Lobos.

wolf

Inspirado na música “Hunters And The Wolves”, por Delta Goodrem.

Os lobos me perseguem diariamente.
Posso ver suas presas em um sorriso malicioso e indecoroso.
Posso ver a salivação em suas bocas em um desejo irrefreável e pavoroso.
Ouço seus uivos crescentes e indecentes em meus ouvidos, impregnando meu cérebro com imagens pecaminosas.
Acreditam que sou uma presa fácil e que meu corpo seria uma deliciosa fonte de prazer.
Eu poderia deixá-los me pegarem, me usarem, me matarem com suas garras sujas e luxuriosas.
Eu poderia deixá-los fazer o que quiserem comigo e ainda pediria por mais.
Mas me contenho.
Evito, disfarço, me escondo.
Finjo que não vejo, finjo que não sinto, finjo que não ouço.
Finjo que eles não existem.
E talvez não existam mesmo.
Pelo menos não no mundo onde você existe pra mim.
Não da forma que você existe pra mim.
Mas você é apenas um cachorrinho apavorado no meio dessa enorme matilha.
És apenas o menor animalzinho que não tem coragem de se aproximar e dar a primeira mordida.
Meu corpo seria todo para você, se ao menos o quisesse.
Minha alma seria toda para você se ao menos a quisesse.
Eu poderia fazê-lo o homem mais feliz do mundo se ao menos quisesse.
Mas você não vem.
Você finge não ver, finge não notar, finge não desejar, exatamente como faço com os outros, nesta interminável cadeia alimentar.
Eu estou preparada.
Estou preparada para deixá-los me pegar, para deixá-los me devorar como um pedaço de carne descartável. Mais do que preparada, eu quero que eles o façam.
Quero que possuam meu corpo, alimentem-se de toda esta carcaça que restou de mim e acabem com esta frustração interminável que é viver sob uma pele como a minha.
Quero que tirem todo o prazer que tem para tirar e me permitam finalmente respirar.
Eles se aproximam cada vez mais e sinto que estou pronta para me entregar.
Olho para você uma última vez e tudo o que fazes é se afastar.
Você desistiu antes mesmo de começar.
Eu sou a presa fácil que todos eles estão lentamente a devorar.
Eu sou aquela mulher frustrada que nunca poderá te amar.
Acabou.
Poderia ser você.
Oh, como poderia ser você!
Exatamente como deveria ser eu…

No Próximo Verão.

cliff

É a história mais antiga do mundo.
Mais antiga que a primeira folha da Bíblia escrita.
Mais antiga que a idéia de Odisseu e Penélope na cabeça de Homero.
Mais antiga que a criação da religião entre os homens.
Ela sempre começa da mesma forma:
Um entardecer melancólico.
Um navio afastando-se da terra firme sobre as águas salgadas.
E uma mulher no topo de um penhasco vendo um pedaço – ou quase toda – sua alma desvanecer lentamente, até sumir no horizonte.
É a história mais antiga do mundo.
Mães esperando por seus filhos, jovens esperando por seus noivos, esposas esperando por seus maridos, irmãs esperando por seus irmãos…
Mulheres que jamais voltarão a ser as mesmas.
Mulheres que tiveram suas almas modificadas da pior forma. Não só nesta vida, mas nas futuras também.
É irônico perceber como os mesmos deuses que criaram uma raça tão apegada como a raça humana, são os mesmos deuses que comandam este Universo sob uma lei de desapego da qual nunca irei entender.
E esse paradoxo cruel me faz querer morrer.
É a história mais antiga do mundo.
É a mais antiga porque a guerra nasceu com o homem.
É a mais antiga porque o amor nasceu também.
Então, seja por ódio ou seja por amor, o homem, o marido, o amante, tem sempre motivos para partir.
A mesma cena se repete com o passar dos séculos, através de todas as nações.
Promessas são feitas, lágrimas são derramadas e corações são destruídos.
Desde que o mundo é mundo, nós, mulheres, somos conhecidas pela fragilidade, enquanto os homens são definidos pela força bruta.
Mas eles não sabem… Oh, não! Eles não fazem ideia!
Eles não entendem a energia sobre-humana que toda essa interminável espera nos consome.
Como dói, como desespera, como mata acordar com o espírito inundado de esperanças e ter de ir dormir com o corpo destroçado por mais um dia que parece ter sido completamente em vão.
E eu juro que ainda não aprendi a lidar com um sentimento dessa dimensão.
Essa é mesmo a história mais antiga do mundo.
Um entardecer melancólico.
Um navio afastando-se da terra firme sobre águas salgadas.
E uma mulher no topo de um penhasco vendo um pedaço – ou quase toda – sua alma desvanecer lentamente, até sumir no horizonte.
Essa história irá sempre começar da mesma forma.
E, ironicamente, é sempre assim que ela terminará também

