Sejamos Todos Feministas – O Livro Que Toda Pessoa Deveria Ler

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“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.”

“Sejamos Todos Feministas”, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é um ensaio derivado de uma palestra que a escritora ofereceu em uma conferência Ted em dezembro de 2012. Chimamanda foi aplaudida de pé e a palestra fez tanto sucesso que a autora reescreveu alguns trechos e lançou uma nova versão em livro.
No ensaio, a autora aborda o tema da desigualdade de gêneros e nos mostra alguns exemplos que ela, amigas e conhecidas (com as quais todas as mulheres seguramente vão se identificar!) sofreram por causa do machismo que povoa quase todas as culturas desde o início dos tempos. Chimamanda também conta casos de amigos homens que, apesar de serem boas pessoas, também mantinham atitudes e pensamentos machistas e excludentes, devido a uma educação que ensina, tanto aos meninos quanto às meninas, que os homens devem escolher e mandar e as mulheres apenas obedecer. Esse tipo de educação não pode mais ser perpetuada nos dias de hoje.
“Precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente”, diz a autora em um dos trechos do livro. Não podemos querer que o conceito de uma sociedade mude se continuamos a educar as nossas crianças da mesma forma com que nossos pais nos criaram. Se ninguém diz a uma menina que ela não deve se sentir inferior por causa de seu gênero ou se ninguém explica a um menino que uma garota tem os mesmos direitos e poderes que ele, não podemos esperar que eles se tornem adultos bem resolvidos e realizados.
“Sejamos Todos Feministas” é uma introdução do que é realmente o pensamento feminista. É um livro que pode e deve ser livro por qualquer pessoa, de qualquer idade, quer você se sinta homem ou se sinta mulher, quer você seja quem seja. O livro possui apenas 63 páginas de linguagem fácil e clara, seus olhos não irão ficar cansados e seu cérebro irá agradecer por poder absorver grandiosas informações.
O livro é apenas um ensaio pequeno e por isso não entra em questões mais profundas, que devemos procurar futuramente para nos inteirarmos mais sobre o assunto. Mas é uma enriquecedora introdução, principalmente para aqueles que ainda possuem ideias tão tortas e desinformadas sobre o que é o feminismo.
O feminismo não é o contrário do machismo, não é pregar uma troca de papéis onde as mulheres devem mandar e controlar o mundo enquanto os homens apenas precisam obedecer. Feminismo é libertar-se da ideia de que somos um gênero mais fraco, menor e incapaz de fazer e realizar as mesmas coisas. É ouvir o outro lado, é se interessar e admirar as diferenças entre os sexos e respeitar-nos acima de tudo como iguais. Somos todos seres humanos e queremos um mundo melhor para nossos descendentes. Comecemos por dar o exemplo.
O livro físico não custa mais do que quinze reais e a cópia digital grátis pode ser encontrada na Amazon.
Leia o livro, absorva as palavras, reflita e então permita que este pequeno livro chegue às mãos do maior número de pessoas possível. Espalhar palavras e ideias que abram a cabeça das pessoas é nosso dever como individuo em uma sociedade. Se queremos mesmo um mundo melhor, façamos por onde.
Parafraseando Mário Quintana, livros são capazes de mudar pessoas e pessoas são capazes de mudar o mundo. Acredito que “Sejamos Todos Feministas” seja um destes livros.

Literatura Para Quê?

