#26 – Catarina E A Noite

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Catarina se esconde da noite.
Quando o sol se põe atrás do morro de sua humilde casa, ela corre pelos corredores acendendo todos os interruptores que encontra pela frente.
“É para evitar que o dia acabe”, diz Catarina com os olhos arregalados.
Catarina tem vinte anos de idade e muita memória na cabeça. Suas irmãs já não sabem o que fazer, os vizinhos olham desconfiados quando passam por ela, julgam-lhe anormal. Catarina não tem nada de anormal, assim como não tem nada de pais ou de amigos. Tem apenas um ursinho de pelúcia que carrega sempre consigo.
Janaína e Mara, as irmãs, já tentaram arranjar-lhe um marido, mas que homem quer disputar a atenção com um bichinho de pelúcia? Quer pessoa quer cuidar de alguém que ficou parada no tempo?
Ah, o tempo! Vamos falar sobre o tempo!
Vamos falar sobre aquela data, sobre aquela noite, quinze anos atrás.
“Vamos, vamos falar”, diz Catarina, mas ninguém quer ouvir. Melhor é ignorar, deixar que o silêncio leve as pegadas das palavras que ainda restam ser ditas.
Catarina fala sobre a sombra em seu quarto, sobre o medo chegando, sobre a dor, muita, muita, muita dor! Janaína sai da sala, Mara sacode a menina esperando que suas memórias chacoalhem tanto até virar areia. Areia que pode ser varrida para fora de casa e se perder com o sopro do vento.
Ninguém aguenta mais Catarina e suas memórias.
Ninguém aguenta mais Catarina… Nem Catarina!

Catarina se esconde da noite.
Luzes, lanternas, abajures, tudo está aceso, só para prevenir. Mas… e se não der pra prevenir? E se não der para evitar como não evitou quinze anos atrás?
Catarina mantém os olhos abertos.
Pode acabar a luz, pode ficar escuro, pode sim, tudo pode acontecer, a qualquer momento tudo pode acontecer!
A menina mantém os olhos abertos, põe o seu ursinho de pelúcia como sentinela e espera…. espera… espera…
Faltam 8 horas para o sol nascer, por volta de 5:15 da manhã, já até sabe a hora certinha, Catarina sempre sabe… Catarina sempre sabe, sempre soube, mas finge não saber. É sempre mais fácil, mais suportável não saber…
Faltam 8 horas, falta muito, ah, como falta!
Mas ela iria esperar, como todos os dias, iria esperar, de olhos abertos e luzes acesas.
Uma hora o sol vai nascer, pode demorar, mas uma hora ele aparece lá de trás do morro. Uma hora a luz toca a janela de seu quarto, marca suas pegadas pelo chão e abraça Catarina com uma segurança materna.
Catarina ainda vive, só vive, porque o sol uma hora aparece…
E a boa notícia, ah, Catarina!
A boa notícia é que ele sempre aparece…