Deveria Ser Eu.

red shirt

Deveria ser eu.
A que aquela camisa vermelha te deu.
A digna de toda a atenção dos olhos teus.
A que deveria estar ao lado seu
Desde o dia em que nasceu
Desde o momento em que cresceu
E até na primeira vez em que seu coração adoeceu.
Deveria ser eu.
A primeira a beijar os seus lábios quando a esperança em seu coração morreu
A primeira que viu suas lágrimas caírem quando anoiteceu
E a primeira que as enxugou quando amanheceu.
Deveria ser eu.
No seu momento mais baixo
Ou no seu apogeu.
Ouvindo os assuntos mais banais
Como o quanto a derrota do seu time te entristeceu
(Mesmo que este não seja o mesmo que o meu!)
Ou brigando contigo porque trabalhou tanto que até de comer esqueceu.
Deveria ser eu.
É…Deveria ser eu.
Mas não sou.
Mas não somos.
Ainda.
Talvez.
Não sei.
Juro que não sei.
Só sei que deveria ser eu.

Sobre Palavras, Músicas e Despedidas.

piano

Os olhos cor de mel encontram os meus numa sala vazia e sombria.
O silêncio nos consome, o medo nos corrompe e palavras nos constrangem.
O que há mais a ser dito?
Depois de todos esses anos, depois de todos esses danos, o que há mais a ser dito?
Não há nada. Não há uma única sílaba, uma única letra, uma única saída.
O ponto final em nossa história já foi posto.
Se fui eu quem colocou, se foi você quem colocou, se foram os dois, exatamente ao mesmo tempo… Isso não importa.
Nossa história acabou.
Mas quem será o primeiro a cruzar a porta?
Quisera fazer-te uma canção de despedida, escrever-te uma letra de amor perdido, mas nem isso.
As palavras nos abandonaram de vez.
O que faremos? Como sobreviveremos?
Se não podemos usá-las, então toquemos.
Toquemos uma doce melodia qualquer. Seja de Mozart, Beethoven ou Chopin.
Toquemos, ainda que seja simples, fugaz, feita em um quarto escuro às duas da manhã.
Toquemos e evitemos o constrangimento.
Evitemos o desejo errôneo de insistir em estarmos um com o outro.
Dois artistas jamais poderão tocar juntos se não estiverem afinados. Se não estiverem na mesma freqüência, no mesmo tom. Do contrário, a música não acontece, as melodias não se cruzam e tudo o que resta são duas pessoas frustradas, que fizeram de tudo para conseguirem absolutamente nada.
Não é melhor evitarmos?
Oh, não é melhor deixarmos?
Devolvam-me meu piano e me deixem respirar. Por favor, vá para o seu quarto, toque sua música, enquanto eu ficarei aqui, sozinha, largada, deixada, tentando fazer a mesma coisa com a minha alma quase apagada.
O desejo gritante e agonizante de sua companhia nunca foi o bastante para mantê-la.
Talvez você tenha desejado a minha também ou talvez apenas tenha fingido por educação.
O fato é que nenhuma canção foi composta por esta dupla fracassada, por mais que nossas mentes criativas tenham adorado o processo de criação.
Devolvam-me meu piano e me deixem tocar. Deixem-me sentir os dedos flutuarem pelas teclas brancas e negras outra vez. Deixem-me sentir ser levada pela música, por aquele toque sutil que nenhum outro instrumento é capaz de executar.
Façam com que minha alma voe para longe, para tomar um descanso, deixando corpo pesado e cansado descansar de uma vez por todas.
Deixem-me viver de música.
Devolvam-me meu piano e deixem-me viver de música.
Eu não quero mais palavras; cansei delas.
Cansei de toda a sua repetição constante, das linhas ambíguas que dizem tudo e nada ao mesmo tempo. Cansei das inúmeras rimas, do barulho seco e vazio que produzem quando são criadas.
Quero o tom úmido do dó, ré, mi e o toque sutil e anestesiante do fa, sol, la, si.
Quero viver de música.
Da música que não mente, que não engana, que não esconde.
Que não mata, que não decepciona, como as palavras fazem com maestria.
Quero viver de música e me perder em toda sua melodia.
Pois já cansei de ser a garota estúpida que ainda escreve sobre contos de fadas e acredita em magia.

