Estranhos.

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Há um garoto e uma garota em uma biblioteca.
Por semanas ele tem olhado para ela.
Por ela semanas ela tem olhado para ele.
Por semanas ele tem fingido que não olha.
Por semanas ela tem fingido que não olha.
Ele é muito tímido.
Ela é muito tímida.
Ele acha que não é bom o bastante para ela.
Ela acha que não é boa o bastante para ele.
Ele acha que levará um fora caso se aproxime e finalmente diga um simples “oi”.
Ela acha que ele pensará que é uma oferecida caso se aproxime e finalmente diga um simples “oi”.
Ele se esconde atrás dos seus livros.
Ela se esconde atrás de seus cadernos.
Ele sabe que ela morde a tampa da caneta quando está pensando.
Ela sabe que ele esconde as mãos nos bolsos quando está nervoso.
Ele desejava poder ser mais alto, mais bonito, mais extrovertido.
Ela desejava poder ser mais magra, mais inteligente, boa o bastante.
Ele acha que ela nunca irá entender e aceitar alguém como ele.
Ela acha que ele nunca irá entender e aceitar alguém como ela.
Ele é realmente estranho.
Ela é realmente estranha.
Ele é a alma gêmea dela.
Ela é a alma gêmea dele.
Mas esta história jamais terá um final feliz ou sequer um final.
Porque ele se recusa a dar o primeiro passo.
Porque ela recusa a dar o primeiro passo.
Ninguém anda, ninguém fala, ninguém faz absolutamente nada para mudar isso.
Eles são agora apenas um garoto e uma garota sentados em uma biblioteca.
E, talvez, é apenas isso que serão pelo resto de suas vidas.

Reflexos.

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Me tiraram tudo o que eu tinha de mais bonito. E, agora, não sei lidar com o feio.
Odeio chorar na claridade. Me envergonha. Ver minha própria miséria me incomoda. Sim… me incomoda. Sinto vergonha. Sinto-me fraca. A claridade, a claridade!
Por favor, dê-me um pouco de noite, de lágrimas derramadas debaixo do edredon. Eu simplesmente… não posso me olhar no espelho agora…

(Need, Capítulo 6)

Bússola Quebrada.

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Norte. Sul. Leste. Oeste.
Os caminhos estão aí, ao meu alcance, à minha frente, esperando que eu dê os primeiros passos para trilhá-los. Mas sigo aqui com a dúvida, sigo com o medo, sigo com a insegurança.
Qualquer passo que der pode indicar o fim.
Qualquer passo que der pode indicar o começo.
Há vários caminhos, porém todos sem respostas corretas e exatas. A verdade é que somos a flecha do próprio destino, onde ditamos por onde começar a caminhada. Há que seguir o rumo sem que ninguém interfira em nossas escolhas. Ainda que a bússola esteja quebrada, a mente confusa e a alma apagada, nosso destino ainda pertence apenas a nós mesmos. E a mais ninguém.
Assim como um relógio quebrado em algum momento irá marcara a hora correta, uma bússola quebrada pode mostrar o caminho certo pelo menos uma vez também. E mesmo que percamos a direção, é nosso dever recomeçar, fazendo tudo de novo outra vez.
Não é seguro. Não é fácil. É arriscado. Mas talvez… valha a pena no final.
Pelo menos eu acho.

Números e Palavras.

