[Linhas Invisíveis] Capítulo 5 – É Melhor Você Correr Por Toda a Noite

Helena, Montana. Julho de 2009.
3 da tarde.

— Lois! – disse a voz sussurrante da menina que olhava de um lado para o outro, temendo ser vista por alguém. – Lois, pelo amor de Deus, desce daí!
— Eu preciso dar o fora desse hospício! – disse Lois Morrison, enquanto tentava pular o muro do lugar onde já estava presa há 5 dias. – Preciso ver Noah!
— Como você pretende voltar para Seattle sozinha, sua maluca? – perguntou Taylor, a única pessoa em muito tempo que ela podia chamar de amiga.
— De ônibus, ora! – respondeu Lois, olhando ao redor para ver se alguém se aproximava. – A rodoviária não fica muito longe daqui e eu tenho o suficiente para comprar uma passagem de volta. Não posso passar mais um minuto nesse retiro ridículo, eu vou endoidar!
— Lois, pense bem no que está fazendo. – alertou a menina, olhando em volta mais uma vez. – Você pode prejudicar o sir Michael e o sir Ryan! Já pensou na responsabilidade que cairá sobre eles quando descobrirem que uma jovem fugiu do retiro?
— Isso é problema deles, não meu. – respondeu, dando de ombros. – Se esse programa para jovens cristãos fosse menos insuportável, eu não estaria me arriscando desse jeito para fugir. Eles que inventem algo mais atrativo da próxima vez.
— O programa não é chato, você que é uma maluca! – respondeu a menina, impaciente.
— Maluca é a senhora Anne Morrison que realmente achou que me enfiando uma semana em um retiro cristão ia me ajudar de alguma forma. – retrucou uma amargurada Lois. – Por isso preciso estar com Noah! Ele é o único que me entende e com quem eu posso verdadeiramente contar! Não preciso de Deus quando já tenho Noah comigo.
— Pelo amor de Jesus, você acabou de começar a namorar o cara e não pode ficar uma semana sem ele? Isso é doença, você deveria se tratar!
— Você é minha amiga ou minha inimiga? – Lois perguntou, sentindo-se pessoalmente atacada.
— Eu sou sua amiga e por isso mesmo estou dizendo o que penso! – Taylor respirou fundo, tentando manter o controle para não brigar com a amiga. – Lois, pare com isso, hoje não vai ser tão ruim! Estão dizendo que à noite teremos uma palestra com um convidado especial, um amigo da escola de sir Ryan! Parece que ele já está no acampamento e umas das meninas disse que ele é um gato!
— Não me interessa, eu já tenho um homem pra chamar de meu! – respondeu Lois, ignorando por completo o aviso de Taylor sobre sua obsessão com o novo namorado. – Agora pare de encher o saco e me ajude a pular isso aqui!
— Argh, tudo bem, eu ajudo! Mas só porque quem vai ficar maluca sou eu se passar mais um minuto ouvindo sobre esse tal de Noah! O que eu preciso fazer?

Com a ajuda de Taylor, Lois conseguiu a altura que precisava para se debruçar e então pular o muro. Ralou os joelhos e as mãos na queda, mas não se incomodou com a dor. Só de se ver livre daquele lugar que havia sido sua prisão nos últimos 5 dias, compensava qualquer dor física. Olhando uma última vez para o retiro, temendo que a alguém a visse, Lois atravessou a rua com o sinal aberto, desviando perigosamente dos carros, e correu o mais rápido que conseguiu.
Sabia que o que estava fazendo era uma maluquice e que Anne Morrison jamais a perdoaria por ter feito algo assim. Mas a relação com sua mãe já estava bastante desgastada e uma decepção a mais, uma a menos, não iria fazer a menor diferença.
Assim que se viu segura, longe o suficiente do retiro, Lois abriu a mochila e pegou o mapa da cidade, procurando a rodoviária. Como já havia visto na noite anterior, quando passou a madrugada acordada bolando o seu grande plano de fuga, o local não era muito distante. Precisaria andar mais ou menos uns 30 minutos, mas chegaria sã e salva. E mesmo que não chegasse sã e salva, o importante era chegar, pensou Lois Morrison. Não podia mais passar um minuto longe de Noah, sem saber o que estava fazendo, sem conseguir falar com ele, sem sentir-se calma do jeito que só ele a fazia sentir. Que fosse ao inferno esse retiro ridículo e todas as pessoas que achavam que precisava ser salva de alguma coisa. Ela não precisava de ajuda, não precisava ser encontrada nem por Deus, nem por Jesus, nem por ninguém. Tudo o que precisava era estar com alguém que a fazia se sentir querida de verdade.
Amanhã pela manhã ela já estaria de volta a Seattle e ao lado de Noah, de onde nunca deveria ter saído em primeiro lugar. E pretendia jamais deixá-lo outra vez.

**

Helena, Montana. Julho de 2009.
10 da manhã.

— Brandon Reed? – Brandon parou imediatamente de escrever no notebook e olhou para cima. – Não acredito! O que o garoto mais inteligente de Nova York está fazendo perdido na capital de Montana?
— Ryan Gallagher! – Brandon levantou-se e cumprimentou o amigo que não via desde a época de colégio. – Que surpresa encontrá-lo por aqui! Não nos vemos faz quanto tempo, uns…
— 7 anos! – respondeu prontamente. – Como está seu pai?
— Está bem, trabalhando e publicando como nunca. Sente-se, vamos colocar o papo em dia!

Ryan aceitou a sugestão de Brandon e ambos sentaram-se à mesa. Antes de reiniciarem o assunto, Ryan chamou a garçonete e pediu um café. Brandon salvou o que estava fazendo no notebook e abaixou a tela para que pudessem conversar sem distrações.

— Está morando aqui ou está de passagem, como eu? – perguntou Brandon.
— Moro aqui faz uns 4 anos já. Eu lidero um grupo de jovens cristão que estão um pouco perdidos na vida. Descobri minha missão de vida tentando ajudar a juventude a encontrar um caminho mais limpo para caminhar.
— Poxa, cara, que legal, fico feliz por você! – Brandon sorriu com sinceridade. – É sempre bonito encontrar alguém que encontrou um propósito na vida. Fico feliz.
— Às vezes encontramos nosso verdadeiro caminho onde menos esperamos. Essa é a mágica da vida. – refletiu Ryan. – E você, o que faz aqui?
— Vim para um ciclo de palestras sobre neuropsicologia. Era um evento aberto ao público e decidi me inscrever. – explicou Brandon. – Aproveitei então para conhecer o lugar, nunca antes havia estado em Helena. É tudo muito bonito aqui.
— Ah, então você seguiu mesmo o caminho da psicologia? Sempre soube que você seguiria os passos de seu pai, vocês são parecidos em tudo.
— Bem, não exatamente. – Brandon coçou a nuca, constrangido. – Estudo psicologia por diversão e porque creio que consigo ser um ser humano melhor a partir do momento que me proponho entender o outro. Não entrei em nenhuma faculdade depois que saí da escola.
— Como assim? – Ryan foi tomado por um choque ao ouvir a notícia. Depois de ter convivido com Brandon toda a adolescência, essa era a última informação que esperava escutar. – O cérebro de ouro de uma das mais importantes escolas de Nova York decidiu não ter um curso superior? O que foi que eu perdi?
— Não tem nada demais. – ele sorriu, sem graça. – Eu só escolhi a liberdade de encontrar o conhecimento que preciso além das páginas de um livro e as limitações de uma sala de aula. Explorar é o melhor caminho para o conhecimento.
— Seu pai deve ter surtado com essa notícia… – comentou Ryan, lembrando-se do gentil e intelectual pai de Brandon.
— Bem, vamos dizer que ele não foi um entusiasta dessa decisão. – comentou Brandon, sem detalhar o sermão que levou de Paul Reed antes dele se conformar com a decisão do filho. – Mas no fim ele apoiou, pois entendeu que a melhor maneira de me fazer feliz era me deixar livre para tomar minhas próprias decisões.
— Bem, que bom que tudo deu certo na família Reed, então.
— Sim, acho que deu. – respondeu Brando, sabendo que seu pai o apoiava até mesmo naquilo que não concordava. Ele tinha o melhor pai do mundo e sabia bem disso.

A garçonete chegou com o café de Ryan e Brandon decidiu pedir algo para comer. Enquanto a moça anotava o pedido, Ryan encarou a figura de Brandon por alguns segundos, pensando como o filho de Paul Reed, apesar de não ter seguido um caminho religioso, tinha algo especial dentro de si. Era possível ver o coração de Brandon através de seus olhos e ele se sentia uma pessoa de sorte por ter tido a oportunidade de ter convivido, ainda que por poucos anos, com Brandon e Paul. “Essa família é especial”, ele pensou.
Sentindo uma inspiração repentina, talvez uma inspiração divina, Ryan teve uma ideia que pensou ser vantajosa para ambos.