#25 – Um Tal Futebol

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Ninguém avisou a Michel que tanta dor poderia caber em um pequeno corpo. Tinha apenas dez anos de idade, mas já pensava saber tudo o que precisava sobre frustrações e sofrimentos. Se existisse algo além do que ele sentiu naquela noite, depois daquele momento, ele realmente não queria saber.
Tudo começou quando seu pai lhe entregou aquela caixa grande e azul, no dia do seu sexto aniversário. Michel já tinha ouvido falar num tal de futebol, algo bem ao longe, nas conversas de família em datas comemorativas, mas nunca havia se importado muito, sequer tinha visto um jogo inteiro na vida. Mas aí veio seu pai e caixa grande e bonita, que fez seus olhinhos brilharem mesmo sem saber o que havia ali dentro. Michel rasgou o embrulho com sua ansiedade de criança e, quando abriu a caixa, ali estava: um uniforme de time de futebol, um time de sua cidade, Barcelona, que tinha como principal jogador um craque argentino com um sobrenome engraçado. Michel enrugou o nariz , mas preferiu não discutir. Fazia um ano que não morava mais com seu pai e só o via aos fins de semana. Sentia muita falta de sua companhia diária, de vê-lo chegar do trabalho e ir correndo abraçá-lo. Então quando seu pai lhe deu aquele uniforme azul e grená, Michel preferiu fingir que havia adorado, pois temia que ele desaparecesse para sempre caso dissesse que não havia gostado do presente.
Então Michel colocou o uniforme e deixou-se entrar naquela vida. Começou bem de mansinho, vendo uns vídeos na internet sobre o tal craque que o seu pai mostrava com grande animação. Deixou que o pai o matriculasse numa escolinha de futebol e lá descobriu que havia jeito para a coisa. Segundo o técnico, ele tinha um talento inato, se o garoto investisse no ramo, poderia dar um grande jogador no futuro. Michel, que nunca havia sido bom em nada, principalmente na escola, começou a aceitar a ideia. Para aprender mais, começou a freqüentar o Camp Nou com o pai e passou a ver outros jogos, campeonatos de outros países, na TV. Nem sabia dizer em que momento havia começado, qual foi o ponto chave em que seu coração foi completamente amarrado por aquele esporte que até outro dia não significava nada em sua vida. Foi assim mesmo, de repente, um dia era apenas um garoto normal e no outro já estava pulando no sofá – para o desespero de sua mãe.
Os anos se passaram e Michel foi evoluindo como torcedor e jogador. Não falava de outra coisa na escola e nas aulas chatas desenhava na última folha do caderno a camisa 10 de Lionel Messi. Se algum coleguinha fosse comemorar o aniversário no dia e na hora de um jogo, seja de grande importância ou apenas um amistoso, ele já tinha a resposta na ponta da língua: “Não posso, vou ao jogo do Barcelona.”
Tudo era alegria na vida de Michel até que aquele dia chegou.
Barcelona não era um time de derrotas e, se dependesse de Michel, nunca seria. Mas nenhum time depende de seu torcedor, muito pelo contrário! Jogadores vem e vão, diretores existem e então não mais, mas os torcedores sempre são os mesmos. Se times dependessem do amor de seus torcedores, nenhum deles jamais conheceria a derrota.
Era semi-final de Liga dos Campeões e seria sua primeira vez em um estádio de Madri. Seu pai havia juntado o dinheiro para que os dois pudessem viver aquele momento juntos, para que pudessem ver seu time mais uma vez na final do torneio de clubes mais importante do mundo.  Michel ia perder o aniversário da mãe, mas ela o perdoaria, no fim, mães sempre perdoam. Mas Michel não podia deixar de estar naquele jogo, naquele momento, vendo o seu maior ídolo de perto e o time do coração.
O Barcelona ia ganhar, tinha certeza. Era o melhor time do mundo, com o melhor jogador do mundo. Não tinha como dar errado! Michel já se via no estádio da final, faria seu pai comprar os ingressos e as passagens, pois eles precisavam estar lá! Seria uma ótima oportunidade para passar ainda mais tempo com seu pai, de quem sentia tanta, tanta falta!
O jogo começou e Michel já sabia o desfecho.
Mas não sabia de verdade.
O cenário que se desenhou à sua frente não passou pela sua cabeça nem nos seus piores pesadelos. O craque argentino sumiu em campo, ninguém viu ou ouviu, algo raro de se acontecer, mas aconteceu. A defesa, sempre sólida e colecionando minutos sem levar um gol, levou dois. De cabeça. Raro de acontecer, mas aconteceu. O Barcelona foi eliminado e viu o segundo maior time de Madrid pegar a sua vaga na final. Raro de acontecer, mas aconteceu.
Seu pai lhe abraçou e lhe dedicou palavras de consolo, mas Michel não conseguia ouvir. Era como se um chão tivesse aberto sob seus pés e ele estava caindo lentamente em um buraco sem fundo. Ninguém o avisou que entrar nessa coisa louca chamada futebol lhe traria mais tristezas do que alegria. Se tivessem avisado, ele nem teria começado.
Foi para casa em silêncio, derramando algumas lágrimas de tristeza pelo sonho partido. “Tem sempre a próxima partida”, disse seu pai, tentando animá-lo. “A primeira vez é assim mesmo, parece o fim do mundo, parece injusto e é! Caramba, a gente tinha o melhor time! Mas vai passar, filho, prometo que vai passar e logo você estará gritando pelo Barça outra vez!”
“Não vai passar não!”, respondeu o menino emburrado.
Ninguém mais quis discutir o assunto.
Ao chegar em casa, Michel correu para seu quarto e fechou a porta. Aos prantos, guardou seu tão adorado uniforme dentro de uma sacola e prometeu que daria para outra pessoa. Não queria mais saber de futebol, de Barcelona, de Messi, de nada! Queria era voltar para sua vida antiga, sua vida antes de conhecer o futebol, antes de saber como era prazeroso correr atrás de uma bola e marcar um gol. Antes de saber o que era sentir a atmosfera de entrar num estádio, com toda a torcida berrando juras de amor e paixão. Antes de conhecer a glórias de mil vitórias e o peso de uma decisiva derrota. Seus amiguinhos que não gostavam de futebol não precisavam passar por isso e Michel queria ser um deles. A partir de amanhã não veria mais um jogo e nem pegaria no jornal para ver qualquer resultado. Queria distância, queria se afastar desse mundo completamente e nunca mais ver um jogador de futebol na sua frente. Iria se afastar para sempre do futebol e nada, mas nada mesmo o faria voltar atrás!
No dia seguinte, o pai de Michel ligou para saber como ele estava e lhe disse que tinha duas entradas para o próximo jogo do Barça pelo Campeonato Espanhol. Perguntou se o menino não queria se juntar a ele nessa nossa aventura junto ao time do coração e esquecer um pouco da tristeza do dia anterior.
Em dores de futebol, nenhum remédio é mais eficaz do que aquele famoso um dia após o outro.
Com um sorriso no rosto e os olhos esperançosos, Michel nem precisou pensar duas vezes: disse sim.