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À literatura, bem como às outras formas de arte, não é conferido valores práticos. Entretanto, a necessidade do ser humano pelas instâncias artísticas é constantemente defendida e colocada como essencial. Contudo, sem uma finalidade utilitária, o motivo pelo qual a literatura é concebida como fundamental ao homem pode parecer confuso.
Partiremos do princípio de que o termo “literatura” refere-se ao uso estético da linguagem; da utilização da palavra com finalidade artística. Justamente por se apoiar na língua para a construção de seu significado, a literatura não se prende unicamente à percepção sensorial, como coloca Jouve (2012), e por isso se difere de outras instâncias artísticas. A reflexão por ela provocada apresentará um caráter ruminante. Sendo essa, talvez, a maior força da literatura enquanto arte.
Em consonância, a possibilidade reflexiva da literatura é coloca por Antonio Candido, em 1972, na palestra A literatura e a formação do homem, como essencial para o desenvolvimento humano. Candido defende que, através de três funções principais, a literatura possui caráter humanizador na formação do indivíduo. Sendo concebida “como algo que exprime o homem e depois atua na própria formação do homem” (CANDIDO, 1972, p. 82).
A primeira função, a função psicológica, se relaciona à necessidade humana da ficção e da fantasia. O que é defendido por Candido é a impossibilidade de o Homem viver todos os dias de sua vida sem imaginar, devanear e contemplar a fantasia. A literatura seria, então, uma das modalidades mais ricas de fantasia, que ao se relacionar ao mundo real cria realidades possíveis. Tais realidades, Candido defende, atuam no processo de formação do homem.
Quando, posteriormente, se debruça sobre esse assunto no clássico O direito à literatura, Candido acrescenta que “talvez não haja equilíbrio social sem a literatura”, isso se deve ao fato de que atua do inconsciente para o consciente. “A literatura confirma e nega, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas” (CANDIDO, 1988, p. 24).
Tal função defendida por Candido pode ser associada à ideia de alteridade. O principio da alteridade, como defende o professor Mário Sérgio Cortella (2005), é enxergar o outro como o outro e não como um estranho que nos amedronta e se faz nosso adversário. Nessa perspectiva, a literatura, através da função psicológica, dá meios àquele que a lê, para a compreensão do outro e percepção de que dele faz parte.
A segunda função apresentada por Candido é a função formadora da literatura. A função formadora da literatura, adverte o autor, não se refere ao ideal pedagogizante que percebe a literatura como um meio para repassar ideologias. Mas atenta para o fato de que a literatura não é uma experiência tranquila, forma o ser que a lê porque atua como a própria vida (da qual é reflexo), desestabilizando a realidade com as mais diversas ambivalências. O autor ainda defende que a literatura não corrompe nem edifica, mas faz viver e, assim, humaniza.
Por fim, em razão desse contato com as mais diversas vivências, Candido nos apresenta a terceira função da literatura, a de conhecimento do mundo e do ser. Nessa relação com diferentes realidades, a literatura possibilita ao leitor um novo conhecimento de si e do mundo que o cerca. O que está sendo defendido, em sumo, é que, através da leitura de uma determinada obra, o leitor pode entrar em contato com uma realidade completamente diferente da sua e conhecer facetas sobre sua própria personalidade e humanidade que não conhecia.
Alguns anos depois, ratificando e aprofundando os argumentos levantados em A literatura e formação do homem, em O direito à literatura, Candido permanece em defesa da literatura para o processo formativo do homem e vai além: defende que a literatura é um direito inalienável. Partindo do ponto de vista do sociólogo, e também padre, Louis-Joseph Lebret, que classifica a existência de bens compressíveis e incompressíveis, a literatura seria um direito que não pode ser negado a ninguém. A justificativa do autor para assim classificar a literatura está no fato de que os bens incompressíveis não devem ser apenas aqueles que asseguram a integridade física do ser humano, mas também aqueles que asseguram a integridade espiritual do ser humano.
A literatura, entre outras manifestações artísticas, se configura, então, como “uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza” (CANDIDO, 1988, 35).
Além da função humanizadora da literatura, o direito à literatura também se dá porque, aos indivíduos, deve ser garantido o conhecimento de seu o patrimônio artístico e cultural. Em defesa desse aspecto, em consonância com Candido, Jouve (2012) salienta que o estudo das obras literárias e a discussão acerca delas atualizam as relações entre a obra e o universo cultural de forma sincrônica, pois o texto traz em si os pilares de nossas representações; e diacrônica, pois o texto se configura como uma herança cultural que a transmite e a reavalia. Por essas razões, o texto literário contribui para o desenvolvimento crítico daquele que o lê, bem como sua capacidade de análise e reflexão.
A literatura se apresenta, tal qual outros domínios artísticos, como um direito não constitucionalizado, porém inalienável para a formação do cidadão. Não é sem motivo que, como nos lembra Vieira (2014), nos momentos em que houve, durante o caminhar da história, ideologias que tolhiam o pensamento crítico e visavam uma concepção de pensamento totalitários, a literatura era tida como perigosa e chegou a ser proibida.
Tal proibição se deve ao fato de que a literatura, bem como outras expressões artísticas, concede ao homem os meios para a construção de um mundo possível. Ao visitar esse mundo possível, que só é possível por causa das palavras, através de uma construção estética, o indivíduo pode se colocar no lugar do outro, perceber outras realidades e, a partir do momento em que a ficção e a realidade entram uma no domínio da outra, há o espaço para a reflexão.