— Hey, me diga uma coisa… – Ryan retomou a conversa. – Quais são seus planos para os próximos dias?
— Devo voltar para casa depois de amanhã. – respondeu Brandon, pensando por alguns segundos se tinha algo de muito a importante a fazer. – No momento o plano é não fazer planos, estou explorando as possibilidades que essa cidade adorável tem para me oferecer.
— Pô, se você não tiver nada para fazer hoje, o que acha de pintar lá no meu retiro de jovens e dar uma palestra especial para os garotos? Sinto que eles já estão meio entediados com o programa e seria legal trazer gente nova.
— Ryan, eu respeito e admiro demais o que você faz, mas você sabe que eu não sou muito adepto à questões religiosas. – respondeu com toda a cautela que conseguiu. – Igrejas não são pra mim.
— Não, você me entendeu mal! – Ryan tratou rapidamente de explicar. – Você não vai falar de Deus, nem nada disso. O programa é muito mais do que só ler e falar sobre a bíblia, procuramos integrar todos os tipos de conhecimento que podem beneficiar os jovens neste momento tão confuso de suas vidas. Acho que seria uma adição muito especial para o programa trazer alguém com os seus conhecimentos sobre psicologia, eles vão gostar muito de ouvir alguém como você.
— Bem, não sei, sinceramente… – Brandon respondeu, incerto em relação ao convite. Gostava muito de Ryan, mas a verdade é que tinha um pouco de pavor de grupos religiosos. Não conseguia ver como poderia ajudar aquele grupo de pessoas que acreditavam em coisas da qual ele ainda não era capaz de crer.
— De verdade, confie em mim. Ninguém aqui vai tentar te converter. – garantiu Ryan com descontração ao ver a hesitação do amigo. – Eles precisam justamente de algo diferente do que conheceram até agora e acho que você é a pessoa certa para isso. Estou precisando de ajuda com alguns deles, soube pelo meu colega de trabalho, Sir Michael, que uns jovens já têm até problemas de consumo excessivo de álcool mesmo sendo menores de idade. Você tem uma boa lábia, lembro de você falando na hora do intervalo sobre seus conhecimentos e todo mundo prestando em cada palavra que dizia. – recordou. – Acho que suas palavras poderão ter o mesmo efeito no retiro.

Brandon parou um pouco para pensar, sentindo que estava sendo convencido por Ryan.
Quando saiu de Nova York e foi descobrir um outro lado da vida em Phoenix, decidiu que queria se desafiar a fazer algo diferente, algo que jamais faria se seguisse no mesmo lugar onde nasceu e cresceu, com as mesmas pessoas que conhecia desde a infância. Dar uma palestra científica em um retiro para jovens cristãos era a última coisa que pensou em fazer na vida, mas agora a ideia não parecia ser tão ruim. Ele podia sim oferecer alguns conhecimentos sobre transtornos psicológicos e, quem sabe, fazer com que alguém se sentisse compreendido e menos julgado. Paul Reed o havia ensinado muito bem durante a vida e agora ele mesmo buscava outros conhecimentos sobre psicologia em diversas partes do país. Talvez Ryan tivesse razão. Talvez ele tivesse mesmo uma grande bagagem de conhecimentos e podia agora passar isso a quem precisava ouvir. Seria uma experiência no mínimo curiosa e de repente ele sentiu vontade de tentar e ver onde aquela loucura iria dar.

— Tudo bem, eu aceito. – respondeu, para a alegria de Ryan. – Mas com uma condição: não mencione de quem sou filho. Não quero que a fama do meu pai atrapalhe o trabalho que eu possa vir a fazer com eles. Sabe como adolescentes são deslumbrados por pessoas famosas e não quero isso.
— Perfeito, do jeito que quiser! – concordou um animado Ryan. – Podemos ir assim que acabarmos aqui, tudo bem?

Brandon concordou e eles mudaram de assunto enquanto terminavam o café.
Podia não ser a pessoa mais crente do mundo, mas Brandon gostava de observar como o destino tinha sua própria maneira de fazer as coisas. Quando se inscreveu naquele evento de neuropsicologia em Montana, tudo o que desejava era estar entre os mais inteligentes do meio e aproveitar para desfrutar de uma cidade que ainda não havia conhecido. E agora estava ali, conversando com um ex-amigo de colégio com o qual havia perdido o contato, e pronto para passar o dia ao lado de um grupo de jovens cristãos que, quem sabe, poderia se beneficiar de seus aprendizados. Para Brandon Reed, um homem que adorava planejar até os horários de suas refeições diárias, perceber seu caminho tomando um outro rumo era assustador, ainda que também excitante. Sempre que pensava estar no controle, algo maior acontecia que o fazia perceber que, na verdade, o livre arbítrio sobre o qual as religiões amavam falar, não era tão livre assim.
Percebendo-se empurrado para este retiro, sem ter ainda ideia do propósito desse repentino desvio de caminho, Brandon Reed pensou quais surpresas ou quem ele poderia encontrar nesse lugar cheio de esperança.

[Linhas Invisíveis] Capítulo 4 – Um Nascer do Sol Na Palma de Sua Mão

Seattle, Washington.
21 de Outubro de 2003
.

— Mãe, eu não quero ir! – resmungou a pequena Lois, enquanto era arrastada pela mãe através das ruas movimentadas do seu bairro. – Toda vez que você vai até a sapataria do sir Stephen você nunca mais sai de lá!
— Não reclame, Lois Morrison, eu preciso consertar esse sapato, pois é meu preferido e não estou podendo gastar dinheiro com um novo. Você pediu para que passássemos mais tempo juntas e agora está reclamando?
— Passar tempo juntas significa realmente fazer algo, não te acompanhar até o sapateiro. – Lois cruzou os braços e bufou, irritada.
— Você pode ficar na sorveteria ao lado então, já que está impaciente demais para esperar. – Anne tirou uma nota de cinco dólares do bolso e entregou para a menina. – Vá, compre aquele sorvete de chocolate que você ama e não enjoa nunca e me espere no banquinho ali do lado de fora. Não devo demorar.
— Sei… – respondeu a menina, tendo certeza de sua mãe iria demorar, como sempre.

Assim que chegaram no endereço certo, Anne Morrison entrou na sapataria e Lois foi correndo buscar o seu amado sorvete de chocolate. Como sua mãe havia pedido, a menina de cabelos castanhos sentou-se no banquinho do lado de fora da sorveteria e devorou o sorvete em poucos minutos. Para a ansiosa garota, sua mãe estava demorando demais e já não aguentava mais esperar.
Anne Morrison não precisou verbalizar qualquer palavra para Lois saber que as constantes idas ao sapateiro tinham menos a ver com os sapatos e mais com a beleza do sir Stephen. Em sua imaginação fértil, Lois imaginou que sir Stephen se apaixonaria por sua mãe, se casaria com ela e ambos iriam morar em alguma cidade bem distante, deixando a menina sozinha em Seattle, entregue à própria sorte. Em seu íntimo, Lois desejava que sir Stephen fosse casado e que não tirasse a única pessoa que ainda estava ao seu lado.

— Olá, querida! – Lois virou o rosto e viu uma mulher de sorriso brilhante e olhos verdes sentar-se ao seu lado. – O que uma menina bonita como você faz sozinha neste lugar?
— Não estou sozinha. – respondeu, sentindo um pouco de medo da desconhecida. – Minha mãe está na loja aqui do lado consertando um sapato. Estou esperando por ela.
— Não tenha medo, eu não vou te fazer mal. – disse a mulher ao perceber a tensão no corpo da menina.
— Isso é o que as pessoas que querem sequestrar crianças costumam dizer… – respondeu Lois em tom afiado.

A mulher soltou uma gargalhada e Lois reparou como o som que saiu de sua boca tinha uma melodia especial, quase como uma canção. Era a primeira vez na vida que ouvia alguém rir em forma de música.