#24 – A História De Martha

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Grades de ferro matavam a liberdade de Martha.
Estava presa há tanto tempo que nem se lembrava como havia parado ali pela primeira vez. Talvez estivesse presa desde criança, não sabia ao certo. Não tinha memória e nem história, era apenas Martha, a mulher presa atrás das grades.
A prisão de Martha não era uma prisão qualquer. Todas as paredes eram grades e, desta forma, Martha podia ver tudo o que acontecia ao seu redor. Ela via o céu, os campos verdes, os animais e as pessoas que por ali passavam. Martha via as pessoas, mas as pessoas não viam Martha. Ela e sua prisão eram como as árvores do local: já faziam parte da paisagem. Gritava por ajuda, para que alguém viesse abrir a porta de sua prisão, mas ninguém escutava. E Martha chorava, chorava e chorava pela sua má sorte, pelo destino que alguém em algum lugar havia reservado para si.
Martha não tinha sobrenome, nem parente, Martha era um acidente da vida, alguém que havia surgido naquele lugar e que ali deveria ficar. Ela tentou aceitar este fato, tentou se convencer de que talvez havia nascido mesmo para ser árvore, e que seu papel no mundo era apenas existir até que alguém a enxergasse e viesse abrir sua porta. Ela tentou bastante, mas a vontade de ser mais do que árvore era latente demais e impossível de ser ignorada. Martha gritava, chorava e esperneava para que algum chave caísse do céu ou que algum vendaval viesse para arrancar as grades do chão e libertá-la desta existência inerte. Mas só a chuva caía do céu para Martha e o máximo que a força do vento naquele local conseguia era despentear seus cabelos escuros.
Então, se rendeu. Desistiu de lutar e de se jogar contra as grades. Deixou seu corpo escorregar pela porta de sua prisão e, sem querer, seu cotovelo esbarrou na maçaneta da porta e esta, de repente e sem qualquer maior esforço, se abriu. Martha caiu de costas sobre a grama e pela primeira vez na vida viu o sol sob outro ângulo. Levantou-se rapidamente, tirou a terra do corpo e checou com assombro que a porta nunca havia estado trancada.  Não era preciso nenhuma chave mágica ou um monstruoso vendaval. No fim das contas, o segredo para sua liberdade não era nada mais do que girar a maçaneta.
Martha saiu correndo em direção ao mundo que estava à sua frente. Não sabia para onde ia, mas estava indo. Não era mais a Martha entre grades, a prisioneira de seu destino ou a desafortunada pela vida. Era Martha livre, era Martha liberdade.
Sua história começa agora.

#23 – Dona Adélia

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Dona Adélia tinha 65 anos e morava num modesto prédio na rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Até onde se sabia era sozinha, pois por ali nunca se havia visto parentes ou amigos. As únicas pessoas que iam até o lar de Dona Adélia eram os entregadores de comida, que entravam com uma cara e saíam com outra.
Dona Adélia tentou ter um gato, mas ele desapareceu no segundo dia. Tentou ter um sabiá, mas o danadinho arranjou um jeito de fugir da gaiola em menos de uma semana e nunca mais voltou.
Outra coisa que se conhecia sobre Dona Adélia era sua antipatia feroz. Ela não só não  cumprimentava os outros moradores quando se cruzavam pelo corredor do prédio, como também parecia odiar que lhe dirigisse qualquer cumprimento. Fazia questão de olhar na cara das pessoas e enrugar o nariz, como se todos à sua volta fedessem. Era o terror nas reuniões de condomínio, pois, apesar da ótima administração do prédio, onde o síndico resolvia tudo o mais rápido possível, Dona Adélia reclamava e como reclamava! Reclamava que as cartas não eram colocadas corretamente em seu escaninho, reclamava dos latidos dos cachorros, dos choros dos bebês, do produto – que só ela achava – fedorento com o qual as meninas da limpeza desinfetavam os corredores e uma vez até arranjou um caso porque – pasmem só! – a senhora Adriana do 307 desceu no elevador amamentando sua menina de 3 meses.
A cada fim de ano Dona Adélia só colocava 10 centavos na caixinha de Natal dos funcionários do prédio porque, como disse para seu vizinho de uma porta uma vez, não gostava de fomentar a preguiça entre os subordinados. “Pois esse povo é assim”, dizia ela sem notar a cara de enfado do vizinho, “você dá um dinheirinho a mais e daqui a pouco tão pensando que estão acima de você!”
Ninguém tinha a menor paciência com Dona Adélia, nem mesmo as crianças mais carinhosas. Mas a maior vítima de seus ataques histéricos era Orlandinho, o porteiro negro que frequentemente ouvia reclamações e comentários maldosos em relação à sua cor de pele. Dona Adélia já havia recebido duas cartas de notificação por seu comportamento racista para com o porteiro, que era adorado por todos os moradores do prédio, mas ela nunca perdia a oportunidade de abrir a boca para falar mais besteiras cada vez que passava pela portaria.
Até que aconteceu um caso curioso, que Dona Adélia nunca conseguiu desvendar, por mais que pensasse sobre isso no futuro.
Estava saindo, como de costume, numa manhã de domingo – pois era uma pessoa de bem que nunca faltava à missa aos domingos – e acabou ficando presa no elevador entre o terceiro e o segundo andar. A velha senhora apertou o alarme, mas ninguém veio. Bateu com força na porta e berrou pedindo ajuda, mas ninguém respondeu. Tentou ligar para o síndico, mas o celular estava fora de área. Esperou por alguns minutos ouvir qualquer voz, mas não havia nada. Parecia não existir nenhuma alma viva naquele dia para vir ao socorro de Dona Adélia, que precisou sentar no chão para que suas pernas parassem de doer de tanto esperar.
Ficou quase uma hora presa até que o porteiro finalmente veio ao seu socorro e conseguiu abrir a porta. Esbravejando para todos os lados, Dona Adélia perguntou ao rapaz como era possível que, num prédio com mais de 100 moradores e em um domingo de manhã, onde a maioria das pessoas estava em casa, ninguém tivesse ouvido seus gritos por socorro.
Segurando o riso, Orlandinho apenas deu de ombros e disse que não tinha a menor ideia.

