Hoje.

hoje

Para Nayara Marques.

Hoje acabou.
Depois de tantas idas e vindas, de tantas rotas perdidas e becos sem saída, finalmente encontrei o caminho de volta pra casa; de volta pra mim.
Hoje abro a porta da frente e deixo para trás o masoquismo. Deixo para trás o profundo abismo onde me deixaste abandonada, largada, amargurada, gritando aos quatro ventos por ajuda e apenas conseguindo ouvir o eco da minha própria voz.
Hoje paro e deixo de lado a obsessão, a solidão vazia e profunda que sinto diariamente pela frustração por tentar fazer-te amar-me. De tentar fazer-te enxergar-me, adorar-me e aceitar-me. Mas todo esse vício por sua atenção sempre ausente apenas resultou em um amor ignorado e um orgulho altamente ferido.
Mas hoje não.
Hoje não e nunca mais.
Porque aprendi a me olhar no espelho e perceber que mereço mais, muito mais.
Que existe sim alguém neste mundo capaz de me amar com minhas inseguranças, loucuras, paranóias e que até mesmo esteja disposto a lutar contra os meus fantasmas comigo. Que me ame pela minha alma, pelo que eu sou por inteiro e pelo posso vir a ser.
Por isso, hoje, deixo ir embora as esperanças de que poderias ser esta pessoa. Que se te ensinasse a lidar comigo, você iria querer realmente aprender. Mas não adianta. Porque é tudo apenas uma inútil agridoce ilusão. Afinal, tudo o que tenho de você não passa de uma piedade vulgar que com certeza não me levará a nenhum lugar.
Porém, dói… Ai, como dói!
Largar o vício e desgarrar da idéia do “pode ser” provoca uma dor insuportável. Me dói a alma, me invade o vazio, tremo de frio…
Ainda nem cruzei a porta e o pensamento de uma vida sem a sua presença, ainda que superficial, já se torna indescritivelmente dolorosa.
Ainda nem cruzei a porta e já sinto a ausência de seus olhos castanhos, de sua voz melodiosa cantando ao pé do meu ouvido, de seus beijos em lugares proibidos e de todos os momentos fugazes vividos.
Porém, dentre todas as coisas deste mundo, nada me fará mais falta do que seu sublime sorriso. Você sabe muito bem que ele é a minha perdição. Não importa o que faças, não importa o que aconteça, é só abrir os lábios sutilmente, desse jeitinho que você faz, que já tens todo o meu perdão.
Mas hoje não.
Hoje aprendi a amar o reflexo da garota em frente ao espelho e sigo em frente.
Deixo para trás toda uma vida sobre a areia movediça e desisto de vez deste amor parasita.
Então é isso.
Alço minha mão em um adeus definitivo e deixo as lágrimas rolarem pelo meu rosto.  Porque minha vida está prestes a mudar e ela está esperando ansiosamente por mim. Há um novo mundo a ser explorado e, para que isso suceda, preciso deixar o velho, onde você ainda vive, para trás.
Eu apenas posso lamentar sua falta de interesse e seu descaso eminente, pois se você fosse um pouco mais inteligente, veria que sou muito, muito mais do que apenas uma mulher carente.
Entretanto, hoje vejo que assim foi melhor. Percebo que se tivéssemos a oportunidade de construir uma relação, nossos mundos acabariam em completa destruição.
Por isso, já não há mais razão.
Então… Ah! Hoje eu respiro e sigo em frente! Coloco um pé após o outro e vou em busca da vida que sempre quis.
E consigo mesmo acreditar que finalmente posso ser feliz.