Os olhos cor de mel encontram novamente os meus numa sala vazia e sombria.
O silêncio ainda nos consome, o medo ainda nos corrompe e palavras ainda nos constrangem.
Nossas almas já sabem, já entendem que nossa história já está morta.
E no fim de tudo, eu sou a primeira a cruzar a porta.

Queria Que Você Estivesse Aqui.

ffewrwrt

A vida está boa.
Não… A vida está ótima!
Os planetas estão se alinhando
Meu coração está finalmente se ajeitando
Mas, ao invés disso, eu queria que você estivesse aqui.
Me sinto tranqüila. Me sinto alegre.
Estou dançando pelo quarto, cantando minha canção favorita com todo o ar de meu pulmão.
Mas, ao invés disso, eu queria que você estivesse aqui.
Seu olhar.
Seus olhos e o formato deles.
Seu caminhar.
Eu realmente queria que você estivesse aqui.
O Universo sorri para mim.
Eu aprendi a viver, aprendi a tocar e até aprendi a abraçar sem me apavorar.
Mas eu ainda não aprendi a desapegar.
De nada. E muito menos de você.
Eu queria que você estivesse aqui.
Sua voz.
O jeito como colocas distraidamente a mão no bolso da calça ao conversar com alguém.
Você trabalhando no notebook concentrado, enquanto eu estaria à espreita, escondida atrás da porta entreaberta, apenas para te observar. E isso tudo em nosso lar.
Exatamente como em meu sonho.
Eu queria que você estivesse aqui.

Estou sorrindo. Estou pulando na chuva.
Estou desenhando desajeitadamente formas que não fazem o menor sentido.
Estou voando com borboletas.
Estou rindo com vaga-lumes e me divertindo mais do que de costume.
Mas, ao invés disso, eu queria que você estivesse aqui.
Tudo o que me resta são os sonhos onde, ao fechar os olhos, eu consigo ver com precisão cada traço do seu rosto. Eles são o que me mantém viva.
O fantasma de você em meu pensamento é o que me ajuda a atravessar o dia. Mas, às vezes, nem isso é o bastante e me sinto sufocada.
Pois tudo o que tenho é esse pensamento, essa lembrança. Essa sombra que aos poucos se desvanece.
Tudo o que possuo é esse toque fugaz que ainda queima minha pele, mesmo que este toque não tenha sido material. Mas não importa. Porque real eu tenho certeza que foi.
Isso já aconteceu antes. Já aconteceu antes e é por esse mesmo motivo que sinto tanto medo. A rejeição foi enorme e a dor tomou proporções além do esperado. E sinto que estou cometendo os mesmos erros outra vez ao te querer assim tão loucamente.
Mas isso não me importa muito agora.
Porque, acima de todas essas coisas, eu queria muito que você estivesse aqui.

Há alguém para mim.
No final desta interminável rua, há alguém me esperando. Há alguém me amando.
E o mais estranho é que também não me importo nem um pouco com isso.
Eu trocaria todas essas coisas, trocaria todas essas pessoas por você.
Porque eu realmente queria que você estivesse aqui.
Mas eu estou cansada.
Oh, como estou cansada!
Toda essa espera, todos esses joguinhos intermináveis, sua presença sempre tão ausente e o sorriso que nunca poderei vislumbrar.
A garota à beira da praia não existe mais.
Desesperei de tanto esperar.
Queria que fosse diferente, daria tudo para que fosse diferente, mas eu não posso mais.
Eu realmente queria que você estivesse aqui.
Mas já é hora de aceitar que você nunca estará.

