O Amor Pertence Às Pessoas Bonitas.

O amor pertence às pessoas bonitas.
Isso foi o que aprendi.
Pertence àqueles que sabem olhar
Agradar, conquistar
Ou regalar um belo sorriso.

Todos nós gostamos de ver alguém bonito.
O amor também.
Ele olha uma pessoa bonita
E outra pessoa bonita
E as põem juntas.
Um corpo bonito
E outro corpo bonito
E no mundo do amor
Tudo é uma grande festa.

O amor pertence às pessoas bonitas.
Isso foi o que aprendi.
Mas o que acontece com os feios,
o que acontece?
Com os enrugados, com os marcados
no corpo
na alma
na cara
o que acontece com eles
o que acontece?
Não acontece nada.

Neste mundo de reflexos
o amor não nos escolhe
o amor nos esquece.
A nós nada pertence
talvez apenas a sorte
de amar o amor de outros.

O amor não pertence aos feios.
Isso foi o que aprendi…

 

Branca De Neve Na Floresta.

 

Estou entrando em uma floresta, uma floresta de pedra. Ouço o barulho dos saltos sobre o chão de mármore e em meu peito apenas o silêncio. Nenhum ar entra, nenhum ar sai. Estou entrando na floresta e não consigo pensar.
Olhos me miram, me esperam e aguardam. As palavras que mantive alinhadas por toda a noite agora são redemoinhos na cabeça. Estou entrando na floresta, os saltos batem e batem, não penso e a consequência é não saber o que dizer.
Olhos me miram, muitos olhos, por todos os lugares, por todas as partes. É um pesadelo ao vivo e a cores. Olhos bravos, semicerrados, olhos que me observam e esperam, olhos que me desesperam.
Não sei o que acontece, apenas acontece. Me coloco na frente, estico a coluna tudo está bem, eu digo, tudo está bem, está bem, não, não está nada bem.
Não sei o que acontece, apenas acontece.
Não sei… Não sei.
Quero gritar, mas não faço nenhum som. Quero fugir, mas minhas pernas tremem demais para que eu possa dar qualquer passo sem cair. Mãos invisíveis apertam meus ombros, os olhos me miram, meu Deus, será que estão percebendo?
Olhos me miram e não sei, não sei!
Estou aqui e agora? Estou aqui e, meu Deus, só quero sair!
Solto uma risada (sempre o riso dissimulado!) e sigo em frente. Tudo está bem, está, se não está, vai ficar. Solto as palavras presas, jogo o redemoinho para a plateia confusa. Eles que peguem as palavras, eles que as organizem em fila indiana, que façam algum sentido disso. Eu não sei mais o que faço, apenas faço. Já não sou gente, já não sei o que sou, talvez uma máquina emitindo um som arranhado, prestes a dar defeito (acho que já dei…). Apenas termino a tarefa com sorriso de miss e uma piada impertinente.
O barulho dos saltos sobre o chão e meu peito em chamas. Saio da floresta, mas o pavor não sai de mim. Me escondo no canto, a vida segue, os olhos desviam, uma outra pessoa entra na floresta e as palavras saem em fila indiana (me pergunto se ela também está em chamas).
A vida segue, mas eu não.
Eu parei aqui.

3 Poemas Do Livro “Retrato Do Artista Quando Coisa”, de Manoel De Barros.

 

6.

Aprendo com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É  um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quando as soberbas coisas ínfimas.

9.

Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de belezas for
Esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita de meu olho não
For mais escutado.
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
– Dormir, talvez chorar.

11.

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Extra:

Sabedoria pode ser que seja ser mais
estudado em gente do que em livros.

O Microfone.

 

Aconteceu no passado
Quando eu tinha cinco anos
No coral da minha igreja.

Um microfone na minha frente
E uma grande vontade de cantar.

Eu era pequena
Muito pequena
Então levantei
Me coloquei na ponta
Dos pés
Pus a boca sobre o microfone
E cantei.

Foi apenas uma frase
Uma pequena frase
Tão pequena quanto eu.
Foi apenas uma frase
Talvez não pequena o bastante
Para evitar os olhares ruins
De outras pessoas
Talvez não tão pequena
Pois a menina mais velha
Ao meu lado
Me pegou pelo braço
E disse:

Garota,
Você não deve se levantar
Você não deve falar
Sobre o microfone
Garota,
Você não deve levantar
Sua voz.

Como a boa menina
Que fui educada pra ser
Me calei e sentei.

Desde então
Eu não consigo levantar
Eu não consigo falar
Nada consigo pronunciar
Cada vez que chego perto
De um microfone.