A literatura duplica o mundo no sentido mais amplo que essa palavra pode encerrar: a duplicação de homens e mulheres, de ideias, de cidades, de mitos, de deuses, dos sentimentos, dos pecados, das virtudes. Não apenas duplica: duplica ao tempo que promove o discurso, o debate e o contraditório (VIEIRA, 2014, p. 71).

Assim, a arte literária se configura como um bem imprescindível para a sociedade por seu caráter libertário e confrontador. Ferramenta imprescindível para estabelecer uma cultura que olhe para o outro como companheiro, a não garantia do acesso por parte do homem aos bens artísticos seria nociva para uma sociedade saudável.

Fontes:

VIEIRA, Anco Márcio Tenório. A literatura como espaço do discurso, do debate e do contraditório. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 55-76.
VIEIRA, Anco Márcio Tenório. A literatura como espaço do discurso, do debate e do contraditório. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 55-76.
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In:
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 17-40.

Não Tenha Medo De Ler Clássicos.

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Conheço muitas pessoas que nunca pegaram num livro considerado clássico simplesmente por medo. Costumam dizer: “mas é muito difícil!” ou “mas é muito chato”, sendo que o máximo de contato que tiveram com um clássico foi um resumão que pegaram na internet na época do ensino médio. E toda essa resistência que atravessa gerações acabou por criar um mito de que clássicos são bichos de sete cabeças sendo lidos apenas por intelectuais com óculos fundo de garrafa numa sala escura e poeirenta.
Eu não faço parte da corrente que acredita que os bestsellers deveriam ser erradicados da face da Terra. Pelo contrário, acho que eles são necessários também para a formação de novos leitores. Todo mundo precisa começar de algum lugar, aos poucos, passinhos de bebê, e os bestsellers geralmente são a opção mais buscada. Entretanto, penso que existe um problema quando você já é um leitor voraz há anos, mas continua apenas nos bestsellers, sem buscar algo novo. Creio que a maioria das pessoas não têm essa noção, mas os bestsellers possuem mais ou menos um mesmo padrão de histórias, de narrativas, de desenvolvimento de personagens. É como se você estivesse comendo macarrão há anos, apenas mudando de espaguete para miojo, de miojo para talharim, e assim sucessivamente.
A literatura é um universo, é infinita, e é necessário explorar todas as suas possibilidades. E é aí que entram os clássicos.
Percebo que a principal barreira que um leitor de bestseller encontra ao pegar em um clássico é a linguagem. Pode ser um choque a princípio sair da narração simples de um narrador que fala para o seu tempo, como se fosse um melhor amigo contando uma história, para algo melhor elaborado, fora de sua época, poético e muito bem pensado. Contudo, dentre os clássicos também existem níveis de dificuldade. Você não precisa começar por Machado de Assis ou Dostoievski. Jane Austen pode ser uma boa opção, principalmente para os românticos. Arthur Conan Doyle também é uma boa pedida para quem curte romances policiais. Ou seja, existe o clássico perfeito para cada um. Você apenas precisa perder o medo e encontrá-lo em alguma estante por aí.
Talvez pela pressão das escolas de enfiarem clássicos complicados para alunos que mal pegaram num livro na vida inteira tenha ajudado na rejeição que a maioria das pessoas têm. Mas a partir do momento em que o preconceito é superado e você começa a se familiarizar com o estilo dos livros, você vê tudo na sua vida mudar. Clássicos não são clássicos à toa. Eles atravessaram séculos e atingem pessoas de culturas e gerações diferentes porque muitos mudaram a forma de pensar de uma sociedade, trouxeram reflexões importantes sobre assuntos polêmicos e tudo isso aliado à uma bela história e uma narração muito bem trabalhada e pensada. Clássicos são essenciais e toda pessoa apaixonada por livros deveria lê-los.
Por isso, não tenha medo de ler clássicos. Não é esse monstro que criaram para você na escola ou num grupo de amigos. Ache o seu gênero favorito, procure o livro que mais se destacou e marcou época nesse meio e vá em frente! Se você já é um leitor voraz, mesmo que seja de bestsellers, não vai encontrar toda essa dificuldade em provar um pouquinho do gosto de um clássico. É só questão de começar.