#22 – O Milagre

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Luane não acreditava em milagres, mas vivia pedindo uma vida a Deus.
Não que estivesse morta ou perto de bater as botas – muito pelo contrário, estava gozando de uma ótima saúde! – mas Luane sentia falta de sentir uma vida dentro de sua vida.
Era assim desde criança ou talvez até antes. Acreditava ter vindo ao mundo com um defeito de nascença. Não tinha apreço por muitas coisas ou não conseguia sentir algo pulsando dentro dela. Enquanto seus coleguinhas de escola se comparavam a bichos, personalidades ou jogadores de futebol, Luane se via como um recipiente vazio. Os professores não lhe davam muita atenção, seus pais – olha só! – até esqueciam de que tinha uma filha em casa, e amigos circulavam pelo seu quarto através dos anos, mas nunca nenhum deles parou por muito tempo ali. Luane não sabia como ser pessoa e, mesmo já tendo completado duas décadas de vida, ainda não aprendera a sê-lo.
Então pedia, mesmo que não acreditasse, mesmo que Deus fosse tão real para ela como uma Fênix dos livros mitológicos, ela pedia. “Só quero ver vida”, repetia todas as noites, exaustivamente, numa prece que durava menos do que dez segundos. Mas os dias passavam, os meses se arrastavam e nenhuma vida parecia acordar dentro dela.
Luane continuou seguindo em frente com sua vida sem vida, arranjou um emprego, fez mais alguns amigos que sabia que não ia durar, ligou para familiares nas datas comemorativas e continuou a ignorar o vazio dentro de si enquanto esperava o seu pequeno milagre.
“Milagres demoram a acontecer”, disse-lhe um amigo bastante religioso um dia, e era verdade, Luane não acreditava em muitas coisas, mas acreditava nisso. Se fosse fácil, se fosse só pedir um potinho de tesouro e – paft! – ele aparecesse na sua frente e resolvesse todos os seus problemas até que você conseguisse o seu final feliz antes dos 30, pra que habitar este mundo, não é mesmo?
Foi de súbito, assim de repente, enquanto lavava a louça, que Luane se deu conta de que talvez aqueles que viviam uma vida sem vida eram os que tinham um potinho de ouro nas mãos quando e onde desejassem. Esse pensamento, essa nova forma de olhar para o mundo começou a arrancar-lhe sorrisos e Luane até arriscou-se a fazer algumas piadas para os seus novos amigos. Luane resolveu largar essa ideia de milagres pra cá e vida pra lá e decidiu viver pela busca. Busca de quê, de quem, de que lugar, isso não importava. Mas deu-se conta de que existir era movimentar-se e enquanto não parasse de buscar, de uma maneira ou de outra, ela ficaria bem.
E foi numa manhã de abril que Luane  encontrou o milagre que tanto desejara! Passou tanto tempo imersa em si mesma que só naquele dia foi reparar num ninho de sabiá feito no vão embaixo do parapeito de sua janela. Ela chegou bem na hora do nascimento, quando pequenas cabecinhas quebravam a casca do ovo e gritavam ao ver o mundo pela primeira vez.
Com lágrimas nos olhos, Luane correu para pegar sua câmera fotográfica para registrar aquele momento. Tirou várias fotos, de diversos ângulos e ia guardá-las num lugar especial para lembrá-la no futuro, quando as coisas ficassem difíceis e o vazio se tornasse insuportável, que preces de dez segundos também são atendidas e pequenos milagres sempre acontecem à nossa volta.