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Era uma vez, o zero. O inútil, o esquerdo, o atrapalhado não multiplicável. O sozinho.
Então, o 1 chegou e lhe estendeu a mão. Fez promessas, o ergueu do chão e tirou da solidão. Em seguida, foi embora, sem qualquer explicação.
Veio o 2. Estendeu-lhe a mão. Fez promessas também. O zero acreditou. E foi tirado da solidão. Em seguida, o 2 foi embora, sem qualquer explicação.
Veio o 3. Estendeu-lhe a mão. Disse que ficaria. O ergueu do chão. Disse que o amava. O tirou da solidão. Em seguida, foi embora, sem qualquer explicação.
Depois, vieram o 4, o 5 e o 6 ; todos ao mesmo tempo. Todos erguendo-lhe a mão. Todos tirando-o da solidão. O zero os amou. Mas não acreditou dessa vez. Não mais.
Por que o 4, 5 e o 6 ficariam, quando o 1, 2 e o 3 não aguentaram? O que teria de diferente agora? O zero não mudou. Continuou o mesmo. A mesma mediocridade à esquerda, o mesmo número não multiplicável… O mesmo que atrapalha todas as equações longas.
Como se pode confiar em números quando eles não sabem lidar com as palavras? Quando não sabem manter uma promessa?
O tempo passou. Eles permaneceram. O zero se assustou. Não esperava. O zero, agora, “confiou”. E essa foi a pior parte. Porque o zero passou a se sentir em um campo minado, onde qualquer passo em falso culminaria em uma explosão. Onde qualquer passo em falso pudesse causar uma destruição.
Problemas acontecem em todos os relacionamentos. Mas o amor envolvido nestes sempre resolve tudo. Era o que o 4, o 5 e o 6 falavam. Era no que eles tentavam fazer o zero acreditar. Mas quando há mentiras antes, quando há um passado doloroso e traumatizante, a crença nos números é subtraída e os medos são somados. O amor não pode ser multiplicado e as confidências divididas. E o zero cai de novo. Ele volta para o seu lugar, na frente de todos os números, o que vem antes do primeiro, este, o mais brilhante de todos, ofuscando qualquer brilho que o zero possa ter.
O zero continua ali, sempre esquecido, sempre não-multiplicável e sempre complicado, sentindo que atrapalha todos os números perfeitos à sua frente.
O 4, o 5 e o 6 ainda estão presentes. Milagrosamente não foram embora. E o zero os ama cada dia mais. Parece que os números conseguem manter a palavra, no fim das contas.
Mas a pergunta que ainda perturba o pobre zero, dia após dia, é… Até quando?

Little Dreamer.

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Hello, como você está?
Eu sinto sua falta. Faz tempo que não te vejo. Você nunca mais veio me visitar em sonhos. Sinto falta de olhar em seus olhos. Nem que seja por poucos segundos.
Mas me diga, como está? O mar é mesmo tão azul como dizem? As flores possuem mesmo cores vibrantes? Me diga… Me diga como é se sentir leve. Você carregava um peso tão grande aqui… Espero que agora possa flutuar como o vento.
Hoje não é nenhum dia especial. Hoje não é seu aniversário e nem o dia ou o mês que você se foi. Mas eu não preciso de motivos para pensar em você. Eu faço isso todos os dias. Todo o tempo. Porque você está aqui dentro.
Sinto falta de tudo em você. Da sua risada peculiar, que às vezes me pego imitando. Do seu cabelo lindo e perfeito, que eu tanto admirava. Você sabia o quanto eu o amava, certo?
Sinto falta das conversas sobre música boa, sobre o que são verdadeiramente. Seus comentários azedos me divertiam. Você era (é) tão inteligente. Sinto falta até de quando me xingava. Nunca pensei que fosse sentir falta disso. Mas eu sinto.
Hey, me diga… Você conseguiu nosso Johnny Bravo? Guarde um pra mim. Um dia estarei aí. Guarde um lugar pra mim também, logo atrás de você. Exatamente como era todos os dias. Quando eu chegar aí, quero mexer nos seus cabelos de novo. E ver aquele sorriso lindo em seu rosto. Você ficava mais linda ainda quando sorria. E desejo que faça muito isso hoje em dia.
Quando você nos deixou, eu me culpei. Nossos últimos dias não foram os melhores. Eu tive dúvidas. Pra falar a verdade, até hoje tenho. Mas isso não importa agora. Não mais. Porque eu sei e tenho plena certeza do que eu sinto. E, por enquanto, isso é o bastante.
Espero que escute minhas palavras diárias. Espero que escute meus pensamentos diários, onde eu digo tudo o que eu, por um motivo ou outro, não pude dizer aqui. Espero que esteja me vendo. Espero que, sempre quando estiver livre, esteja por perto.
Eu sei que você deve estar fazendo um trabalho fantástico. Eu sei que está. Esse sempre foi seu objetivo. E você é brilhante em tudo o que faz.
Saiba que eu te amo e sempre te amei, apesar de tudo. E um dia eu estarei atrás de você outra vez. Como nos velhos tempos.
Nunca se esqueça de mim.
Te vejo na outra vida ♥

So long my little dreamer, I’ll miss your face… We’ll always stay connected through time and space…

Metamorfose Ambulante.