#62milliongirls – Deixem As Garotas Aprenderem.

Uma campanha iniciada pela primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, tem ganhado bastante destaque nas últimas semanas. “Let Girls Learn” (deixe as garotas aprenderem, em português) procura colaborar com a educação de meninas do mundo todo, principalmente dos países menos favorecidos, onde em torno de 62 milhões de garotas estão proibidas ou não têm direito à uma educação formal. Garotas que com 12 anos são obrigadas a se casar com homens de 40 anos, meninas de 9 anos que já cuidam da própria casa como adultas e outras que são obrigadas a abandonar a escola tão cedo para fugir dos problemas com as guerras civis de seus respectivos países, existem e o número desta triste estatística só faz aumentar. É uma realidade chocante para nós que vivemos em cidades grandes e em um país “laico” saber que isso está acontecendo, agora, em alguma parte do mundo. Mas está. E é uma situação gravíssima, pois as barreiras de fanáticos religiosos e ditadores são muito difíceis de atravessar. Mas não é impossível.
A campanha da primeira dama procura fornecer, além de recursos financeiros, um avanço maior da tecnologia nesses países. As pessoas podem ajudar com doações, se tornando voluntárias ou repassando esta mensagem, como eu e muitos artistas estão fazendo em suas redes sociais (como Chris Martin na foto abaixo).

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O caminho para o desenvolvimento é a comunicação entre os povos e uma educação igualitária para todos os sexos. O abuso mental e físico dessas meninas precisa parar. E elas precisam saber dos próprios direitos. Elas precisam ter uma educação.
Na escola, eu aprendi a questionar e refletir sobre tudo o que me era passado. 62 milhões de garotas não têm essa chance.

Para conhecer mais sobre a campanha e saber o que mais pode fazer para ajudar, visite o site oficial: http://62milliongirls.com/

Prosa E Verso: O Fim Do Caderno Literário Do Jornal “O Globo”.