(Não sou mesmo uma boa menina?)

3 Poemas De Mia Couto, Do Livro “Poemas Escolhidos”

Rede

 

Mia Couto é conhecido por fazer poesia em prosa em seus livros de ficção. Ganhador de grandes prêmios, inclusive o Prêmio Camões, o mais importante em língua portuguesa, o autor de “Terra Sonâmbula”, traz neste livro poemas selecionados, que sintetizam sua obra poética até o momento.
Aqui estão meus três poemas favoritos do livro:

Doença

O médico serenou Juca Poeira.
Que ele já não padecia da doença
Que ali o trouxera em tempos.

E o doutor disse o nome
Da falecida enfermidade:
“Arritimia paroxística supraventricular”

Juca escutou, em silêncio,
Com pesar de quem recebe condenação.

As mãos cruzadas no colo
Diziam da resignada aceitação.

Por fim, venceu o pudor
E pediu ao médico
Que lhe devolvesse a doença.

Que ele jamais tivera
Nada tão belo em toda a sua vida.

Sementes

Olhos,
vale tê-los,
se, de quando em quando,
somos cegos
e o que vemos
não é o que olhamos
mas o que o olhar semeia no mais denso escuro.

Vida
vale vivê-la
se, de quando em quando,
morremos
e o que vivemos
não é o que a vida nos dá
nem o que dela colhemos
mas o que semeamos em pleno deserto.

A espera

Aguardo-te
como o barro espera a mão.

Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.

O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.

O relógio tomba
E o ponteiro se crava
No centro do meu peito

Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.

 

 

Sigo (Aos Pouquinhos)

sigo

 

Aos pouquinhos vou indo.
Ainda é pesado, ainda dói
Mas sigo.
Sigo não sei de que jeito
Por que ou de que forma
Mas sigo.
Sigo porque talvez exista um lugar
Do outro lado do oceano
Talvez exista algo ou alguém
Me esperando.
Sigo porque já tentei morrer
e nem isso me fez feliz.
Sigo porque a saída é
Viver a vida
Agora.

Aos pouquinhos vou indo.
Devagar, bem devagar
Para algum lugar
Quem sabe
Para alguém…
Sigo.

Sejamos Todos Feministas – O Livro Que Toda Pessoa Deveria Ler

hibisco-roxo

“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.”

“Sejamos Todos Feministas”, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é um ensaio derivado de uma palestra que a escritora ofereceu em uma conferência Ted em dezembro de 2012. Chimamanda foi aplaudida de pé e a palestra fez tanto sucesso que a autora reescreveu alguns trechos e lançou uma nova versão em livro.
No ensaio, a autora aborda o tema da desigualdade de gêneros e nos mostra alguns exemplos que ela, amigas e conhecidas (com as quais todas as mulheres seguramente vão se identificar!) sofreram por causa do machismo que povoa quase todas as culturas desde o início dos tempos. Chimamanda também conta casos de amigos homens que, apesar de serem boas pessoas, também mantinham atitudes e pensamentos machistas e excludentes, devido a uma educação que ensina, tanto aos meninos quanto às meninas, que os homens devem escolher e mandar e as mulheres apenas obedecer. Esse tipo de educação não pode mais ser perpetuada nos dias de hoje.
“Precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente”, diz a autora em um dos trechos do livro. Não podemos querer que o conceito de uma sociedade mude se continuamos a educar as nossas crianças da mesma forma com que nossos pais nos criaram. Se ninguém diz a uma menina que ela não deve se sentir inferior por causa de seu gênero ou se ninguém explica a um menino que uma garota tem os mesmos direitos e poderes que ele, não podemos esperar que eles se tornem adultos bem resolvidos e realizados.
“Sejamos Todos Feministas” é uma introdução do que é realmente o pensamento feminista. É um livro que pode e deve ser livro por qualquer pessoa, de qualquer idade, quer você se sinta homem ou se sinta mulher, quer você seja quem seja. O livro possui apenas 63 páginas de linguagem fácil e clara, seus olhos não irão ficar cansados e seu cérebro irá agradecer por poder absorver grandiosas informações.
O livro é apenas um ensaio pequeno e por isso não entra em questões mais profundas, que devemos procurar futuramente para nos inteirarmos mais sobre o assunto. Mas é uma enriquecedora introdução, principalmente para aqueles que ainda possuem ideias tão tortas e desinformadas sobre o que é o feminismo.
O feminismo não é o contrário do machismo, não é pregar uma troca de papéis onde as mulheres devem mandar e controlar o mundo enquanto os homens apenas precisam obedecer. Feminismo é libertar-se da ideia de que somos um gênero mais fraco, menor e incapaz de fazer e realizar as mesmas coisas. É ouvir o outro lado, é se interessar e admirar as diferenças entre os sexos e respeitar-nos acima de tudo como iguais. Somos todos seres humanos e queremos um mundo melhor para nossos descendentes. Comecemos por dar o exemplo.
O livro físico não custa mais do que quinze reais e a cópia digital grátis pode ser encontrada na Amazon.
Leia o livro, absorva as palavras, reflita e então permita que este pequeno livro chegue às mãos do maior número de pessoas possível. Espalhar palavras e ideias que abram a cabeça das pessoas é nosso dever como individuo em uma sociedade. Se queremos mesmo um mundo melhor, façamos por onde.
Parafraseando Mário Quintana, livros são capazes de mudar pessoas e pessoas são capazes de mudar o mundo. Acredito que “Sejamos Todos Feministas” seja um destes livros.

