[Linhas Invisíveis] Capítulo 4 – Um Nascer do Sol Na Palma de Sua Mão

Seattle, Washington.
21 de Outubro de 2003
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— Mãe, eu não quero ir! – resmungou a pequena Lois, enquanto era arrastada pela mãe através das ruas movimentadas do seu bairro. – Toda vez que você vai até a sapataria do sir Stephen você nunca mais sai de lá!
— Não reclame, Lois Morrison, eu preciso consertar esse sapato, pois é meu preferido e não estou podendo gastar dinheiro com um novo. Você pediu para que passássemos mais tempo juntas e agora está reclamando?
— Passar tempo juntas significa realmente fazer algo, não te acompanhar até o sapateiro. – Lois cruzou os braços e bufou, irritada.
— Você pode ficar na sorveteria ao lado então, já que está impaciente demais para esperar. – Anne tirou uma nota de cinco dólares do bolso e entregou para a menina. – Vá, compre aquele sorvete de chocolate que você ama e não enjoa nunca e me espere no banquinho ali do lado de fora. Não devo demorar.
— Sei… – respondeu a menina, tendo certeza de sua mãe iria demorar, como sempre.

Assim que chegaram no endereço certo, Anne Morrison entrou na sapataria e Lois foi correndo buscar o seu amado sorvete de chocolate. Como sua mãe havia pedido, a menina de cabelos castanhos sentou-se no banquinho do lado de fora da sorveteria e devorou o sorvete em poucos minutos. Para a ansiosa garota, sua mãe estava demorando demais e já não aguentava mais esperar.
Anne Morrison não precisou verbalizar qualquer palavra para Lois saber que as constantes idas ao sapateiro tinham menos a ver com os sapatos e mais com a beleza do sir Stephen. Em sua imaginação fértil, Lois imaginou que sir Stephen se apaixonaria por sua mãe, se casaria com ela e ambos iriam morar em alguma cidade bem distante, deixando a menina sozinha em Seattle, entregue à própria sorte. Em seu íntimo, Lois desejava que sir Stephen fosse casado e que não tirasse a única pessoa que ainda estava ao seu lado.

— Olá, querida! – Lois virou o rosto e viu uma mulher de sorriso brilhante e olhos verdes sentar-se ao seu lado. – O que uma menina bonita como você faz sozinha neste lugar?
— Não estou sozinha. – respondeu, sentindo um pouco de medo da desconhecida. – Minha mãe está na loja aqui do lado consertando um sapato. Estou esperando por ela.
— Não tenha medo, eu não vou te fazer mal. – disse a mulher ao perceber a tensão no corpo da menina.
— Isso é o que as pessoas que querem sequestrar crianças costumam dizer… – respondeu Lois em tom afiado.

A mulher soltou uma gargalhada e Lois reparou como o som que saiu de sua boca tinha uma melodia especial, quase como uma canção. Era a primeira vez na vida que ouvia alguém rir em forma de música.

— Você é muito esperta para uma menina de… – ela parou um momento para analisar a idade pela sua aparência. – 13 anos?
— 11, quase 12.. – respondeu Lois. – Sou mais nova do que aparento ser.
— 11, quase 12, certo… – a mulher continuava analisando Lois como se pudesse ver através dela. – Eu gostei de você. Parece ser uma menina muito especial, porém um pouco solitária.
— Eu tenho muitos amigos. – mentiu Lois, sentindo-se invadida, de certa forma, pelo olhar da mulher. – Você não sabe nada sobre mim.
— Desculpe, não quis ofendê-la. – respondeu com doçura no tom de voz. – Um solitário reconhece outro solitário apenas com um olhar. Eu olhei para você e encontrei uma alma semelhante, apenas isso. Meu nome é India. – a mulher lhe estendeu a mão e Lois retribuiu ao cumprimento. – Eu sou uma cigana. Você sabe quem são os ciganos?
— Acho que já vi algo sobre vocês em filmes… – respondeu Lois, sentindo-se um pouco mais curiosa em conhecer a mulher que agora já não lhe dava tanto medo.
— Se tudo o que conhece sobre a gente você viu em filmes, então não nos conhece de verdade. – respondeu. – Somos apenas pessoas como você, como todos, que procuram encontrar um lugar no mundo da nossa própria maneira. Mas nos julgam das piores coisas e nos colocam à margem da sociedade. As pessoas não sabem lidar com o diferente e isso é lamentável.
— Eu sinto muito, India. – respondeu Lois com sinceridade, compadecendo-se com ela. – Ser julgado é uma coisa terrível. Eu sou julgada na escola e não gosto. Então entendo o que está sentindo.
— Obrigada, querida. – India sorriu e Lois pode jurar que viu seus olhos brilharem como se fossem esmeraldas. – Conversar com você no dia de hoje me fez muito feliz. Sabe, as pessoas passam pela gente e nos desprezam por todo o tipo de razão. Às vezes só queremos conversar e nos conectar, mas conseguir essa abertura não é fácil. Obrigada por ter me permitido sentar aqui e conversar um pouco com você. Seu coração é muito bonito.