Um Comportado Soldado.

soldado

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Não possuo sentimentos, não me interessa mais o conhecimento e de qualquer relação mais profunda me isento.
Uso termos pejorativos, acho tudo enjoativo e nunca me sinto entretido.
Nada me fere, nada me abala.
Nada me confunde, nada me atrapalha.
Sou um comportado soldado.
Bato continência à sociedade e obedeço determinado ao padronizado comportamento social.
Sigo meu capitão com a farda impecável e possuo uma autoconfiança invejável.
Sou descolado, nunca ignorado e sempre passo longe dos mal amados.
Consigo falar de absolutamente nada usando mil palavras e sempre danço conforme a música tocada.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Eu sei de mim.
Será mesmo?
Vamos tentar de novo.
Vamos começar outra vez.

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Sou sentimental, às vezes passional e sinto diariamente um vazio abissal que não consigo preencher com qualquer coisa normal.
Tudo me fere, tudo me abala.
Tudo me confunde, tudo me atrapalha.
Finjo-me de um comportado soldado porque não suporto mais ser desprezado, destruído, excluído, e sou obcecado com o reflexo que vejo no espelho.
Porque não enxergo, não entendo, não compreendo o motivo de não ter sido o escolhido.
Não aceito, não posso, não consigo entender porque ela o encontrou, porque ela se entregou, porque ela o amou.
Porque ela me deixou, porque ela me olvidou e me largou aqui neste mar vazio assombroso, espantoso, revolto e desolador.
Sou um soldado comportado, padronizado, obedeço a um capitão porque estou perdido em solidão, ironicamente, em uma vasta multidão de pessoas que não conseguem me preencher.
Estou desesperado.
Quero atenção, quero compaixão, mas não sei como expressar toda essa confusão.
Estou revoltado, paralisado, amargurado com todo o desprezo, com tão pouco caso.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Homem não chora, homem não se enamora ou molha a cama quando uma mulher vai embora.
Por isso, levanto a cabeça, dia após dia, e me escondo.
Escondo-me de meus sentimentos; enterrei-os em algum lugar dentro de mim e desejo nunca mais encará-los nesta vida.
Misturo-me à multidão para que o barulho dessas vozes banais e superficiais bloqueim o eco do grito desesperado de minha alma.
Comporto-me como eles para esquecer de mim.
E consigo até acreditar que sou medíocre assim.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Mas não sei de mim.
Ainda não aprendi a encarar a imagem refletida no espelho e nem sei como fazê-lo.
Ainda não aprendi a olhar alguém diretamente nos olhos, pois temos que esse alguém consiga ver o que não quero ver; o que me recuso a enxergar.
Que possam notar que possuo toda essa fragilidade tão vulgar estampada em meu olhar.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Porque eu sei de tudo.
Porque eu sei de todos.
E acredito que sei de mim.

Eu sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o soldado com um orgulho imortal.

Às Vezes.

Às vezes eu uso “às vezes” bastante vezes em meus textos. Às vezes por não saber qual sinônimo utilizar ou encaixar; às vezes por simplesmente gostar.

Às vezes tenho necessidade de escrever sobre mim e não esconder isso. Como em um patético diário adolescente, preciso largar a máscara de meus personagens e desnudar minha alma, a fim de me aliviar. Porque, às vezes, nem mesmo o meu tão amado orgulho consegue me sustentar.

Às vezes preciso apenas estar sozinha. Mesmo na presença de pessoas agradáveis e adoradas, preciso me afastar, nem que seja por cinco minutos, para estar sozinha e respirar. Para entrar temporariamente em meu mundo particular e relaxar. Porque, mesmo depois de todos esses anos, continuo achando o contato social bastante exaustivo e, às vezes, desesperador.

Às vezes quero ser normal.
Quero me sentir como uma garota comum (e principalmente me comportar como uma!), falar de forma menos teatral, ser menos azeda, menos sensível e crítica… Ser simplesmente normal.  Penso e sair do meu mundo intelectual, falar de algo mais banal, parar de ser tão radical para que finalmente possa ser aceita como igual. Mas essa idéia estúpida não dura muito, pois é só estar ao lado de pessoas desse tipo, de mentes tão pequenas e entediantes, que tenho certeza que é em meu mundo autista onde quero morar para sempre.
Não importa se serei excluída ou não. Pois é em minhas maluquices e macaquices onde encontro a melhor versão de mim mesma.