#21 – Laila E A Primavera

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É dito que a primavera vem vindo e Laila sai correndo pela grama.
Pequena moça de cabelos cacheados, loiros, até a cintura, Laila sorri para o vento fresco com seu vestido branco, tão branco quanto lírios que tanto idolatra!
É dito que a primavera vem vindo e Laila acredita. Não tem noção de muita coisa, mas sabe quando o vento toca a sua pele de forma diferente, quando o ar gélido já não lhe oprime os pulmões e quando a esperança torna a brilhar em seus olhos castanhos.
“É primavera!” – grita a menina com a voz jovem de seus dezoito anos de idade. “É primavera, olhem! A felicidade está voltando!”
Laila é seguida por suas cuidadoras, por moças dez anos mais velhas que ela e que sempre estão ao seu lado. Até hoje não sabe, não entende porque estão ali, porque cismam em lhe seguir, mas não importa, não importa nem um pouco! “É primavera!”, segue berrando, enquanto rodopia com as borboletas multicoloridas ao seu redor.
É dito que a primavera vem vindo e que ele está voltando! Laila senta-se sobre a grama, descansa de seus rodopios e olha o delicado relógio em seu pulso. Falta muito para o meio dia e ela nem sabe ao certo porque está esperando o meio dia! Ele não disse hora, não precisou muita coisa, só fez promessas, disse que pediria sua mão ao seu pai, como toda dama merecia, e Laila acreditava que ali ele estaria, depois do meio dia. É verdade, ele viria, com seu terno marrom, o cabelo engomado, aquele porte de lorde inglês, coluna ereta e voz grave. Laila também nuca havia visto um lorde inglês, raramente saía de casa depois de seus quinze anos completos, mas imaginava que ele parecesse um.
É dito que a primavera vem vindo e Laila gargalha de felicidade junto ao canto dos pássaros que vieram cantar com a menina uma canção de alegria e amor! Primavera significa muitas coisas, significa botões dando flor, o fim de um inverno gelado e sombrio, o renascimento do sol por detrás da colina e o regresso dele, o pedido de casamento e seu final feliz! É primavera, finalmente primavera, e como Laila amava a estação dos frutos, a estação das flores!
É dito que a primavera vem vindo e ali estava ele, finalmente! “Olhem, olhem, ele voltou!” – berrava a menina aos saltos, apontando para detrás dos portões de ferro que protegiam o terreno da enorme propriedade de seu pai. “Ali está, ali vem ele, meu amor, meu amor voltou!”. Não era ainda meio dia, pensou Laila, nem sabia que horas eram, não tinha noção de muita coisa, nunca teve e isso nunca importou. Só importava seu amado e seu amor; o resto do mundo ao resto deveria ficar.
A felicidade fez flores brotarem em seu peito, flores brancas, lírios, os mais belos lírios que os olhos de Laila haviam visto!
É dito que a primavera vem vindo e ela veio, ela chegou! “Vamos, abram os portões! Abram os portões, ele chegou! Ele chegou!”
A menina continuava a rir com os pássaros, a rodopiar com as borboletas e a colher lírios de seu peito. Ele lhe sorria por detrás do portão e acenava, ele estava ali e era chegado o momento! Ele pediria a sua mão e Laila, pequena Laila teria seu tão esperado final feliz!

É dito que a primavera vem vindo mas ela não chega, ela nunca chega para o mundo fora de Laila.
Suas cuidadoras se entreolham, tristes, esperando que sua euforia acabe, que um dia tudo isso acabe, em algum momento dos anos, em algum espaço do tempo, como que por um milagre.
Suas cuidadoras esperam, como sempre esperam, os lírios destroçados caírem do peito de Laila para então se levantarem, colherem suas pétalas e regressar com a menina à casa, num ciclo que não termina e não tem previsão de terminar.
Laila sorri, canta e rodopia para o vento, apenas para o vento, que passa e passa invisível do outro lado do portão.

Ideia De Nobel.

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“Foi um sonho bem real”, pensou Joaquim Ferreira. Foi muito real, tão real que ainda podia senti-lo em sua pele, mesmo horas depois de acordado. Sonhou que estava lá em Estocolmo, recebendo o Nobel de Literatura, sendo aclamado pelos maiores pensadores e intelectuais do mundo.
Joaquim não tinha nenhum livro publicado, aliás, Joaquim não tinha nenhum livro escrito. Todo o seu acervo literário era resumido em um caderno de poemas que levava consigo desde os quinze anos de idade e ainda não completara. Rabiscos, frases e pensamentos que algum dia, quem sabe, se transformariam em livro.
Mas ele sonhou com o Nobel, não, ele viveu esse momento em alguma realidade paralela onde era possível ver o futuro e teve a certeza de que esse sonho se tornaria matéria em algum ponto de seu caminho. Joaquim foi para o seu trabalho pensando em como aquela vida medíocre que leva há anos iria acabar assim que publicasse seu primeiro livro, o que com certeza lhe abriria portas e lhe permitira ter uma carreira literária de respeito, que o levaria até o seu final feliz, o final feliz de seu sonho.
Contudo, havia aquele pequeno problema chamado ideia. Joaquim tinha muitas coisas na cabeça, mas não tinha uma história boa. Quer dizer, até tinha algumas histórias boas, um “garoto encontra garota” com final surpreendente, uma cena de assassinato que poderia muito bem virar um romance policial, uma história sobre doença e superação, essas coisas, essas coisas até legais, mas não dignas de um Nobel. Teria de pensar mais, muito mais para fazer um ótimo livro de estreia, um que o colocasse como principal nome do cenário intelectual brasileiro, isso só para começar.
Enquanto a musa inspiradora não vinha bater à sua porta, Joaquim contou para todos os amigos e familiares sobre seu sonho, sobre como tudo iria ser realidade no futuro e então poderia ser rico, famoso e sustentar todo mundo. É claro que Joaquim percebeu os olhares trocados e teve de ignorar alguns deboches e ironias sobre o que havia acabado de contar, mas a certeza de que um dia iria provar a todos que estava certo o fez engolir o orgulho e seguir em frente.
Os anos se passaram e Joaquim ainda esperava pela ideia. Gastou todo um caderno só para anotar as sinopses de suas possíveis ideias, mas não conseguia desenvolver nada, era tudo fraco, já inventado, o cúmulo do clichê, não valiam a pena. Não eram uma ideia de Nobel ainda, mas uma hora tinha que aparecer, uma hora iria chegar. E enquanto não chegava, Joaquim seguia sua vida em seu trabalho burocrático, infeliz e triste, e fazendo-se surdo às ironias dos amigos quanto ao seu maior e ainda não realizado sonho.
Chegou à meia idade e com um total de 5 cadernos de ideias completas. Nenhuma delas digna de um Nobel. Nenhuma delas valia ser escrita. Mas um dia iria chegar, um dia iria acontecer, já estava com idade avançada, era verdade, mas seria o primeiro escritor a ganhar o Nobel com apenas um par de livros escritos. Livros ainda não tinha nenhum, mas esperanças, ah! Esperanças tinha de sobra! Só ele sabia o que tinha visto, o que tinha sentido, era um aviso dos anjos, ele sabia, aconteceria em algum lugar do futuro.
Joaquim Ferreira morreu aos 72 anos, cheio de cadernos e nenhum livro escrito.
Em seu enterro, um de seus amigos comentou: “Esse aí, uma figura! Preocupou-se tanto com esse tal de Nobel que esqueceu-se de apenas escrever um bom livro.”

