Sobre Álbuns, Algos e Superações.

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Achei a caixa com fotografias, objetos e todas as coisas que fizeram parte da nossa história. Pensei instantaneamente em jogar tudo fora, queimar, livrar-me de qualquer resquício de um passado ilusório.
Não consegui.
Não naquele momento, não ali.
E ao invés de atirar tudo no lixo, o nosso velho álbum de fotos eu abri.
Imagens jogaram-se contra o meu rosto. Todos os sorrisos, todas as gargalhadas, as guerrinhas de almofadas às 3 da madrugada… Tudo compactado, apertado em um álbum de retratos.
Quando você se foi, eu desesperei. Perdi todo o controle e fui aquele tipo de mulher que sempre critiquei. Quem me vê hoje tão centrada, tão sana, tão risonha e agitada, mal pode imaginar que quase morri por um amor ferido. Que quase morri por um amor suicida.
É difícil de lembrar, difícil de aceitar, mas a verdade é que eu enlouqueci.
Olhando para trás, vendo um filme de sua partida em minha mente, eu não posso denominar de outra forma: foi loucura pura e obsessiva. Não sei se é possível pessoas normais ficarem momentaneamente loucas, esquizofrênicas, mas acho que foi exatamente o que aconteceu comigo. Ninguém nunca vai entender o que fui naquela época. Nem eu mesma algum dia vou entender o que fui, quem me tornei, quem ou o quê incorporei há cinco anos.
Não sei se há justificativas. Amor se mede, loucura se explica?
Seria um passado de perdas e derrotas constantes?
Seria essa sensação de desamparo que me acompanha injustamente desde o dia em que nasci?
Não sei, não sei explicar, não sei definir.
Eu fui apenas algo que você deixou para trás e por algum motivo eu acreditei nisso. Acreditei que eu era assim: só ‘algo’, uma coisa, um objeto que é largado, pois é matéria bruta, descartável. Não fui mulher, não fui filha, não fui gente; fui apenas algo, enquanto você era tudo. E esse foi meu desespero.
Não sei, não sei mesmo. Aqui me encontro, julgando minhas injustificáveis atitudes, criando um paradoxo ao explicar nessas linhas o fato do meu descontrole não ter explicação.
Eu apenas fui algo.
Sem nome, sem lugar, sem definição.
Apenas fui.
E, graças a Deus, não sou mais.

Continuo passando as folhas do álbum, vendo fotos, vendo momentos que foram congelados em variados centímetros de altura e largura. Momentos que significaram uma vida e cabem numa moldura retangular. Fomos gravados no tempo, sem permissão de apagar o que já foi vivido.
Você existiu e eu também. E durante alguns anos deixamos rastros, provas de que existimos juntos.
A felicidade já retornou ao meu ser. Já sou gente outra vez, com vontades, desejos, sonhos… Voltei a ser filha, a ser mulher, a ser amante. Sou alguém diferente, alguém que existe como gente, de matéria viva e pulsante.
Alguém que consegue existir com facilidade fora de sua presença.
Talvez esse tenha sido meu problema: tentei inserir-me em seu corpo por osmose e quis fazer parte de seu organismo para sempre. Mas aos seus olhos eu era apenas uma virose; algo que causa apenas um incômodo e passa.
Enquanto continuava a insistir, você queria apenas fugir dali. Vislumbrei o fim e fechei os olhos; recusei-me a partir.  Achava que podia morar dentro de você.
Mas é impossível, é inadmissível.
A física é mais exata que o amor; dois corpos não ocupam o mesmo espaço e é isso… Acabou!

A última folha do álbum desliza pelos dedos e um suspiro escapa dos meus lábios enquanto a contra-capa é fechada.
Sorrio.
Nada é melhor do que a sensação de algo superado.
Nada é melhor do que se ver inteira, após tanto tempo despedaçada. De sentir o controle de volta à suas mãos, de volta ao coração.
Não jogo o álbum fora. Ele precisa ficar. Precisa ficar e me lembrar, em todos os momentos de queda, de loucura, de esquizofrenia, que eu sempre posso superar.
O que era meu ponto fraco, agora virou meu poder. Se agora aqui estou, nada mais pode me deter.
O mundo girou e a loucura me largou.
Trocamos de lugar e isso é quase impossível de acreditar.
Sou forte, sou única, sou gente.
Sou filha, sou mulher, sou amante.
E você é apenas algo dentro de um álbum de fotos em minha estante.

Escritor 02 – José de Alencar

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José Martiniano de Alencar Júnior nasceu no dia 1º de Maio do ano de 1829, em Messejana, no Ceará. Foi advogado, jornalista, político, orador, romancista e teatrólogo.
Desde pequeno teve influências nacionalistas, vindas principalmente de seu pai, um importante político e senador do império. José também lembra com carinho da vida simples e sertaneja, do contato com a natureza do Brasil, que futuramente seria grande foco em seus livros.
Publicou em 1856 seu primeiro romance conhecido “Cinco Minutos”. Porém foi com o posto de redator-chefe no Diário do Rio de Janeiro, que ganhou notoriedade com o romance “O Guarani”, publicado em forma de folhetim, em 1857.
José de Alencar criou uma literatura nacionalista e tem seu nome em grande destaque no Romantismo Brasileiro. Senhora foi seu livro mais importante deste período.
Suas obras são caracterizadas por um estilo próprio, mais “abrasileirado”, retratando lendas, mitos e tradições tipicamente brasileiras, já que, na época, os escritores nacionais ainda eram muito influenciados pela literatura portuguesa.
Foi aclamado por Machado de Assis como “Chefe da Literatura Nacional” e eleito como patrono do posto 23 da Academia Brasileira de Letras pelo mesmo.
A obra de José de Alencar pode ser definida por três períodos: Romances Urbanos, Romances Históricos e Romances Regionalistas.
O escritor também foi de grande influência na política brasileira, seguindo os passos do pai, sendo eleito várias vezes como deputado pelo Ceará, e de 1868 a 1870 foi ministro da justiça.
José de Alencar faleceu no dia 12 de Dezembro de 1877, aos 48 anos, vítima de uma tuberculose.

Principais Obras:

Cinco Minutos (1856)
O Guarani (1857)
Diva (1864)
Iracema (1865)
Lucíola (1872)
Senhora (1875)
Encarnação (1893)

