Um Comportado Soldado.

soldado

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Não possuo sentimentos, não me interessa mais o conhecimento e de qualquer relação mais profunda me isento.
Uso termos pejorativos, acho tudo enjoativo e nunca me sinto entretido.
Nada me fere, nada me abala.
Nada me confunde, nada me atrapalha.
Sou um comportado soldado.
Bato continência à sociedade e obedeço determinado ao padronizado comportamento social.
Sigo meu capitão com a farda impecável e possuo uma autoconfiança invejável.
Sou descolado, nunca ignorado e sempre passo longe dos mal amados.
Consigo falar de absolutamente nada usando mil palavras e sempre danço conforme a música tocada.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Eu sei de mim.
Será mesmo?
Vamos tentar de novo.
Vamos começar outra vez.

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Sou sentimental, às vezes passional e sinto diariamente um vazio abissal que não consigo preencher com qualquer coisa normal.
Tudo me fere, tudo me abala.
Tudo me confunde, tudo me atrapalha.
Finjo-me de um comportado soldado porque não suporto mais ser desprezado, destruído, excluído, e sou obcecado com o reflexo que vejo no espelho.
Porque não enxergo, não entendo, não compreendo o motivo de não ter sido o escolhido.
Não aceito, não posso, não consigo entender porque ela o encontrou, porque ela se entregou, porque ela o amou.
Porque ela me deixou, porque ela me olvidou e me largou aqui neste mar vazio assombroso, espantoso, revolto e desolador.
Sou um soldado comportado, padronizado, obedeço a um capitão porque estou perdido em solidão, ironicamente, em uma vasta multidão de pessoas que não conseguem me preencher.
Estou desesperado.
Quero atenção, quero compaixão, mas não sei como expressar toda essa confusão.
Estou revoltado, paralisado, amargurado com todo o desprezo, com tão pouco caso.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Homem não chora, homem não se enamora ou molha a cama quando uma mulher vai embora.
Por isso, levanto a cabeça, dia após dia, e me escondo.
Escondo-me de meus sentimentos; enterrei-os em algum lugar dentro de mim e desejo nunca mais encará-los nesta vida.
Misturo-me à multidão para que o barulho dessas vozes banais e superficiais bloqueim o eco do grito desesperado de minha alma.
Comporto-me como eles para esquecer de mim.
E consigo até acreditar que sou medíocre assim.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Mas não sei de mim.
Ainda não aprendi a encarar a imagem refletida no espelho e nem sei como fazê-lo.
Ainda não aprendi a olhar alguém diretamente nos olhos, pois temos que esse alguém consiga ver o que não quero ver; o que me recuso a enxergar.
Que possam notar que possuo toda essa fragilidade tão vulgar estampada em meu olhar.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Porque eu sei de tudo.
Porque eu sei de todos.
E acredito que sei de mim.

Eu sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o soldado com um orgulho imortal.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
Cuera

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4 comments / Add your comment below

  1. QUE LINDO. *-* Sabe que eu ainda fico impressionada com tanto talento? Maravilhoso, crítico e moral. Lindo demais Cucu. Eu nunca sei o que falar para expressar o quanto fico impressionada com cada coisa que tu escreve.

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