— Você é muito esperta para uma menina de… – ela parou um momento para analisar a idade pela sua aparência. – 13 anos?
— 11, quase 12.. – respondeu Lois. – Sou mais nova do que aparento ser.
— 11, quase 12, certo… – a mulher continuava analisando Lois como se pudesse ver através dela. – Eu gostei de você. Parece ser uma menina muito especial, porém um pouco solitária.
— Eu tenho muitos amigos. – mentiu Lois, sentindo-se invadida, de certa forma, pelo olhar da mulher. – Você não sabe nada sobre mim.
— Desculpe, não quis ofendê-la. – respondeu com doçura no tom de voz. – Um solitário reconhece outro solitário apenas com um olhar. Eu olhei para você e encontrei uma alma semelhante, apenas isso. Meu nome é India. – a mulher lhe estendeu a mão e Lois retribuiu ao cumprimento. – Eu sou uma cigana. Você sabe quem são os ciganos?
— Acho que já vi algo sobre vocês em filmes… – respondeu Lois, sentindo-se um pouco mais curiosa em conhecer a mulher que agora já não lhe dava tanto medo.
— Se tudo o que conhece sobre a gente você viu em filmes, então não nos conhece de verdade. – respondeu. – Somos apenas pessoas como você, como todos, que procuram encontrar um lugar no mundo da nossa própria maneira. Mas nos julgam das piores coisas e nos colocam à margem da sociedade. As pessoas não sabem lidar com o diferente e isso é lamentável.
— Eu sinto muito, India. – respondeu Lois com sinceridade, compadecendo-se com ela. – Ser julgado é uma coisa terrível. Eu sou julgada na escola e não gosto. Então entendo o que está sentindo.
— Obrigada, querida. – India sorriu e Lois pode jurar que viu seus olhos brilharem como se fossem esmeraldas. – Conversar com você no dia de hoje me fez muito feliz. Sabe, as pessoas passam pela gente e nos desprezam por todo o tipo de razão. Às vezes só queremos conversar e nos conectar, mas conseguir essa abertura não é fácil. Obrigada por ter me permitido sentar aqui e conversar um pouco com você. Seu coração é muito bonito.

Lois ficou sem saber o que dizer, pois não estava acostumada a ser elogiada. Sua mãe sempre encontrava uma razão para criticá-la e na escola ela não era a garota mais popular, nem entre os colegas e muito menos entre os professores. Não sabia como India tinha descoberto, mas ela tinha razão. Lois era mesmo uma pré-adolescente solitária que, assim como a cigana, também estava tentando encontrar o seu lugar no mundo.

— Quero te dar um presente. Abra sua mão direita. – pediu India. – Pode confiar em mim. Você vai gostar.

Lois pensou duas vezes se deveria aceitar presente de desconhecidos, mas sua curiosidade falou mais alto. Fazendo o que a cigana havia pedido, Lois abriu sua mão.

— Geralmente eu cobro por esse tipo de serviço, pois é meu ganha pão e comer está bem difícil ultimamente. Mas você me deu o presente de sua atenção e quero retribuir com uma leitura de seu futuro.
— Você consegue ler mesmo o meu futuro? – perguntou Lois, fascinada com a possibilidade de saber como seriam seus próximos anos.
— Sim e não. – respondeu India. – É mais uma direção. O futuro, na verdade, é a gente que faz. Mas acredito sim que nossos caminhos estão na palma de nossas mãos. Literalmente.

Segurando delicadamente na mão da menina, India começou sua leitura.
Olhou com atenção cada linha, passando o indicador por toda a sua palma, como se estivesse realmente vendo algo em todas aquelas linhas que para Lois eram apenas marcas que todos os seres humanos tinham.

— Hmm… Interessante. – disse India, para então ficar longos segundos em silêncio.
— O que foi? – perguntou uma curiosa Lois.
— Existem muitas linhas desencontradas… – explicou a cigana, sem tirar os olhos da mão de Lois. – Seu caminho não será reto, não será um caminho comum como o da maioria das pessoas. Você vai precisar andar muito, por diversos lugares, até encontrar conseguir encontrar aquilo que um dia chamará de lar.
— Mas meu lar é aqui. – retrucou Lois, sentindo-se confusa. – Com a minha mãe.
— Sim, querida, e ainda será por alguns anos. Mas não será para sempre. Você é muito maior do que essa cidade. Você é muito maior do que pensa ser.

Lois seguiu sem entender nada do que a cigana queria dizer. Sempre se sentiu pequena demais para tudo, como se estivesse limitada por algo maior e não pudesse se desenvolver. Passava a maior parte do tempo buscando obsessivamente a atenção de sua mãe enquanto tentava sobreviver ao tédio que sentia na escola. Como alguém que tinha uma limitada carreira escolar e possuía um número restrito de amigos poderia ser alguém nessa vida?

— Você vai cruzar algumas fronteiras até chegar a este lugar. – disse a voz de India, cortando os pensamentos de Lois. – Talvez até internacionais, não sei. Sua missão nessa vida é atravessar fronteiras, querida. Se você seguir o chamado de seu coração, não importa o quão louco isso possa parecer aos olhos de outras pessoas, eu garanto: você vai encontrar tudo o que sempre sonhou.
— Mas para onde eu tenho que ir? Quais fronteiras eu preciso cruzar?
— Isso você vai ter que descobrir sozinha. – respondeu India, fechando a mão de Lois entre as suas. – Você passará por alguns caminhos que farão com que você duvide, com que você queira desistir até de si mesma. Mas não desista, não volte atrás. Quando você sentir que chegou o fim, você vai entender que era apenas o início de algo muito bonito. Seus encontros serão muito significativos e você vai mudar vidas sem saber disso.
— Eu não estou entendendo nada… – respondeu Lois, com lágrimas nos olhos. – Como vou saber qual é esse lugar? Aliás, quando eu vou saber que preciso ir? Não quero deixar minha mãe sozinha.
— Como eu disse antes, ouça tudo o que seu coração te disser. Ele vai indicar quando será o dia e a hora exata de partir. Eu olho para você e vejo um belo pássaro, um pássaro de asas vermelhas, como se fossem de fogo, pronto para bater as asas e embelezar a vida de todos que tiverem a sorte de cruzar seu caminho. Eu olho para você e vejo uma fêni…
— LOIS! – um grito interrompeu a conversa, fazendo com que as duas saltassem de susto no banco. Anne Morrison aproximou-se tal como uma leoa e puxou Lois pelo braço, tirando-a de perto da mulher desconhecida.
— O que está fazendo com minha filha?! – gritou Anne, ainda sentindo o desespero no peito, pois pensava que esteve prestes a perder Lois.
— Desculpe, senhora, eu estava apenas conversando com a menina. Não quis causar nenhum mal…
— É, mãe, o nome dela é India e ela é legal. Só estava me explicando que…
— Eu não quero saber! – ralhou Anne Morrison. – O que eu falei para você a vida inteira, Lois? Não é para falar com estranhos, se lembra? Você não tem ideia do perigo que corre! Sabia que não deveria deixá-la sozinha, sabia! Vamos embora!

Anne saiu puxando Lois pela rua sem deixar que se despedisse da cigana.
Lois queria ter continuado com a conversa, queria saber mais, queria conhecer mais sobre India e a história de seu povo. Mas sequer houve tempo de agradecer, de se despedir. Tudo o que Lois conseguiu fazer foi virar o rosto para trás e acenar para India, que retribuiu ao aceno com um sorriso triste. Lamentou em seu íntimo por saber que nunca mais encararia aqueles olhos cor de esmeralda e desejou que um dia ela também encontrasse o seu lugar no mundo.
Durante todo o caminho de volta para casa, Lois ficou olhando para as linhas visíveis de suas mãos, perguntando-se se poderia ser verdade tudo o que India havia lhe dito. Se era mesmo possível desvendar o futuro através das linhas das mãos, se era mesmo verdade que ela iria encontrar um lugar melhor para viver. Não era feliz naquele lugar, nunca havia sido, mas ali estava sua mãe e, talvez por ser tão nova, nunca havia pensado em viver longe daquela que era toda a sua razão de viver. Mas, pela primeira vez na vida, Lois começou a imaginar lugares diferentes, pessoas que poderia conhecer, todas as coisas que poderia fazer longe do lugar que havia nascido e crescido. De repente, para Lois, o mundo pareceu um lugar maravilhoso, quase como um mapa do tesouro, cheio de coisas brilhantes para descobrir, tão brilhantes como o sorriso da cigana que havia conhecido.
O que poderia existir além das fronteiras?
Que tipo de gente ela poderia encontrar?
Haveria mais pessoas como India por aí?
Em sua mente criativa, a jovem Lois Morrison começou a visualizar uma vida bem longe de todo aquele gelo e aquele cinza, uma vida onde poderia bater suas asas de fogo e voar para bem longe, como sua amiga cigana havia previsto.
Esse encontro havia mudado a sua vida para sempre. Agora que Lois podia se imaginar vivendo em diferentes lugares, Seattle parecia ainda menor ante seus olhos.
Ela tinha muito para viver, muito para descobrir, muitas fronteiras para cruzar.
E, na hora certa, iria cruzá-las.

**

Cidade de Nova York, Nova York.
21 de Outubro de 2003.