Opinião pessoal: Como já mencionei antes, José de Alencar foi quem me iniciou nesse vício tremendo que tenho pelos livros. Sempre gostei de ler, mas foi depois de “Senhora” que senti e absorvi um livro pela primeira vez e passei a olhar a literatura brasileira com outros olhos.
Ainda não tive a oportunidade de ler todas as suas obras, mas já o considero um dos meus autores favoritos.
O que mais me admira na obra de Alencar é como ele entende e escreve sobre as mulheres. Seus principais romances urbanos “Senhora”, “Lucíola” e “Diva”, apresentam as mulheres na sociedade do Rio de Janeiro do século XIX, com seus dramas, aflições, sensibilidades e, acima de tudo, recheadas de personalidade e coragem. Essas mulheres podem ter vivido dois séculos atrás, mas são dotadas de inúmeros sentimentos que qualquer mulher do século XXI pode se identificar. E é de se admirar que essas obras tenham sido escritas por um homem, principalmente um homem do século XIX, onde o machismo reinava e a mulher não tinha nenhuma voz ativa. Não é à toa que ele foi a principal figura do Romantismo Brasileiro.
A escrita de José de Alencar é riquíssima não só pela sintaxe, mas também pela psicologia de seus personagens, sempre icônicos e heroicos, cada um à sua maneira.  Infelizmente ainda há muito preconceito para com a Literatura Brasileira, pois diariamente somos bombardeados com o lixo americano nas principais livrarias do Brasil. O que é irônico, pois as nossas próprias editoras, que deveriam incentivar cada vez mais nossa riquíssima literatura, descartam sem piedade nossos autores. Os clássicos ainda têm um pouco de salvação, pois ainda são dados na escola (o que eu também acho errado, pois um pré-adolescente de 11 anos tem que ler Thalita Rebouças, Pedro Bandeira, pela temática adolescente e linguagem prática, algo que o inicie na Literatura, pois eles ainda não têm vocabulário e estrutura para ler Dom Casmurro ou até mesmo meu tão amado Senhora), mas podem reparar que esses livros são sempre os mais ‘pobrinhos’ em matéria de estética, onde as folhas são de má qualidade e o descaso com a capa é eminente, enquanto as literaturas estrangeiras estão cheia de atrativos, como fontes brilhantes e capas duras. É uma pena, pois autores como José de Alencar merecem ser lidos. Não só pelas lindas histórias de amor, mas também pelo retrato fiel do nosso Brasil com toda sua misticidade, o que é muito gostoso de ler através de seus livros.
José de Alencar é o autor ideal para quem gosta de histórias bem contadas de amor e de episódios heroicos de pessoas simples, do cotidiano, que poderia ser eu ou você. Ele nos passa essa esperança de que, um dia, se precisarmos, por amor a alguém ou a um ideal, poderemos ser heróis de nossa própria história de vida.

06 – Conectados

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“Estamos todos conectados sem nem ao menos saber quem somos” – Delta Goodrem

Sou muito observadora. Muito mesmo. Às vezes até mais do que gostaria ser. Estou sempre procurando não sei o quê, não sei aonde, mas sempre perscrutando, observando, analisando. Pessoas, lugares, animais, não importa. Eu observo o tempo todo e acho que por isso sou escritora. Eu vejo histórias em todos os lugares. Sou do tipo que caça desenhos em azulejos, acho formas e acabo sempre criando uma curta historinha na minha cabeça. E quanto mais o faço, quanto mais cresço, aprendo e continuo observando, mais eu fico maravilhada com certas coisas da vida que a maioria das pessoas não notam. Não sei, talvez seja esse mundo capitalista e sempre apressado, que quer tudo pra ontem e em grande quantidade o tempo todo. Vejo que coisas pequenas, mas importantes, estão sendo deixadas de lado. E acho tão triste. Eu que vejo histórias até em azulejos, conheço pessoas que não conseguem nem se maravilhar com livros. Nós vivemos uma história o tempo todo, dessas de novela. Só que ninguém vê, ninguém sente. Uma vez eu vi uma frase que dizia que o mundo seria um lugar melhor se todo mundo escrevesse sua autobiografia. Todos temos nossa saga para contar. Independente da vida que levamos, se todos parassem para escrever sobre si mesmos e divulgassem esse ‘livro da vida’ para o mundo, este seria um lugar melhor. Iríamos aprender tanto com as experiências do outro… Imaginem que mágico? Um aparecendo no livro do outro, sendo numa participação especial ou como personagem principal. Ou até mesmo como antagonista, quem sabe? O fato é que a vida é feita de encontros. Desses que a gente lê em livros e diz que na vida real não acontece. Mentira! Acontece sim! Nós é que estamos sempre muito focados em coisas inúteis para observar.
Eu não acredito em coincidências. De forma alguma. Aliás, não sei como alguém consegue acreditar que todas as vidas deste mundo são puro ‘acaso’, acidentes do Universo que se esbarram, que se encontram sem qualquer motivo. Ninguém precisa acreditar em Deus, em Maomé, Buda ou o que quer que seja para poder enxergar a magia das pequenas coisas. É preciso apenas observar.
Uma outra frase que ouvi também é que todos os seres humanos estão presos em uma enorme teia de aranha. Se existe de fato uma aranha controlando tudo ou se as teias agem por qualquer força magnética, isso não importa. Mas estamos todos conectados, todos juntos, destinados a encontros e desencontros até o fim de nossas vidas. Exatamente como nos livros.
De verdade, se você não é um observador nato, tente pelo menos começar. Se você acredita apenas em coincidências, tente abrir um pouquinho só dessa janela cerrada, para que você possa ver coisas diferentes.
Encontros acontecem o tempo todo, de todas as formas. Um telefonema animador quando você está deprimido, alguém que fala de repente com você um segundo antes de um carro passar enlouquecido pela rua que você ia atravessar, algum animal que se aproxima quando está triste e, de repente, você começa a sorrir… Esses são os mais simples, mas não menos importantes.
E o encontro de vidas, encontro de almas? Quando você olha para o lado certo, entra na esquina certa, entra num elevador ao mesmo tempo que outra pessoa… Será mesmo que não se dão conta do quanto isso é relevante? Essas pessoas (e não estou só falando romanticamente, estou falando de forma em geral de amigos, parentes, pessoas que vão ajudar-te a crescer na vida etc.) poderiam estar em qualquer lugar do mundo. Poderiam ter entrado à esquerda, enquanto você entrou à direita, poderiam estar subindo, enquanto você está descendo, poderiam ter entrado na cafeteria do final da rua, enquanto você entrou na do começo… Milhões, inúmeras oportunidades de nos manter afastados existem. Ainda assim, você encontra aquela, naquele lugar, naquele momento. E ainda dizem que são só “coincidências?” Dentro de uma probabilidade de 1 em um trilhão, é só mesmo coincidência? Sinceramente, não consigo acreditar.
Acredito que esses encontros salvam nossas vidas. Com menos intensidade ou mais intensidade, não importa. O encontro com o mundo ao redor é o que nos faz continuar vivendo. Essas oportunidades, essas coisinhas que poderiam não acontecer, mas acontecem. Todos os encontros são importantes, até mesmo aqueles desagradáveis. Se minha professora de biologia do ensino médio não tivesse me perseguido o ano inteiro, talvez hoje eu estaria fazendo faculdade de biologia e sendo a bióloga que na minha adolescência dizia que ia ser. Mas ela precisou me traumatizar (por pior que isso soe), me constranger de inúmeras formas para eu descobrir que o que mais queria era distância daquela matéria. E junto com outros constrangimentos que a vida colocou no meu caminho, eu conheci a força da escrita. Digo ‘a força’ porque eu escrevo desde que era pequena, mas só pude conhecer essa energia profunda, essa sensação de imenso e eterno prazer de estar viva, de que é exatamente pra isso que eu nasci, depois que a partir deste e de outros episódios, resolvi criar histórias e descobri que queria ir até o fim da minha vida fazendo isso. Pode ter sido coincidência, eu poderia descobrir meu amor pela escrita de outra forma, outra situação poderia puxar esse gatilho, é verdade. Mas eu não seria a pessoa que sou hoje se não fosse por isso, eu não estaria aqui se não fosse por isso, por esse encontro.
Acho que essa analogia com a teia de aranha não poderia ser mais fantástica. Fios se rompem e se ligam o tempo todo, independente da força que os regem. Como diz na letra da música citada no começo deste post, estamos todos conectados, mesmo sem saber, ainda, quem somos, quem vamos encontrar, quem vamos conhecer.  Na sua teiazinha de aranha, mais lá pra frente, há novos fios se formando, se ligando, se religando. Você está sentando (ou de pé, vai saber) agora lendo isso, mas o seu fio, neste momento, está sendo ligado com o de outras pessoas, com outros seres, que cruzarão seu caminho. Quando chegar o momento, você pode tornar esses fios mais fortes ou arrebentá-los para sempre. Mesmo que tenha algo cuidando da gente, acredito ainda que podemos fazer nossas próprias escolhas e arcar com as consequências destas. Mas não negue que existe algo muito maior por trás da vida que está vivendo agora. Não negue esses encontros, não negue esses momentos especiais. Observe bem cada trajetória, cada choque, cada esbarrão em outra pessoa e pense mesmo se aquilo foi apenas obra do acaso. Aprenda a analisar cada experiência e permita-se ver a mágica que está debaixo do seu nariz. Limpe um pouquinho os olhos e enxergue. Acredite em mim: vai valer a pena. Tudo se tornará menos entediante e muito mais interessante!
Se você tem alguma história para contar sobre algum encontro especial, de uma situação que se encaixe no tema do texto, conte sua história na caixa de comentários. Vou adorar saber mais e descobrir mais sobre essas pequenas grandes conexões que fazem parte da trajetória de todos =]