Lois ficou sem saber o que dizer, pois não estava acostumada a ser elogiada. Sua mãe sempre encontrava uma razão para criticá-la e na escola ela não era a garota mais popular, nem entre os colegas e muito menos entre os professores. Não sabia como India tinha descoberto, mas ela tinha razão. Lois era mesmo uma pré-adolescente solitária que, assim como a cigana, também estava tentando encontrar o seu lugar no mundo.

— Quero te dar um presente. Abra sua mão direita. – pediu India. – Pode confiar em mim. Você vai gostar.

Lois pensou duas vezes se deveria aceitar presente de desconhecidos, mas sua curiosidade falou mais alto. Fazendo o que a cigana havia pedido, Lois abriu sua mão.

— Geralmente eu cobro por esse tipo de serviço, pois é meu ganha pão e comer está bem difícil ultimamente. Mas você me deu o presente de sua atenção e quero retribuir com uma leitura de seu futuro.
— Você consegue ler mesmo o meu futuro? – perguntou Lois, fascinada com a possibilidade de saber como seriam seus próximos anos.
— Sim e não. – respondeu India. – É mais uma direção. O futuro, na verdade, é a gente que faz. Mas acredito sim que nossos caminhos estão na palma de nossas mãos. Literalmente.

Segurando delicadamente na mão da menina, India começou sua leitura.
Olhou com atenção cada linha, passando o indicador por toda a sua palma, como se estivesse realmente vendo algo em todas aquelas linhas que para Lois eram apenas marcas que todos os seres humanos tinham.

— Hmm… Interessante. – disse India, para então ficar longos segundos em silêncio.
— O que foi? – perguntou uma curiosa Lois.
— Existem muitas linhas desencontradas… – explicou a cigana, sem tirar os olhos da mão de Lois. – Seu caminho não será reto, não será um caminho comum como o da maioria das pessoas. Você vai precisar andar muito, por diversos lugares, até encontrar conseguir encontrar aquilo que um dia chamará de lar.
— Mas meu lar é aqui. – retrucou Lois, sentindo-se confusa. – Com a minha mãe.
— Sim, querida, e ainda será por alguns anos. Mas não será para sempre. Você é muito maior do que essa cidade. Você é muito maior do que pensa ser.

Lois seguiu sem entender nada do que a cigana queria dizer. Sempre se sentiu pequena demais para tudo, como se estivesse limitada por algo maior e não pudesse se desenvolver. Passava a maior parte do tempo buscando obsessivamente a atenção de sua mãe enquanto tentava sobreviver ao tédio que sentia na escola. Como alguém que tinha uma limitada carreira escolar e possuía um número restrito de amigos poderia ser alguém nessa vida?

— Você vai cruzar algumas fronteiras até chegar a este lugar. – disse a voz de India, cortando os pensamentos de Lois. – Talvez até internacionais, não sei. Sua missão nessa vida é atravessar fronteiras, querida. Se você seguir o chamado de seu coração, não importa o quão louco isso possa parecer aos olhos de outras pessoas, eu garanto: você vai encontrar tudo o que sempre sonhou.
— Mas para onde eu tenho que ir? Quais fronteiras eu preciso cruzar?
— Isso você vai ter que descobrir sozinha. – respondeu India, fechando a mão de Lois entre as suas. – Você passará por alguns caminhos que farão com que você duvide, com que você queira desistir até de si mesma. Mas não desista, não volte atrás. Quando você sentir que chegou o fim, você vai entender que era apenas o início de algo muito bonito. Seus encontros serão muito significativos e você vai mudar vidas sem saber disso.
— Eu não estou entendendo nada… – respondeu Lois, com lágrimas nos olhos. – Como vou saber qual é esse lugar? Aliás, quando eu vou saber que preciso ir? Não quero deixar minha mãe sozinha.
— Como eu disse antes, ouça tudo o que seu coração te disser. Ele vai indicar quando será o dia e a hora exata de partir. Eu olho para você e vejo um belo pássaro, um pássaro de asas vermelhas, como se fossem de fogo, pronto para bater as asas e embelezar a vida de todos que tiverem a sorte de cruzar seu caminho. Eu olho para você e vejo uma fêni…
— LOIS! – um grito interrompeu a conversa, fazendo com que as duas saltassem de susto no banco. Anne Morrison aproximou-se tal como uma leoa e puxou Lois pelo braço, tirando-a de perto da mulher desconhecida.
— O que está fazendo com minha filha?! – gritou Anne, ainda sentindo o desespero no peito, pois pensava que esteve prestes a perder Lois.
— Desculpe, senhora, eu estava apenas conversando com a menina. Não quis causar nenhum mal…
— É, mãe, o nome dela é India e ela é legal. Só estava me explicando que…
— Eu não quero saber! – ralhou Anne Morrison. – O que eu falei para você a vida inteira, Lois? Não é para falar com estranhos, se lembra? Você não tem ideia do perigo que corre! Sabia que não deveria deixá-la sozinha, sabia! Vamos embora!