Era seu aniversário. Dezenove anos.
Brandon olhava para a tela do computador, observando todo o planejamento que havia feito no último ano. Estava tudo pronto, tudo certo, era só pegar as malas e ir. Finalmente partir. Como há muito tempo desejava.
Seria difícil contar para o seu pai que precisaria deixá-lo para ir em busca de uma vida completamente diferente daquela que fora planejada pra ele. Mas precisava criar coragem, precisava olhar nos olhos de seu pai e explicar que Nova York não era seu futuro, que uma carreira tradicional não alimentaria sua alma, que ele necessitava buscar o seu lugar em outra cidade. E começaria por Phoenix, no Arizona. Se este seria o seu destino definitivo ou se precisaria buscar ainda mais até se encontrar, ele não sabia. Só sabia que precisava partir e viver, finalmente, uma vida para ele mesmo. Esperava que seu pai tivesse a mesma compreensão com ele como tinha com seus pacientes, pois não queria partir brigado com aquele que mais amava no mundo. Entretanto, independente do que Paul Reed dissesse, Brandon ia partir. Sabia que essa decisão iria quebrar o coração de Kerry e frustrar seu pai, mas a vida era dele. E ninguém mais poderia vivê-la por ele.

— Querido, posso entrar? – perguntou a voz que quebrou o silêncio no qual estava imerso. – Atrapalho?
— A senhora nunca atrapalha, dona Christina! – Brandon levantou-se e dirigiu-se até a mãe de Lucy com o sorriso aberto.
— Feliz aniversário, meu menino! – Christina o abraçou com força e deu um beijo estalado em seu rosto. – Olhe para você! Já é um homem feito! Como o tempo passa rápido!
— É o que todos estão dizendo. – Brandon coçou a nuca, sentindo-se um pouco constrangido. – Lucy não veio?
— Resolveu sair com o namorado, sabe como é a minha filha. – Christina revirou os olhos com impaciência. – Disse-lhe que achei um absurdo, mas ela me respondeu dizendo que você não ligaria, que não é como seu pai que faz questão de afagos no aniversário.
— Nisso sua filha está certa. – Brandon riu, lembrando-se do jeito único de sua melhor amiga. – Não gosto de festas ou grandes comoções por causa de um aniversário. Não se preocupe, eu tenho certeza que ela ligará mais tarde.
— É um dia importante, meu querido! Não vai fazer nem mesmo uma festinha para celebrar?
— Por mim eu ficava em casa lendo um livro ou estudando, a senhora me conhece. – respondeu Brandon. – Mas Kerry quer sair para jantar e disse que irá me levar para uma boate nova que estreou aqui perto. – Brandon soltou um largo e descontente suspiro. – Era longe do que eu queria fazer, mas sabemos como é Kerry… Se eu negar ela vai fazer aquele drama e eu não estou a fim de discutir no meu aniversário.
— Então vai aceitar fazer algo que não quer só pra agradar Kerry? – perguntou Christina, vendo Brandon dar de ombros, como se não houvesse outra opção. – Querido, longe de querer me meter em sua vida, mas sabe que o tenho como filho e preciso perguntar… Você está feliz ao lado de Kerry?

Brandon tentou responder afirmativamente, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Geralmente quando perguntavam se estava feliz em relação a algo ou alguém, Brandon costumava dar uma resposta burocrática, pois não gostava de ficar explicando seus complicados sentimentos para as outras pessoas. Mas com Christina era diferente. Assim como Madame Esther, Christina também cumpriu um papel importante em sua vida após a morte da mãe. Christina tinha um doçura no olhar e uma forma de falar que fazia com que qualquer um se abrisse sem medo de ser julgado. Com ela, Brandon sentia que podia ser ele mesmo.

— Você sabe que pode confiar em mim. – continuou Christina ao ver hesitação na resposta de Brandon. – Sou amiga de Esther e também amo Kerry como se fosse minha filha, mas me pergunto, às vezes, se vocês dois não cresceram em direções opostas e estão negando o óbvio…
— Eu jamais deixo de ver o óbvio, dona Christina. – disse Brandon, desistindo de continuar negando seus sentimentos. – Você tem toda e completa razão. Kerry ainda me ama muito, mas eu… acho que da minha parte o sentimento já se transformou em uma amizade. E não sei como dizer isso pra ela.
— É melhor dizer logo do que ficar dando esperanças pra uma jovem menina apaixonada que ainda tem muito a viver… – observou Christina.
— Eu concordo e vou fazer isso… Só preciso tomar coragem.
— E quando você acha que essa coragem virá? – perguntou Christina, com doçura no tom de voz. – Se esperar demais pode acabar piorando a situação.

Brandon ficou em silêncio, sem saber o que dizer, pois sabia que a mãe de Lucy tinha razão. Há muito tempo já sabia que não queria continuar o relacionamento com Kerry e há muito adiava o momento da definitiva conversa. Detestava magoar as pessoas, de ser a razão da decepção de alguém, mas não podia seguir a vida tentando controlar como os outros se sentiam em relação a ele. Precisava ser sincero com Kerry o quanto antes.

— A senhora tem razão. Não vou esperar mais. Vou deixar passar essa semana do meu aniversário e vou falar com ela. Prometo.
— Isso. A sinceridade sempre é o melhor caminho, por mais que doa no começo. Você vai fazer a coisa certa, ainda que Kerry precise derramar algumas lágrimas pelo caminho.
— Por falar em caminho… Posso compartilhar uma coisa com a senhora? Uma coisa que eu ainda não contei a ninguém, nem mesmo ao meu pai?
— Claro, querido. Você sabe que pode me contar tudo.

Brandon foi em direção à sua escrivaninha e pegou o notebook. Sentando-se junto à Christina em sua cama, Brandon mostrou à mãe de Lucy todo o planejamento no qual havia trabalho durante todo o ano.

— Não quero que ninguém saiba por enquanto. Mas precisava compartilhar com alguém, pois manter esse segredo só pra mim estava me matando.
— Entendo que queira sair da aba do seu pai e explorar novas oportunidades, mas… por que tão longe? – Christina franzia o cenho, tentando entender os planos do garoto. – Com tantos lugares que você poderia ir, por que logo Phoenix?
— Não sei, acho que pelo nome. – Brandon sorriu um sorriso inocente. – Sei que vai parecer loucura o que vou dizer, mas… Eu nunca consegui ser eu mesmo nessa cidade. Não sei exatamente o que sou, mas sei que não sou… isso. Nova York não combina com a minha personalidade. Eu preciso mudar completamente de ares e acho que uma cidade como Phoenix vai me mostrar o oposto do que eu sempre vi por aqui. É uma intuição, não sei explicar. Só sinto que é o lugar para onde devo ir.
— Se é o que você sente em seu íntimo, então você deve ir. – Christina colocou a mão em seu peito, bem na direção do coração. – Imagino que deva estar preocupado com a reação do seu pai, mas eu, Esther e todos nossos amigos estaremos aqui. Ele não estará sozinho.
— Muito obrigado. – Brandon deitou a cabeça sobre o ombro de Christina como se ela fosse sua própria mãe. – Lucy tem muita sorte de ter uma mãe como a senhora.
— E eu tenho certeza… – respondeu Christina, pegando Brandon pelo rosto e olhando diretamente em seus olhos. – Que onde quer que sua mãe esteja, ela está muito orgulhosa do filho que deixou aqui nesse mundo. Você é muito especial, Brandon, e não digo isso da boca pra fora. Você tem o coração mais puro que eu já conheci e tenho certeza que quando encontrar a pessoa que conseguirá ver através de você, ela terá muita sorte.
— Obrigado, mas eu não acredito que irei encontrar nenhuma “cara metade” pelo caminho. – afirmou Brandon, tentando não parecer rude. – Acho que preciso trilhar meu destino sozinho, sem estar amarrado a ninguém. Há muito o que descobrir no mundo e não vou conseguir fazer isso se estiver preso a outra pessoa.
— Você está muito jovem, ainda tem muito pela frente. – Christina lhe deu dois tapinhas sobre os ombros. – Não se feche ao amor dessa forma.
— Não estou fechado. – respondeu Brandon, sentindo que a frase tinha soado como uma mentira. – Eu só tenho planos muito individuais para mim, planos que não seguem o que a sociedade tem como confortável. E não consigo imaginar que pode existir alguém disposto a trilhar esse mesmo caminho comigo.
— Bem, é seu direito pensar o que quiser. Mas eu, como uma mulher romântica e que acredita que o amor move o mundo, penso que existe uma pessoa certa para cada um.
— É, a pessoa certa do meu pai era a minha mãe e a gente sabe como essa história acabou… – comentou com amargor.
— O que aconteceu foi uma tragédia, mas eu não tenho dúvidas de que seu pai é uma pessoa melhor porque conheceu sua mãe. E o amor deles deu você ao mundo, meu querido, e que presente para nós ter você por aqui! – Christina depositou um terno beijo na bochecha de Brandon e se levantou. – Não vou mais insistir nesse assunto, pois não quero ser chata. Mas se posso te dar um presente hoje, neste seu aniversário, é meu desejo de que você encontre nos olhos de alguém uma resposta para todas as suas perguntas.