Hoje.

hoje

Para Nayara Marques.

Hoje acabou.
Depois de tantas idas e vindas, de tantas rotas perdidas e becos sem saída, finalmente encontrei o caminho de volta pra casa; de volta pra mim.
Hoje abro a porta da frente e deixo para trás o masoquismo. Deixo para trás o profundo abismo onde me deixaste abandonada, largada, amargurada, gritando aos quatro ventos por ajuda e apenas conseguindo ouvir o eco da minha própria voz.
Hoje paro e deixo de lado a obsessão, a solidão vazia e profunda que sinto diariamente pela frustração por tentar fazer-te amar-me. De tentar fazer-te enxergar-me, adorar-me e aceitar-me. Mas todo esse vício por sua atenção sempre ausente apenas resultou em um amor ignorado e um orgulho altamente ferido.
Mas hoje não.
Hoje não e nunca mais.
Porque aprendi a me olhar no espelho e perceber que mereço mais, muito mais.
Que existe sim alguém neste mundo capaz de me amar com minhas inseguranças, loucuras, paranóias e que até mesmo esteja disposto a lutar contra os meus fantasmas comigo. Que me ame pela minha alma, pelo que eu sou por inteiro e pelo posso vir a ser.
Por isso, hoje, deixo ir embora as esperanças de que poderias ser esta pessoa. Que se te ensinasse a lidar comigo, você iria querer realmente aprender. Mas não adianta. Porque é tudo apenas uma inútil agridoce ilusão. Afinal, tudo o que tenho de você não passa de uma piedade vulgar que com certeza não me levará a nenhum lugar.
Porém, dói… Ai, como dói!
Largar o vício e desgarrar da idéia do “pode ser” provoca uma dor insuportável. Me dói a alma, me invade o vazio, tremo de frio…
Ainda nem cruzei a porta e o pensamento de uma vida sem a sua presença, ainda que superficial, já se torna indescritivelmente dolorosa.
Ainda nem cruzei a porta e já sinto a ausência de seus olhos castanhos, de sua voz melodiosa cantando ao pé do meu ouvido, de seus beijos em lugares proibidos e de todos os momentos fugazes vividos.
Porém, dentre todas as coisas deste mundo, nada me fará mais falta do que seu sublime sorriso. Você sabe muito bem que ele é a minha perdição. Não importa o que faças, não importa o que aconteça, é só abrir os lábios sutilmente, desse jeitinho que você faz, que já tens todo o meu perdão.
Mas hoje não.
Hoje aprendi a amar o reflexo da garota em frente ao espelho e sigo em frente.
Deixo para trás toda uma vida sobre a areia movediça e desisto de vez deste amor parasita.
Então é isso.
Alço minha mão em um adeus definitivo e deixo as lágrimas rolarem pelo meu rosto.  Porque minha vida está prestes a mudar e ela está esperando ansiosamente por mim. Há um novo mundo a ser explorado e, para que isso suceda, preciso deixar o velho, onde você ainda vive, para trás.
Eu apenas posso lamentar sua falta de interesse e seu descaso eminente, pois se você fosse um pouco mais inteligente, veria que sou muito, muito mais do que apenas uma mulher carente.
Entretanto, hoje vejo que assim foi melhor. Percebo que se tivéssemos a oportunidade de construir uma relação, nossos mundos acabariam em completa destruição.
Por isso, já não há mais razão.
Então… Ah! Hoje eu respiro e sigo em frente! Coloco um pé após o outro e vou em busca da vida que sempre quis.
E consigo mesmo acreditar que finalmente posso ser feliz.

Um Comportado Soldado.

soldado

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Não possuo sentimentos, não me interessa mais o conhecimento e de qualquer relação mais profunda me isento.
Uso termos pejorativos, acho tudo enjoativo e nunca me sinto entretido.
Nada me fere, nada me abala.
Nada me confunde, nada me atrapalha.
Sou um comportado soldado.
Bato continência à sociedade e obedeço determinado ao padronizado comportamento social.
Sigo meu capitão com a farda impecável e possuo uma autoconfiança invejável.
Sou descolado, nunca ignorado e sempre passo longe dos mal amados.
Consigo falar de absolutamente nada usando mil palavras e sempre danço conforme a música tocada.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Eu sei de mim.
Será mesmo?
Vamos tentar de novo.
Vamos começar outra vez.

