Ampulheta.

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A pequena ampulheta a girar
a girar
a girar
a girar.
Me traz de volta
me puxa e
me joga
em um antigo lugar.

É como se existisse uma falha
no tempo e no espaço
onde o mesmo momento
se repete invisivelmente
novamente
novamente e
novamente.

Não me importa
quantos estejam dispostos
a ficar, o seu transporte
partindo em direção ao longe
é o que se repete e
repete
sem parar.

Passam os anos
Passam as vidas
e a ampulheta continua
a girar
a girar
a girar…

Fotografia.

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Eu vi você me vendo. Duas vezes.
Que coisa estranha é essa de sentir-se invisível.
Quando olhos te enxergam, em fração de segundos, sem querer, é como um pequeno  renascer.
“Será que é agora?”
“Será que é pra valer?
“Será que meus olhos realmente viram ou apenas viram o que meu coração quer crer?”

Acredito que foi um acidente. Um sutil deslize.  Eu fazia parte da paisagem e seus olhos estavam apenas fotografando o ambiente.
Agora, não devo ser nada mais do que uma imagem emoldurada e guardada em algum canto longínquo de sua memória.
Mas e eu? Como retornar ao meu não ser?
Sou tão pouco, sou quase nada, e não sei como lidar com esse muito que seus olhos cismaram em oferecer.
Você me fez de imagem e essa imagem eu não consigo esquecer.
Por quê?
Não sei. Eu juro que não sei.
Mas quero que continue me vendo.
Quero que seus olhos continuem esbarrando no pequeno acidente da minha presença.
Para que eu possa existir. Para que eu possa sentir.
Desde que você me fotografou, não me sinto fantasma.
Não sou mais um pedaço de etéreo flutuando pelo mundo.
Sou carne, sou ossos.
Já não sou mais feita de destroços.

Do Outro Lado Do Muro.

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– Olha lá, Júlio! Aquele ali não é o Almeida?
– Onde? – a mão enrugada largou a peça de xadrez para focar no dedo apontado do amigo. – Caramba, José, parece mesmo!
– Parece nada, é ele! O que será que faz aqui? Ele não tinha recebido alta?
– Ih, surtou de novo! Só pode!
– Ei, Almeida! – chamou e assoviou. – Vem pra cá!

Almeida lançou um olhar para a enfermeira num questionamento silencioso que foi respondido com um sinal positivo.
O velho aproximou-se da mesa e recebeu o abraço dos antigos amigos.
Perguntado sobre qual razão o havia trazido de volta ao hospício, ele respondeu:

– Fingi um acesso de loucura. – os amigos o olharam com surpresa. – Não foi difícil, toda a experiência neste lugar tornou tudo muito simples de ser feito.
– Mas o sonho de todo mundo aqui é retornar para a vida do outro lado do muro. O que te fez querer voltar? – perguntou José.
– Segurança. – Almeida sentou-se frente à mesa e mexeu uma das peças de xadrez, aplicando um impensado cheque-mate. – Vocês são felizes aqui e não sabem! Acreditem: o mundo lá fora está uma loucura!