Christina caminhou em direção à porta, deixando um pensativo Brandon encarando o vazio.
Antes que a mãe de Lucy pudesse sair de seu quarto, deixando-o com mil interrogações na cabeça, Brandon a chamou.

— Como os olhos de uma outra pessoa podem responder a uma pergunta?
— Acredite, meu menino, quando você encontrá-la, você saberá.

Christina saiu do quarto, levando consigo a paz de espírito de Brandon.
Ele tornou a olhar para o seu planejamento, tendo a certeza de que era aquele o caminho que precisava trilhar e tendo mais certeza ainda de que precisava trilhá-lo sozinho.
Esse aniversário seria o último onde ele faria tudo o que as pessoas esperavam dele e não o que queria de verdade. Prometeu a si mesmo que daqui pra frente tudo seria diferente. Prometeu que seus dezenove anos significariam o renascimento para uma nova vida, para um novo Brandon. Para alguém que ele sempre desejou ser.
Estava na hora de bater as asas e voar para longe do ninho seguro do qual vivera por tanto tempo.
Na cidade de Phoenix, no Arizona, a vida esperava por ele.

[Linhas Invisíveis ] Capítulo 3 – Eu Queria Pertencer, Mas Não Me Sentia Bem Aqui

Seattle, Washington.

Maio de 2002.

Ela esperou a semana inteira por este momento.
A pequena Lois podia sentir o sangue ferver nas veias antes de entrar no palco. Dentro de seu corpo havia um misto de vergonha, ansiedade, animação e medo. Sentia tudo ao mesmo tempo.
Quando as cortinas se abriram e entrou no palco, a primeira coisa que fez foi procurar sua mãe na plateia. Queria que ela visse o quanto havia se preparado, o quanto poderia ser boa em alguma coisa, já que suas notas nas disciplinas tradicionais faziam sua mãe chorar de desgosto. Mas com as artes era diferente. Com as artes ela realmente se sentia em casa e parecia que tudo fluía com mais facilidade. Queria que a mãe, pela primeira vez, sentisse orgulho da filha que tinha.
As mães das outras crianças batiam palmas, tiravam fotos, gritavam o nome dos filhos, celebravam a peça infantil da escola como se fosse um espetáculo de Shakespeare. Tudo o que mais desejava era ver sua mãe fazendo o mesmo. Mas a pequena Lois descobriria cedo demais que querer não é poder e que sua mãe não estava na plateia. E soube disso assim que avistou Eleanor, a vizinha doce e prestativa que sempre cuidava de Lois quando Anne Morrison precisava trabalhar até mais tarde.
Eleanor aplaudia a menina e tirava fotos, torcendo por ela. Gostava muito da mulher, mas ela não era quem a menina precisava. Ela não era sua mãe.
A menina tentou ignorar sua decepção e decidiu se concentrar no que precisava fazer. Em meio a toda aquela gente sorrindo, Lois usava de toda a força que ainda tinha para não se derramar em água ali mesmo, em cima de um palco, na frente de todo mundo. Sorte que era apenas umas das três florzinhas da peça infantil e não tinha muitas falas, então sua péssima atuação não fez muita diferença. Falou o que precisava falar e ninguém prestou muita atenção no desespero que expressava em seus olhos.
A peça acabou normalmente. Havia corrido tudo bem. Pelo menos para as outras crianças e para as mães orgulhosas na plateia. Para Lois, nada estava bem.
Quando Eleanor veio ao seu encontro para abraçá-la, Lois mal conseguia se mover. Sem poder disfarçar os olhos marejados, levantou a cabeça e perguntou:

— Onde está minha mãe?
— Oh, querida, ela pediu mil desculpas por não poder estar presente. – explicou Eleanor com todo o cuidado do mundo. – Não fique chateada, é por uma boa causa. Ela precisou ficar no trabalho fazendo hora extra para conseguir pagar as dívidas no banco. Anne quer te dar uma vida melhor, você sabe que… – antes da mulher acabar de falar, Lois saiu em disparada em direção a qualquer lugar. – Lois! Espera! Volte aqui!

Eleanor ainda tentou correr atrás da menina, mas as pernas de Lois ganhavam uma velocidade extra quando precisava fugir de todos e estar sozinha. Correu e correu, passando por pessoas que mal conseguia ver o rosto, até encontrar o portão das escadas. Subiu os degraus sem sequer olhar pra baixo até que todo o barulho do evento lá fora ficasse bem distante e se sentou entre as escadas do terceiro e quarto andar.
Percebendo-se finalmente sozinha, permitiu que toda a água que conteve no corpo durante a última hora saísse, liberando a profunda frustração e raiva que sentia.
Lois não queria uma vida melhor, queria apenas que sua mãe pudesse estar presente em um momento tão importante. Depois de toda a semana de ensaios, depois de ter prometido que iria à escola ver sua primeira peça, não era justo que tivesse desistido em cima da hora. Ela havia prometido e Lois havia acreditado na promessa. Por não ter mais ninguém para chamar de família, sua mãe era a única pessoa da qual precisava. Não era justo. Não era!
A menina rasgou a fantasia que ainda vestia e permaneceu no mesmo lugar por quase uma hora, chorando copiosamente, esperando que alguém viesse ao seu resgate, esperando mãos amigas que pudessem acariciar suas costas, alguém que pudesse abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Mas ninguém apareceu.
Um estrondo assustador ecoou no céu, fazendo seu corpo saltar com o susto. Olhando pela janela das escadas, viu que se aproximava uma tempestade. Lois tinha pavor de tempestades, mas naquele momento desejou que um furacão invadisse a cidade e a levasse para bem longe. Para um lugar onde ela poderia pertencer, um lugar onde não tivesse a sensação diária de sufocamento, onde pudesse encontrar uma família de verdade.
Qualquer que fosse este lugar, não importava. Ela só queria ir embora, bater suas asas e voar como um pássaro por todo o mundo, até que pudesse encontrar um lugar para chamar de seu. Um lugar onde, finalmente, poderia chamar de lar

Cidade de Nova York, Nova York.
Maio de 2002.

“Phoenix, cidade localizada na região central do Arizona, é uma das cinco cidades mais populosas dos Estados Unidos. Rodeada pelo Deserto de Sonora, a cidade possui verões muito quentes e um clima bastante árido. Um lugar repleto de cultura, vasta gastronomia, arquitetura moderna e…”

— Amor?

A voz que preencheu o quarto repentinamente fez com que Brandon fechasse o notebook como se sua vida dependesse disso.
Olhando para trás, viu o rosto feliz de Kerry. Seus olhos o olhavam como se ele fosse um precioso tesouro e Brandon sorriu um sorriso meio amarelo, sentindo-se culpado por não conseguir sentir a mesma coisa pela namorada já há algum tempo.

— Está escondendo o que aí? – perguntou Kerry, percebendo como Brandon havia fechado o notebook rápido demais.
— Nada, só pesquisando algumas coisas. – desconversou, colocando o notebook sobre a escrivaninha.
— Espero que essa pesquisa seja sobre alguma faculdade da Ivy League para você se inscrever, pois se seu pai sequer desconfiar que andou pensando em não seguir para o ensino superior…
— Isso, era exatamente o que estava fazendo – disse com toda a convicção que conseguiu. – Mas o que houve?
— Nada, não posso vir ver meu namorado? – ela se aproximou, dando um rápido beijo em seus lábios.
— Você está com cara de que tem alguma novidade para me contar.
— Eu amo o quanto você me conhece só de olhar! – ela disse com efusividade, pensando ser a única por quem seu namorado tinha tal atenção. – Mamãe vai me dar uma viagem à Paris no meu aniversário! Vou passar uma semana lá, estou tão animada!
— Você fala como se não tivesse visitado a cidade, umas… cinco vezes? – disse Brandon, revirando os olhos.
— Não importa! Paris é sempre Paris! – Kerry suspirou, já imaginando em sua cabeça todo o roteiro que iria fazer pela cidade. – Você quer ir comigo?
— Ahn, não sei. – respondeu um desanimado Brandon, coçando a nuca. – Preciso estudar para os exames finais.
— Brandon, você é um CDF que tirou um A em todas as matérias. Mesmo que deixe de fazer uma prova você ainda vai ter média o bastante para passar. – observou.
— Não é só por mim. – explicou, desviando o olhar. – Estou ajudando Tim Clark com aulas extras de filosofia e não acho justo desmarcar uma semana de estudos com ele para ir a uma cidade que já conheço de cor.
— Você realmente vai trocar uma semana romântica no aniversário de sua namorada em Paris para ajudar o estúpido do Tim Clark? – Kerry cruzou os braços, enfadada com aquela conversa.
— Não é questão de trocar, Kerry, é questão de manter a palavra. – respondeu com firmeza. – Eu dei a minha palavra que iria ajudá-lo a passar na matéria e gosto de cumprir com o que prometo.
— Eu tenho mesmo que te amar muito, porque às vezes, sinceramente, você é completamente irritante. – Kerry revirou os olhos e bufou com frustração. – Pelo menos está cobrando pelas aulas extras?
— Kerry, eu acabei de descobrir que meus pais me deixaram uma conta no banco que custeia duas faculdades em qualquer lugar do país com sobras. Por que eu iria cobrar algum dólar de um garoto que estuda em nossa escola com bolsa de estudos integral?
— Por que é o certo a fazer quando a gente faz algum tipo de trabalho, independente de quanto temos na conta? – respondeu em tom debochado, sendo incapaz de acreditar que Brandon relutava em aceitar algo tão óbvio.
— Isso não é um trabalho, eu estou ajudando um colega de classe que sempre me tratou muito bem e sofre bullying da classe inteira. – disse com toda a calma que conseguiu, tentando mascarar sua crescente irritação pelas pontuações da namorada. – Eu jamais cobraria um centavo, mesmo que não fosse filho de quem sou.
— Eu acho melhor eu sair desse quarto antes que a gente discuta mais a sério, porque, eu juro, não consigo entender como alguém como você pode existir. – ela se virou para sair, a fim de evitar começar mais uma das brigas constantes que estavam tendo nos últimos tempos. – Eu ligo mais tarde.