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“Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”

(Raul Seixas)

Não sou a mesma que fui ontem. O mundo gira sem parar, assim como minhas opiniões acerca dele. As coisas mudam, as pessoas também. E eu… eu me transformo a cada hora.
Meus olhos observam o mundo ao redor na mesma velocidade que o tic-tac do relógio. Eu penso o tempo todo, mudo todo o tempo. Mas nunca sem coerência.
Falta de personalidade é defender uma ideia hoje somente porque a defendeu ontem. Defenda o que quiser, mas defenda sabendo que tudo pode mudar amanhã. Eu falo o que me parece correto naquela hora, ainda que saiba que passo longe da verdade absoluta. Mas defendo porque acredito no que defendo. É a minha verdade. Errada ou não.
Pra isso que o mundo gira. Pra me mostrar o quanto estou certa. Pra me mostrar o quanto estava estupidamente errada.
Peço perdão pelos meus erros e aprendi a me perdoar por eles. Porque não fiz por mal. Porque defendia uma ideia equivocada. Mas o dia chega e eu mudo. Graças a Deus.
Então ame a metamorfose ambulante de ontem, hoje e amanhã. Não me entenda, não se esforce tanto. Porque amanhã talvez mude novamente. Talvez erre. Talvez seja a minha vez de perdoar.
Talvez tudo irá mudar. Sim… tudo irá mudar.

Sinais de Trânsito.

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As pessoas andam sem parar. Buzinas, vozes, discussões…
Eu estou ali, sobre o meio-fio, com a cabeça atormentada, observando os gigantes arranha-céus frente à mim.
O tempo parece se movimentar mais rapidamente para os outros. Os ponteiros do relógio da vida giram e giram sem parar, no seu constante tic-tac.
Para elas, os minutos parecem segundos. Para mim… os segundos parecem anos.
Seus rostos estão borrados, tamanha a velocidade com que andam. Os carros atravessam os sinais com a mesma rapidez que um foguete. No semáforo, as 3 luzes estão acesas. PARE. CUIDADO. SIGA. Mas eu continuo parada no meio-fio, perdida. Grito por ajuda, mas as pessoas estão com muita pressa para pararem e virem ao meu socorro.
Sento-me sobre o chão de concreto, sabendo que tenho que atravessar aquela rua. O sol está à pino, ainda que encoberto por algumas nuvens. Mas por dentro o meu corpo treme de frio. O medo se mistura com a desesperança que, por sua vez, traz de brinde a solidão.
Aqueles carros me assustam. Entretanto há algo que me impulsiona a seguir. Tenho que atravessar, não posso ficar eternamente parada ali.
A dor continua a apertar meu peito e parece nunca ter fim. Então eu levanto e chego à conclusão que se morrer não vai fazer diferença.
Fecho os olhos e dou o primeiro passo. E de repente, quando dou por mim, já estou do outro lado. Olho para trás e percebo que consegui atravessar. Abro um sorriso e penso que finalmente vou ter paz. Mas isso não dura muito.
É só olhar para a frente que vejo mais uma rua para atravessar. E o pesadelo começa outra vez.
Mesmas pessoas. Mesmos carros andando na velocidade da luz. Mesmo semáforo aceso.
Parece que quanto mais eu ando e tento enfrentar meus medos, ele seguem ali, me assombrando como fantasmas.
Será esse um indício de que o pesadelo nunca irá acabar?

Escrito em 16/04/09 – Baseado em um sonho meu.

Até Quando?