Às vezes, em pensamentos, consigo largar o vício da autopiedade  e me permito ser um pouquinho arrogante. Me permito pensar que aquele que me despreza ou não faz questão de me conhecer é um pobre coitado. Porque essa pessoa nunca vai conhecer outro alguém mais criativo, mais inteligente, mais dedicada, desvairada, profunda, louca, retardada e outros muitos adjetivos que não cabem  em uma folha de papel. Não vai conhecer um amor como o meu, um carinho como o meu e todo o apoio que posso oferecer em momentos de crises. Afinal, já estive muito tempo nelas. Ajudar outras pessoas a atravessá-las é mais do que um prazer pra mim.
Mas esse pensamento também dura muito, muito pouco. Porque um dia novo começa e eu volto a ser aquele ser irritante que acredita que nada tem de interessante.

Às vezes pego alguém pra admirar. Assim mesmo, do nada. Sem qualquer interesse romântico. Sem qualquer razão aparente. Apenas alguém que me inspire, independente de raça, sexo, cor da pele ou qualquer outra característica. Apenas alguém diferente nesse mundo cheio de pessoas iguais. Apenas alguém especial, com um sorriso admirável, um caminhar adorável e uma voz espetacular.
O mais engraçado disso é imaginar que elas nem imaginam. Que não fazem idéia de que há mil textos e poemas meus dedicados a elas. Que não sabem que há uma louca observando-os silenciosamente ao longe. E que toda essa observação atenciosa irá se transformar em trabalhos escritos às  3 da manhã e que logo serão divulgados para quem quiser ler. E, às vezes, fico assustada com essa minha capacidade de admirar alguém que nunca sequer trocou um par de palavras comigo.

Às vezes preciso parar, mesmo que queira continuar.
Preciso colocar um fim em um texto ou uma história que para mim poderia ser eterna. Porque minha imaginação é sem limites. E enquanto houver palavras disponíveis no mundo, há histórias. Há textos, há criatividade.
O problema é que não há alguém capaz de ler por toda a eternidade.

E, pra terminar, às vezes tenho dificuldade para terminar.
Não sei como colocar um ponto, quando ainda há muito mais o que falar. Principalmente agora, com essa nova mania de rimar.
Como tudo na minha vida, o “acabar” me faz chorar. Me faz lutar, brigar e pirraçar até cansar. Até cansar e a bandeira branca da redenção ser obrigada a alçar.
Por isso, às vezes, acho que o “fim” é uma palavra vulgar. Mas sei que ela ainda acabará por me matar.

A Casa Dos Gritos.

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Parem de gritar. Parem agora.
Vão embora e jamais sequer pensem voltar em outra hora.
Vocês não veem?
Vocês não sentem?
Nessa casa cheia de gritos, há uma garota debaixo da cama.
Nessa casa cheia de gritos, todos os cômodos já foram entupidos de drama.
Parem os gritos.
Apenas parem.
A mente da menina não aguenta mais.
As pequenas mãozinhas não conseguem bloquear a passagem dos sons estridentes e sem sentido que atropelam as frestas da porta, prontos para agarrá-la.
Prontos para fincarem suas unhas em uma sanidade há muito abalada.
Será que não vocês não veem?
Será que vocês não sentem?
Os anos passam, o mundo muda, mas os ecos de uma família quebrada vão terminar por deixá-la surda.
Será que não veem?
Não, eu sei que não.
Tenho certeza que não.
Porque vocês não enxergam.
Não possuem olhos, não possuem ouvidos, não possuem sentimentos.
Porque vocês só sabem gritar, gritar e gritar.
Vocês só sabem gritar até conseguirem o pulmão estourar.
Vocês só sabem gritar até a voz falhar.
E a pior parte de tudo é que ela nunca falha!
A garota debaixo da cama não agüenta mais.
Isso não é vida!
Porque em uma casa de gritos simplesmente não há saída.
Será que um dia vão conseguir ver?
Como esta garota irá crescer?
Como ela conseguirá viver sem enlouquecer?
Ela não poderá, certo?
Porque ela já enlouqueceu.
Porque qualquer lugar onde as vozes se manifestam em um tom mais elevado já é motivo para se sentir em um inferno na Terra.
Ela não poderá, certo?
Porque uma multidão  gritante já lhe é apavorante.
E todo esse pavor é motivo para mais gritos. Gritos internos, gritos com ecos, que ressoam contra paredes escuras e vazias de um organismo doente.
Será que nunca conseguirão ver?
Será que nunca conseguirão entender?
A garota tapando os ouvidos debaixo da cama quer finalmente viver.
Pois nessa casa gritos ela não quer mais perecer.
Por isso, parem de gritar. Parem agora.
Parem de gritar e vão embora!
E jamais, sequer, pensem em voltar outra hora.