Kerry saiu do quarto e bateu a porta, sem querer esconder toda a irritação com o namorado que às vezes parecia ter vindo de outro planeta.
Brandon deu de ombros e deixou que ela fosse. Também já estava ficando aborrecido com o jeito de falar de Kerry e com o fato de que não conseguia mais se conectar com a namorada como o fez um dia. Cada vez mais sentia dentro de si a necessidade de estar sozinho, sem ninguém a quem dar satisfações, para conseguir compreender mais a fundo os sentimentos confusos que angustiavam seu coração desde o início do ano. Era como se uma chave estivesse virando dentro dele e não sabia o que fazer com isso. Sabia que a adolescência era um momento difícil para todo ser em qualquer parte do mundo, mas não imaginava que fosse dessa forma. Não imaginava que, a cada dia que passava, ele sentia estar se transformando em outra pessoa, em alguém muito diferente de todos naquela cidade.
Algumas ideias rondavam sua cabeça, ideias que ele não conseguia deixar de pensar um minuto sequer. Sabia que seu pai e todos os amigos da família tinham planos para ele, principalmente por ser um dos melhores alunos de sua classe, mas Brandon sentia cada vez mais dentro de si que seu caminho não era um caminho em linha reta. Sempre teve uma sensação de distância das pessoas ao redor, do círculo da alta sociedade de Nova York, e não se via vivendo uma vida como a deles. Depois de tudo o que já tinha visto e aprendido em seus dezessete anos de vida, tinha cada vez mais claro em sua mente que seu destino era muito mais do que fazer uma faculdade, arranjar um emprego comum, encontrar qualquer mulher para casar, ter filhos, se aposentar e morrer. Sabia que sua verdadeira vida não estava ali entre aquelas pessoas, naquele mesmo lugar onde havia nascido e crescido.
Como uma ave que está amadurecendo o suficiente para sair do ninho, Brandon precisava voar para bem longe, a fim de encontrar seu caminho e entender mais sobre quem era de verdade, longe tudo o que sempre lhe foi imposto como certo.
Sentando-se na cadeira em frente à escrivaninha, o rapaz abriu novamente o notebook e passou longos minutos lendo e relendo a matéria sobre a cidade de Phoenix, no Arizona. Era um lugar que ele ainda não conhecia e parecia ter tudo o que precisava. Além do mais, o nome que remetia ao pássaro mitológico trazia a sensação de uma oportunidade de recomeço, uma oportunidade de queimar tão profundamente a ponto de se tornar algo novo, algo totalmente diferente. Ainda era muito cedo para tomar uma decisão, uma vez que precisava terminar a escola e se sentir seguro o bastante para viver uma vida afastado do seu pai depois de tudo o que enfrentaram juntos. Mas se tinha algo que Brandon Reed já sabia era que seu futuro não estava em Nova York. E já estava na hora de buscar o seu verdadeiro lugar no mundo.

[Linhas Invisíveis] Capítulo 2 – Tudo o Que Sei é Que Desde Ontem Tudo Mudou

Olympia, Washington.
31 de Dezembro de 1996

Ela era a última da fila.
Os portões fecharam-se atrás de si assim que cruzou a linha de entrada. Mesmo tendo saído de Seattle o mais cedo possível, havia chegado tarde o bastante para ficar no fim de uma fila que deveria ter, no mínimo, uns 40 metros.
O céu estava carregado de nuvens cinzentas que estavam prontas para derrubarem seus pingos gelados de chuva sobre a multidão excitada.
Entretanto, isso não importava. Era a primeira vez que seu escritor favorito fazia uma turnê pelo estado de Washington e não sabia se seria a última.
Alguns com certeza a criticariam por ter viajado tantas horas com sua pequena filha nos braços apenas para conseguir uma assinatura de alguém que nem se lembraria dela depois. Ela mesmo pensara mil vezes se deveria fazê-lo. No fim das contas, decidiu que jamais saberia se não tentasse.
E agora ali estava, esperando. Sua filha de cinco anos reclamava o tempo todo por estar em pé em um lugar desconhecido, mas não ligava. Anne já sacrificara muito em sua vida em nome da pequena Lois, merecia um momento de capricho.
As horas se passavam lentamente. A fã ansiosa checava seu relógio a cada dois minutos, sentido como se o tempo tivesse estagnado apenas para implicar com sua paciência.
Pelo que dizia o panfleto deixado à sua porta quase um mês atrás, o escritor só iria autografar os livros até às seis da tarde, por isso a recomendação era de que todos chegassem o mais cedo possível. O problema é que já eram cinco da tarde e deveria ter, pelo menos, umas cinquenta pessoas à sua frente.
Suas mãos suavam, suas pernas tremiam. Mesmo de longe, já podia ver um pedacinho de seu escritor favorito, que dava bastante atenção e tratava com muito carinho a qualquer fã que se aproximava. Tirava fotos, conversava um pouco e sorria com simpatia até a pessoa ir embora.
Faltava pouco, muito pouco. Anne estava cada vez mais perto e sabia que pela primeira vez iria conseguir realizar o sonho de dizer o quanto Paul Reed havia sido importante em sua vida.
Era agora, tinha que ser.
Ou talvez não.
Mesmo que ainda estivesse um pouco longe, Anne conseguiu ver um homem engravatado se aproximar e dizer algo no ouvido de Paul Reed. E não demorou nem dois minutos para que o escritor se levantasse e pedisse mil desculpas para o restante da fila, pois tinha um voo para pegar e precisava ir embora.
Enquanto ele saía, os assistentes distribuíam alguns marcadores de livros já autografados, mas isso não era o bastante para Anne. Nem um pouco.
Ela não tinha viajado em pleno dia trinta e um para dar com a porta na cara assim. Largou tudo para conversar pelo menos cinco minutinhos com seu ídolo. E entendia que foi avisado para que não se chegasse muito tarde, em função da corrida agenda de fim de ano, mas ela fez o que pôde! E não iria sair dali sem que realizasse seu sonho.
Arrastando a pequena filha, Anne foi falando com cada segurança do local, esperando encontrar alguma solução. A maioria usou de bastante antipatia para lidar com ela, como se fosse uma mulher desmiolada e infantil. Mas, por sorte, um deles pareceu compadecer-se de sua sofrida história.

— Eu lhe peço, senhora… – começou dizendo o homem de cabelos alourados, olhando de um lado para o outro, temendo que alguém estivesse escutando a conversa. – Não espalhe o que eu vou dizer para ninguém! Se souberem que deixei vazar a informação e um monte de fãs aparecerem para atrasá-lo, eu com certeza perderei meu emprego!
— Eu juro, eu prometo que só serei eu e que não tomarei muito tempo dele! – garantiu com a voz suplicante. – Mas, por favor, eu só preciso vê-lo, só preciso fazer com que meu esforço valha a pena!
— Tudo bem… – o segurança respirou fundo e acabou cedendo aos olhos castanhos desesperados. – Ele irá sair pelo estacionamento dois, numa van preta, em frente às docas. Por favor, seja discreta!
— Muito, muito obrigada! – Anne pulou no pescoço do homem e lhe deu um beijo estalado no rosto como agradecimento. – Eu prometo que nunca vou esquecer disso! Que Deus lhe abençoe e um ótimo Ano Novo pro senhor!
— Pra senhora também e espero que consiga realizar seu sonho!