Escritor 01 – Virginia Woolf

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Adeline Virginia Stephen nasceu no dia 25 de Janeiro de 1882, em Londres, na Inglaterra.
Filha de intelectuais, Virginia desde cedo teve contato com a literatura através da vasta biblioteca de seu pai, Leslie Stephen, e desde criança já sabia que seria escritora.
Virginia morava numa casa com seus sete irmãos: Uma irmã do primeiro casamento de seu pai, mais três irmãos do casamento de sua mãe, além de três irmãos de sangue. Todos viviam em uma ampla casa em Kensington.
A morte cruzou o caminho de Virginia muito cedo. Sua mãe morreu repentinamente em 1895, quando a garota tinha apenas 13 anos e o fato a afetou tanto que foi quando teve o seu primeiro surto psicológico. Dois anos depois, sua irmã Stella também veio a falecer após retornar de sua lua de mel em 1897. Sete anos depois foi a vez de seu pai morrer e Virginia teve o seu segundo surto psicológico. Após uma viagem à Grécia, em 1906, seu irmão Thoby também veio a falecer em conseqüência de uma febre tifóide. Nessa época, Virginia já escrevia para alguns jornais e todas às quintas-feiras reuniam-se em sua casa um grupo de intelectuais de Cambridge, do qual o seu falecido irmão fazia parte e também tinha sido o criador. Foi nesses encontros em que conheceu Leonard Woolf, que a pediu em casamento e ela aceitou. Os dois se casaram em 1912.
Virginia começou a escrever sua primeira obra completa, A Viagem, em 1908 e só conseguiu terminá-la em 1912. Porém, após uma outra crise psicológica, causada por sua esquizofrenia ou transtorno bipolar severo (Ainda não se sabe ao certo o diagnóstico de seu transtorno), ela apenas conseguiu publicar o livro em 1913. Seu segundo romance foi Noite e Dia, publicado em 1919.
Em 1917, Leonard fez uma pequena gráfica dentro de casa, para que a impressão servisse como um hobby e uma terapia para a complicada cabeça de Virginia. A partir de 1921, publicaria suas futuras obras, dentre elas, Orlando, As Ondas e Mrs Dalloway, seus livros mais famosos, através de sua própria gráfica.
Virginia Woolf foi uma grande influente do Modernismo inglês e o seu ensaio “Um Teto Todo Seu” marcou-a, definitivamente, como símbolo feminista.
Porém, mesmo com todas as tentativas, seus transtornos psicológicos continuaram. Existem vários trechos, retirados de alguns de seus diários e cartas enviadas à irmã Vanessa, sua maior confidente, onde Virginia explica o quanto seu estado de saúde mental parece piorar cada vez mais, a ponto de impedi-la de fazer o que mais gosta: escrever. A doença continua a atormentá-la, mesmo com os tratamentos, e em 1941, ela decide acabar com sua própria vida, colocando pedras nos bolsos de seu casaco e afogando-se em um rio perto de sua casa.
A carta de suicídio deixada a seu marido Leonard Woolf é uma das mais famosas cartas da Literatura. As últimas palavras de Virginia foram exatamente essas:

“Querido,

Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.

V.”

Principais Obras:

A Viagem (1913)
Noite e Dia (1919)
O Quarto de Jacob (1922)
Mrs Dalloway (1925)
Ao Farol (1927)
Orlando (1928)
Um Teto Todo Seu (1929)
As Ondas (1931)
Flush (1933)
Os Anos (1937)
Entre os Atos (1941)
Contos Completos (1917-1941)

Opinião pessoal: O que eu mais amo nas obras de Virginia Woolf é sua profundidade. Claro, com alguém que sofre de tantos transtornos psicológicos, o último que se espera é que seus escritos sejam rasos e superficiais. Mas não é todo mundo que consegue colocar todos os conflitos existentes e descrevê-los com maestria, sem julgamentos, em uma folha de papel. Parece que ela vivenciou todos os sofrimentos do mundo, sejam estes reais ou não, e os usou para criar seus inúmeros personagens.
Outra coisa que me chama muita atenção em seu trabalho é como ela começa e termina uma história. Aliás, ela não o faz. Se você pega um livro de Virginia esperando a clássica sequência de início, meio e fim, você está esperando errado. Seus livros têm sim uma conclusão, mas você sempre tem aquele gostinho de quero mais. Ela escreve de uma forma que te faz acreditar que aqueles personagens realmente existem. Que não são meras linhas em uma página em branco. Eles existem após a conclusão do livro e é impossível ler e apreciar algum trabalho seu sem ficar imaginando para onde aqueles personagens foram e em que se transformaram depois do livro. Talvez seja seu detalhe poético, sua descrição minuciosa do ambiente que fabrica essa magia. Mas não é aquela descrição detalhada e chata de alguns autores, que descrevem a cor do estofado da cadeira de uma biblioteca vitoriana e que o leitor precisa passar três páginas lendo só descrições atrás de descrições. Virginia faz poesia com as palavras, mesmo em uma narrativa. E se você entender sua obra e apreciá-la como fazem seus fãs, consegue até ouvir de verdade o farfalhar das folhas, o passarinho cantarolando em uma tarde de outono e o barulho das ondas tocando as pedras à beira da praia. Virginia é o tipo de autor que te puxa pra dentro do livro. Quando você pega o seu ritmo, se vê transportado para dentro da história. Você não está mais em seu quarto, na rua ou em qualquer lugar de sua vida… Você está dentro de As Ondas, O Quarto de Jacob, Entre os Atos e acaba vivenciando toda a trajetória dos personagens, seus conflitos internos e externos, como se fossem parentes seus.
A literatura de Virginia é pra quem tem um lado mais sensível e preza os sentimentos, os conflitos, sem qualquer julgamento.
À princípio talvez seja um pouco complicado entender o seu ritmo e acompanhar toda a avalanche de pensamentos e reflexões que ela joga na cara do leitor, mas, uma vez que você consegue entendê-la, eu garanto: Você nunca mais será a mesma pessoa.

Casinha de Cobertores.

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Vamos criar uma casinha de cobertores.
Nesta noite gelada de agosto, vamos pegar todas as mantas e edredons do armário e colocá-los sobre duas cordas de varal, que cruzam uniformemente o quarto.
Vamos brincar de ser criança, de ser feliz.
Vamos criar nosso mundo particular, com tudo o que a gente sempre quis.
Vamos pegar travesseiros, fronhas, lençóis e tudo o que for necessário para construirmos nosso cantinho.

Prometo que seremos apenas eu e você.
Seremos eu e você como sempre deve ser.