#19 – Um Dia Normal

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Era para ser um dia especial. Na vida da maioria das pessoas este era um dia especial. Mas Victor Albuquerque não era como a maioria das pessoas. Ele não se importava, ou apenas dizia que não se importava, com essa data irrelevante.
Agiu como se fosse um dia como outro qualquer. Acordou, comeu, se vestiu, enfrentou o terrível trânsito da cidade do Rio de Janeiro, chegou ao trabalho, cumprimentou seus colegas e foi dar mais uma aula de Literatura Portuguesa, como fazia já há 15 anos. A aula foi interessante, discutiram Camões, combinaram de organizar um passeio à Biblioteca Nacional, falaram sobre poesia e sua importância para o desenvolvimento de novas idéias e Victor também observou que duas alunas suas tinham um grande talento para críticas literárias. Nada o deixava mais feliz do que ver jovens realmente interessados e com grande aptidão para o mundo da Literatura.
Na sala dos professores, tomou o seu café, comentou com a professora de Didática sobre como estava cada vez mais difícil morar no Rio de Janeiro com tanta desordem e engarrafamentos diários, não valia a pena, ele dizia exaltado, ter tanta beleza para ver e não poder vê-la por estar 4 horas por dia dentro de um carro. A professora concordava sem muita empolgação enquanto corrigia suas provas. Victor ficou esperando que ela falasse, que olhasse em seus olhos e se lembrasse de algo que ele nem tinha certeza se ela sabia, mas não houve qualquer reação. Victor deu de ombros, aquilo não tinha importância, era um dia normal, um dia como outro qualquer. Acomodou-se em sua cadeira, comeu um biscoito, deu uma olhada na hora e ligou o celular para ver quais seriam os lançamentos literários do mês em Portugal.  Nada novo, tudo como acontecia todos os dias.
As aulas acabaram às 18 horas. Victor entrou no carro, checou mais uma vez o celular – nenhuma notificação, nenhuma caixa postal – pronto para enfrentar mais duas horas de trânsito e calor insuportáveis.
Chegou em casa como se fosse um dia como outro qualquer. Nenhuma surpresa, ninguém o esperava, nenhuma mensagem na secretária eletrônica. Colocou sua comida no microondas, pegou a comida do gato – que o esperava o jantar com os olhos brilhantes e ansiosos – ligou a TV e sentou-se no sofá, mas quem ganhou sua atenção foi o teto, enquanto perdia-se em pensamentos.
Como tudo havia acabado desse jeito? Como ele chegou até esse tipo de vida, sozinho, num apartamento de um quarto e com a companhia apenas do gato que comia com voracidade a pasta fedorenta que havia colocado para ele? Victor tinha alguns amigos mais distantes, primos, tios, mas todos eram muito ocupados, alguns nem moravam no país e ele até entendia a falta de lembrança. Namoradas, é verdade, teve algumas, mas quem sabe onde ou com quem foram parar, nem deviam ter mais seu telefone mesmo. O porteiro não sabia, o faxineiro também não, tampouco o zelador, ele nunca havia falado nada, também, para que? Era uma data sem relevância, uma data qualquer, todo mundo tem essa data no calendário, não tinha sentido sair espalhando por aí assim, do nada. De toda forma, ele pensava, como tudo foi acabar assim?
Victor não estava morto e tampouco tinha qualquer doença terminal, porém não conseguia olhar sua vida sem associá-la ao verbo “acabar” em cada linha de pensamento. Talvez tenha sido culpa dele, talvez tenha sido apenas azar, talvez, talvez, quem sabe, não é? Afinal, nada disso importava, no fim das contas, esse era um dia como outro qualquer, não era para se sentir assim. Mas se sentia.
Victor tomou um susto quando o gato veio enroscar-se em suas pernas. Gabo, como era chamado, era um gato bem blasè e lhe dava tanta atenção quanto os móveis inertes e sem voz de seu apartamento. Contudo, agora enroscava-se em suas pernas clamando por carinho, virou-se de barriga para cima e ronronou quando Victor lhe fez cócegas. Para completar o momento inusitado, Gabo ainda lambeu-lhe os dedos por alguns minutos, algo que o gato só fazia quando Victor estava com algum resto de biscoito nos dedos.
Com lágrimas nos olhos e rindo como uma criança que acabara de ganhar o brinquedo desejado, Victor agradeceu ao gato por ter lembrado de seu aniversário.