Anne correu o mais rápido que pôde para o estacionamento dois, esperando chegar a tempo. Por sorte, assim que chegou ao local, viu tudo exatamente como o segurança indicou. Um grupo de pessoas movimentava-se pelo lugar, enquanto ela observava tudo de longe, atrás de um médio portão de ferro.
A van parecia esperar o último passageiro, que com certeza era ele.
Ela esperou apenas uns dez minutos até que o momento esperado aconteceu.
Uma porta se abriu e um homem, de estatura média e alguns fios de cabelos brancos já nascendo de suas têmporas, saiu pela porta segurando um menino pela mão, indo em direção à tal van.
O coração disparou instantaneamente no peito, como se tivesse corrido quilômetros de distância. Por um momento, Anne perdeu a fala. Seu sonho estava acontecendo, bem ali na sua frente, diante de seus olhos.
Não podia perder a fala agora! Por mais que estivesse tendo um ataque por dentro, tinha que ter alguma reação para concretizar esse sonho exatamente da forma que planejou. Não tinha vindo de tão longe para travar na hora H.
Era só respirar fundo e falar. Apenas isso.

— Senhor! – Anne finalmente tomou coragem gritou o máximo que pôde, esperando chamar sua atenção. Por sorte, o famoso escritor virou o rosto e a viu por detrás dos portões de ferro com um semblante desesperado na face. – Senhor, por favor! Eu viajei quatro horas de ônibus de Seattle até Olympia apenas para vê-lo! Eu sou uma enorme fã e precisava vir aqui dizer o quanto o senhor me ajudou com seus livros nos momentos difíceis da minha vida! – ela berrava cada palavra, sem importar-se com os olhares trocados pelos seguranças responsáveis pelo local, que provavelmente estariam taxando-a de louca no momento. – Desculpe se me comporto de forma um pouco exagerada, mas eu precisava que o senhor soubesse disso!

Um silêncio profundo irrompeu o local após os berros constrangedores.
Os seguranças se entreolharam mais uma vez, não sabendo se continuavam parados ou se deveria tomar alguma providência em relação àquilo.
Paul Reed olhava diretamente para a mulher, sem qualquer reação decifrável no rosto. Todos ao redor olharam para ele, esperando algum sinal. Tudo estava pronto para sua partida e ele ainda tinha compromissos a cumprir em Nova York antes da virada do ano.
Porém, contrariando todas as expectativas, o aclamado escritor e psicólogo apenas virou o rosto na direção do responsável e falou:

— Abram o portão e deixem-na entrar, por favor.
— Está louco? – seu agente colocou a cabeça para fora da van com cara de pouquíssimos amigos. – Temos que pegar o voo de volta para Nova York daqui a uma hora e já estamos muitíssimo atrasados! Você não pode atender mais ninguém.
— E quem disse isso? – desafiou sutilmente, com sua voz calma e educada. – A mulher viajou horas e ficou esperando até agora, além de ter uma linda menininha como acompanhante. – ele olhou rapidamente para garota e sorriu, mas ela ficou bastante tímida e escondeu-se atrás das pernas da mãe. – Não posso deixá-la ir para casa de mãos vazias.
— Você quem sabe! – retrucou o agente com certa rispidez. – Se não conseguirmos chegar em Nova York à tempo para a virada do ano, você terá de explicar a todos os responsáveis de seus compromissos a razão por haver atrasado!
— Não vejo problema algum nisso. – e virando-se novamente para o responsável pelo espaço, repetiu: – Abram o portão para a senhora, por favor.

Anne Morrison achou que iria ter um ataque do coração quando os portões se abriram.
Agora já não havia nada que a separasse de um dos seus maiores ídolos.
Como uma adolescente impulsiva, tudo o que conseguiu fazer foi correr em sua direção e dar-lhe um abraço carinhoso, demonstrando-lhe o quanto estava agradecida por tudo.

— Nunca pare de escrever, por favor. – disse entre lágrimas após conseguir soltá-lo. – Você salvou minha vida inúmeras vezes com suas palavras. Passei por muitos momentos difíceis e os conselhos do senhor me ajudaram a superar. Muito obrigada por tudo.
— Uau, eu… eu nem sei o que dizer! – Paul Reed ajeitou os óculos no rosto, segurando a emoção. Não esperava esse tipo de declaração, principalmente após o que havia passado nos últimos dois anos. No fim de tudo, ele não estava errado em retomar a carreira, mesmo que sua vida tivesse ido para o túmulo junto com a sua esposa. – Agradeço mesmo por todo o carinho e dedicação!
— Se não estiver pedindo demais… – Anne tirou o seu mais novo livro de dentro da bolsa, junto com uma caneta cheia de tinta. – O senhor poderia me dar um autógrafo? Eu quero guardar essa pequena recordação do nosso encontro para sempre.
— Claro, com todo o prazer! Farei até uma dedicatória, para compensar um pouco todo o sacrifício que a senhora teve de vir até aqui para me ver! Seu nome é…?
— Anne! Com dois enes, por favor. – a mulher sorriu, enquanto esperava Paul Reed assinar o seu livro.

A pouquíssimos metros dali, uma menininha de cabelos castanhos corria e brincava sem parar. Sua mãe estava tão ocupada realizando o seu maior sonho que nem prestava atenção na filha serelepe que ria e brincava consigo mesma.
Um menino emburrado, recostado sobre a van, a observava. De braços cruzados e sem paciência nenhuma para esperar seu pai cumprir mais um compromisso, Brandon Reed a olhava com um certo desdém. Ela parecia ter uma energia grande demais para alguém tranquilo como ele. No fundo, queria ser tão alegre quanto ela, mas a verdade era que não tinha tempo para isso. Não tinha tempo para brincar, gritar e fazer coisas de criança com tantas preocupações em sua cabeça. Era verdade que seu pai parecia bem melhor, comparado ao pesadelo dos últimos dois anos, mas não podia relaxar. Brandon tinha que estar sempre atento, pois um deslize seria o bastante para fazer seu pai voltar ao estado depressivo no qual se afundou após a morte de sua mãe.
Olhando rapidamente para a fã louca de seu pai, ele percebeu como esse encontro havia feito bem pra ele. Conhecia todos os tipos de sorriso de Paul Reed, os falsos e os verdadeiros. E era a primeira vez naquele dia que ele sorria verdadeiramente.
De repente, como se algo ou alguém a tivesse chamado, a menininha parou com as brincadeiras banais e olhou para ele. Era como se tivesse sido atraída por uma luz, uma luz que apenas ela conseguia ver. Uma luz que a deixava confortável, segura, como se perto dele não houvesse perigo. Como um barco perdido que procura pela luz de um farol, a pequena Lois olhou para o garoto, desejando ficar um pouco mais perto dele. O chamaria para brincar, perguntaria se podiam ser amigos. Ela era uma menininha solitária e encontrou nos olhos dele um reflexo de si mesma.
Dez metros dividiam os dois, mas ela o olhava fixamente, como se pudesse ver através de sua alma. Brandon pensou que ela era apenas uma criança muito esquisita, mas seu olhar o intimidou a ponto de forçá-lo a olhar para baixo, a fim de não precisar encará-la mais.
Porém, uma risadinha divertida e passos pesados correndo em sua direção o fizeram levantar a cabeça de novo. E levantou o olhar a tempo de vê-la tropeçar em uma pedra e cair com tudo no chão.
Quando a pequena menina abriu a boca e começou a chorar, Brandon sentiu um aperto no peito. Nada o angustiava mais do que ver alguém chorando, era como se pudesse sentir dentro de si a dor de quem sofria ao seu lado. Era algo mais forte, algo que parecia ter nascido com ele. Mexeu imediatamente suas pernas e foi ao encontro da menina, mesmo sem saber exatamente o quê fazer.

— Onde está doendo? – perguntou com ternura, ajoelhando-se ao seu lado, atraindo os olhos avermelhados e lacrimejantes da garotinha.
— Aqui… – disse com sua pequena voz inocente ao mesmo tempo que apontava para o cotovelo ralado. – Ta “duendu”muito.
— Minha mãe tinha um remédio mágico para passar esse tipo de dor. – comentou, enquanto pegava o cotovelo da menina com cuidado. – Ela dizia que era só assoprar com cuidado que a dor passava. Posso tentar?

A menina apenas assentiu, desejando que toda aquela ardência passasse logo.
Anne Morrison e Paul Reed vieram correndo na direção de ambos assim que Brandon começou a assoprar sobre a pequena ferida da menina.
O remédio mágico não era tão mágico assim, já que a ardência continuava, mas a pequena Lois não pôde evitar em abrir um enorme sorriso para o garoto que cuidava dela com tanta atenção. Queria agradecer-lhe e fez a menção de dar-lhe um beijo no rosto, mas sua mãe rapidamente a pegou no colo e a examinou de cima a baixo, como se ela tivesse sofrido um acidente terrível.