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Assim mesmo, bem simples.
Um pouco enrolada e desengonçada; um pouco embolada e bagunçada… Mas muito, muito adorada.
Venha, não tenha medo.
É apenas uma brincadeirinha.
Me dê a mão e não tenha medo.
Eu jamais o deixarei sozinho. Jamais o deixarei perdido.
Deixemos celulares, notebooks, telefones ou qualquer outro objeto que emita um ruído banal que possa atrapalhar este momento.
Deixemos máscaras, armaduras e as enormes muralhas.
Deixemos o mundo.
Deixemos a falsidade e a mediocridade. Porque em nossa casinha de cobertores só é permitida a verdade.
Apaguemos as luzes. Assim será melhor.
Será mais fácil desnudarmos nossas almas.
Será mais fácil ouvir-lhe os lamentos, os sofrimentos e os tormentos que vêm maltratando o seu coração durante todo esse tempo.
A claridade pode ser cruel demais.
Ela mostra para quem quiser ver um par de olhos lacrimejantes, um rosto vermelho e uma postura curvada que nada tem de elegante.
Por isso, em nossa casinha de cobertores não pode haver claridade.
Apenas eu e você em nossa máxima vulnerabilidade.

Há estrelas.
Há estrelas no teto de nossa casinha de cobertores e está quentinho.
Há estrelas no teto de nossa casinha de cobertores e minha mão morna encontra a sua enquanto as palavras brilhantes que saem de sua boca vão formando mais estrelas.
Cada palavra é uma dor. E cada dor é uma estrela.
E há milhares de estrelas no teto de nossa casinha de cobertores.
As horas passam, a respiração pesa e você adormece.
Meus olhos velam com amor seu sono tranquilo ao mesmo tempo que deslizo inocentemente minha mão pelo seu corpo, oferecendo toda a afeição que sua alma carece.
Coloco emocionada meus dedos sobre seu coração e faço uma prece.
Rezo para que os anjos ouçam o meu apelo e cuidem de seus sentimentos com bastante zelo.
Rezo para que possa encontrar alguém que o ame de verdade.
E que, um dia, essa verdade possa ser eu.
Rezo.
Rezo.
Rezo.
Até toda a dor passar.
Rezo até o amor triunfar.
O meu amor.
O meu amor por você.

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Uma hoje, uma amanhã, uma todos os dias.
Uma assim, sem compromissos, sem dissabores.
Uma assim, de brincadeira; assim, de bobeira.
Uma casa, uma ilusão, sempre de portas fechadas à realidade.
Uma casa onde jamais entrará a saudade.
Uma casa onde estrelas substituem as dores.
Uma casa só nossa.
A nossa casinha de cobertores.

Madness.

 

mad

— Eu fiquei louco?
— Eu temo que sim. Você está totalmente pirado. Mas eu vou lhe contar um segredo… As melhores pessoas são loucas.

– Alice no País das Maravilhas.

 

 

— Eu te amo. – ela disse bem baixinho, quase como um sussurro.

Meus olhos se abriram repentinamente, tomados pelo susto.
Mila havia dito a frase de três letras no momento em que eu menos poderia esperar. De forma simples. Tão simples e tão baixinho que cheguei a indagar se não havia sido apenas um devaneio de minha mente esperançosa.
Imaginei mil momentos. Mil ocasiões, lugares diferentes, circunstâncias singulares… Imaginei pequenos filmes na minha cabeça, com uma perfeição que jamais acreditei que a realidade pudesse superar.
Eu estava enganado.
Porque as melhores coisas, as mais belas sensações ocorrem quando menos esperamos. Quando não há um planejamento calculado em uma folha de papel.
E vendo minha pequena fada adormecer ao meu lado, recordei, nostalgicamente, como tudo começou…

XX

Era quinze de novembro.
Belgrado estava sendo atingida por uma chuva torrencial que não havia sido antevista pela previsão do tempo.
Pessoas corriam de um lado para o outro nas ruas, caçando marquises ou qualquer outro lugar onde pudessem se proteger. Fugiam dos pingos gelados como se fossem mortais. Pareciam ser capazes de derreter sua pele, tamanho era o desespero de gente que passava apressadamente por mim, a maioria mulheres.
Andava sem rumo.
Deixava que a chuva fizesse seu trabalho pacificamente, sem me preocupar com resfriados, gripes ou pneumonias que sempre eram previstas nessas situações. Escutava meus próprios pés fazerem um barulhinho engraçado sobre a água.
Splish, Splash.
Era a onomatopéia da felicidade. Pelo menos pra mim.
Meus vinte e dois anos pareciam desvanecer-se no calendário assim que sentia a sensação da chuva de encontro à minha pele. Comportava-me como um garotinho imprudente que pulava e pisava nas poças d’água, sem me preocupar com o estado imundo em que minhas meias ficariam após o episódio de diversão.
No meio de minha distração infantil, não escutei o sino da porta de uma livraria ser aberta.
E tampouco vi o pequeno corpo que saiu calmamente de lá, para se chocar com o meu.

— Ai! – exclamou uma voz que ia de encontro à parede na saída da livraria. Suas bolsas voaram e caíram diretamente sobre as poças d’água na calçada ao largá-las para se escorar e evitar um acidente maior.

Imediatamente peguei as sacolas e tentei salvar os pares de livros que haviam em cada uma.
Levantei o rosto para me desculpar, mas as palavras fugiram de meu cérebro, da minha boca, de minha língua. Pareceram ter mergulhado na poça também, pois eu não conseguia encontrá-las de jeito nenhum. Haviam se perdido.
A mulher ruiva vestia uma boina lilás na cabeça que deixava sua franja perfeitamente reta em sua testa. Usava uma maquiagem leve, quase imperceptível.
Um casaco cinza a protegia do frio, junto com uma calça preta e botas da mesma cor. Algo em sua áurea gritava singularidade. Mesmo sem conhecê-la, sem saber sequer o seu nome, notava-se que ela não era como as outras pessoas. Não era como ninguém que já tive o prazer de conhecer antes. E isso foi o suficiente para me deixar disperso.

— Não vai pedir desculpas? – perguntou quando se pôs de pé outra vez. – Afinal, foi você que passou que nem um louco à minha frente, como se não estivesse olhando o caminho do qual pisava!
— E não estava olhando mesmo. – consegui responder, deixando que um sorriso bobo surgisse em meus lábios.

Havia algo nela. Um brilho diferente em seu olhar, a forma como articulava as palavras, o jeito como enrolava uma mecha de cabelo no dedo e emburrava a cara ao ver as sacolas sujas em minhas mãos.
Havia algo nela e era só no que conseguia pensar enquanto meus olhos perscrutavam suas mínimas ações, desde a forma como movia os lábios ao falar até o jeito como piscava os olhos.

— Meus livros! – gritou com um certo de desespero e arrancou as sacolas de meus dedos. – Droga! – ela escondeu-se debaixo da pequena marquise da livraria e checou o estado dos livros. – Por sorte o estrago não foi tanto. Acho que dá pra salvar… – a mulher abriu a bolsa de couro nos ombros e colocou as pequenas sacolas ali dentro. Do jeito que os livros eram grandes, imaginei que não estivesse muito leve.
— Não vai machucar seu ombro? – apontei para a bolsa e ela seguiu meu olhar. – Esse peso todo?
— Melhor entortar minha coluna do que molhá-los, não acha? – a pergunta retórica saiu com uma leve irritação junto à sua voz. Logo me dei conta de que havia esquecido de dizer algo importante.
— Peço perdão pelo… pequeno acidente. – olhei para baixo e sorri sem graça, sentindo-me um pouco idiota. – Estava distraído com a chuva.
— É, eu notei que alguém aqui parece não ter crescido. – ela deu de ombros e passou por mim, deixando-me com uma sensação estranha de vazio no peito. – Procure brincar longe de pessoas normais. Assim evitará mais acidentes.
— Pode deixar, seguirei seu conselho. – respondi com ironia, mas com certo divertimento. Não havia jeito de aquela mulher me deixar de mau humor. – Não vai abrir o guarda-chuva? – perguntei ao vê-la andar sob os pingos gelados sem sequer mexer na bolsa.