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No último sábado, o caderno Prosa e Verso, do jornal carioca O Globo, foi encerrado de forma repentina e melancólica. O que era antes um espaço para divulgar e falar sobre Literatura, foi incorporado ao Segundo Caderno, uma outra seção do jornal, com uma “honrosa” folha frente e verso. O principal colunista do carinhosamente chamado Prosa, José Castello, anunciou sua despedida em seu blog do mesmo jornal, criticando severamente a decisão do fechamento de um espaço que podia não ser mais o popular – e, sejamos francos, a literatura não é o assunto mais popular em nenhum setor deste país -, mas que tinha seus leitores e aprendizes fiéis (leia o seu desabafo e despedida aqui).
Eu era uma dessas aprendizes. Assinava (e ainda assino, porém não sei por quanto tempo mais) O Globo aos fins de semana apenas para ler o caderno, que sempre me ajudou muito na evolução como escritora e como leitora também. Através do Prosa conheci diversos autores e pensadores, que mudaram a minha forma de escrever e pensar o mundo.
A cada sábado o caderno trazia um novo jeito de ver a política, a filosofia, a religião, o feminismo, os direitos das classes mais pobres e todos os assuntos realmente importantes, através de entrevistas inteligentes, matérias e resenhas muito bem trabalhadas, além de anunciar concursos e cursos no âmbito da psicologia, literatura e filosofia. Porém, a partir de agora, nada mais desse conteúdo riquíssimo voltará a ser o mesmo.
Uma folha frente e verso num dos jornais mais populares do país para falar de literatura de um jeito crítico e como forma de evolução de pensamento não é o bastante. Uma folha frente e verso para formar leitores num país onde se lê em média de 1 a 2 livros por ano, não é o bastante. E o fechamento do caderno só demonstra o quanto os livros e a literatura no Brasil estão cada vez mais sendo desprezados e apequenados. É uma vergonha. Mais uma pra coleção da nossa estimada pátria.
Quem não tem amor ou não entende da importância do assunto pode pensar que num momento de crise como a qual estamos vivendo é muito mais importante falar sobre Dilma, sobre Operação Lava-Jato, Cunha, ou o declínio cada vez mais vertiginoso da economia, mas a literatura e a educação deveriam ter tanta importância quanto. Uma olhada na História mundial basta para saber que a identidade e o valor de uma nação não é feita somente de política e economia, mas sim de sua cultura e de suas criações que devem crescer e propagar-se continuamente. E a nossa anda cada dia mais desprezada.
Que o fechamento do caderno Prosa e Verso seja apenas um incentivo para que nós – leitores, escritores, amantes da literatura etc. – continuemos lutando para que nossa cultura e literatura não se perca. Que mesmo através de simples blogs e sites como este aqui a nossa parte seja feita, por menor que seja, para continuar divulgando e espalhando por todos os cantos, não só a literatura em si, como também o seu enorme valor em um país que ainda não entendeu o livro e o pensamento crítico como forma de evolução primordial para uma sociedade.
Se as letras e o pensamento crítico desaparecerem do nosso cotidiano, o que será de todos nós?
Eu não quero nem imaginar a resposta.

“O Poema”, por Ivan Junqueira.

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Retirado do caderno Prosa e Verso do jornal O Globo

Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele é que se escreve e que se pensa
como um polvo a distender-se, lento
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo o que aos poucos se relembra:
um rosto, uma paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã adentro.

Ele se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, estrito, minudente
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio

As palavras com que em vão o invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele é que cabe todo o engenho,

não a mim, que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir-se escrevendo.

 Ivan Junqueira foi jornalista, poeta, tradutor e crítico literário brasileiro. Morreu no dia 3 de jullho de 2014, aos 79 anos.

Três Livros Teóricos Que Eu Indicaria Para Qualquer Um.

Hoje eu trouxe uma seleção de livros que eu li pensando na minha formação enquanto estudante de Letras, mas que foram além da teoria e me ajudaram a crescer como leitora de poesia, leitora do mundo e leitora de livros como um todo. Pensando que eles têm uma linguagem bastante acessível e que eles podem fazer por vocês o que fizeram por mim, aqui vão as minhas indicações.

O Arco e a Lira – Octavio Paz.  Editora: Cosac Naify| Páginas: 320|
Este livro é uma delícia. Qualquer pessoa que goste de poesia pode se encantar com o lirismo e a doçura presentes nas palavras de Octavio Paz. Ele escreve de uma forma tão próxima do leitor que, ao ler, você não se sente lendo um livro teórico. Eu gosto de brincar que ele fez poesia em prosa para falar de poesia em verso. Eu ainda não terminei de ler o livro, mas, sempre que eu sento para lê-lo, sou só sorrisos e indico para qualquer um que goste de ler poemas, você passará a entender melhor algumas nuances da poesia. Depois de ler esse livro, eu me tornei uma leitora de poema mais atenta e apaixonada, por isso a indicação.