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Sou sentimental, às vezes passional e sinto diariamente um vazio abissal que não consigo preencher com qualquer coisa normal.
Tudo me fere, tudo me abala.
Tudo me confunde, tudo me atrapalha.
Finjo-me de um comportado soldado porque não suporto mais ser desprezado, destruído, excluído, e sou obcecado com o reflexo que vejo no espelho.
Porque não enxergo, não entendo, não compreendo o motivo de não ter sido o escolhido.
Não aceito, não posso, não consigo entender porque ela o encontrou, porque ela se entregou, porque ela o amou.
Porque ela me deixou, porque ela me olvidou e me largou aqui neste mar vazio assombroso, espantoso, revolto e desolador.
Sou um soldado comportado, padronizado, obedeço a um capitão porque estou perdido em solidão, ironicamente, em uma vasta multidão de pessoas que não conseguem me preencher.
Estou desesperado.
Quero atenção, quero compaixão, mas não sei como expressar toda essa confusão.
Estou revoltado, paralisado, amargurado com todo o desprezo, com tão pouco caso.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Homem não chora, homem não se enamora ou molha a cama quando uma mulher vai embora.
Por isso, levanto a cabeça, dia após dia, e me escondo.
Escondo-me de meus sentimentos; enterrei-os em algum lugar dentro de mim e desejo nunca mais encará-los nesta vida.
Misturo-me à multidão para que o barulho dessas vozes banais e superficiais bloqueim o eco do grito desesperado de minha alma.
Comporto-me como eles para esquecer de mim.
E consigo até acreditar que sou medíocre assim.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Mas não sei de mim.
Ainda não aprendi a encarar a imagem refletida no espelho e nem sei como fazê-lo.
Ainda não aprendi a olhar alguém diretamente nos olhos, pois temos que esse alguém consiga ver o que não quero ver; o que me recuso a enxergar.
Que possam notar que possuo toda essa fragilidade tão vulgar estampada em meu olhar.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Porque eu sei de tudo.
Porque eu sei de todos.
E acredito que sei de mim.

Eu sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o soldado com um orgulho imortal.

Às Vezes.

Às vezes eu uso “às vezes” bastante vezes em meus textos. Às vezes por não saber qual sinônimo utilizar ou encaixar; às vezes por simplesmente gostar.

Às vezes tenho necessidade de escrever sobre mim e não esconder isso. Como em um patético diário adolescente, preciso largar a máscara de meus personagens e desnudar minha alma, a fim de me aliviar. Porque, às vezes, nem mesmo o meu tão amado orgulho consegue me sustentar.

Às vezes preciso apenas estar sozinha. Mesmo na presença de pessoas agradáveis e adoradas, preciso me afastar, nem que seja por cinco minutos, para estar sozinha e respirar. Para entrar temporariamente em meu mundo particular e relaxar. Porque, mesmo depois de todos esses anos, continuo achando o contato social bastante exaustivo e, às vezes, desesperador.

Às vezes quero ser normal.
Quero me sentir como uma garota comum (e principalmente me comportar como uma!), falar de forma menos teatral, ser menos azeda, menos sensível e crítica… Ser simplesmente normal.  Penso e sair do meu mundo intelectual, falar de algo mais banal, parar de ser tão radical para que finalmente possa ser aceita como igual. Mas essa idéia estúpida não dura muito, pois é só estar ao lado de pessoas desse tipo, de mentes tão pequenas e entediantes, que tenho certeza que é em meu mundo autista onde quero morar para sempre.
Não importa se serei excluída ou não. Pois é em minhas maluquices e macaquices onde encontro a melhor versão de mim mesma.

Às vezes, em pensamentos, consigo largar o vício da autopiedade  e me permito ser um pouquinho arrogante. Me permito pensar que aquele que me despreza ou não faz questão de me conhecer é um pobre coitado. Porque essa pessoa nunca vai conhecer outro alguém mais criativo, mais inteligente, mais dedicada, desvairada, profunda, louca, retardada e outros muitos adjetivos que não cabem  em uma folha de papel. Não vai conhecer um amor como o meu, um carinho como o meu e todo o apoio que posso oferecer em momentos de crises. Afinal, já estive muito tempo nelas. Ajudar outras pessoas a atravessá-las é mais do que um prazer pra mim.
Mas esse pensamento também dura muito, muito pouco. Porque um dia novo começa e eu volto a ser aquele ser irritante que acredita que nada tem de interessante.