Uma Dorzinha.

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Uma dorzinha
Aqui dentro
Que vai subindo
Até meu pensamento

Uma dorzinha
Anormal
Que só irá sarar
Com o sorriso de alguém especial

Uma dorzinha
Irritante
Que só piora
A cada instante

Uma dorzinha
De saudade
Que ninguém jamais
Pode saber de verdade

Uma dorzinha
Que não tem pausa
E que apenas está aqui
Por sua causa

Uma dorzinha
Que está se tornando um verdadeiro problema
Mas que acabou se transformando
Em um pequenino poema.

Há Um Garoto Que Conheço.

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Há um garoto que conheço.
Ali vem ele, indo e vindo à minha frente.
Aqui vem ele, indo e vindo em minha mente.
Num dia ele usa preto; noutro, usa branco.
Num dia ele usa branco; noutro, usa preto.
No começo era apenas uma vez.
E agora já são três.
Há um garoto que conheço.
Mas eu não conheço de verdade.
Nunca pude vislumbrar seus lábios abertos em um sorriso.
Nunca pude observar sua alma através de seus olhos.
Porque está sempre de cara fechada, expressando extrema seriedade e uma pitada de arrogância em seu caminhar.
Ou, quem sabe, apenas uma timidez enclausurada e mascarada por um orgulho vulgar.
Se ele não sorrir, se nunca sorrir… Não vou saber de verdade.
Há um garoto que conheço.
Mas não conheço nada. Nada de nada.
Não sei onde trabalha, que idade tem, qual é o tom de sua voz ou se fala decentemente o português.
Não faço idéia de quais sãos seus sonhos, se ele sequer tem sonhos ou se está perdido na entediante e medíocre realidade que a maioria dos humanos se vêem presos.
Não sei se tem irmãos, se tem amigos, namorada ou até inimigos.
Há um garoto que conheço… Mas não conheço nem seu nome.
Seria simples como Guilherme, Ricardo e Felipe?
Ou composto como João Marcos, Bruno Paulo e Marcelo Henrique?
Não faço ideia para qual time vibra ou se é de Sagitário, Aquário ou Libra.
Não sei, não. Não sei de nada.
Porque ele está sempre assim: passando rápido demais, de forma imperceptível se eu não presto atenção, três vezes ao dia, usando ou preto ou branco.
Há um garoto que conheço…
Apenas um garoto eu conheço…Que realmente gostaria de conhecer.

Não Foi Melhor Assim?