Anne saiu puxando Lois pela rua sem deixar que se despedisse da cigana.
Lois queria ter continuado com a conversa, queria saber mais, queria conhecer mais sobre India e a história de seu povo. Mas sequer houve tempo de agradecer, de se despedir. Tudo o que Lois conseguiu fazer foi virar o rosto para trás e acenar para India, que retribuiu ao aceno com um sorriso triste. Lamentou em seu íntimo por saber que nunca mais encararia aqueles olhos cor de esmeralda e desejou que um dia ela também encontrasse o seu lugar no mundo.
Durante todo o caminho de volta para casa, Lois ficou olhando para as linhas visíveis de suas mãos, perguntando-se se poderia ser verdade tudo o que India havia lhe dito. Se era mesmo possível desvendar o futuro através das linhas das mãos, se era mesmo verdade que ela iria encontrar um lugar melhor para viver. Não era feliz naquele lugar, nunca havia sido, mas ali estava sua mãe e, talvez por ser tão nova, nunca havia pensado em viver longe daquela que era toda a sua razão de viver. Mas, pela primeira vez na vida, Lois começou a imaginar lugares diferentes, pessoas que poderia conhecer, todas as coisas que poderia fazer longe do lugar que havia nascido e crescido. De repente, para Lois, o mundo pareceu um lugar maravilhoso, quase como um mapa do tesouro, cheio de coisas brilhantes para descobrir, tão brilhantes como o sorriso da cigana que havia conhecido.
O que poderia existir além das fronteiras?
Que tipo de gente ela poderia encontrar?
Haveria mais pessoas como India por aí?
Em sua mente criativa, a jovem Lois Morrison começou a visualizar uma vida bem longe de todo aquele gelo e aquele cinza, uma vida onde poderia bater suas asas de fogo e voar para bem longe, como sua amiga cigana havia previsto.
Esse encontro havia mudado a sua vida para sempre. Agora que Lois podia se imaginar vivendo em diferentes lugares, Seattle parecia ainda menor ante seus olhos.
Ela tinha muito para viver, muito para descobrir, muitas fronteiras para cruzar.
E, na hora certa, iria cruzá-las.

**

Cidade de Nova York, Nova York.
21 de Outubro de 2003.

Era seu aniversário. Dezenove anos.
Brandon olhava para a tela do computador, observando todo o planejamento que havia feito no último ano. Estava tudo pronto, tudo certo, era só pegar as malas e ir. Finalmente partir. Como há muito tempo desejava.
Seria difícil contar para o seu pai que precisaria deixá-lo para ir em busca de uma vida completamente diferente daquela que fora planejada pra ele. Mas precisava criar coragem, precisava olhar nos olhos de seu pai e explicar que Nova York não era seu futuro, que uma carreira tradicional não alimentaria sua alma, que ele necessitava buscar o seu lugar em outra cidade. E começaria por Phoenix, no Arizona. Se este seria o seu destino definitivo ou se precisaria buscar ainda mais até se encontrar, ele não sabia. Só sabia que precisava partir e viver, finalmente, uma vida para ele mesmo. Esperava que seu pai tivesse a mesma compreensão com ele como tinha com seus pacientes, pois não queria partir brigado com aquele que mais amava no mundo. Entretanto, independente do que Paul Reed dissesse, Brandon ia partir. Sabia que essa decisão iria quebrar o coração de Kerry e frustrar seu pai, mas a vida era dele. E ninguém mais poderia vivê-la por ele.