Às vezes pego alguém pra admirar. Assim mesmo, do nada. Sem qualquer interesse romântico. Sem qualquer razão aparente. Apenas alguém que me inspire, independente de raça, sexo, cor da pele ou qualquer outra característica. Apenas alguém diferente nesse mundo cheio de pessoas iguais. Apenas alguém especial, com um sorriso admirável, um caminhar adorável e uma voz espetacular.
O mais engraçado disso é imaginar que elas nem imaginam. Que não fazem idéia de que há mil textos e poemas meus dedicados a elas. Que não sabem que há uma louca observando-os silenciosamente ao longe. E que toda essa observação atenciosa irá se transformar em trabalhos escritos às  3 da manhã e que logo serão divulgados para quem quiser ler. E, às vezes, fico assustada com essa minha capacidade de admirar alguém que nunca sequer trocou um par de palavras comigo.

Às vezes preciso parar, mesmo que queira continuar.
Preciso colocar um fim em um texto ou uma história que para mim poderia ser eterna. Porque minha imaginação é sem limites. E enquanto houver palavras disponíveis no mundo, há histórias. Há textos, há criatividade.
O problema é que não há alguém capaz de ler por toda a eternidade.

E, pra terminar, às vezes tenho dificuldade para terminar.
Não sei como colocar um ponto, quando ainda há muito mais o que falar. Principalmente agora, com essa nova mania de rimar.
Como tudo na minha vida, o “acabar” me faz chorar. Me faz lutar, brigar e pirraçar até cansar. Até cansar e a bandeira branca da redenção ser obrigada a alçar.
Por isso, às vezes, acho que o “fim” é uma palavra vulgar. Mas sei que ela ainda acabará por me matar.

A Casa Dos Gritos.

scream

Parem de gritar. Parem agora.
Vão embora e jamais sequer pensem voltar em outra hora.
Vocês não veem?
Vocês não sentem?
Nessa casa cheia de gritos, há uma garota debaixo da cama.
Nessa casa cheia de gritos, todos os cômodos já foram entupidos de drama.
Parem os gritos.
Apenas parem.
A mente da menina não aguenta mais.
As pequenas mãozinhas não conseguem bloquear a passagem dos sons estridentes e sem sentido que atropelam as frestas da porta, prontos para agarrá-la.
Prontos para fincarem suas unhas em uma sanidade há muito abalada.
Será que não vocês não veem?
Será que vocês não sentem?
Os anos passam, o mundo muda, mas os ecos de uma família quebrada vão terminar por deixá-la surda.
Será que não veem?
Não, eu sei que não.
Tenho certeza que não.
Porque vocês não enxergam.
Não possuem olhos, não possuem ouvidos, não possuem sentimentos.
Porque vocês só sabem gritar, gritar e gritar.
Vocês só sabem gritar até conseguirem o pulmão estourar.
Vocês só sabem gritar até a voz falhar.
E a pior parte de tudo é que ela nunca falha!
A garota debaixo da cama não agüenta mais.
Isso não é vida!
Porque em uma casa de gritos simplesmente não há saída.
Será que um dia vão conseguir ver?
Como esta garota irá crescer?
Como ela conseguirá viver sem enlouquecer?
Ela não poderá, certo?
Porque ela já enlouqueceu.
Porque qualquer lugar onde as vozes se manifestam em um tom mais elevado já é motivo para se sentir em um inferno na Terra.
Ela não poderá, certo?
Porque uma multidão  gritante já lhe é apavorante.
E todo esse pavor é motivo para mais gritos. Gritos internos, gritos com ecos, que ressoam contra paredes escuras e vazias de um organismo doente.
Será que nunca conseguirão ver?
Será que nunca conseguirão entender?
A garota tapando os ouvidos debaixo da cama quer finalmente viver.
Pois nessa casa gritos ela não quer mais perecer.
Por isso, parem de gritar. Parem agora.
Parem de gritar e vão embora!
E jamais, sequer, pensem em voltar outra hora.