Ela virou-se para mim, com os cabelos já completamente molhados e sorriu.

— Você não é a única pessoa que gosta de brincar sob a chuva.
— Mas você acabou de me mandar brincar longe de pessoas normais! – exclamei, confuso.
— Eu nunca disse que era uma delas… Disse?

A mulher ruiva piscou para mim e virou-se para sair andando.
Eu deveria ter feito o mesmo. Deveria ter tomado o meu caminho para a casa e estudar para o vestibular que iria prestar em pouquíssimo tempo. Mas meus olhos não conseguiram desgrudar-se de sua figura que se distanciava cada vez mais enquanto mil coisas passavam pela minha cabeça. Enquanto mil sentimentos dominavam minha mente.
Naquele momento, de forma inexplicável, desejei começar algo com ela.
Uma conversa, uma amizade, qualquer coisa. Qualquer coisa que ela pudesse me dar.
Qualquer coisa que pudesse esse vazio aqui dentro preencher.
Apenas o seu sorriso, o seu olhar.
A boina lilás e a franja ruiva milimetricamente alinhada à testa.
Qualquer coisa.
E os melhores encontros da vida começam a partir de um café.

— Espere! – gritei o mais alto que pude, enquanto corria em sua direção.

A mulher ruiva parou e olhou para trás com o cenho franzido. Parecia não acreditar que alguém estava chamando-a no meio da rua, debaixo de uma chuva forte e escandalosa, e correndo que nem um alienado atrás dela.
Após alcançá-la, curvei-me e coloquei as mãos sobre os joelhos, sentindo-me extremamente cansado.

— Uau, você não parece ser alguém adepto de exercícios. – comentou com escárnio ao ver meu estado vergonhoso.
— Tem razão. Ultimamente tudo o que tenho feito é passar dez horas estudando em casa. – recuperei o ar e me pus ereto para encará-la diretamente nos olhos. – Tenho um vestibular chegando.
— Você não tem cara de nerd. – seus olhos avaliaram-me de cima a baixo. – Não mesmo.
— Enfim, eu não corri até aqui para falar do meu cérebro. – respondi, divertido. – Isso pode parecer um pouco patético, mas… Está um pouco frio, chuva, vento… – mordi os lábios, ensaiando mentalmente a melhor forma de convidá-la sem parecer precipitado ou muito idiota. – Tem uma cafeteria aqui perto. Você sabe… – deixei a frase subtendida, mesmo sabendo que já parecia precipitado.
— Você quase me derruba e agora me chama para sair. Isso é diferente.
— Digno de um filme de Hollywood, não acha?
— Muito clichê e blockbuster para o meu gosto. – ela fez uma careta debochada e não pude evitar em sorrir.
— Eu, Neven, adoro clichês e blockbusters. – estiquei a mão, esperando que ela entendesse o recado.
— E eu, Mila… – ela a apertou, aceitando o cumprimento, o que me deixou muito mais aliviado. – Prefiro os filmes Cult e Independentes.
— Você pode me mostrar o seu mundo Cult, Mila. E eu te mostro o quanto um clichê pode ser especial enquanto tomamos um café. O que acha?
— É melhor não. – disparou de repente, deixando-me surpreso. – Olha, você é um cara legal e aposto que há muitas garotas merecedoras por aí. Mas eu…
— Você o que? Vai dizer que uma garota que curte filmes Cult e odeia clichê está insegura?
— Acredite, não é insegurança. – afirmou. – Eu apenas não insistiria em mim, se fosse você. – Mila fechou os olhos e suspirou, trocando o semblante divertido por um melancólico. – É complicado. Eu, bem… Eu tenho algumas coisas para fazer, com licença. – ela tentou passar por mim, mas coloquei-me na frente, impedindo sua passagem.

Algo me impelia a continuar. Muitos no meu lugar já teriam desistido. Afinal, ela era só uma mulher adorável com quem eu tinha esbarrado na saída de uma livraria. Logicamente não era nada demais.
Mas desde quando os sentimentos são lógicos?
Se fossem, tudo seria mais fácil no mundo.
E mais sem graça também.

— Posso saber o motivo? – ela revirou os olhos e pareceu um pouco enfadada com a minha insistência. – Se não gostou de mim, é só falar.
— Eu poderia dizer isso, sim… – Mila me olhou de relance e tentou reprimir um sorriso. – Mas isso seria uma mentira. Na verdade, eu sou louca. Acho que você não deveria tentar nada comigo.
— Louca? – arqueei uma sobrancelha e tentei decifrar o que ela queria dizer com aquilo. Mas nada me veio à mente. – Não vejo uma mulher louca à minha frente. Vejo alguém que parece ser muito culta e simpática.
— É que eu estou fingindo. – ela sussurrou, aproximando-se um pouco mais, como se fosse uma agente secreta que não poderia revelar sua verdadeira identidade – Se tivesse a oportunidade de me conhecer melhor, entenderia o que quero dizer.
— Eu não me importo com isso. – coloquei as mãos no bolso e lutei contra a timidez que começou a dar as caras devido à rejeição. Ela mexia comigo mais do que eu poderia suportar. E suas recusas constantes ao meu pedido começavam a abalar minha autoestima. – Você me viu brincando sozinho, debaixo dessa chuva. De fato, estamos discutindo debaixo dela agora, como se não caísse nada do céu. Só sei que eu me sinto bem perto de você, pois até esqueci o frio. – dei de ombros, chutando o balde de vez. Se ela era realmente louca, com certeza não iria se importar de ouvir esse tipo de coisas de um estranho. – Não estou te pedindo em casamento. É só uma xícara de café. Você consegue fingir ser alguém normal mais um pouquinho… Não acha?

Mila abaixou a cabeça e respirou fundo. Parecia travar uma luta dentro de si, sem saber se agarrava o sim ou o não. E eu fiquei ali, parado, esperando os longos minutos de silencio se dissiparem com uma resposta positiva.
Seus olhos levantaram-se para encontrar-se com os meus. E então, o veredicto…

— Tudo bem. Uma xícara de café. – o sorriso oblíquo em seus lábios e o semblante enigmático que prontamente assomou sua face me deixou ainda mais curioso para descobrir o que estaria por trás de toda aquela “loucura”. – Você não faz ideia com quem está lidando…
— Estou louco para descobrir! – peguei em sua mão molhada pela chuva e depositei um terno beijo sobre seus dedos. – Você não faz ideia.

