No Próximo Verão.

cliff

É a história mais antiga do mundo.
Mais antiga que a primeira folha da Bíblia escrita.
Mais antiga que a idéia de Odisseu e Penélope na cabeça de Homero.
Mais antiga que a criação da religião entre os homens.
Ela sempre começa da mesma forma:
Um entardecer melancólico.
Um navio afastando-se da terra firme sobre as águas salgadas.
E uma mulher no topo de um penhasco vendo um pedaço – ou quase toda – sua alma desvanecer lentamente, até sumir no horizonte.
É a história mais antiga do mundo.
Mães esperando por seus filhos, jovens esperando por seus noivos, esposas esperando por seus maridos, irmãs esperando por seus irmãos…
Mulheres que jamais voltarão a ser as mesmas.
Mulheres que tiveram suas almas modificadas da pior forma. Não só nesta vida, mas nas futuras também.
É irônico perceber como os mesmos deuses que criaram uma raça tão apegada como a raça humana, são os mesmos deuses que comandam este Universo sob uma lei de desapego da qual nunca irei entender.
E esse paradoxo cruel me faz querer morrer.
É a história mais antiga do mundo.
É a mais antiga porque a guerra nasceu com o homem.
É a mais antiga porque o amor nasceu também.
Então, seja por ódio ou seja por amor, o homem, o marido, o amante, tem sempre motivos para partir.
A mesma cena se repete com o passar dos séculos, através de todas as nações.
Promessas são feitas, lágrimas são derramadas e corações são destruídos.
Desde que o mundo é mundo, nós, mulheres, somos conhecidas pela fragilidade, enquanto os homens são definidos pela força bruta.
Mas eles não sabem… Oh, não! Eles não fazem ideia!
Eles não entendem a energia sobre-humana que toda essa interminável espera nos consome.
Como dói, como desespera, como mata acordar com o espírito inundado de esperanças e ter de ir dormir com o corpo destroçado por mais um dia que parece ter sido completamente em vão.
E eu juro que ainda não aprendi a lidar com um sentimento dessa dimensão.
Essa é mesmo a história mais antiga do mundo.
Um entardecer melancólico.
Um navio afastando-se da terra firme sobre águas salgadas.
E uma mulher no topo de um penhasco vendo um pedaço – ou quase toda – sua alma desvanecer lentamente, até sumir no horizonte.
Essa história irá sempre começar da mesma forma.
E, ironicamente, é sempre assim que ela terminará também

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
Cuera

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