— Você está bem, minha filha? – perguntou Anne com certo desespero, enquanto procurava por mais feridas.
— Não foi nada, senhora, ela apenas tropeçou e, ao apoiar o cotovelo no chão, ralou um pouquinho a pele, mas nem saiu sangue, nem nada. – explicou Brandon, fazendo Anne arregalar os olhos.
— E quem é você?
— Meu filho. – explicou Paul com orgulho. – Um pouco inteligente demais para a sua idade e meio avesso às pessoas. Por isso não lhe apresentei, perdão.
— Avesso? – Anne sorriu de forma singela para o menino, agradecida por ter ajudado sua filha. – Ele não parece tão avesso em relação à Lois.
— Verdade. – Paul deu dois tapinhas no ombro do menino, um pouco surpreso pela sua atitude. – Depois da morte da mãe, Brandon pareceu se isolar das pessoas. E sempre dizia o quanto não gostava e não tinha paciência com crianças. Talvez sua filha seja uma exceção. – ele sorriu para a menina que agora enxugava as lágrimas restantes.
— Desculpe pela bagunça! – pediu Anne, sentindo-se um pouco constrangida. – Minha filha não para quieta, eu vivo tendo que correr atrás dela em todos os lugares. É um verdadeiro espírito livre, não gosta de ficar parada em um lugar só.
— Eu entendo, não se preocupe. – Paul tocou o rosto da menininha, que começou a rir para ele. – Mas não brigue com ela, é apenas uma criança. E uma criança muito especial.
— Como o senhor sabe? – perguntou, surpresa com a convicção em sua voz.
— Instinto. – ele deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo. – Eu tenho um certo dom para entender as pessoas. E esse meu dom me diz que sua filha é apenas isso… especial.
— Ela é sim… – Anne deu um beijo cheio de carinho em sua filha, que a abraçou. – Ela é muito especial mesmo.
— Como é que é?! – a voz berrante saiu da van preta e vinha de seu agente irritadiço. – Paul, você já deu tudo o que sua fã queria, podemos ir agora?
— Tenho que ir, sinto muito. – lamentou-se para Anne.
— Claro, vá! Peço até perdão por ter atrapalhado o senhor! – Anne estendeu-lhe a mão e Paul a apertou com sinceridade. – Muito obrigada por toda a sua atenção. O senhor realmente merece todo o sucesso que conquistou.
— Eu que agradeço por tudo. – Paul pegou Brandon pela mão e sorriu mais uma vez para a mulher. – Feliz Ano Novo para a senhora!
— Para o senhor também, tudo de bom!

Paul e Brandon foram andando até a van, enquanto Anne seguiu parada, querendo aproveitar os últimos da imagem de seu ídolo.
Entretanto, antes de entrar na van, o menino deu uma pequena olhada para trás, desejando ver a menina pela última vez. E sorriu quando ela acenou para ele com toda a efusividade de uma criança de cinco anos.
A porta da van fechou-se abruptamente e Anne sentiu um aperto no coração. Quando a van preta finalmente tomou seu destino, ela se deu conta de que aquele era verdadeiramente o fim.

— Vamos voltar para casa, minha filha. Acabou.

E com mais um beijo no rosto de Lois, ela foi em direção à saída, pronta para tomar o caminho de volta para casa.
Anne Morrison pensava que esse era o fim. Que um ponto final havia sido posto nessa curta e bonita narrativa. Em seu coração havia um sentimento agridoce por saber que esse momento não aconteceria outra vez. Pelo menos era assim que seu raciocínio lógico pensava.
A questão é que o Universo não trabalha com a lógica linear dos seres humanos e essa não seria, nem de longe, a última vez que veria Paul Reed na sua frente. Apesar de terem vidas completamente distintas e morarem em extremos do país, a linha invisível que unia Anne Morrison a Paul Reed havia ficado ainda mais forte a partir deste encontro.
O que parecia o fim, na verdade era apenas o começo.
Mas ela só irá descobrir a grande surpresa que o destino lhe reserva daqui a dezesseis anos…

[Linhas Invisíveis] Capítulo 1 – Um Único Fio Dourado Me Uniu a Você

Seattle, Washington. 1993.

A pequena garota abriu seus olhos no meio da noite.
Tudo era escuro e assustador. Ela não tinha idade suficiente para discernir emoções, ainda não sabia colocar em palavras toda essa avalanche de sensações que circulavam por sua corrente sanguínea. Mal sabia balbuciar palavras, mal sabia quem era ou o quê era a vida.
Mas sabia o que era isso que mais tarde ela aprenderia chamar de medo.
A pequena garota saltou da cama, chorando ainda com a chupeta na boca e foi em busca de um abrigo, um abraço, um corpo para o qual voltar. Usou toda a força que tinha para abrir a porta que estava apenas encostada e gritou o mais alto que pode.
Pedia por ajuda, pedia por carinho, pedia por amor.
Mas ninguém ouvia. Ninguém veio ao seu socorro.
Porque os gritos que vinham debaixo das escadas pareciam ser maiores que os seus. Não entendia o que estava acontecendo, só sabia que a dor em seu peito só aumentava quanto mais eles gritavam, quanto mais vidros eram estilhaçados e o medo dominava o seu pequeno corpo de criança.
A menina gritava gritava e gritava.
Mas os adultos lá embaixo gritavam mais ainda.
Se ela soubesse falar direito, se ela soubesse organizar palavras no pensamento, diria “por favor, me ajudem! Por favor, eu estou aqui! Por favor, me amem! Eu preciso de vocês!”
Mas não conseguia expressar nada disso. Precisava que a ensinassem. Precisava que prestassem atenção nela. Precisava que a pegassem no colo e dissessem que tudo ia ficar bem. Que ela estava protegida e que era amada.
Só que ninguém apareceu.
Mesmo depois que uma porta foi batida e um grito de desespero foi ouvido lá embaixo, ninguém veio.
A pequena menina chorou chorou chorou até cansar.
Ela ficou sentada no corredor, olhando para o nada, esperando que alguém aparecesse e limpasse suas lágrimas.
Mas ninguém veio.

**

Cidade de Nova York, Nova York. 1993.

O pequeno garoto abriu seus olhos no meio da noite. Tudo era escuro e assustador.
Em sua mente, ele ainda podia ouvir o barulho do freio, do vidro, do choque na sua lateral direita e todo o seu mundo girar e girar num estrondo até tudo acabar no mais completo silêncio.
Já tinha idade o suficiente para saber o que era o medo, a dor, a perda.
Já tinha idade o suficiente para saber o que era a morte.
O pequeno garoto não sabia como parar a tremedeira que assomou seu corpo. Levantou-se da cama num salto e foi em busca do único amor que ainda restava, do único corpo que ainda podia chamar de abrigo.
Andou pelo longo corredor até chegar ao quarto de seu pai e bateu na porta.
“Pai?”, chamou, com a voz trêmula e desesperada. “Pai, eu tive um pesadelo.”
Ele esperou um, dois, três minutos.
Nada.
“Pai?”, tentou mais uma vez, mal conseguindo falar com sua voz embargada. “Por favor, pai, eu preciso de você”.
Mas o menino não obteve qualquer resposta.
Desistindo de encontrar o abraço que tanto precisava, o menino voltou ainda com o corpo trêmulo para o quarto. Acendeu as luzes e se enfiou debaixo do edredom, sem saber como fazer toda a tremedeira passar.
Ele chorava baixinho, chorava para si, sabendo que ninguém viria ao seu resgate, sabendo que na vida real não existiam super-heróis e que ninguém poderia salvá-lo da tragédia de sua própria vida.
De alguma forma, ele tinha que conseguir sozinho.
De alguma forma, ele tinha apenas que respirar e esperar passar.
Porque tinha que passar.
Uma hora tinha que passar.
Ele não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que não iria morrer, pois Deus não faria isso com seu pai. Deus não tiraria outra pessoa de sua vida assim, em tão pouco tempo, não depois de tudo.
(Será?)
O pequeno garoto abraçou o próprio corpo e fez uma prece para o invisível, implorando para continuar vivo, implorando para conseguir controlar esse corpo que ainda lhe parecia tão estranho, para conseguir sobreviver às lembranças que nunca mais iriam sair de sua memória.
Com o passar das horas, acabou adormecendo.
Sonhou que o super-homem entrava pela janela do quarto do seu pai, o segurava no colo, colocava a mão sobre o seu peito e então, magicamente, a figura magra e apática de seu pai se transformava num homem forte e cheio de brilho no olhar outra vez. Ele sorria e abraçava o herói, agradecendo por ter salvado sua vida.
E foi isso. Apenas uma imagem, apenas um sonho que mudaria para sempre não apenas a vida dos dois homens daquela casa, mas também a vida de todos que futuramente iriam cruzar seu caminho.
Quando o pequeno garoto abriu seus olhos no início daquela manhã de outono, ele já sabia exatamente o que precisava fazer.