Uma vez, quando era criança, perguntei à minha mãe o que era o amor. Quando sabíamos o exato momento em que nos apaixonamos, quando sabemos que aquela é a pessoa com quem queremos passar o resto de nossas vidas. E ela me respondeu que o amor era um estrago. Para o bem o para o mal, o amor era a ruína de algo. Se era a ruína da tristeza ou da felicidade de alguém, isso era relativo. Mas o amor era aquela avalanche incontrolável, que saía arrastando tudo à sua frente, sem dó nem piedade.
Na minha vida, o estrago começou com um casal desconhecido, com roupas encharcadas, sob uma chuva copiosa.
Um casal que sabia apreciar os pingos gelados e não fugir deles como se fossem mortais.
O estrago continuou quando ela abriu o primeiro sorriso e colocou uma mecha de cabelo vermelho atrás da orelha, parecendo tímida. Quando não conseguiu encarar meu olhar e tentou se esquivar, como se não necessitasse da minha presença como rapidamente necessitei da sua.
O estrago aumentou quando ela aceitou tomar essa xícara de café comigo.
E não parou mais.
O café se transformou em almoço no dia seguinte; que se transformou em um passeio pelo museu da cidade; que se transformou em um jantar sob as estrelas nuas no céu; que se transformou no primeiro beijo.
O quinze de novembro transformou-se em quinze de dezembro; que se transformou em quinze de janeiro, fevereiro, março, abril… e assim sucessivamente.
Com os dias, vieram as brigas. Com os meses vieram as pazes. Com os anos vieram as revelações. E então, finalmente entendi sua “loucura”.
Ataques. Crises de choro. Gritos no meio da madrugada, após um dia repleto de felicidade e alegrias. Traumas. Fobias. Todos esses sentimentos inundavam um pequenino corpo que parecia desesperado para livrar-se deles.
Era complicado. Era costumeiro.
Não foi apenas uma vez em que cheguei do trabalho e a encontrei encolhida no sofá, com os olhos vidrados no nada.
Não foi a primeira vez que larguei tudo no chão e corri ao seu encontro, segurando seu pequeno corpo entre meus braços.
Não foi a primeira vez que chorou copiosamente, onde seu corpo tremia tanto que parecia ter sido tomado por uma descarga elétrica.
Não foi a primeira vez que escutei palavras desconexas sobre um passado sofrível, do qual eu pensava nunca compreender com perfeição.
Não foi a primeira vez em que tive que deixar minha dor de lado para cuidar da sua.
E eu sabia que não seria a última.

— Se pudesse… – escutei sua voz baixinha, após passar duas horas no sofá com ela, abraçando-a forte a fim de livrá-la de toda a dor. – Se pudesse voltar atrás, naquele dia, em frente à livraria… Se pudesse voltar atrás e ter seguido em frente, sem ter feito aquele pedido estúpido para tomarmos um café… – Mila levantou o rosto e me encarou com os olhos vermelhos e inchados. – Se pudesse apagar isso tudo e viver uma vida normal… Você o faria?
— Nunca. – nem precisei pensar duas vezes. Respondi com extrema segurança na voz, acariciando seus cabelos vermelhos e despenteados. – Eu preciso de você, Mila. Com suas loucuras, com suas peculiaridades, com seu jeito especial… Eu preciso de você por inteira. – segurei seu rosto entre minhas mãos e regalei-lhe o sorriso mais reconfortante e genuíno que consegui. – Talvez eu nunca tenha sido muito normal também. Sempre olhei a vida de forma diferente das outras pessoas. Sempre me senti estranho, por mais que tentasse me comportar em sociedade. Sua loucura é linda, Mila. Sua loucura é fascinante, me completa, me deixa… apaixonado! Sua loucura me salvou. Me salvou de mim mesmo, me salvou deste mundo. – rocei meu nariz no dela, pronto para beijar seus lábios até o dia amanhecer assim que essa pequena conversa acabasse. – Você sabe o quanto eu te amo, não sabe? – reafirmei o que já tinha dito mil vezes, mesmo sabendo que não iria ouvir a mesma coisa.
Mila apenas concordou e tornou a deitar a cabeça sobre o meu peito.
Eu não esperava mais ouvir a frase de três letras sair de sua boca. Não fazia falta. Suas ações me diziam mais do que um caderno de duzentas folhas todo escrito com declarações de amor.
Mila era diferente porque não usava palavras. Não porque não podia – ela podia bastante bem, principalmente quando estava excitada com alguma coisa e não parava de tagarelar sobre aquilo. Não usava porque não queria. Estava cheia delas; não as suportava mais.
Passou metade de sua vida ouvindo palavras ilusórias adentrar seus ouvidos. E acreditara nelas. Com afinco.
Tudo isso para depois descobrir que nenhuma era verdadeira.
Ela jamais diria que me amava com letras completas e eu entendia isso.
Não cobrava.
Não cobraria.
Não tinha necessidade, pois tinha plena certeza de seus sentimentos. Sabia o quanto eu era importante na sua vida.

— Mas é muito difícil. – sua voz triste e rouca reiniciou a conversa, afastando-me do mundo de pensamentos. – Eu não me agüentaria se estivesse no seu lugar.
— Ainda bem que existe um “eu” nesse mundo, e não duas de você, não é? – beijei sua fronte e limpei as lágrimas que rolavam de seus olhos. – Eu te amo, Mila. E estarei aqui para dizer-te isso cada vez que se esquecer. Cada vez que tiver uma crise e se sentir vazia, desamparada. Não importa quantas vezes o tenha dito, direi mais uma vez, se você precisar.
— Por que você faz isso? Por que ainda fica? Você não é normal, Neven.
— Então cada vez tenho mais certeza que estou com a pessoa certa.

Ela pareceu finalmente se convencer e beijou meus lábios. Tocou-me com ternura, invadiu minha alma com sua luz e seu amor. Porque eu sentia o amor de Mila em cada toque, em cada beijo, em cada olhar. E isso era mais do que suficiente para a minha felicidade.
Meus amigos não entendiam. Não entendiam porque eu agüentava seus fantasmas durante todos esses anos. Porque saía das festas correndo para segurar uma de suas crises de personalidade, porque eu dedicava toda minha atenção a uma mulher como se fosse uma criança. Afinal, existiam muitas no mundo, eles diziam. Como alguém poderia querer viver com uma mulher cheia de distúrbios pelo resto da vida?
Reclamavam, criticavam, questionavam; chamavam-na de louca por seu comportamento singular e distinto.
Diziam que eu não estava vivendo minha vida por sua causa. Eu era jovem, inteligente, com um ótimo emprego… Poderia ter a mulher que eu quisesse. Mas eles não sabiam? Eu já tinha essa mulher em meus braços.
As perguntas viam bombardeando-me diariamente e a resposta era sempre a mesma:  Eu a amava. Assim, pura e simplesmente. Não havia outro motivo, não havia qualquer outro sinônimo. Eu a amava por ser ela, por ser minha Mila, minha menina de olhos verdes e com boina lilás que eu jamais a deixava jogar fora.

— Neven, tem alguma coisa em minhas costas? – perguntou em uma tarde de domingo, onde assistíamos a um dos seus amados filmes Cult, dos quais eu raramente entendia.
— Não, Mila, claro que não. – observei com cuidado o seu corpo deitado de bruços no sofá. – Não tem nada aí.
— Tem certeza? Eu to sentindo alguma coisa… – sua mão fez malabarismos para alcançar todos os pontos de suas costas. – Mais ou menos aqui… – seus dedos indicaram sua omoplata.
— Não tem nada aí, Mila. – toquei o mesmo local, procurando algum machucado ou algo do tipo. – Está sentindo algum tipo de dor?
— Não, é só… um peso, sei lá. – Mila enrugou um nariz, como se fosse uma criança emburrada. – Ai, que saco, está me incomodando!

Ela ficou obcecada com essa idéia, tocava a região sem parar, com o rosto franzido, e logo notei que era mais alguma de suas crises.
Quando Mila ficava paranóica com algo, tinha que dar um jeito de fazê-la mudar de ideia, como se estivesse lidando com uma criança. E estava ficando tão experiente nisso, que logo achei a explicação perfeita.