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Do Grotesco e do Sublime – Victor Hugo. Editora: Perspectiva| Páginas: 101|
Esse livro é bem fininho, porque na verdade ele é o prefácio de Cromwell, eu li para uma disciplina na faculdade e terminou que ele se tornou um dos meus livros prediletos. O motivo? Victor Hugo escreve de forma simples e poética. O livro conta o desabrochar da poesia desde a criação de todas as coisas fazendo uma comparação com o desabrochar do homem. O primeiro homem, nos diz Hugo, é o primeiro poeta e sua poesia é lírica. Com o passar do tempo, as sociedades se criam, o homem sente a necessidade de contar os seus feitos, então, nos deparamos com a epopeia. E, por fim, com o cristianismo, essa religião que prega a verdade e traz a ideia de que temos uma alma a ser salva, nasce o drama. E o drama deve equilibrar o Grotesco e o Sublime, deixando-os em harmonia: é o nascimento da sociedade moderna. Mas o ponto alto do livro está na tessitura do texto, na qualidade da obra, na forma tão bela que Hugo encontrou de contar a nossa história literária. É um livro obrigatório para estudantes de Letras e um livro delicioso para os que apreciam literatura.

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A Literatura em Perigo – Tzvetan Todorov. Editora: Difel| Páginas: 96|
Todorov começou sua carreira de teórico literário como um estruturalista e este livro é um pouco da sua “carta de redenção”. O livro tem um tom bastante pessoal, ele conta a história de amor entre ele e a literatura e os motivos que o levaram a seguir o caminho que seguiu e, ao fazê-lo, conta a sua angustia com o tratamento dado a literatura hoje em dia. O livro tem um tom incrivelmente apaixonado, por isso que acho que pode agradar qualquer um que aprecie essa arte, também é um presente para os professores de literatura em formação (como eu) e, para aqueles que sempre se perguntaram qual a serventia da literatura e qual a utilidade de estudá-la enquanto disciplina escolar, a leitura o livro cai como uma luva. Foi uma das leituras mais agradáveis que tive em muito tempo como estudante de Letras e como uma leitora compulsiva que acredita que o mundo pode ter solução quando nós deixamos que os livros nos mudem.

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 Para mais postes como este, visite o Pseudocríticas.

A Voz de Virginia Woolf.

“Palavras não existem em dicionários. Elas existem em nossas mentes.”
– Virginia Woolf

Virginia Wolf foi uma das mais importantes escritoras inglesas. Foi uma grande influente do modernismo inglês e hoje considerada como símbolo feminista (leia um pouco mais sobre sua história aqui). Virginia possuía uma narrativa brilhante e um jeito de lidar com as palavras que poucas vezes antes vi em qualquer escritor. Mais do que apenas contar uma história, ela entendia as letras e sabia manuseá-las como ninguém.
Este vídeo é o único registro da voz de Virginia Wolf, gravado para a rádio BBC em 1937, quatro anos antes de sua morte. Nele, Virginia lê um trecho de seu ensaio intitulado “The Death of the Moth and Other Essays”. A gravação, obviamente, é toda em inglês, mas creio que até aqueles não familiarizados com a língua inglesa podem desfrutar de tal relíquia e dar uma voz ao rosto sempre estampado na maioria das edições de seus livros.

Se você não entendeu alguma parte do vídeo, leia a transcrição do texto completo aqui!

 

A Essência Do Livro.

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Escrito por Karine Pansa, Presidenta da Câmara Brasileira do Livro. Texto publicado no jornal O Dia.