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Nós brigamos silenciosamente.
Eu vi seu sorriso se transformar em uma máscara dura e fria, com os olhos castanhos e penetrantes em minha direção.
Não foram necessárias palavras brutas ou sequer gritos estridentes. Não foram necessários xingamentos, ofensas ou dedos apontados.
Pra quê?
Por quê?
Conosco, não.
Oh, não… Nunca foi necessário!
Bastou o silêncio.
Apenas aquela irritante ausência de sons e palavras que sempre foram constantes em nossa relação.
Bastou o silêncio e o eco tenebroso de uma discussão feita com o olhar.
Você se irritou com meu jeito insistente, exagerado e compulsivo, enquanto eu achei um absurdo seu pouco caso, sua eminente falta de interesse e o blasé que sempre imperou em seu tom de voz.
Pra quê brigar?
Por que discutir?
Não é melhor assim?
Não é melhor?
Você sempre aí e eu sempre aqui.
Você desaparecendo do nada e eu permanecendo no nada.
Você realmente não se importando, enquanto eu finjo que nunca me importei.
Você se misturando em seu mar de pessoas inúteis e medíocres quanto eu sigo feliz em minha solidão intelectual.
Não foi melhor assim?
Não foi melhor?
Sem palavras desperdiçadas, sem letras que formem frases ridículas e desnecessárias.
Sem lágrimas enervantes que molham um rosto maquiado ou que destruam um poderoso e precioso orgulho.
Sem a necessidade deplorável de dizer um adeus pungente que só iria gastar nossas melhores energias.
Não foi melhor assim?
Não foi melhor?
Afinal, você sempre amou o silêncio.
Enquanto eu… Eu apenas sigo tentando a conviver com ele.

Meu Erro.

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Meu erro foi ter começado.
Meu erro foi ter olhado fundo em seus olhos cor de mel pela primeira vez e ter desejado me perder para sempre neles. Porque agora não sei mais como encontrar o caminho de volta.
Foi ter notado e ter me apaixonado por seu sorriso encantador. Porque agora não sei mais viver sem ele.
Meu erro foi ter acreditado.
Foi ter criado um mundo ilusório com base na ideia de nós dois. Foi ter arquitetado mil e um planos que poderíamos executar juntos. Porque agora não sei mais como viver na dura e fria realidade. A realidade onde sua presença se faz tão ausente. A realidade onde sua falta me mata lentamente.
Meu erro foi ter esperado.
Esperado que um dia nossos caminhos pudessem voltar a se cruzar. Foi ter esperado esbarrar com você em uma rua qualquer, em uma estrada qualquer. Porque agora não posso mais andar em paz. Não posso mais caminhar sem que meu coração dê um salto  no peito ao ver alguém semelhante a você. Não posso mais caminhar sem sentir a frustração gélida no estômago por não ter te encontrado após tanto procurar.
Meu erro foi ter deixado.
Foi ter deixado você penetrar em minha pele como uma leve brisa de outono.
Foi ter deixado seu perfume impregnar minhas narinas e enlouquecer meu cérebro como o doce cheiro de uma flor primaveril.
Foi ter deixado seus braços cálidos protegerem-me de um congelado inverno.
Foi ter deixado seus lábios iniciarem um fugaz romance de verão.
Meu erro foi ter te encontrado, ter te achado pela primeira vez no lugar mais inesperado. Foi ter acreditado que sua alma faria o encaixe perfeito com a minha. Foi ter acreditado que poderíamos formar um todo. Mas me deixastes como a metade vazia de um nada.
Meu erro foi ter calado.
Foi nunca ter confessado com todas as letras que eras meu amado.
Foi ter guardado dentro da caixa de meu orgulho o grande amor que sentia por você.
Meu erro foi ter me apaixonado. E ter temido isso.
Porque agora estou aqui sozinha, aborrecida, abandonada, largada num mar de palavras que já não fazem mais sentido. Num oceano de saudades inquietantes que me fazem querer gritar até o último suspiro.
Meu erro… Ah, meu erro!
Meu erro foi sempre, sempre ter começado.
Porque se eu tivesse tido a coragem de dar-te as costas naquela estrelada noite de verão, se tivesse suportado o desejo eminente de beijar diariamente seus olhos cor de mel… Ah, tudo seria diferente! Seria muito, muito diferente.
Meu erro foi, sim, ter começado.
Do contrário… Do contrário, todo este sofrimento poderia ser evitado.