Meus 7 Livros Preferidos De 2016!

livros

 

Li um pouco mais de 50 livros em 2016 e posso dizer que fiz ótimas leituras. Conheci autores novos, passei a amar mais ainda autores conhecidos e fui apresentada à novos conhecimentos e ideias que enriqueceram minha vida e mudaram minha maneira de pensar.
Escolhi sete livros que foram muito especiais para mim neste ano para ilustrar este penúltimo poste do Sonhos de Letras de 2016.
Eles são:

1) O Zen e a Arte da Escrita – Ray Bradbury

Neste livro o escritor americano apresenta ótimas dicas e hábitos a escritores iniciantes (aliás, foi por causa deste livro que comecei o projeto #52contos que, vergonhosamente, ainda não terminei, apesar de já ter passado o período de um ano… mas sigamos em frente, em 2017 eu termino!). Mais do que uma lista do que um jovem escritor deve ou não fazer, “O Zen E A Arte Da Escrita” é uma injeção de ânimo para os que estão a ponto de desistir de entrar para o mundo literário. Bradbury nos mostra que até os maiores escritores tem seus defeitos, que ninguém nasce sendo um ótimo escritor (bem, talvez Victor Hugo seja uma exceção, mas enfim…) e que só atingiremos excelência se praticarmos nosso ofício todos os dias e que, para isso, temos que enfrentar nossos piores rascunhos.
É livro indispensável a todos que querem realmente seguirem a profissão pelo amor à escrita.

2) Poemas Místicos – Rumi

Rumi foi um poeta sufista, nascido no século XIII na região que hoje é conhecida como o Afeganistão.
Fui atrás do livro pois já tinha lido alguns poemas de Rumi pela internet e porque também queria conhecer mais uma religião que sempre me pareceu fascinante.
“Poemas Místicos” acalmou minha mente, me apresentou novas maneiras de olhar a vida e meu semelhante, e me apresentou a uma religião que tem a arte como base fundamental para se chegar a Deus. Ao final deste livro eu só tinha um sorriso no rosto e uma paz inexplicável dentro de mim.
É um livro mágico, com certeza.

3) A Mulher Calada – Janet Malcolm

Em “A Mulher Calada”, Janet Malcolm faz muito mais do que uma das milhares de biografias da poetisa americana Sylvia Plath. Ela não só conta a vida de Sylvia e de seu casamento conturbado com Ted Hughes, como também escreve sobre o relacionamento que manteve com a família Hughes durante o processo de preparação para a biografia de Sylvia. Janet tem uma escrita envolvente, que faz o leitor pensar que está lendo um romance e não uma biografia. Ela nos deixa loucos para saber o final, por mais que todos que conhecem minimamente Sylvia Plath estejam cientes do final de sua triste história.
O que mais gostei neste livro foi o fato da autora nos apresentar um Ted Hughes e uma Sylvia Plath humanos. Sylvia e Ted trocavam papéis de vítima e algoz numa relação doentia para ambos, o que desmistifica a imagem que fazem de Sylvia como o pobre cordeiro comido pelo leão. No fim, uma relacionamento pertence apenas a duas pessoas e apenas elas sabem o que passou e como se sentiram. Não cabe ao mundo santificar Sylvia e demonizar Ted. Não cabe a nenhum de nós sentenciar outros por algo que apenas podemos imaginar.
Livro indicadíssimo a todos os juízes de plantão que pensam saber mais sobre a vida de terceiros do que eles mesmos.