No transcurso dos 50 anos do golpe militar de 1964, é fundamental reafirmar os valores da democracia e dos direitos individuais e coletivos. Importante relembrar que a reconquista da liberdade resultou na mobilização cívica e ordeira da população brasileira, marcadamente na Campanha das Diretas Já!, em 1984, cujo 30º aniversário devemos comemorar com alegria e a certeza de que se tratou de um dos mais importantes movimentos políticos de nossa história.
Para os empresários e profissionais que atuam no mercado editorial, a democracia, sintetizada na liberdade de expressão, é a principal essência do trabalho. Livros, sejam na sua forma tradicional e imortal de papel, ou nos contemporâneos leitores eletrônicos, incluem-se entre as principais mídias do conhecimento. Trata-se de algo que informa, ensina, amplia a cultura, diverte, propicia análises da realidade e contribui para que as pessoas tenham visão de mundo mais crítica, consciente e engajada.
Nada disso é possível sem plena liberdade de expressão. Calar o livro, assim como a imprensa, de maneira como ocorreu no Brasil e em tantas outras ditaduras, é um dos maiores atentados à civilização e ao direito inato do ser humano de aprender, saber, informar-se e desenvolver juízo de valores sobre os seus espaços e seu ambiente social, econômico e político. Assim, na lembrança dos 50 anos do golpe que ceifou todos esses direitos dos brasileiros, é pertinente ressaltar a liberdade de expressão como essência do livro e prerrogativa inalienável de todos os que trabalham para que a leitura seja um dos vetores do desenvolvimento.
A Câmara Brasileira do Livro vem trabalhando muito para ampliar o acesso da população à leitura. Nesse sentido, realiza a Bienal Internacional do Livro em São Paulo. Também apoia feiras pelo país e, em todas as frentes, estimula e promove o hábito de ler, como ocorre com o Prêmio Jabuti, o mais importante do setor editorial brasileiro, que coloca o livro nacional num elevado patamar de visibilidade perante a opinião pública.
Reiteramos a crença de que o livro, livre como pensamento humano, contribuirá cada vez mais para que os brasileiros consolidem uma nação economicamente desenvolvida, socialmente justa, ambiental e politicamente correta, pluralista, tolerante e avançada no exercício e no equilíbrio entre direitos e deveres. Por isso, reverenciamos a democracia, a maior conquista de nossa sociedade!

Por Que Nosso Futuro Depende de Bibliotecas, de Leitura e de Sonhar Acordado.

Neil Gaiman

Neil Gaiman é um escritor inglês de bastante sucesso. Seus livros são vendidos ao redor do mundo e algumas de suas obras já se tornaram filmes. Ele já até foi homenageado pelo site como “Escritor da Semana”.
Uma das características de Neil Gaiman é o seu incansável incentivo à literatura. Gaiman roda ao mundo para palestrar sobre tudo que envolve letras e leitura. Escreve artigos, discursa em formaturas de universitários e até dá aulas de escrita criativa em uma faculdade nos Estados Unidos. Como todo amante da palavra, Neil Gaiman sabe o quanto um livro, o quanto a educação faz toda e completa diferença na vida de um ser humano e de seus país.
Em uma palestra à Reading Agency, um projeto britânico independente de caridade que ajuda crianças e adolescentes carentes no incentivo à leitura, Neil Gaiman fala sobre a importância das bibliotecas, conta um pouco sobre como o seu amor para com os livros se iniciou e faz um discurso brilhante sobre a importância do incentivo à leitura, principalmente em relação às crianças.
É um texto grande e a tradução não foi feita por mim ( a belíssima tradução foi feita pela Dora Steimer, do blog Index-a-Dora).
São palavras para incentivar, não só àqueles que estão se iniciando no mundo literário, mas também a nós, que participamos deste mundo e temos a obrigação de divulgarmos cada vez mais essa parte tão rica e imprescindível de nossa educação.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.
Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.
Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.
Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.
Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.”