Casinha de Cobertores.

essa

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Nesta noite gelada de agosto, vamos pegar todas as mantas e edredons do armário e colocá-los sobre duas cordas de varal, que cruzam uniformemente o quarto.
Vamos brincar de ser criança, de ser feliz.
Vamos criar nosso mundo particular, com tudo o que a gente sempre quis.
Vamos pegar travesseiros, fronhas, lençóis e tudo o que for necessário para construirmos nosso cantinho.

Prometo que seremos apenas eu e você.
Seremos eu e você como sempre deve ser.

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Assim mesmo, bem simples.
Um pouco enrolada e desengonçada; um pouco embolada e bagunçada… Mas muito, muito adorada.
Venha, não tenha medo.
É apenas uma brincadeirinha.
Me dê a mão e não tenha medo.
Eu jamais o deixarei sozinho. Jamais o deixarei perdido.
Deixemos celulares, notebooks, telefones ou qualquer outro objeto que emita um ruído banal que possa atrapalhar este momento.
Deixemos máscaras, armaduras e as enormes muralhas.
Deixemos o mundo.
Deixemos a falsidade e a mediocridade. Porque em nossa casinha de cobertores só é permitida a verdade.
Apaguemos as luzes. Assim será melhor.
Será mais fácil desnudarmos nossas almas.
Será mais fácil ouvir-lhe os lamentos, os sofrimentos e os tormentos que vêm maltratando o seu coração durante todo esse tempo.
A claridade pode ser cruel demais.
Ela mostra para quem quiser ver um par de olhos lacrimejantes, um rosto vermelho e uma postura curvada que nada tem de elegante.
Por isso, em nossa casinha de cobertores não pode haver claridade.
Apenas eu e você em nossa máxima vulnerabilidade.

Há estrelas.
Há estrelas no teto de nossa casinha de cobertores e está quentinho.
Há estrelas no teto de nossa casinha de cobertores e minha mão morna encontra a sua enquanto as palavras brilhantes que saem de sua boca vão formando mais estrelas.
Cada palavra é uma dor. E cada dor é uma estrela.
E há milhares de estrelas no teto de nossa casinha de cobertores.
As horas passam, a respiração pesa e você adormece.
Meus olhos velam com amor seu sono tranquilo ao mesmo tempo que deslizo inocentemente minha mão pelo seu corpo, oferecendo toda a afeição que sua alma carece.
Coloco emocionada meus dedos sobre seu coração e faço uma prece.
Rezo para que os anjos ouçam o meu apelo e cuidem de seus sentimentos com bastante zelo.
Rezo para que possa encontrar alguém que o ame de verdade.
E que, um dia, essa verdade possa ser eu.
Rezo.
Rezo.
Rezo.
Até toda a dor passar.
Rezo até o amor triunfar.
O meu amor.
O meu amor por você.

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Uma hoje, uma amanhã, uma todos os dias.
Uma assim, sem compromissos, sem dissabores.
Uma assim, de brincadeira; assim, de bobeira.
Uma casa, uma ilusão, sempre de portas fechadas à realidade.
Uma casa onde jamais entrará a saudade.
Uma casa onde estrelas substituem as dores.
Uma casa só nossa.
A nossa casinha de cobertores.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
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