4) Cartas A Um Jovem Poeta – Rainer Maria Rilke

Comecei esse livro pensando que era sobre dicas de escrita e poesia à um jovem poeta, como diz claramente o titulo do livro. As cartas de Rainer Maria Rilke são de fato o que o titulo propõe, mas vão muito, muito além disso! Posso seguramente dizer que este livro foi um dos responsáveis por mudar minha visão de mundo neste ano e que sou uma pessoa melhor porque o li.
“Cartas A Um Jovem Poeta” é um chamado para a vida, um abraço para jovens corações perdidos que ainda não sabem pra onde estão indo e uma força para que levantemos da cama e sigamos em frente, mesmo sem destino, mesmo ainda sem sonhos ou perspectivas.
Leitura mais do que necessária a todos os jovens que ainda não se encontraram no mundo.

5) O Caçador de Histórias – Eduardo Galeano

Eduardo Galeano sempre entrará para qualquer lista de livros favoritos de minha vida.
Em “O Caçador de Histórias”, livro lançado postumamente, Galeano nos mostra porque é mesmo um caçador de histórias. Ele possui um dom que raramente se encontra nos dias de hoje, que é simplesmente ouvir. Galeano conta em seus livros histórias de povos, lendas, mitos e sobre pessoas que não entraram para os livros de História, mas que tiveram uma vida admirável e inspiradora . Este último livro encerra o ciclo desta admirável pessoa que nos abriu portas a tantos conhecimentos e nos aproximou de culturas longínquas. Quando a última página é virada, encontramos o silêncio e o vazio que a ideia da falta de Galeano neste mundo nos provoca. Só nos resta buscar suas palavras em livros passados e ainda bem que existem muitos deles para serem lidos.
Destaque também para a introdução emocionante de Eric Nepomuceno, tradutor e amigo de longa data do escritor uruguaio.

6) O Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro

Quando encontrei este livro perdido na casa de minha avó, jamais imaginei que viria a se tornar um dos livros mais importantes de minha vida. O resgatei de uma bolsa que iria para doação porque queria algo para ler no ônibus e já nas primeiras páginas fui envolvida pelas palavras deste grande brasileiro que fez tanto por nosso país.
“O Povo Brasileiro” é indicadíssimo para todos aqueles que não gostam ou não morrem de amores pelo Brasil. Após uma pesquisa que durou mais de vinte anos, Darcy nos apresenta a visão do índio, do negro e dos povos que aqui se criaram após a colonização portuguesa, uma visão que com certeza você não viu na escola.  Misturando dados históricos com uma escrita apaixonada, o autor nos arrasta pela História do Brasil para fazer entender como chegamos até aqui, no meio de tanta riqueza para poucos e tanta pobreza para muitos. E apesar de todo o sofrimento e injustiça que sofremos desde que os portugueses aqui pisaram reclamando esta terra como sua, ainda conseguimos criar uma nação maravilhosa, apesar de bastante imperfeita.
Passei a enxergar nossa história e nossa gente com muito mais amor após este livro e se antes sonhava com uma vida em outro país, agora não sonho mais. Esta terra é muito especial e há muito trabalho ainda a ser feito por aqui. Sejamos todos Darcy Ribeiro e lutemos pela melhor parte de nosso Brasil.

7) A Condessa Cega e a Máquina de Escrever – Carey Wallace

Ainda não consigo superar este livro. Não sei quantos meses fazem desde que terminei de lê-lo e que fiz a resenha, mas a verdade é que ainda me pego pensando em Carolina e Turri e segurando minha vontade de reler tudo.
Uma condessa cega e um rapaz completamente inteligente e maluco, quem poderia imaginar? Numa época em que só se veem os mesmos tipos de histórias de amor sendo lançadas a um ritmo frenético e enjoativo, a história de Carey Wallace veio para mim como um suspiro. Sentia muita falta de ler uma história de amor que tivesse significado, que fosse bem tratada, e que não parecesse uma receita de bolo para chegar ao número 1 de qualquer lista de Best-Sellers.
É verdade, o final é um pouco decepcionante (dependendo de como você interpreta o livro!) e talvez Carolina e Turri merecessem algo melhor, mas se é o caminho que importa e não o final, então o livro é perfeito.
Talvez o meu livro preferido de 2016…

Desculpe, Mas Não Posso Sair Esta Noite.

perfe

 