Rosa e Eucalipto, parte 2.

parte 2

Meus olhos correm pela multidão à sua procura.
Caço seu par de olhos castanhos, seu sorriso sublime, sua presença adorável.
Procuro, caço, perscruto, mas você não está lá.
Olho o relógio pela milésima vez, observando que você está atrasado. Muito atrasado.
Meu coração palpita no peito em uma ansiedade irritante que não consigo arrancar daqui.
Ele bate, bate, bate; e cada batida é uma letra do seu nome que está tatuado bem dentro de mim.
Ele está gritando por você.
Será que não está ouvindo? Onde quer que esteja, não o está ouvindo? Não está me ouvindo?
Ele grita alto (com uma grande ajuda dos pulmões), esperando que você finalmente o escute e venha mais depressa.
Oh, como se atreve?
Como se atreve a apontar-me o dedo e dizer, com todas as letras, que não te amo?
Como se atreve me olhar nos olhos e duvidar do sabor mais doce que já provei nesta vida?
Estamos apenas algumas horas apartados e a falta do seu sorriso já começa a me enlouquecer.  Apenas horas, espaços medíocres de sessenta minutos, que parecem sessenta anos.
Minhas pernas tremem, batem contra o chão, contando os microssegundos que ainda restam para eu poder visualizar seu rosto outra vez.
Por que demoras tanto?
É algum tipo de castigo? É uma punição por ainda dividir meu coração?
O que você está fazendo comigo?
Não seja como o outro.
Não me faça entrar em desespero. Não comece a provocar espasmos espinhentos por todo o meu corpo que me fazem sangrar absurdamente.
Você é a única cura para o meu vício mortal e impiedoso.
Você é sanidade para a minha loucura, a luz para a minha enorme escuridão.
E, cima de tudo e de todas as coisas, você é aquela explosiva vontade de viver, quando desejo mais do que nunca desaparecer deste mundo.
Oh, como se atreve?
Como se atreve a dizer que não te amo o bastante?
Ainda estou aqui, esperando, roendo o último que sobrou de minhas unhas e com um coração latente que continua a berrar seu nome sem cessar.
As pessoas falam comigo, puxam assuntos banais e tudo o que eu consigo fazer é presenteá-las com um sorriso amarelo e sem graça.
Eu não quero estar com elas.
Não quero conversar com elas, não quero ouvi-las ou ter de fingir uma tranqüilidade que estou longe de sentir.
Eu quero estar com você.
Viver você, respirar você, amar você.
Eu quero estar por cima de você, por baixo de você, dentro de você.
Eu quero você e todo o seu amor que corre por entre minhas veias, deixando o rastro hipnotizante de  Rosa com Eucalipto.
E a sensação de frescor e doçura arrebata-me por inteiro quando vejo sua silhueta ao longe. Você é apenas mais um ponto na multidão, quase como um fantasma do próprio corpo, mas é o bastante.
Oh, Deus, como é o bastante!
Seu andar, seu jeito, todo você.
Suas mãos, seu olhar, seu sorriso, todo você.
Seu cabelo perfeito, a cor de sua pele, todo você.
Oh, como se atreve?
Como se atreve a duvidar de toda essa carga que me atinge com tão só vê-lo?
Se isso não é amor, o que é, então?
Explique-me, diga-me… O que é?
Se eu tivesse de escolher uma cor para este sentimento, escolheria o azul.
Isso mesmo…  azul.
Porque o que sinto nada se assemelha ao rosa melado dos amores juvenis ou ao vermelho sangue da paixão carnal dos adultos.
É azul. Azul celeste, como o céu claro que vive sobre nossas cabeças.
É azul perfeito como a cor dos oceanos. É azul reluzente como uma flor exótica, raramente encontrada em lugares simplórios.
É o azul da morada dos anjos. A mesma morada onde possui uma piscina de rosas por toda a água límpida. Uma piscina de rosas e com cheiro de eucalipto.
Azul da morada para onde iremos após partirmos deste mundo. Juntos.
O fantasma de você se transforma em sua forma de carne e osso conforme vai se aproximando.
Olho para as minhas mãos e percebo que estou tremendo. Fecho os dedos, respiro fundo, tento manter o controle, mas é impossível. Meu corpo inteiro está reagindo ante à presença eminente do seu. Meus dedos tremem tanto que mal consigo pegar a alça da minha bolsa e colocá-la sobre o ombro.
Já estou de pé; já estou com os braços ansiosos para abraçar sua figura como se não houvesse amanhã.
Seu sorriso cai como uma cachoeira sobre meu corpo, como gotas cristalizadas de chuva após um longo período de sol escaldante.
Oh, como se atreve?
Como se atreve dizer que não é amor?

