!
Sempre de amor.
Porque, no fim, é só do que todas as pessoas que passam por este planeta necessitam.
E ele sempre estaria ali para oferecê-lo a ela.

Sonho.

black hair

Uma multidão a encobria.
Não podia ver seu rosto.
Não podia chamar pelo seu nome, pois não sabia qual era.
Apenas sabia que era para mim.
O sangue pulsante correndo sob minhas veias…
Meu peito chamando pelo dela para se unirem em um só.
Ela estava perdida… E eu apenas queria encontrá-la.
A via ao longe, de costas, como se não soubesse para onde ir.
Em contrapartida, eu sabia que queria buscá-la, mas meus pés não se moviam.
Era como uma maldição… um feitiço que me deixava preso.
Ela estava tão longe…
Estiquei meu braço para tentar alcançá-la, mas a distância que havia entre nós era cruelmente enorme. Ela estava desamparada e eu queria abraçá-la.
Uma voz gritava em minha cabeça dizendo : “Ela é sua, vá buscá-la. Ela está perto… Aproveite!”
Mas era mentira.
Talvez ela estivesse perto, mas eu estava longe.
Ela estava sendo tocada por todos… Menos por quem deveria tocá-la.
Uma leve brisa roçou seus cabelos negros e em seguida veio em minha direção.
Ouvi um sussurro, talvez sua voz, ou talvez apenas a brisa gritando em meu ouvido: “Venha me buscar!”.
E eu iria… Mas estava preso.
Talvez não fosse para ser.
Talvez fosse apenas um grande desejo dentro de mim de estar com alguém, de me apaixonar, mas não era pra ser.
Não era pra ser, não era pra ser… mas talvez fosse.

Acordei num sobressalto.
Minha testa estava molhada, meu peito subia e descia devido a minha respiração acelerada.
O quarto escuro denunciava que eu estava em casa, no meu lar, onde sempre estive e onde sempre deveria estar.
A mulher não existia, foi apenas um sonho.
Ela era uma linda ilusão… E nada mais.

Sombras Ao Vento.

vento

Nós costumávamos ser tão radiantes e alegres
Como um arco-íris sob a luz do sol
Como lindas e intermináveis estrelas no céu noturno
Tão perfeitos e de qualquer pecado isentos
Mas agora somos apenas sombras ao vento

Gritando contra todas essas paredes
Eu me encontro aqui
No meio do turbilhão de todo este sentimento
Lembrando-me de quando acreditava que passaríamos a vida juntos
Como um só elemento
Mas agora somos apenas sombras ao vento

Nós estamos desvanecendo no tempo
Tão, mas tão cansados de tentar!
Nós estamos desvanecendo no tempo
Como simples sombras ao vento

Engolidos pela areia-movediça dos dias e das horas
Arrancamos de volta cada pedaço de nossas memórias
As mesmas mãos do destino que não fazem cair mais e mais
Também me fazem prometer que não entregarei meu coração nunca mais

E dessa vez…
Ah, dessa vez!
Dessa vez acabou.
E agora é para sempre.
Porque agora não passo de uma sombra negra ao vento
Desejando encontrar algo que me traga alento

Agora não somos nada além de dois navios sobre o mar
Tentando de tudo para não naufragar
O nosso lindo sonho se tornou um tormento
Nós nos tornamos apenas sombras ao vento.