#18 – Playground

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Na minha infância, quando minha mãe me levava ao parquinho do bairro, o primeiro brinquedo que eu atacava era o roda-roda. A maioria das outras crianças ia direto ao balanço ou brigavam pelo escorrega. Eu sempre escolhi diferente. Talvez seja a partir daí que minha diferença em relação às outras pessoas tenha se manifestado pela primeira vez.
Sempre gostei de me divertir naquele grande brinquedo. Para o meu pequeno e magro corpo de criança o roda-roda parecia o mundo! Sozinha, corria o mais rápido que meus pés podiam para pegar impulso e então sentava sobre o ferro colorido, fechava os olhos e abria os braços, para sentir-me pássaro. Para sentir que eu voava para algum lugar distante, onde as coisas faziam sentido e meu coração poderia encontrar outro coração amigo.
Costumo perceber que quando as pessoas sentem-se tristes ou precisam de um tempo, saem pelas ruas buscando algum lugar ideal para ajeitar o fluxo dos pensamentos. Felizmente, eu já conhecia esse lugar de reflexão e momento íntimo. Não precisava que algo acontecesse para que buscasse esse lugar. Era só a melancolia chegar sem pedir permissão e eu me via obrigada a ir atrás do meu cantinho de cura. Morar perto de um parque ajudava bastante.
Em um desses momentos, saí pela rua mesmo observando uma tempestade se aproximar ao norte. As pessoas já começavam a procurar algum abrigo quando os primeiros raios e trovões ecoaram pelos céus. Senti um pouco de medo dos trovões, mas queria o parque só para mim. Essa era a oportunidade perfeita.
Sentei sobre o ferro pintado de vermelho do roda-roda e comecei a movimentar os meus pés a toda velocidade para pegar o impulso. Com o vento forte batendo em meu rosto, perguntei-me se dessa vez conseguiria finalmente voar para um lugar bem longe da minha realidade.
Tirei os pés do chão e abri os braços, exatamente como fazia quando criança. Dessa vez não fechei meus olhos. Mantive-os bem abertos, esperando que alguém aparecesse. Mesmo com toda aquela velocidade e figuras desconexas à minha frente, eu ainda esperava, ainda ansiava encontrar no olhar de alguém um conforto para a minha alma. Talvez toda a minha vida eu tenha procurado em espaços vazios, em multidões barulhentas ou em qualquer outro lugar uma única pessoa. Alguém que eu ainda não conhecia, mas que me amaria por quem eu realmente sou de corpo e de mente, sempre que eu precisasse fingir ou disfarçar algum pensamento. Muito procurei e jamais encontrei. E de tanto catar algo que parecia não existir para mim, acabei me deixando cair em um mar de desesperança e frustração. Sozinha ou com mil pessoas à volta, eu buscava rostos, caçava corações e examinava almas através de um único olhar. Mas o resultado sempre era o nada. Acho que meu problema é justamente esse: ir atrás do desconhecido sem deixar qualquer oportunidade para que esse desconhecido me encontre primeiro.
Já vivi e vi coisas que me fizeram desacreditar completamente, mas, contra toda a lógica, até mesmo quando não esperava mais nada eu ainda esperava tudo. E se essa história de “não busque o amor, deixe que ele busque você” for verdade, então eu morrerei em completa solidão, pois creio que em nenhum momento da minha vida eu serei capaz de desacreditar que existe pelo menos uma pessoinha para mim dentre 7 bilhões.
Imersa em meu próprio universo, pensei também sobre minha infância. Tentei achar o momento exato em que toda a brincadeira de criança havia acabado e me vi sendo adulta antes de um tempo aceitável. Mas não consegui. Tudo havia acontecido tão de repente, de uma hora pra outra, que nem sabia precisar em que ponto do caminho tudo havia ficado de cabeça para baixo.
É imprescindível ensinar às crianças a permanecerem crianças. Porque nunca se sabe quando essa infância será roubada delas. A liberdade geralmente se encontra apenas nessa fase da vida, mesmo com os limites impostos pelos pais. Quando pequenos, sempre pensamos que ao chegarmos adulta seremos mais felizes, faremos tudo o que quisermos, não existirão mais esses segredos de família que sussurram por detrás da porta de nossos quartos e poderemos andar por qualquer canto sem vigia. Entretanto, ao crescer, descobrimos que as vozes dos segredos são altas demais para nossos ouvidos, que a liberdade nada mais é do que um ponto de muitos pontos de vista e que os monstros que vimos nos desenhos animados, na verdade, são as pessoas.
Quando me olham, dizem que ainda tenho muito o que viver e conhecer, que não passei por muitas coisas de adultos e que minha vida está apenas começando. Mas eles estão enganados. Costuma-se julgar os jovens pela idade, mas a verdadeira experiência de vida está no espírito, não nos números mostrados em uma carteira de identidade. Ninguém sabe os mil anos sentidos em minha pele ou as milhões de horas que passaram lentamente dentro de mim. Ninguém sabe nada de nada. E, ainda assim, continuam falando e falando.
O roda-roda foi parando aos poucos e meus olhos passaram a observar os detalhes do parque onde me encontrava. Olhando o vazio tocar cada brinquedo, lembrei-me das pessoas que um dia preencheram alguns espaços dentro de mim. Amigos e familiares por quem eu realmente tinha um imenso afeto, mas que nunca ouviram uma declaração sensível de meus lábios. É curioso pensar que na hora de dirigir uma ofensa a alguém as palavras enchem nossa boca de forma irrefreável, mas quando é vez de dedicar uma palavra de amor à outra pessoa, não encontramos as letras de nosso próprio idioma e assumimos que, de alguma forma mágica, a outra pessoa saiba o tamanho do amor que sentimos por ela. O pior de tudo é que elas geralmente vão embora, sem nos dar tempo de gritar tudo o que sentimos e o quanto somos agradecidos por elas terem feito parte de nossa vida.
Nós deveríamos ter vergonha de odiar alguém. Não de amar.
O brinquedo parou de girar antes do esperado. Tornando à realidade, percebi um pé sobre o ferro vermelho e um par de olhos castanhos olhando para mim com certa curiosidade.
Pensei em perguntar quem era ou o que fazia ali com uma grande tempestade chegando, mas ele foi mais rápido e perguntou:

– Posso me juntar a você? Sei que os outros brinquedos estão vazios, mas o roda-roda sempre foi o meu favorito.
– Uma tempestade se aproxima… – respondi o óbvio, ainda um pouco confusa por aquele olhar que havia me encontrado em um monte de espaços vazios.
– Não me importa. – ele subiu no brinquedo e ficou de frente para mim, sorrindo. – Tempestades lavam a alma. E eu estou precisando de uma bela ducha!
– Somos dois, acredite.

Os primeiros pingos grossos de chuva começaram a cair. O rapaz começou a movimentar os pés para pegar impulso, sem tirar os olhos dos meus. Pela primeira vez não consegui decifrar o que havia por detrás daquele olhar. O que quer que fosse, eu apenas me sentia bem. Muito bem.
Se a liberdade é mesmo um ponto entre muitos pontos de vista, no momento a liberdade era sentir a água da chuva molhar o meu corpo e jogar no chão toda a energia negativa que me cobria. Era sentir-me estranhamente livre mesmo na presença de outra pessoa.
Em meu brinquedo favorito e tendo como companhia um outro amante da chuva, o barulho dos trovões não mais me assustavam.

#17 – Pesadelos

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Assim que Carlos colocou os pés no salão no térreo daquele prédio, pôde vislumbrar todo o seu futuro. Era o primeiro dia de trabalho naquela importante empresa e o cargo lhe daria segurança financeira para toda a vida.
Tinha lutado muito por esse emprego. Foram anos de cursinho atrás de cursinho, de concurso atrás de concurso, para finalmente pertencer a uma das maiores empresas do país. Sua mãe não poderia estar mais orgulhosa. Seu pai fazia questão de contar a todos no trabalho onde é que o seu primogênito estava indo trabalhar a partir de hoje e, se Deus quisesse, pelo resto da vida. Seu irmão menor já tinha preparado toda uma lista de presentes que queria ganhar assim que Carlos recebesse o primeiro salário.
Trabalharia no sétimo andar. Uma sala enorme, com outros 3 empregados, com direito à um computador de última geração e uma vista decente para os outros prédios da cidade.
Quando chegou à sua sala, foi cumprimentado pelos seus novos colegas de trabalho. Recebeu abraços, desejo de boas vindas, boas vibrações e até mesmo marcaram uma saideira para mais tarde, para comemorar sua grande conquista.
Carlos sentou sobre a cadeira giratória e deu uma boa olhada para a sua mesa. Um espaço enorme, dava para colocar fotos de amigos e familiares, espalhar os arquivos, trabalhar com conforto no deslumbrante computador e ainda colocar alguns mimos recebidos de sua família como recompensa por todo o esforço de anos.
Soltando um longo suspiro, Carlos começou a se preparar para o trabalho burocrático que seria o seu destino até o fim de sua aposentadoria.

**

E então, o despertar.
Com o peito arfante e a testa encharcada de suor, Carlos encontrou-se em seu quarto parcialmente escuro, iluminado apenas pela lua cheia lá fora. Acendeu o abajur e levantou-se com pressa da cama, assegurando-se de que estava realmente acordado.
Carlos caminhou pelo quarto em direção ao seu pequeno espaço criativo, onde suas telas, tintas, colas, pincéis e papéis estavam em seu devido lugar. Uma sensação de alívio preencheu-lhe o peito. Ele estava seguro, onde mais amava, com o que mais amava.
Carlos lambuzou os lábios ao beijar a tela à óleo que tinha pintado no dia anterior. E, rindo consigo mesmo no meio da madrugada, agradeceu a Deus por tudo não ter passado de um pesadelo.