— Desculpe o atraso. – você diz baixinho, com sua voz carinhosa e arrependida, antes de beijar meus lábios, pondo um fim em toda esta agonia.
— Não tem problema. – repliquei ao mesmo tempo que passei o braço esquerdo ao redor de sua cintura. – O que importa é que está aqui agora. Desde que sempre esteja, desde que sempre chegue… Não tem problema.
— Vamos para casa? – perguntou enquanto começávamos a caminhar por toda a multidão de pessoas como se estivéssemos completamente sozinhos.
— Será que não vê? Será que não entende? – encarei seus olhos confusos antes de terminar a sentença e sorri. – Eu já estou em casa.

Nós temos tanto o que falar…

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Nós temos tanto o que falar e falamos sobre o tempo.
Poderíamos estar falando do quanto sentiu minha falta e eu estaria declarando meu amor por sua camisa xadrez vermelha, que tanto adoro. Já disse o quanto você fica bem nela? Imagino que sim.
Nós temos tanto o que falar e falamos sobre o tempo.
Talvez seja apenas para quebrar o gelo, para fugirmos deste silêncio constrangedor que caiu sobre nossas cabeças desde que nossos olhos se cruzaram. Ou talvez seja apenas porque não há mais nada para se falar.
Será?
Eu e você?
Como?
Como foi acontecer?
Sempre tivemos as melhores conversas. Sempre soubemos achar um assunto para nossas vozes se cruzassem até transformarem-se em um som único e singular.  E quando não havia um assunto… Ah! Nós inventávamos! Qualquer motivo era motivo o bastante para falarmos e falarmos sem parar.
Mas aqui estamos nós.
Cara a cara, olho no olho.
Aqui estamos nós e comentamos sobre o sol. Comentamos o calor atípico de uma tarde de inverno e você conta coisas banais, sobre a alta temperatura e mais.
Nós temos tanto o que falar… Oh! Como temos! Mas ao invés disso, falamos sobre o tempo.
Eu quero perguntar se você está bem. Quero perguntar sobre sua família, sobre sua vida, sobre seus sentimentos.
Quero perguntar sobre sua carreira, sobre seus estudos, sobre seus sonhos.
Tenho muitas, muitas perguntas.
Sou curiosa, você sabe.
Quero saber, quero saber de tudo.
Principalmente quando envolve você.
Mas nós ainda seguimos falando sobre o tempo.
Você comenta que seu picolé derreteu em poucos segundos, lambuzando-lhe as mãos, e eu apenas sorrio ao imaginar a cena.
Enquanto isso, enquanto os minutos passam e os ponteiros do relógio giram, as perguntas seguem entaladas em minha garganta, mas não consigo colocá-las para fora.
Você está apaixonado por um outro alguém?
Você me esqueceu?
Será que poderíamos tentar mais uma vez?
Mas a conversa sobre o tempo continua e eu vou perdendo a coragem pouco a pouco.
As palavras vão morrendo, a coragem desvanecendo e tudo o que eu consigo fazer é continuar sorrindo e assentindo sobre um picolé derretido.
Nós temos tanto o que falar e falamos sobre o tempo.
Eu ainda estou apaixonada por você.
Você ainda está apaixonado por mim?
Nós temos tanto o que falar… Tanto, tanto o que falar…
Mas tudo o que fazemos é falar sobre o tempo.