04 – Adultos e Crianças.

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Esses dias a questão sobre o que é ou o que não é ser adulto tem povoado minha mente. Talvez seja porque estou com 21 anos e,sendo considerada pela psicologia do desenvolvimento como um “adulto jovem”, ainda estou meio que nessa transição.
E acho que algumas de minhas conclusões (já que preciso de muito mais tempo e maturidade para responder completamente todas as minhas perguntas), não são muito boas.
Eu me considero uma pessoa profunda, emocionalmente falando, extremamente analisadora e totalmente chata. Se uma formiga passa na minha frente, eu vou questionar porque ela está passando ali naquela hora, porque está sozinha (já que as formigas vivem em grupo)  e o que a levou estar ali naquele momento (ou seja, sou quase um caso de internação, mas tudo bem). O ponto dessa enrolação toda é dizer que eu sei o quanto isso pode ser insuportável para a maioria das pessoas (já deixaram isso bastante claro) e por isso procuro esconder esse meu lado analisador, profundo, dramático (eu seria uma boa escritora de novela mexicana, sério mesmo), questionador… E o que acaba sobrando para as pessoas? A minha metade retardada, que ri mais alto do que deveria, que fala mais alto que um velho surdo, que é tarada por Disney, que faz mais barulho do que uma hiena quando entra numa livraria… Enfim. No fim das contas, é o que mostro e, por conseqüência, é a parte que dou para as pessoas “julgarem”.
Uma das coisas que mais ouço – como sempre, de pessoas que não conhecem nem 10% do iceberg, que sou eu – é que sou infantil demais. Que tenho que parar de usar blusas do Mickey porque já sou adulta, que tenho que sair mais de casa, que tenho que aprender a beber (é muito difícil pra esse povo bitolado entender que existem sim pessoas no mundo que não gostam nem do cheiro de álcool? Beterraba fede, eu não como. Peixe fede, eu não como. Álcool fede, eu não bebo. Minha vida é definida pelo meu nariz. Ponto.) e, claro, a crítica mais freqüente de todas, que não podia deixar de ser citada: “Pare de ser tão sensível e dramática, você não é mais uma criança”. Paro não. Porque essa minha hiper sensibilidade e meus dramas são o que me fazem criar minhas histórias e, juro, não trocaria isso por nenhuma “maturidade” no mundo.
Acredito que isso não aconteça só comigo. Essa é a nossa realidade. Você é duro, você é adulto. Você é sensível, você é infantil. É fato. Infelizmente, mas é. Quando você se cortava quando criança, era normal berrar até o sangue parar de jorrar de seu dedo. 20 anos mais tarde, se você se corta e chora, você é fraco, fresco, quer chamar atenção, mesmo que a dor seja exatamente que você sentia quando era criança. E o que fazemos? Prendemos o choro até nossa garganta dizer chega (só eu sinto dor na garganta quando estou prendendo muito o choro?) e quando colocamos um curativo nessa ferida. Sei que foi um exemplo bem tosco, mas espero que tenha conseguido transmitir meu ponto de vista.
Seja na parte física ou emocional, ser adulto virou antônimo de sensibilidade. Não se deve chorar por mulher, não se deve discutir (porque ser adulto é deixar as questões fluírem e esquecer), não se deve importar demais com nada e é estritamente proibido sentar-se no balanço de um parquinho porque aquilo é coisa de criança.
A gente vive dizendo que a sociedade é hipócrita e, na maioria das vezes concordamos, mas somente em assuntos mais “sérios” e “discutíveis” como política, religião, ética… Porque, claro, somos todos adultos, vamos falar mais sobre o quê? Mas a hipocrisia está o tempo todo à nossa volta. Você é hipócrita quando briga, finge não se importar e vai molhar o travesseiro no silêncio da noite. Você é hipócrita quando torce o nariz para desenhos animados na rua, mas morre de rir quando vê Bob Esponja em casa. Você é hipócrita quando critica alguém por ser sensível demais, mas chora até ficar roxo quando o time é rebaixado.
Perante a sociedade, os adultos são permitidos apenas chorar quando um parente morre e olhe lá. Porque, como dizem, há jeito pra tudo, menos pra morte. E tem alguns que nem isso, que fecham a cara e dizem que ‘faz parte da vida’ e não derramam numa lágrima nem numa situação extrema assim. Infelizmente, existem muitos assim pelo mundo. Que sempre dizem que está tudo bem, que tudo pode ser resolvido e que se escondem tanto dentro de si a ponto de recusar qualquer ajuda, até mesmo das pessoas que ama.
Tornamos-nos uma espécie incapaz de expressar nossa dor e sensibilidade. Uns tem menos, outros têm mais (a não ser que você seja um psicopata, mas isso é uma discussão para depois), mas todo mundo é frágil em alguma coisa. Não dá pra julgar maturidade ou imaturidade por causa disso. Principalmente quando essa pessoa não fica nem 1 hora perto de você para ser julgada. É muito difícil não julgar. O ser humano é um ser extremamente julgador. Mas ficar apontando, torcendo nariz e dizendo que você deve agir de uma forma ou de outra, é muito chato. É mais ou menos o que eu coloquei no post abaixo, no “Pessoas Tóxicas”. Seja feliz julgando todo mundo, mas julgue apenas na sua mente. Viva sua vida de juiz em paz e deixa o outro viver feliz com a sua.
Acho que todo mundo é muito maduro em certos assuntos e completamente infantil em outros. TODO MUNDO. Por mais que você aparente ser equilibrado, com a profissão mais séria e respeitável do mundo, você tem um ponto fraco que vai te tirar da “normalidade”. É melhor aceitar isso logo do que depois ficar surtando porque surtou (essa frase fez algum sentido?).
Até mesmo esse espaço aqui… A intenção inicial era falar de coisas sérias, de forma séria, como aquelas crônicas maravilhosas de jornais. Mas quem disse que eu consigo? Eu sou dividida entre uma criança de 8 anos e uma velha de 80. Por mais que eu tente aparentar ter 21, dependendo da situação, ou é a Cuera de 8 anos que aparece ou é a de 80. Então esse espaço deu nisso, eu falando de coisas sérias, mas de forma retardada. É o que eu sou, juro que já tentei mudar, mas não consigo. É mais forte que eu. Como disse há pouco, resolvi aceitar isso, porque colocar uma cara séria no meu rosto e fingir que não sinto nada é impossível pra mim.
Aposto que muitas pessoas “maduras” vão achar tudo isso um absurdo e irão continuar colocando a armadura de ferro a fim de se proteger das inúmeras flechas que o mundo nos joga diariamente. Mas espero que muitos entendam também que é permitido se importar quando uma briga com alguém amado ocorrer, que é permitido chorar em finais de filmes ou livros, que é permitido dar uma de louco em público quando se está muito alegre e que aprendam que filmes da Disney ensinam muito mais do que American Pie.
Está tudo bem ser criança enquanto se é adulto e seria interessante que as pessoas entendessem isso ou pelo menos aceitassem. Porque, como diz a filosofia da mamãe: “Aquele que mantém seu espírito de criança em si com certeza é um ser humano melhor”.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
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3 comments / Add your comment below