Eu preciso lhe comunicar a minha ausência no dia de hoje. Estou certa de que sua festa será ótima e espero que todos se divirtam muito, mas eu não posso sair esta noite. E não é que eu tenha outro encontro ou outras coisas para fazer… Sendo sincera, eu tenho sim muitas coisas para fazer, todas as noites, todos os dias, a todo o tempo, é só que… não consigo.
Veja, eu pareço estar de pé, me movendo um pouco pra cá, andando um pouco pra lá, mas apenas pareço. A verdade é que na maioria das vezes, quando as cortinas estão fechadas e as portas trancadas, estou deitada e nem um osso em meu corpo se move. Tudo está tremendo. Meus pensamentos não param de correr por todos os lados e correm e correm e correm e correm e meu corpo não consegue acompanhar a corrida. Estou deitada, mas meu coração bate, bate, bate contra minhas costelas e vai minando aos poucos qualquer controle respiratório que eu tente fazer para manter tudo aqui dentro no lugar.
Poderia tentar me entender? Não?
Vejo seus olhos me julgando. Eu sei que você foi criado para a ação, para a criação, aliás, não fomos todos? E eu sei que você nunca sentiu seus órgãos tremendo, suas mãos chacoalhando e sua boca tão seca  a ponto de fazer-lhe pensar que você irá morrer de sede a qualquer momento e eu entendo que é difícil de entender por que isso acontece quando nada aconteceu de verdade. Está tudo na minha cabeça, aqui dentro, mas não consigo tirá-lo com minhas mãos fracas.
Como se sente ser normal? De verdade, diga-me, como se sente ser uma pessoa que sabe ser pessoa?
Me ensinaram muitas coisas na escola e no núcleo familiar, mas não me ensinaram a ser pessoa. Não me ensinaram a me divertir como todo mundo, a dançar como todo mundo, a paquerar, respirar, viver, essas coisas, essas coisas simples da vida. Eu não sei quando foi que algo começou a dar errado, mas deu. Simplesmente deu e agora… Agora não sei. Ninguém sabe, eu acho. Então eu sento aqui e espero até que alguém saiba, até que alguém me dê uma pílula milagrosa que vai conectar algo desconectado em meu cérebro e então serei vocês, então serei como todos. Mas até lá, meu Deus!, até lá eu não sei…
Não sei de nada e só “não sei” sei dizer. Desculpe, eu queria ter algo mais a dizer, algo mais a justificar, mas adivinha? Pois é, eu não sei…
Então desculpe o transtorno, desculpe a avalanche de confusão, desculpe privar-lhes de minha presença (ainda que eu sinceramente acredite que todos vocês estarão melhor sem mim, Deus sabe, eu estaria melhor sem mim…), desculpe estar falando assim tão em cima da hora, mas é que acreditei até o ultimo minuto, acreditei que dessa vez conseguiria, mas hoje ainda não dá pra mim. Desculpe, mas eu realmente não posso sair esta noite.
Preciso de mais tempo, ainda que não tenha certeza pra quê exatamente eu preciso.
Fica pra próxima, quem sabe não estarei bem até lá? Quem sabe então não aprenderei a ser alguém, a ser pessoa e tudo aqui escrito vai ficar para trás como um texto de ficção de um personagem de alguém?
Quem sabe, não é?
Eu não sei.
Mas espero um dia saber.

5 Conselhos de Rainer Maria Rilke Para Jovens Escritores

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“Cartas A Um Jovem Poeta” é um livro muito amado entre grandes escritores. Em sua carta ao  então jovem poeta alemão Franz Xaver Kappus, Rainer Maria Rilke oferece não apenas conselhos preciosos para quem quer se tornar poeta ou escritor, mas também conselhos para a vida, que ajuda a acalmar um coração jovem, inseguro e desesperado por respostas prontas à duvidas angustiantes.
Nosso grande poeta Manuel Bandeira, em entrevista a Homero Senna no livro “República das Letras”, disse que costumava recomendar o livro de Maria Rilke aos jovens poetas que iam até ele em busca de uma opinião experiente sobre sua própria poesia.
Após a leitura do livro compreendi porque esta pequena obra é sempre tão citada como essencial no meio literário. Vale a pena cada linha, seja você um aspirante das letras ou não.
Aqui estão meus cinco trechos favoritos:

1. “Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa sua vida de acordo com essa necessidade.”

2. “Relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza – relate tudo isto com intima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre na infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela.”

3. “Leia o menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias petrificadas e tornadas sem sentido em sua rigidez morta, ou hábeis jogos de palavras inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra.”

4. “Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranqüila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade. Aprendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo.”

5. Não busque por enquanto respostas que não podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta.

E um conselho extra, que serve não só para escritores, como para qualquer ser humano:

“Como esquecer os mitos antigos que se encontram no começo de cada povo: os dos dragões que num momento supremo se transformam em princesas? Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo o horror, em ultima análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio.”