Olha Só, Que Azar!

olha só

Coloquei meu melhor vestido
Aquele branquinho, estampado com flores azuis.
Coloquei meu melhor vestido e também um par de sandálias brancas para combinar
Tudo, tudo para ver meu amor passar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Coloquei um banco frente à porta de casa e comecei a estampar almofadas
Para que você visse o quão boa esposa eu poderia dar
Eu costurei, costurei
E a tarde inteira esperei
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Eu compus uma canção de amor
Compus uma canção inspirada nesse seu sorriso perfeito
Que por inteira me faz arrepiar
Peguei o violão, dedilhei algumas notas
E até me arrisquei a cantar
Tudo isso apenas para que você pudesse me notar
Eu compus uma canção e esperei você passar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Alguns rapazes passaram
Outros até mesmo pararam
Pararam e perguntaram
O que uma moça de vestido branco com estampas de flores azuis
Fazia todo dia ali sentada
Seja com um violão ou com uma almofada
Na frente da porta de casa.
Eles sim passaram
E também pararam
Pararam e me chamaram para sair
Assim, sem compromisso
Assim, sem rebuliço
“É apenas um convite”, diziam eles “que pode a sua vida mudar”.
“Oh, não!”, respondia com delicadeza. “Muito obrigada pelo convite, senhor, mas eu não posso ir. Não posso daqui sair, pois estou esperando o meu amor.”

Um a um, eles desistiram
E em conquistar meu coração não mais insistiram
Porque, olha só, que azar!
Por uma moça apaixonada eles foram se apaixonar.

Naquela pequena cidade do interior
Um rumor sobre minha história não tardou a começar
Um rumor sobre uma moça que por um impossível amor
Para sempre iria esperar.

Tapei meus ouvidos
Recusei-me a escutar
Pois as palavras do povo eram apenas ruídos
Que jamais poderiam me afetar.

O tempo não tardou a passar
Eu continuava costurando, costurando
Ou dedilhando e cantando
Sem parar
Fiz de tudo para o tempo matar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Foi em uma tarde de abril
Que a vida novamente resolveu me sabotar
Você reapareceu com seu sorriso, seu andar, seu olhar
Na exata hora em que meu estômago começou a gritar
Um minutinho com certeza não iria atrapalhar
E para a cozinha fui cozinhar
Mas, olha só, que mundo vil!
Depois de tanto esforço, você nem me viu.

Essa é a história que tenho para contar
Da menina que desesperou de tanto esperar
Da menina que, com fome, resolveu cozinhar
E deixou de ver, mais uma vez, o seu amor passar.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
Cuera

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4 comments / Add your comment below

  1. “Coloquei um banco frente à porta de casa e comecei a estampar almofadas
    Para que você visse o quão boa esposa eu poderia dar” AUUIHASHAISHUS eu ri muito alto dessa parte. Achei muito fofo. A moça deveria ter escolhido algum dos que convidaram ela pra sair. 🙁

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