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Uma verdadeira amizade pede principalmente a sinceridade. Fale a verdade, sorria com veracidade, mas nunca com maldade.
Grite comigo, seja meu amigo.
Brigue comigo, mas seja meu amigo.
Seja meu amigo, seja sempre, desde que seja de verdade.
Não preciso de falsas compreensões, mas sim de conselhos e também repreensões. Eu preciso de amizade. Não de um covarde.
Prefiro um grito de raiva sincero a um texto hipócrita feito com esmero.
Prefiro a personalidade mostrada aos quatro ventos ao intento de ser agradável.
Fale comigo, se abra comigo, mas não fale de mim com outro amigo.
Ser fiel significa me abraçar quando eu estiver certa e me estapear – literalmente ou não – quando estiver errada. Me amar também significa brigar.
Não fique em silêncio. Esse é o pior presente que você pode me dar.
Eu perdoo, mesmo sem o pedido de perdão. Quero esquecer, mesmo achando que – por enquanto – é em vão.
Fale de mim, mas olhando na minha direção. Nunca, nunca pelas costas. Porque da próxima vez não haverá compreensão.
Eu te amo. E você está no meu coração.

Afogando em Silêncio.

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Hoje eu sentei sob o piso de concreto, debaixo da chuva, e chorei.
Chorei por ser tão estúpida a ponto de não conseguir esquecer certas coisas. A ponto de odiar amar alguém.
Sentei debaixo da chuva e chorei. Deixei que as lágrimas geladas corressem de meus olhos, se misturando com as gotas que caíam das nuvens. Chorei pela falta de valores. Chorei pela falta de caráter. Chorei pela importância que é dada ao dinheiro e a fama.
Sentei debaixo da chuva e chorei. Chorei por ter que ficar calada. Chorei por ter que ficar remoendo meus pensamentos. Mastigando-os, engolindo-os. Porque não posso colocá-los para fora.
Chorei pela falta de amor, pela grande ambição, pela mais bela ilusão. Ilusão que se transformou em minha perdição.
Chorei por não aguentar mais segurar tudo. Chorei por, mais uma vez, ter que ficar quieta.
Chorei por ter que ser sempre cautelosa antes de machucar os outros. Chorei porque ninguém nunca é cauteloso antes de me machucar.
Chorei pela cegueira humana, pela surdez dos teimosos e pela minha mudez. Porque a vida segue e eu sigo de boca fechada (contra minha vontade).
A chuva continua caindo fortemente, lavando minha alma, purificando minha pele. Mas, ainda assim, ela não consegue tirar a dor daqui. Porque eu continuo chorando.
Chorando pela mágoa, pelo ódio, pela raiva que eu sinto. Chorando por me ver sendo correta, num mundo onde só os falsos têm vez.
Onde a hipocrisia reina em absoluto e vence quem mente melhor.
Onde o diabo se esconde atrás da beleza, mas ninguém se importa. Porque é belo. Porque é agradável, porque é popular. E isso é o bastante.
Chorando porque estou a ponto de desistir do que eu mais amo. Porque eu não aguento mais. Porque eu não posso mais. Eu não consigo mais olhar e ficar quieta. Eu tenho que sair. Eu tenho que desistir.
Só queria poder falar. Só queria poder gritar, deixar que minhas palavras corressem pelo asfalto, assim como as gotas da chuva, que caem livremente. Que caem sem pedir permissão, que caem sem julgamento.
Como seria se sentir como a chuva? Como seria se sentir livre? Como seria poder dizer o que eu penso?
Mas eu não sou a chuva. Eu não sou livre. Eu sou muda.
E sigo aqui mais uma vez… Deixando que as lágrimas corram sem parar, sem cessar.
E me afogo. Afogo em mim mesma de novo. E de novo… E de novo…

Baile de Máscaras.

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Barulho elevado, sorriso forçado e psicológico alterado. O medo tem voltado, a ansiedade aumentado e o desespero incomodado.
Meus lábios abrem com dificuldade, mostrando uma falsa felicidade que está muito longe da realidade. A vida virou um baile de máscaras, todos fingem, todos atuam, todos manipulam. A máscara de alegria tem que estar bem fixa em seu rosto, quase irremovível. Há que entrar na dança, bailar a valsa dos hipócritas e manipuladores, conduzindo seus pés aos passos da música conduzida e orquestrada pelos que estão supostamente acima. Há que manter a imagem, a aparência sempre tem que estar a frente dos sentimentos.
É hora do passarinho fechar mais uma vez suas asas e ficar preso em uma gaiola, fazendo graças e peripécias para que os tolos humanos satisfaçam seu prazer egoísta, enquanto aquelas asas dia após dia vão se atrofiando, até  para o pequeno animal a realização de planar pela céu azul se torne uma completa utopia.