  1. Vira e mexe eu me faço essa pergunta: “afinal, sou adulta ou criança?” E quando vou analisar minhas atitudes acho que no fim acabo sendo um pouco de cada, embora ache que seja mais uma criança tentando se tornar adulta.
    Me identifiquei tanto com este seu texto, mais um para a lista, rsrs…, especialmente este trecho: “Infelizmente, existem muitos assim pelo mundo. Que sempre dizem que está tudo bem, que tudo pode ser resolvido e que se escondem tanto dentro de si a ponto de recusar qualquer ajuda, até mesmo das pessoas que ama.”
    Quanto a sua pergunta sobre a dor de garganta por prender o choro, sinto ela também, comigo até parece que as pregas vocais vão se arrebentar ou algo quebrar de tanto incômodo que dá, mas, mesmo assim, não libero todo o choro.
    Obrigada Cuera, por me mostrar que há outras almas no mundo parecidas comigo, e também por, através dos seus textos, um pouco de conforto.
    P.S.: Desculpa pelo tom deprimente e de desabafo do meu comentário, juro que não é essa a intenção, rsrs… 😉

  2. Esse assunto tem rondado a minha cabeça tb. Fiquei um pouco chateada quando fiz 20 anos, eu gostava de ter ‘teen’ na minha idade, acho que justificava muita coisa. Trabalhar e estudar exige uma carga de responsabilidade de gente adulta, mas a melhor parte é fazer amigos nesses lugares que te conhecem como você verdadeiramente é.

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