São Tempos Difíceis Para Os Sonhadores, Mas…

São tempos difíceis para os sonhadores.
Tudo o que falo, tudo o que digo são palavras em direção a um propósito maior. Não há mais histórias, poesia, sonhos, fantasia. Agora só há espaço para luta, para o sangue, para o grito pela vida!
São tempos difíceis para os sonhadores e aqueles que acreditam num mundo melhor. Se o mundo já foi melhor antes, por que não pode voltar a ser?
Por quanto tempo mais teremos que lutar até que todos os seres humanos se enxerguem como humanos?
É muito cansativo, me sinto exausta… está difícil respirar.
Sinto falta de sonhar. Sinto falta de ver imagens em minha cabeça que falavam de amor, de perdão, de superação. Os personagens que batiam à minha porta e diziam “hey, conte minha história!”. Mas até eles se esconderam e tremem de medo. Ninguém mais quer contar histórias. Agora só o medo reina, a ansiedade, a falta de ar constante, os olhos pesados de tantas palavras envenenadas, de tantas imagens de violência e desespero.
São tempos difíceis para os sonhadores. Mas os sonhos são nossa única arma. Nosso único meio de acabar com a violência, com a opressão, com o ódio que vem disfarçado de justiça. E se há sangue, não é justiça: é vingança.
São tempos difíceis para os sonhadores, mas de alguma maneira estamos aqui.
Se não estivermos, quem estará?
Como Atlas, somos nós que sustentamos o mundo, é por nós que tudo ainda gira, que a semente ainda cresce, que a luz se espalha, que a palavra floresce. Mesmo com as pernas bambas, com as mãos trêmulas, com o coração apertado, estamos aqui. E vamos continuar…
Tenhamos força, sonhadores! Unamos as mãos, os corpos, as palavras, os sonhos!
É tempo de lutar!
Se nós não florescermos, quem florescerá?
Se nós não criarmos, quem criará?
Se nós não sonharmos, quem sonhará?
Quem sonhará, amigos? Quem sonhará…?

Branca De Neve Na Floresta.

 

Estou entrando em uma floresta, uma floresta de pedra. Ouço o barulho dos saltos sobre o chão de mármore e em meu peito apenas o silêncio. Nenhum ar entra, nenhum ar sai. Estou entrando na floresta e não consigo pensar.
Olhos me miram, me esperam e aguardam. As palavras que mantive alinhadas por toda a noite agora são redemoinhos na cabeça. Estou entrando na floresta, os saltos batem e batem, não penso e a consequência é não saber o que dizer.
Olhos me miram, muitos olhos, por todos os lugares, por todas as partes. É um pesadelo ao vivo e a cores. Olhos bravos, semicerrados, olhos que me observam e esperam, olhos que me desesperam.
Não sei o que acontece, apenas acontece. Me coloco na frente, estico a coluna tudo está bem, eu digo, tudo está bem, está bem, não, não está nada bem.
Não sei o que acontece, apenas acontece.
Não sei… Não sei.
Quero gritar, mas não faço nenhum som. Quero fugir, mas minhas pernas tremem demais para que eu possa dar qualquer passo sem cair. Mãos invisíveis apertam meus ombros, os olhos me miram, meu Deus, será que estão percebendo?
Olhos me miram e não sei, não sei!
Estou aqui e agora? Estou aqui e, meu Deus, só quero sair!
Solto uma risada (sempre o riso dissimulado!) e sigo em frente. Tudo está bem, está, se não está, vai ficar. Solto as palavras presas, jogo o redemoinho para a plateia confusa. Eles que peguem as palavras, eles que as organizem em fila indiana, que façam algum sentido disso. Eu não sei mais o que faço, apenas faço. Já não sou gente, já não sei o que sou, talvez uma máquina emitindo um som arranhado, prestes a dar defeito (acho que já dei…). Apenas termino a tarefa com sorriso de miss e uma piada impertinente.
O barulho dos saltos sobre o chão e meu peito em chamas. Saio da floresta, mas o pavor não sai de mim. Me escondo no canto, a vida segue, os olhos desviam, uma outra pessoa entra na floresta e as palavras saem em fila indiana (me pergunto se ela também está em chamas).
A vida segue, mas eu não.
Eu parei aqui.