Sobre Amores e Estações.

Acordo num sobressalto, após um pesadelo.
Meu corpo ainda treme de medo e o coração disparado no peito dificulta qualquer tentativa de respiração tranqüila. Estico o braço para o lado direito da cama, em busca de seu corpo, de seu abraço, de proteção, mas não há nada. Não há nada além do lençol amassado e o vazio deixado pela sombra de sua carne.
Ponho-me de pé e passo a mão pelo rosto. Escuto o barulho da louça vindo da cozinha e mordo os lábios, sem saber como começar. Sem saber como iniciar este dia tão distinto, tão cinza, tão sombrio. Apenas mais um dentre os muitos dias acinzentados que temos vivido.
Olho no espelho. A maquiagem borrada – que havia esquecido de retirar – denuncia todo o martírio de uma noite gelada e silenciosa. Pergunto-me o que estou fazendo. Pergunto-me por que ainda sigo aqui, com os pés descalços e os sonhos destroçados. Quando olho para você, tento vislumbrar qualquer resquício de esperança, qualquer fragmento de um amor que agora parece uma lembrança longínqua. Talvez eu veja essa luz ou talvez eu apenas a imagine. Porque ainda me custa acreditar que tudo está por acabar.
Você nega. Você diz que estou louca. Você me dá todos os adjetivos do mundo e beija minha cabeça de forma condescendente antes de ir para o trabalho. Promete que nada vai mudar, que somos os de antes e que sempre seremos. Tudo o que consigo fazer é esticar meus lábios com muita dificuldade em um sorriso amargo e tomar um café bem forte, enquanto meus olhos acompanham-te deixar esta casa.
Sinto-te cada vez mais longe. Sinto-te escorregando por entre meus dedos, como grãos de areia que escorrem por minha pele até tocar o chão. Por mais que tente agarrá-los, tudo o que sobra em minha mão são grãos de terra, que parecem não significar mais nada.
Os dias passam. O calor do verão se esvai com a chegada do outono.
As folhas secas se jogam sutilmente das árvores e meus olhos acompanham cada detalhe da natureza enquanto tento arranjar alguma forma de voltar ao passado. De voltar ao primeiro olhar trocado, à primeira sensação de borboletas no estômago e o arrepio gostoso que sobe e desce freneticamente pela espinha. De retornar ao primeiro beijo, às primeiras palavras românticas e das pioneiras promessas que cruzaram seus lábios em forma de algodão doce.
Mas não há como. A porta da máquina do tempo está trancafiada, me obrigando a viver no presente. Me obrigando a olhar o fantasma do que você já foi um dia e me forçando a aceitar isso.
A pior parte de tudo é que não consigo ir embora. Não consigo atravessar a porta, deixar seus olhos cor de mel para trás, junto com todos os sonhos, todas as palavras, todas as promessas. Não consigo pegar a mala e largar o seu sorriso, a sua gargalhada gostosa e a voz que por tantas vezes sussurrou em meus ouvidos que viveríamos para sempre.
Não posso. Não consigo. Sou fraca, incapaz, inútil… Não consigo.
Meu corpo sempre dá um jeito de pedir desesperadamente pelo seu. Mesmo estando tão perto, mesmo com toda a parede de gelo entre nós, eu ainda me sinto como uma adolescente, boba, apaixonada e admirada pelo homem que você é. Afinal, não é isso do que se trata o amor? Um pouco de admiração, uma carga de paixão e muita, muita frustração? Muita, muita rejeição? Não sei o que os poetas pensam, o que querem dizer com os textos melados e sem sentido, mas, para mim, é como parece. Porque quanto mais você me ignora, quanto mais você me despreza e finge não se importar, eu sinto vontade de continuar aqui, esperando o dia em que você voltará a me amar. Esperando, sempre esperando, o dia que retornaremos aos cenários épicos dos nossos melhores momentos juntos. É doentio, é insuportável, é repugnante essa necessidade de te ter aqui, de vê-lo sempre perto de mim, mesmo que não sinta mais o mesmo por mim. É ridículo, deplorável, deprimente, mas, infelizmente, não há nada que eu possa fazer.
