A Garota Dos Carrinhos De Corrida.

car toy

 

Há uma garota brincando no playground.
Ela está sentada sozinha, brincando com seus adorados carrinhos de corrida.
Há outras crianças ao redor. Outras garotas; outras meninas.
Ela para sua divertida brincadeira para observá-las por um minuto. Seus pequenos dedos param de movimentar os carrinhos de brinquedo e seus olhos viram para a esquerda; para a esquerda onde elas estão.
Elas devem ter por volta de 10 anos.
O mesmo que a garota dos carrinhos de corrida.
Elas têm apenas 10 anos e a menina observa que já há maquiagem em seus olhos.
Elas brincam de Barbie, cheias de pulseiras nos pulsos, que produzem aquele barulhinho irritante cada vez que mexem os braços.
Estão em bando.
Existem 6 delas e alguns minutos depois, mais duas descem.
E para a sua surpresa, elas estão exatamente iguais às outras 6.
Não por serem fisicamente parecidas, mas sim na forma de agir e se comportar. Parecem clones multiplicados.
Se vestem da mesma forma, possuem o mesmo penteado, as mesmas pulseiras, a mesma sombra acima dos olhos… Tudo, tudo igual.
As mães ao redor olham orgulhosas para suas filhas, como se fossem futuras candidatas à concursos de belezas.
E, vocês sabem, algumas provavelmente serão.
A garota dos carrinhos de corrida enruga o nariz e olhar apara si mesma.
Calça larga.
Blusa com um número maior que o seu.
Tênis.
Rabo de cavalo.
Apenas seus longos cílios naturais em seus olhos.
E 12 carrinhos de corridas à sua frente.
Ela não é igual às outras.
Nunca foi.
Nunca será.
Ela não é igual às outras.
Nem um pouco.
Nem um pouquinho só.
Possui dois olhos, um nariz, uma boca… Mas não é igual às outras.
Ela nem parece o que costumam chamar uma menina.
E isso lhe causa uma sensação estranha.
Ela está sozinha, apenas com seus adorados carrinhos de corrida.
Ela faz aquele barulhinho dos carros, que tanto adora, com sua boca – o mesmo que ouve na televisão todo domingo ao grudar os olhos na corrida às 9 horas da manhã.
Ela faz aquele barulhinho com sua boca e grita “AYRTON SENNA PARA A VITÓRIA!”
As 8 meninas param o que estão fazendo e olham-na com desconfiança.
Olham como se fosse errado, como se fosse pecado.
O que ela estava fazendo, afinal? Ela era uma garota, não era?
Por que se vestia e se comportava como um menino?
Apenas 10 anos e já conhecera o olhar de repreensão, o olhar de um julgamento que seria constante na sua vida.
Ela nunca esqueceria aquele primeiro olhar.
Oh, não! Ela nunca esqueceria…
A garota dos carrinhos de corrida sentiu-se constrangida.
A garota dos carrinhos de corrida sentiu-se pequena.
A garota dos carrinhos de corrida sentiu-se menos garota e mais coisa.
E a sensação amarga percorreu cada veia de seu corpo.
Ela largou os carrinhos por alguns minutos.
Pensou que se colocasse pulseiras irritantes, sombras nos olhos ou usasse o mesmo penteado, talvez pudesse ter companhia nas brincadeiras. Afinal, era muito cansativo movimentar 12 carrinhos com apenas duas mãos.
Ela precisava de ajuda.
Ela precisava de companhia.
Ela poderia até mudar a aparência, as roupas, o modo de se comportar… Ela poderia fazer isso por um pouco de companhia.
Mas se deu conta de que também teria de mudar a brincadeira.
Teria de colocar a mão em bonecas que eram mais finas que seus dedos e largar, definitivamente, seus amados carrinhos.
A garota enrugou o nariz mais uma vez.
Largar seus carrinhos. Para sempre.
Segurar em bonecas. Para sempre.
Encaixar-se no perfil de “garota”. Para sempre.
Era um preço, muito, muito alto a se pagar por alguns minutos fugazes de companhia.
Oh, era sim! Era sim um preço muito alto.
Ela não estava disposta a dar tanto, a entregar tanto, por tão pouco.
Um pequeno sorriso inocente surgiu em seu rosto.
Ela balançou a cabeça negativamente, a fim de afastar aqueles pensamentos loucos.
Não fazia sentido.
Não, não.
Não fazia sentido.
A garota dos carrinhos de corrida deu as costas para as menininhas e suas mães e foi brincar num canto mais afastado. Num canto onde podia gritar “AYRTON SENNA PARA A VITÓRIA!”, com seus braços levantados e em voz alta, como se estivesse na própria pista de Interlagos.
Os olhares julgadores continuavam vindo em sua direção, mas ela já não se importava tanto.
Enquanto estivesse com seus 12 carrinhos de corrida, ela jamais se importaria tanto.

Porque o que aquelas garotas não sabiam, o que aquelas mães nem imaginavam, era que, dali a 15 anos, a menina dos carrinhos de corrida estaria exatamente em Interlagos, com os braços levantados e lágrimas em seus olhos.
E uma voz estará gritando na televisão, em um domingo, às 10 e 45 da manhã, com todo o ar do pulmão, a seguinte sentença: “SABRINA, A PRIMEIRA MULHER CAMPEà MUNDIAL DE FÓRMUMA 1. E É DO BRASIL”.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
Cuera

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2 comments / Add your comment below

  1. Ameeeeeeeeeeeeeeeei! Que perfeito!! *-* Essas babacas que acabam com a infância das filhas, aff! Digno demais o texto, baby! <3

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