1969.

69

Uma imagem.
Uma imagem de um homem em uma colina.
Clima fresco e sol ao céu.
Ele olha para cima.
Seus olhos são azuis.
Calmos.
Serenos.
Como o mar em uma tarde de outono.
Uma lágrima cai de seus olhos.
Uma outra gota escapou de seu mar.
Ele lembra dela.
Quem é ela?
Alguém do passado.
Claro!
Pois é sempre o passado que nos faz chorar.
Quem é ela?
Alguém ausente em seu presente.
Por quê?
Não era para ser.
Mas por que não era para ser?
Por que não foi?
Não sei.
Apenas não era para ser.
Será?

Mudança de cenário.
Mudança de imagem.
1969.
Os sinos da igreja tocam.
Um casamento.
Um casal saindo da igreja.
Chuva de arroz.
Felicitações.
Lamento.
Dele.
Apenas dele.
Uma mulher loira com batom vermelho sobre os lábios.
E ele na platéia.
Um par de olhos azuis a observava de longe.
Azuis como o mar.
Como o mar tempestuoso.
Lívidos.
Raivosos.
Um par de olhos azuis e uma mulher com batom vermelho.
Por que ele foi?
Queria vê-la pela última vez.
Mas a que preço?
Vê-la amarrada a outro para sempre em nome de Deus?
Para ele valia.
Naquela hora.
Naquele momento.
Pois tinha fé.
Tinha esperanças.
Tinha sonhos.
Valia, claro que valia!
Por ela sempre valeria!
Por um amor verdadeiro sempre vale.
No último momento ela renunciaria.
No último momento ela desistiria.
Ele sabia.
Ele sabia que, no último momento, ela não casaria.
Bastava olhar.
Era só soltar a mão daquele que jamais poderia amá-la de verdade e olhar.
Apenas um aceno com a cabeça e um olhar para que ele pudesse abrir caminho pela multidão, pegá-la pelo braço e partir.
Para longe.
Para sempre.
Ela fugiria.
Ele sabia.
Mas não sabia de verdade.
Se enganou.
Ela não olhou.
E dentro de um carro preto com seu novo marido entrou.

O que aconteceu depois?
Ele não lembrava.
O que aconteceu antes?
Ele não lembrava.
Ele não lembrava de mais nada.
Nada.
Todas as memórias reduziram-se a uma só.
Reduziram-se a um momento só.
A um momento em 1969.
O ano que se perdeu.
A mulher da sua vida saindo da igreja amarrada a outro em nome de Deus.
Para sempre.

Retorno de cenário.
Retorno da imagem.
Um homem em uma colina.
Cabelos grisalhos.
Clima fresco e sol ao céu.
Olhos azuis.
Azuis da cor do mar.
Ele olha para baixo.
Suspira.
Memórias.
Era apenas o que teria.
Memórias de 1969.
O ano que levou embora toda a sua alegria.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
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