— Querido, posso entrar? – perguntou a voz que quebrou o silêncio no qual estava imerso. – Atrapalho?
— A senhora nunca atrapalha, dona Christina! – Brandon levantou-se e dirigiu-se até a mãe de Lucy com o sorriso aberto.
— Feliz aniversário, meu menino! – Christina o abraçou com força e deu um beijo estalado em seu rosto. – Olhe para você! Já é um homem feito! Como o tempo passa rápido!
— É o que todos estão dizendo. – Brandon coçou a nuca, sentindo-se um pouco constrangido. – Lucy não veio?
— Resolveu sair com o namorado, sabe como é a minha filha. – Christina revirou os olhos com impaciência. – Disse-lhe que achei um absurdo, mas ela me respondeu dizendo que você não ligaria, que não é como seu pai que faz questão de afagos no aniversário.
— Nisso sua filha está certa. – Brandon riu, lembrando-se do jeito único de sua melhor amiga. – Não gosto de festas ou grandes comoções por causa de um aniversário. Não se preocupe, eu tenho certeza que ela ligará mais tarde.
— É um dia importante, meu querido! Não vai fazer nem mesmo uma festinha para celebrar?
— Por mim eu ficava em casa lendo um livro ou estudando, a senhora me conhece. – respondeu Brandon. – Mas Kerry quer sair para jantar e disse que irá me levar para uma boate nova que estreou aqui perto. – Brandon soltou um largo e descontente suspiro. – Era longe do que eu queria fazer, mas sabemos como é Kerry… Se eu negar ela vai fazer aquele drama e eu não estou a fim de discutir no meu aniversário.
— Então vai aceitar fazer algo que não quer só pra agradar Kerry? – perguntou Christina, vendo Brandon dar de ombros, como se não houvesse outra opção. – Querido, longe de querer me meter em sua vida, mas sabe que o tenho como filho e preciso perguntar… Você está feliz ao lado de Kerry?

Brandon tentou responder afirmativamente, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Geralmente quando perguntavam se estava feliz em relação a algo ou alguém, Brandon costumava dar uma resposta burocrática, pois não gostava de ficar explicando seus complicados sentimentos para as outras pessoas. Mas com Christina era diferente. Assim como Madame Esther, Christina também cumpriu um papel importante em sua vida após a morte da mãe. Christina tinha um doçura no olhar e uma forma de falar que fazia com que qualquer um se abrisse sem medo de ser julgado. Com ela, Brandon sentia que podia ser ele mesmo.

— Você sabe que pode confiar em mim. – continuou Christina ao ver hesitação na resposta de Brandon. – Sou amiga de Esther e também amo Kerry como se fosse minha filha, mas me pergunto, às vezes, se vocês dois não cresceram em direções opostas e estão negando o óbvio…
— Eu jamais deixo de ver o óbvio, dona Christina. – disse Brandon, desistindo de continuar negando seus sentimentos. – Você tem toda e completa razão. Kerry ainda me ama muito, mas eu… acho que da minha parte o sentimento já se transformou em uma amizade. E não sei como dizer isso pra ela.
— É melhor dizer logo do que ficar dando esperanças pra uma jovem menina apaixonada que ainda tem muito a viver… – observou Christina.
— Eu concordo e vou fazer isso… Só preciso tomar coragem.
— E quando você acha que essa coragem virá? – perguntou Christina, com doçura no tom de voz. – Se esperar demais pode acabar piorando a situação.

Brandon ficou em silêncio, sem saber o que dizer, pois sabia que a mãe de Lucy tinha razão. Há muito tempo já sabia que não queria continuar o relacionamento com Kerry e há muito adiava o momento da definitiva conversa. Detestava magoar as pessoas, de ser a razão da decepção de alguém, mas não podia seguir a vida tentando controlar como os outros se sentiam em relação a ele. Precisava ser sincero com Kerry o quanto antes.

— A senhora tem razão. Não vou esperar mais. Vou deixar passar essa semana do meu aniversário e vou falar com ela. Prometo.
— Isso. A sinceridade sempre é o melhor caminho, por mais que doa no começo. Você vai fazer a coisa certa, ainda que Kerry precise derramar algumas lágrimas pelo caminho.
— Por falar em caminho… Posso compartilhar uma coisa com a senhora? Uma coisa que eu ainda não contei a ninguém, nem mesmo ao meu pai?
— Claro, querido. Você sabe que pode me contar tudo.

Brandon foi em direção à sua escrivaninha e pegou o notebook. Sentando-se junto à Christina em sua cama, Brandon mostrou à mãe de Lucy todo o planejamento no qual havia trabalho durante todo o ano.