— Ah, agora estou vendo! – disse, deslizando minha mão com cautela por toda a região de suas costas. – São tão brancas, quase invisíveis…
— O que é? – me olhou com curiosidade.
— São asas. – sorri divertido, vendo seus olhos se iluminarem. A essa altura já tinha perdido totalmente o fio da meada do filme. – Asas de fada. Não sabia que era uma fada, Mila?
— Sou? – ela piscava sem parar, com cara de boba, adorando aquela ideia.
— Claro! – afirmei, acreditando de fato naquilo. – Você mesma diz que é diferente das outras pessoas. Acho que agora achamos a explicação. Você é uma fadinha que veio a esse mundo apenas para se encontrar com um humano simplório como eu. Por isso suas asas ficaram invisíveis e você apenas sente o peso delas.
— Isso faz sentido. – Mila sentou-se no sofá de frente pra mim e passou seus braços ao redor do meu pescoço. – E jamais se chame de simplório outra vez. Simples são as pessoas sem graça que vivem por esse mundo com o nariz empinado e se comportando como robôs, imitando umas às outras. Você é meu tudo. Se voltar a se chamar assim outra vez, usarei meu pó de fada para te dar um castigo. Combinado? – ela roçou de leve o seu nariz com o meu, em um beijinho de esquimó. Adorávamos fazer aquilo.
— Combinado, minha fada. – meus lábios tomaram os seus com desejo e nos perdemos entre beijos e carinhos que duraram até à noite.

E após desse episódio, passei a chamá-la assim sempre que podia.
Mila não era louca. Pelo menos não para mim.
Ela era apenas mais um ser humano que caminhava por esse mundo com uma pesada cruz nas costas e uma corrente de ferro amarrada aos seus pés.
E sangrava.
Muito.
Mas ainda assim, seguia caminhando.
Porém rotularam-na por ser diferente. Porque não se comportava como as outras mulheres, não parecia como as outras mulheres e não falava como as outras mulheres. Tinha sua própria individualidade e uma personalidade extremamente forte. Se rebelava sempre que se via presa às regras de comportamento ditadas pela sociedade.
E, por isso, era julgada.
Mila era uma artista do mais alto nível. Vendia seus quadros pintados à giz de cera e, mesmo ganhando pouco, ganhava o suficiente para viver.
Suas mãos viviam sujas e borradas de giz, principalmente o preto, que era a cor que mais usava. Muitas pessoas achavam aquilo feio. Mila não cuidava das unhas e estavam sempre impregnadas de tinta. Muitas pessoas torciam o nariz e diziam que era horrível uma mulher que não tinha vaidade. Mas eu sabia que era muito mais do que isso.

— Pra que sofrer pra cuidar delas se, assim que acabar, mergulharei no mundo da arte e as sujarei outra vez? – essa foi a resposta que recebi quando perguntei o motivo pela primeira vez. – Prefiro morrer do que evitar pintar para não sujar as unhas. São só unhas, no fim das contas. Meus desenhos são minha alma.

Eu achava isso fascinante. Se minha admiração por aquele espírito crescesse um pouquinho mais, com certeza meu peito iria explodir. Não importava o que dissessem, eu achava a minha mulher a pessoa mais incrível do mundo. Seja ela normal ou não.
Mila podia ser instável. Mila podia ser frágil – com uma certa freqüência, até. Mas não uma fragilidade temperamental e sem sentido.
Após ser apresentado ao seu passado e a forma como o enfrentou, valorizei cada lágrima que rolava meu de rosto, sem rumo. Ela era essa antítese de fragilidade e fortaleza inimaginável. E não importava o que dissessem, eu tinha o maior orgulho de gritar aos quatro ventos que eu era o escolhido de um ser de outro mundo, um ser que vivia em seu próprio mundo. E este… Ah, este era especial! Cheio das formas mais belas e apaixonantes, quando não era subitamente invadido por fantasmas que começavam a assombrá-la repentinamente.
Muitos dizem que ela é a sortuda de ter encontrado alguém equilibrado como eu. Mas eu sempre digo – e não me canso de repetir – que sou o afortunado por ter tido o privilégio de receber o amor puro de uma fada.
Ser normal era entediante. No fim das contas, os loucos são as melhores pessoas que você pode vir a conhecer. E são chamados de loucos porque suas mentes estão anos-luz na frente dos que se consideram ordinários.

— Neven, você acredita em reencarnação?

Gaivotas voavam acima de nossos olhos.
Deitados na areia praia, olhando para o céu azul despido de nuvens, essa pergunta peculiar saiu de seus lábios como uma doce canção.
Virei meu rosto e observei seu olhar perdido no infinito céu acima de nós.
Sorri.
Essa imagem de nós dois poderia ser transposta para uma de suas lindas telas de pintura à cera. Na minha mente eu poderia ver o quadro pendurado no centro de nosso apartamento.
Sim, eu podia.
E havia ficado perfeito. Porque éramos perfeitos. Eu para ela; ela para mim.
Éramos perfeitos em nossas próprias loucuras.

— Não sei. – respondi sua pergunta após longos minutos de silêncio. – Às vezes sim, às vezes não.
— Posso te fazer um pedido? – ela finalmente olhou para mim, transmitindo bastante seriedade em sua fisionomia.
— O que quiser, minha fada. – escorreguei minha mão até encontrar seus dedos relaxados na areia da praia.
— Acredite. – ela apertou minha mão com força e seu olhar foi invadido por um sentimento de medo que eu não sabia como havia surgido. Com Mila era assim: as coisas simplesmente chegavam, sem você nunca descobrir por onde haviam entrado. E tudo o que eu tinha que fazer era dar o máximo de mim para expulsar os demônios intrusos sempre que se atreviam a apoderar-se de sua límpida alma. – Eu não suporto a ideia de estar ao seu lado apenas neste mundo, apenas aqui. Tenho medo de pensar nisso. – seus dentes morderam seus próprios lábios com força e uma lágrima prateada escapuliu de seu olho esquerdo. – De que eu possa vir a ser louca em alguma outra dimensão e que você não esteja lá. Ou que após a morte só exista um vazio negro, onde eu sempre terei de lidar com meus pensamentos confusos sozinha. Acredite comigo, Neven, por favor. Acredite que estaremos juntos através dos séculos… Com outros corpos, outros nomes… Mas com a mesma alma. Acredite… por mim. Talvez, se acreditarmos juntos, possa ser real.
— Eu acredito. – pus meu corpo sobre o seu e enchi seu rosto e sua pele de beijos sinceros e apaixonados. – Se você acredita, eu também acredito. Onde quer que você esteja, estarei logo atrás. É só não ter medo e virar o rosto. Estarei lá.
— Você promete? – perguntou, com os olhos vulneráveis, segurando meu rosto entre suas pequeninas mãos.
— Sempre.

XX

E havíamos parado aqui.
Após oito anos, nesse apartamento aconchegante, onde nossos sentimentos mais sinceros pintavam com cores a atmosfera do local.
Oito anos e ainda a amava como na primeira vez.
Oito anos e com a plena certeza de que continuaria amando-a ao longo de minhas futuras vidas.
Porque Mila era especial, em todos os sentidos da palavra. Foi feita cuidadosamente por alguém lá em cima, cheia de defeitos e problemas e mandada para mim.
Acreditava fielmente que era o único homem na face da Terra capaz de amá-la com todas as suas peculiaridades. E desejava ardentemente que ela jamais fosse normal como as outras pessoas.
Seu corpo e sua personalidade haviam feitos sob medida para mim.
Peço a Deus, todo o santo dia, que ele faça a bondade de me regalar a mesma mente torturada nas próximas encarnações, como Mila me fizera acreditar.
Deslizei meu corpo em sua direção e passei o braço ao redor de sua pequena figura, atraindo-a mais para perto de mim.
Seus olhos cerrados indicavam que sua cabeça criativa já passeava pelo doce vale dos sonhos. Mesmo assim, pus meus lábios ao pé de seu ouvido e deixei que minha voz sussurrasse com precisão as palavras que definiam os sentimentos de meu espírito pelo dela.
— Eu te amo também. – após oito anos, era a primeira vez que dizia a última palavra. E a sensação era boa demais. – Incondicionalmente. Com loucura.