Resenha: Ninguém Escreve Ao Coronel

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Em toda a vida há uma espera. Seja uma pessoa ou um objeto, cada um de nós já perseguiu algo que parecia nunca chegar – e que, talvez, não tenha chegado mesmo.
Este é o tema central do livro “Ninguém Escreve Ao Coronel”, do escritor colombiano e vencedor do Nobel de Literatura do ano de 1982, Gabriel García Márquez.
Um coronel aposentado espera toda sexta-feira, há anos, pelo pagamento da aposentadoria. Mas, ao invés da carta, tudo o que recebe é uma frase irônica e desdenhosa do carteiro, que diz “ninguém escreve ao coronel”, quando chega outra vez de mãos vazias. A história se desenvolve e o leitor vai esperando também a tal carta e, quando ela não chega, vai desanimando junto com o personagem principal. García Márquez consegue criar uma relação profunda entre personagem-leitor, onde acabamos sendo um amigo invisível do coronel quando este vai até o cais esperar o carteiro e sentimos o ímpeto de dar-lhe um tapinha de consolação em suas costas quando a carta não vem.
Contudo, nem só de esperas conta o livro. Aliás, é apenas um tema em evidência que é seguido por duras críticas sociais e políticas, muito bem colocadas através de ironias e cenas até cômicas pelo autor.
García Márquez também aponta sutilmente para o talento que o povo latino-americano possui para rir da própria desgraça. Mesmo à beira da fome e do desespero, as conversas entre o coronel e sua mulher acerca da própria situação são capazes de arrancar algumas risadas do leitor.
Ninguém Escreve Ao Coronel é um livro curto e bastante crítico, além de ser uma ótima oportunidade para quem deseja ter um primeiro contato com o vasto mundo que é a literatura de Gabriel García Márquez.
O fim nos dá aquele gostinho de quero mais, principalmente para aqueles que se apegaram ao Coronel e à sua mulher como eu; mas nos deixa com a reflexão sobre por quê o cenário político e social latino-americano mudou muito pouco desde que o livro foi publicado em 1968  até os dias de hoje.
Infelizmente, sabemos que ainda existem muitos “coronéis” por aí que esperam algo que, no fundo, sabem que nunca vai chegar.

Título: Ninguém Escreve Ao Coronel
Autor: Gabriel García Márquez
Editora: Record
Páginas: 96

#62milliongirls – Deixem As Garotas Aprenderem.

Uma campanha iniciada pela primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, tem ganhado bastante destaque nas últimas semanas. “Let Girls Learn” (deixe as garotas aprenderem, em português) procura colaborar com a educação de meninas do mundo todo, principalmente dos países menos favorecidos, onde em torno de 62 milhões de garotas estão proibidas ou não têm direito à uma educação formal. Garotas que com 12 anos são obrigadas a se casar com homens de 40 anos, meninas de 9 anos que já cuidam da própria casa como adultas e outras que são obrigadas a abandonar a escola tão cedo para fugir dos problemas com as guerras civis de seus respectivos países, existem e o número desta triste estatística só faz aumentar. É uma realidade chocante para nós que vivemos em cidades grandes e em um país “laico” saber que isso está acontecendo, agora, em alguma parte do mundo. Mas está. E é uma situação gravíssima, pois as barreiras de fanáticos religiosos e ditadores são muito difíceis de atravessar. Mas não é impossível.
A campanha da primeira dama procura fornecer, além de recursos financeiros, um avanço maior da tecnologia nesses países. As pessoas podem ajudar com doações, se tornando voluntárias ou repassando esta mensagem, como eu e muitos artistas estão fazendo em suas redes sociais (como Chris Martin na foto abaixo).

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O caminho para o desenvolvimento é a comunicação entre os povos e uma educação igualitária para todos os sexos. O abuso mental e físico dessas meninas precisa parar. E elas precisam saber dos próprios direitos. Elas precisam ter uma educação.
Na escola, eu aprendi a questionar e refletir sobre tudo o que me era passado. 62 milhões de garotas não têm essa chance.

Para conhecer mais sobre a campanha e saber o que mais pode fazer para ajudar, visite o site oficial: http://62milliongirls.com/

Pele Fina.

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“Can’t you see I’m highly sensitive?
I even bought some books about it…”