O inverno entra pela porta mascarado de uma corrente de ar frio.
Você está trabalhando sobre a mesa da cozinha, enquanto eu sigo com minha caneca de café forte sobre os lábios, admirando cada gesto seu. Me dou conta de que apenas um “bom dia” saiu de sua boca hoje e o como isso dói. De como o silêncio se torna enlouquecedor em meus ouvidos porque vem de você.
Há outro me esperando. Há outro me amando, me querendo, me aceitando.
Mas que outro? Quem, como? Porque não há. Não em mim. Não no meu mundo. Porque dentro de mim, fora de mim, ao redor de mim só há você. Só há você e apenas você. Apenas você e sua frieza, sua indiferença, mas ainda assim você. Eu não sei o que fazer, como proceder, mas ainda assim você.
Minha cabeça continua gritando que estamos morrendo.
Mas meu coração lembra que, após toda morte, há renascimento.
E que de cada renascimento vem um vida completamente nova para se viver.
Coloco a caneca sobre a pia de mármore e seguro de repente seu rosto entre minhas mãos. Meus lábios capturam os seus em um gesto rápido, porém profundo. Passo a língua sobre minha boca após sentir o seu gosto e respiro fundo ao sentir o sabor das memórias que construímos juntos. Porém seu rosto continua impassível, como se não tivesse sido afetado. Você apenas abre um sorriso misterioso, que sou incapaz de decifrar, e continua fazendo seu trabalho.
Estamos tão perto e me dói, me dói tanto.
Estamos tão longe e me dói, me dói tanto…
Abro os olhos e posso avistar uma flor desabrochar sobre o vaso em minha janela, anunciando o início da primavera.
Não olho para trás, com medo de ver mais uma vez o seu corpo ausente e apenas um lençol amassado e vazio. Permaneço no mesmo lugar, exausta, morta por dentro, gelada por inteiro.
Não consigo imaginar minha vida sem sua agridoce companhia, sem um dia ao seu lado, mas não há mais jeito. Talvez consertar o que está quebrado seja uma perda de tempo, quando é mais fácil e melhor trocar por outro. Talvez persistir em um amor cinzento seja o mesmo que persistir em um erro, que só cometemos porque não admitimos ao próprio orgulho de que ele estava certo. De que perdemos e que, mais uma vez, nos perdemos.
Por causa do amor. Sempre por causa do amor.
Respiro fundo e decido que já está na hora de partir. Que já está na hora de levantar e partir.
Mas não consigo. Não por fraqueza, não por incompetência, não por covardia… Não; não dessa vez.
Pois, agora, o que me puxa na direção contrária é um cálido braço que faz meu corpo chocar-se de leve contra o dele, fazendo-me arregalar os olhos.
“Não vá”, sussurra em meus ouvidos, como se tivesse lendo meus pensamentos. “Não levante. Tive um pesadelo. Fique aqui. Preciso de você.”
“E se eu realmente precisar ir?”, respondi com a voz trêmula e os olhos inundados de lágrimas cristalizadas.
“O que seria de um dia meu sem você?”, ele responde com a voz suave, delicada como veludo. “É primavera. Fique aqui. Atravessamos o vazio outono e sobrevivemos ao gelado inverno. É primavera. Não há porque ir. Fique aqui”.
Eu fico.
Não respondo com palavras, apenas o abraço.
Eu fico.
Não dou explicação para o meu choro, ele sabe.
Eu fico.
Não digo que ainda o amo, ele sente.
Eu fico.
O amor cinzento pode tornar a ser azul celeste. Pode sim. Sei disso.
Eu fico.
Consertar algo é sempre melhor que trocar.
Eu fico.
Afinal, o que seria de um dia meu sem ele?
Afinal, o que seria de um dia dele sem mim?
E o que seria do mundo sem nós dois juntos?
Eu sempre fico. Sempre.
E esta história recomeça com o amor levantando-se após a longa e árdua batalha dizendo, com todas as letras, para o derrotado orgulho: “Você perdeu. Porque eu… Ah! Eu finalmente me encontrei”.

Inspirado da música “Que Sería?”, de Francisca Valenzuela.