— Não quero que ninguém saiba por enquanto. Mas precisava compartilhar com alguém, pois manter esse segredo só pra mim estava me matando.
— Entendo que queira sair da aba do seu pai e explorar novas oportunidades, mas… por que tão longe? – Christina franzia o cenho, tentando entender os planos do garoto. – Com tantos lugares que você poderia ir, por que logo Phoenix?
— Não sei, acho que pelo nome. – Brandon sorriu um sorriso inocente. – Sei que vai parecer loucura o que vou dizer, mas… Eu nunca consegui ser eu mesmo nessa cidade. Não sei exatamente o que sou, mas sei que não sou… isso. Nova York não combina com a minha personalidade. Eu preciso mudar completamente de ares e acho que uma cidade como Phoenix vai me mostrar o oposto do que eu sempre vi por aqui. É uma intuição, não sei explicar. Só sinto que é o lugar para onde devo ir.
— Se é o que você sente em seu íntimo, então você deve ir. – Christina colocou a mão em seu peito, bem na direção do coração. – Imagino que deva estar preocupado com a reação do seu pai, mas eu, Esther e todos nossos amigos estaremos aqui. Ele não estará sozinho.
— Muito obrigado. – Brandon deitou a cabeça sobre o ombro de Christina como se ela fosse sua própria mãe. – Lucy tem muita sorte de ter uma mãe como a senhora.
— E eu tenho certeza… – respondeu Christina, pegando Brandon pelo rosto e olhando diretamente em seus olhos. – Que onde quer que sua mãe esteja, ela está muito orgulhosa do filho que deixou aqui nesse mundo. Você é muito especial, Brandon, e não digo isso da boca pra fora. Você tem o coração mais puro que eu já conheci e tenho certeza que quando encontrar a pessoa que conseguirá ver através de você, ela terá muita sorte.
— Obrigado, mas eu não acredito que irei encontrar nenhuma “cara metade” pelo caminho. – afirmou Brandon, tentando não parecer rude. – Acho que preciso trilhar meu destino sozinho, sem estar amarrado a ninguém. Há muito o que descobrir no mundo e não vou conseguir fazer isso se estiver preso a outra pessoa.
— Você está muito jovem, ainda tem muito pela frente. – Christina lhe deu dois tapinhas sobre os ombros. – Não se feche ao amor dessa forma.
— Não estou fechado. – respondeu Brandon, sentindo que a frase tinha soado como uma mentira. – Eu só tenho planos muito individuais para mim, planos que não seguem o que a sociedade tem como confortável. E não consigo imaginar que pode existir alguém disposto a trilhar esse mesmo caminho comigo.
— Bem, é seu direito pensar o que quiser. Mas eu, como uma mulher romântica e que acredita que o amor move o mundo, penso que existe uma pessoa certa para cada um.
— É, a pessoa certa do meu pai era a minha mãe e a gente sabe como essa história acabou… – comentou com amargor.
— O que aconteceu foi uma tragédia, mas eu não tenho dúvidas de que seu pai é uma pessoa melhor porque conheceu sua mãe. E o amor deles deu você ao mundo, meu querido, e que presente para nós ter você por aqui! – Christina depositou um terno beijo na bochecha de Brandon e se levantou. – Não vou mais insistir nesse assunto, pois não quero ser chata. Mas se posso te dar um presente hoje, neste seu aniversário, é meu desejo de que você encontre nos olhos de alguém uma resposta para todas as suas perguntas.

Christina caminhou em direção à porta, deixando um pensativo Brandon encarando o vazio.
Antes que a mãe de Lucy pudesse sair de seu quarto, deixando-o com mil interrogações na cabeça, Brandon a chamou.

— Como os olhos de uma outra pessoa podem responder a uma pergunta?
— Acredite, meu menino, quando você encontrá-la, você saberá.

Christina saiu do quarto, levando consigo a paz de espírito de Brandon.
Ele tornou a olhar para o seu planejamento, tendo a certeza de que era aquele o caminho que precisava trilhar e tendo mais certeza ainda de que precisava trilhá-lo sozinho.
Esse aniversário seria o último onde ele faria tudo o que as pessoas esperavam dele e não o que queria de verdade. Prometeu a si mesmo que daqui pra frente tudo seria diferente. Prometeu que seus dezenove anos significariam o renascimento para uma nova vida, para um novo Brandon. Para alguém que ele sempre desejou ser.
Estava na hora de bater as asas e voar para longe do ninho seguro do qual vivera por tanto tempo.
Na cidade de Phoenix, no Arizona, a vida esperava por ele.

Evelyn Marques
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