– Mallu Magalhães

Minha pele se parte com um simples toque de papel. Meus pés sentem o chão tremer com o caminhão passando lá fora.
Eu sinto tudo e tudo me adentra. É defeito de nascença: não há como escapar.
O latido de um cachorro faz tremer as folhas de um jornal em minhas mãos.
Palavras agressivas me perfuram e caminham pelo meu sangue dias e dias a fio. Apenas gotas geladas de chuva conseguem desintegrá-las.
O cheiro das ruas de uma cidade grande expulsam de minha mente qualquer rastro de coisa bonita.
E a rejeição, é verdade… Já foi capaz de tirar-me a vida!
Ser pele fina num mundo feito de atirar paus e pedras me deixa sem ar. Mas é a mãe lua na madrugada que chega, abraça, afaga e nina o meu sonhar.
Sou dominada por medos e sonhos. É um cabo de guerra constante onde cada dia tem um vencedor diferente.
Caos, fumaças, dores, antigas casas, palavras más de uma ex-boa amiga, o olhar que por aqui não cruzou, aqueles que aqui estiveram e apenas na memória restaram… Tudo, todos e mais um pouco me compõem.
Sou feita de vazios e milhões de mundos. Num dia sou um; noutro sou dois.
Quantas coisas, fatos, sombras e pessoas ainda me atravessarão?
Não sei… Não sei a resposta.
No futuro serei esse amálgama de tantas coisas que acabarei explodindo em pó… Ou em palavras.

Escritor 33 – Manoel De Barros

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Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916  — Campo Grande, 13 de novembro de 2014) foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Recebeu vários prêmios literários, entre eles, dois Prêmios Jabutis. É o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade nos meios literários. Enquanto ainda escrevia, Carlos Drummond de Andrade recusou o epíteto de maior poeta vivo do Brasil em favor de Manoel de Barros . Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada” de 1996.

Fonte: Wikipédia.

Principais Obras:

Gramática Expositiva do Chão (1966)
Livro Sobre Nada (1996)
Ensaios Fotográficos (2000)

Opinião Pessoal: Manoel De Barros transformou para sempre a minha forma de entender a poesia. Quando peguei pela primeira vez um livro seu ainda tinha na mente aquele estigma de que poesia era apenas estrutura e rima, como costumamos a aprender na escola. Ao me encontrar com o “Face Imóvel” pela primeira vez – meu primeiro contato com o poeta – me assustei um pouco com aqueles versos quebrados e com pouca rima. Tive dificuldades para entender a principio tamanha desconstrução, não só da linguagem, como também em relação à ideia pobre que tinha da poesia. Desistiria, talvez, de Manoel, se não tivesse pagado bastante caro no box que contém toda a sua obra. Mas resolvi insistir, principalmente porque – apesar de não entender muita coisa quanto à poesia como técnica – senti uma identificação com o amor pelas coisas simples, pela vida do campo e os animais que o poeta costuma escrever em todos os seus versos. E ainda bem que o fiz! Livro após livro fui entendendo um pouco mais da mente do poeta, de como funcionava a poesia e sobre como ela não possui limites: a poesia vai até onde sua imaginação deseja que ela chegue.
Foi a partir de “Livro Sobre Nada” que caí para sempre no mundo mágico de Manoel. Um mundo onde gravetos valem ouro, uma lagarta é tida como musa inspiradora, e caracóis, lixo, coisas que pessoas jogam fora ou desprezam são semelhantes a um tesouro. Um mundo onde a poesia significa o mesmo que a vida, em que uma não pode viver sem a outra.
Manoel de Barros é simples e marcante. Mesmo aparentando não querer dizer nada, acaba dizendo tudo, com aquele jeitinho quase infantil que só ele sabe imprimir em seus versos. Um professor que sempre nos ensinará muito mesmo não estando mais entre nós. Só os gênios são capazes de fazer isso.

Prosa E Verso: O Fim Do Caderno Literário Do Jornal “O Globo”.