Sentindo-me emocionado, deixei meu corpo cair sobre o colchão e admirei seu belo rosto mais uma vez.
Seus lábios esticaram-se em um sorriso inocente, ainda que sua respiração pesada indicasse que se encontrava verdadeiramente adormecida.
Em algum lugar de sua mente, de seus sonhos sagrados, minha voz ressoou como uma bênção para o seu sono. Ela me escutou. E onde quer que estivesse, em qualquer parte de seu mundo interior que pudesse estar visitando agora, Mila tinha uma certeza: ela não estava sozinha.
Porque eu seria e estaria louco com ela.
Era só ela olhar para trás e eu estaria lá.
Até o fim dos tempos.

Fim.

Deixe Haver Amor.

jjj

Deixe haver amor
Deixe haver amor
Deixe também haver amor próprio, amor recíproco.
Deixe haver amor
Deixe haver amor
Deixe também que haja a verdade
Deixe também que haja a sinceridade
Deixe haver amor
Deixe haver amor
Mas deixe haver também a inteligência, a percepção, nunca a enganação.
Deixe haver amor quando for realidade
Deixe haver amor quando houver saudade.
Deixe haver amor com liberdade, jamais com promiscuidade.
Nunca deixe existir palavras ao vento, corações enganados, corações iludidos.
Corações esperando algo que o seu nunca poderá retribuir.
Deixe haver amor
Deixe haver amor…
Sim.
Sempre deixe haver amor.
Deixe haver, deixe-o se expor.
Mas apenas quando ele verdadeiramente existir.
Porque prefiro alçar a mão em um adeus
A ver-te continuar a mentir.

Sobre Máscaras e Vulnerabilidades.

masca

Eu não te reconheço mais.
Olhando para trás, olhando seis anos atrás, era diferente. Pode parecer óbvio, pois todas as pessoas mudam. Mas acho que o problema é quando elas mudam em direção opostas. Quando mudam em direção opostas enquanto estão juntas.
Eu olho para você e não é você.
Não é seu nome, não é sua aparência, não é seu sorriso.
Não é você.
Não é a gente.
Seus fantasmas acabaram te deformando. Eu sempre estive aqui para ajudá-lo a combatê-los, mas você sempre preferiu fazê-lo sozinho. Eu disse que sempre estaria aqui, eu permaneci, mas você nunca me procurou.
Um dia eu prometi que nunca iria embora e que você sempre poderia contar comigo. E isso é verdade.
Ainda.
Estamos juntos, mas estamos separados. Você pode continuar contando comigo para qualquer coisa (apesar de nunca tê-lo feito), mas eu não posso mais continuar esperando algo em troca.
Nenhum coração aguenta, nenhum amor aguenta, nenhum relacionamento aguenta. A promessa está aqui, eu estou aqui, você pode sempre vir quando quiser, sempre te receberei de braços abertos. Mas não significa que irei fazer a mesma coisa. Não significa que irei pedir-te ajuda, que pedirei para que me ajude a lutar com meus fantasmas também. Não que eu não acredite que você me deixaria só, que você me deixaria largada deliberadamente para enfrentar tudo o que temo. O problema é que você é você demais para ser, nem que seja um breve momento, um pouquinho eu. E você me deixou isolada por tanto tempo que, no fim das contas, acabei aprendendo que posso fazer isso sozinha. Que posso viver sozinha.
O seu corpo está aqui, a matéria está presente, mas nunca o que eu mais precisei de você, o que eu realmente quis de você: Seus sentimentos. Seus medos. Suas angústias.
Sentir é tão assustador assim para você que precisa isolar todas as pessoas que te amam a fim de manter uma imagem de pessoa forte para si mesmo? É tão ruim assim admitir que uma lágrima possa cair de vez em quando?
Ser forte é reconhecer as fraquezas quando a situação pede. E pelo que eu tenho visto até agora, durante todos esses anos, apenas encontro alguém mais frágil e carente do que qualquer outra pessoa.
E me dói. Me dói muito.
Eu olho em sua direção, olho toda essa sua máscara, toda essa sua pseudo-força e me dói. Porque eu sei que é mentira. Porque eu sei que essa mentira existe desde antes de eu cruzar seu caminho e machuca ver alguém que amo tanto vivendo uma vida de fachada. Uma vida de sorrisos ao dia e lágrimas à noite.
Acha que se esconde de mim ao mentir, ao virar a cara, ao ir embora. Você pode fazê-lo se quiser. Já aprendi que é impossível segurar alguém ao meu lado se essa pessoa não quer estar segura, não importa o que eu diga, não importa o que eu faça.
Você pode ir se quiser e, eu prometo, vou ficar bem. Eu sempre fico no final. Você pode ir embora ou simplesmente continuar fingindo o que quer que você esteja fingindo, mas eu vejo através de você.
Mesmo longe, mesmo com a distância que você provocou, eu vejo.
Mesmo quando você está sorrindo, eu vejo quando você não está.
Mesmo quando você diz estar feliz, eu vejo quando você não está.
Mesmo quando você está aqui, eu vejo quando você não está.
Eu não sei quantas pessoas você consegue enganar ao seu redor, mas não pense que sou uma delas.
A sua dor me faz sofrer. Porque é extremamente ruim perceber o quanto você vem se matando diariamente ao acreditar que realmente pode aguentar tudo sozinho.
Você me subestima.
Acha que pode me ignorar e me deixar sempre que sentir vontade, porque sempre estarei aqui quando você voltar.
São seis anos.
São seis anos em que você vem fazendo isso.
São seis anos em que eu venho fazendo isso.
Eu quis dizer cada palavra quando expressei todo o meu amor e tudo o que eu seria capaz de fazer.
Eu quero estar aqui até o fim. Mas eu não sou à prova de balas. Muito pelo contrário.
Eu sou quase uma esponja, eu absorvo tudo.
Eu absorvo tudo, até você.
Você com suas dores, seus fantasmas, suas questões insolúveis, o vazio negro dentro de si.
E tenho muito, muito medo do que será de nós dois quando eu finalmente explodir.
Porque você sempre me manda esquecer.
Qualquer questão, qualquer resolução, qualquer emoção… Você me manda esquecer.
Somos adultos.
É só esquecer.
Não é só isso que você tem a dizer?
É só esquecer.
E, no fim de tudo, é muito triste perceber que não há mais nada que eu possa fazer.

Do Que Você Tem Medo?

fear

Barata se mata.
Dor se cura.
Falta de criatividade não dura.
Amor não mata.
Se mata, não é amor.
É obsessão pura.
Erros podem ser consertados.
E problemas podem ser resolvidos.
Se estiver muito alto, é só fechar os olhos.
Rejeição pode ser superada.
Fofoca é pra quem tem cabeça oca.
E o que é vazio está cheio de nada.
Pais são humanos também.
Notas não te definem.
Não definem a ninguém.
Gordura corporal também não.
O espelho apenas reflete o que você quer ver.
Pobreza é um ponto de vista.
Riqueza é um estado de espírito.
Doença começa na alma.
O que você faz com ela?
Gato preto não dá azar. Sua paranoia dá.
Escuro é só a ausência de luz.
O resto é sua imaginação.
Solidão é uma ótima oportunidade para uma profunda reflexão.
Críticas são apenas um monte de palavras juntas.
Se não deixar que se formem, nada poderão fazer.
Ofensas não podem te afetar. Só se você concordar com elas.
Obstáculos são apenas indícios de que você está indo pelo caminho certo.
A morte faz parte da existência.
Não se pode ter um sem o outro.
Sua vida pertence apenas a você mesmo.
Influências existem, mas, no fim a escolha de como você a vive, é sua.
Falar é fácil e fazer é muito difícil.
Mas tentar é fundamental.

Então, me diga… Do que você ainda tem medo?