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No último sábado, o caderno Prosa e Verso, do jornal carioca O Globo, foi encerrado de forma repentina e melancólica. O que era antes um espaço para divulgar e falar sobre Literatura, foi incorporado ao Segundo Caderno, uma outra seção do jornal, com uma “honrosa” folha frente e verso. O principal colunista do carinhosamente chamado Prosa, José Castello, anunciou sua despedida em seu blog do mesmo jornal, criticando severamente a decisão do fechamento de um espaço que podia não ser mais o popular – e, sejamos francos, a literatura não é o assunto mais popular em nenhum setor deste país -, mas que tinha seus leitores e aprendizes fiéis (leia o seu desabafo e despedida aqui).
Eu era uma dessas aprendizes. Assinava (e ainda assino, porém não sei por quanto tempo mais) O Globo aos fins de semana apenas para ler o caderno, que sempre me ajudou muito na evolução como escritora e como leitora também. Através do Prosa conheci diversos autores e pensadores, que mudaram a minha forma de escrever e pensar o mundo.
A cada sábado o caderno trazia um novo jeito de ver a política, a filosofia, a religião, o feminismo, os direitos das classes mais pobres e todos os assuntos realmente importantes, através de entrevistas inteligentes, matérias e resenhas muito bem trabalhadas, além de anunciar concursos e cursos no âmbito da psicologia, literatura e filosofia. Porém, a partir de agora, nada mais desse conteúdo riquíssimo voltará a ser o mesmo.
Uma folha frente e verso num dos jornais mais populares do país para falar de literatura de um jeito crítico e como forma de evolução de pensamento não é o bastante. Uma folha frente e verso para formar leitores num país onde se lê em média de 1 a 2 livros por ano, não é o bastante. E o fechamento do caderno só demonstra o quanto os livros e a literatura no Brasil estão cada vez mais sendo desprezados e apequenados. É uma vergonha. Mais uma pra coleção da nossa estimada pátria.
Quem não tem amor ou não entende da importância do assunto pode pensar que num momento de crise como a qual estamos vivendo é muito mais importante falar sobre Dilma, sobre Operação Lava-Jato, Cunha, ou o declínio cada vez mais vertiginoso da economia, mas a literatura e a educação deveriam ter tanta importância quanto. Uma olhada na História mundial basta para saber que a identidade e o valor de uma nação não é feita somente de política e economia, mas sim de sua cultura e de suas criações que devem crescer e propagar-se continuamente. E a nossa anda cada dia mais desprezada.
Que o fechamento do caderno Prosa e Verso seja apenas um incentivo para que nós – leitores, escritores, amantes da literatura etc. – continuemos lutando para que nossa cultura e literatura não se perca. Que mesmo através de simples blogs e sites como este aqui a nossa parte seja feita, por menor que seja, para continuar divulgando e espalhando por todos os cantos, não só a literatura em si, como também o seu enorme valor em um país que ainda não entendeu o livro e o pensamento crítico como forma de evolução primordial para uma sociedade.
Se as letras e o pensamento crítico desaparecerem do nosso cotidiano, o que será de todos nós?
Eu não quero nem imaginar a resposta.

Sobre Um Pedido, Um Toque E Um Chaveiro.

touch

 

Eu o sinto andando atrás de mim.
Seus passos, seu cheiro, o jeito como seu chaveiro faz barulho pendurado na mochila.
Eu afasto minha mão do corpo, esperando que você a pegue.
Por favor, pegue-a.
Leve-me contigo por qualquer estrada.
Leve-me contigo mesmo que isto não leve a nada.
Só não a deixe pendurada.
Só não a deixe como uma peça do corpo desgarrada.
Já tenho espaços vazios suficientes. Não preciso de mais um.
Pegue-a nem que seja por pena, nem que seja apenas para levá-la até a esquina enquanto a minha palma beija a sua palma, enquanto nossas matérias se misturam.
Você pode salvar a minha vida com apenas um toque.
Já sentiu como se toda a sua vida dependesse de uma única coisa?
Eu já.
A todo tempo.
Minha mão permanece pendurada ao lado do meu corpo. Seus passos se aproximam cada vez mais.
Por favor.
Por favor.
Por favor.
Prometo não cobrar nada.
Prometo não cobrar sequer a pétala de uma flor.
Só me faça existir entrelaçando seus dedos bem aqui.
Seus passos chegam, mas seu toque não. Você passa por mim e então através de mim.
Vejo suas costas, sinto o seu cheiro e ouço o barulho de seu chaveiro pendurado na mochila.
Minha mão ainda está afastada do corpo, esperando que a você a pegue.