Resenha 01 – A Menina Que Fazia Nevar.

 

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“Milagres não têm que ser grandes e podem acontecer nos lugares mais improváveis. Às vezes são tão pequenos que as pessoas nem percebem. Às vezes os milagres são tímidos. Ficam puxando suas mangas, esperando você percebê-los, e depois somem. Muitas coisas começam bem pequenas. É um jeito bom de começar porque ninguém nota. Você é só uma coisinha perambulando , cuidando da própria vida. Aí você cresce.”

 

Judith é uma menina de dez anos e muito sonhadora. Não conheceu sua mãe e vive apenas com o seu pai em uma casa simples localizada em um bairro pobre. Cheia de imaginação, a garota tem em seu quarto uma enorme maquete, a qual chama de “Terra Gloriosa”. A maquete é bem simples, feita de sucata, mas, aos olhos da menina, é um lugar maravilhoso para se viver. Seu pai é um fanático religioso, do tipo que vive mais para a igreja do que para a própria família. Mas como julgá-lo? Ele perdeu a mulher um pouco depois da menina ter nascido. Encontrou na religião um alento, um refúgio. Foi em Deus e por Deus que ele continuou a viver, já que olhar para sua filha era doloroso o bastante, pois via a imagem de sua falecida esposa no rosto dela. Porém, isso não é fácil para uma menina de dez anos entender. Judith tem a certeza de que o pai não a ama. Ele quase não abraça ou toca nela. E também não presta atenção nas palavras que saem de sua boca, o que é doloroso para a menina, pois ela tem muito a dizer. Muito mesmo. Talvez se o pai a escutasse, se demonstrasse um pouquinho mais de afeto, ela poderia dizer todo o bullying que vem sofrendo há tempos de seu colega de classe, Neil Lewis. Ao contrário, ela esconde acontecimentos importantes e vive uma vida própria em sua Terra Gloriosa, o único lugar onde pode agir como verdadeiramente é, sem repreensões ou críticas de pessoas que não entendem como aquela cabecinha especial funciona.
Um certo dia, Neil Lewis faz-lhe uma ameaça tão assustadora que a deixa em pânico de retornar à escola. Trancando-se em seu quarto e brincando em sua Terra Gloriosa, que é uma réplica de sua cidade e das coisas que vivem ao seu redor, ela deseja ardentemente e reza com toda a sua fé que neve bastante no dia seguinte, para poder não voltar à escola e ser espancada por Neil. Brincando, ela até derrama espuma de barbear sobre a cidade, simulando a nevasca. E adivinhem? O seu desejo se realizou. A cidade amanhece coberta por uma neve espessa e a garota não pode ir à escola. Judith operou um pequeno milagre. O mesmo milagre que escuta nos cultos ou na leitura da bíblia à noite com seu pai. Se foi milagre mesmo ou não, isso fica por conta do leitor. Mas a menina acredita que Deus lhe concedeu poderes especiais, capaz de mudar o rumo do mundo e a vida das pessoas, e desde então toda a sua existência gira em torno desta premissa.
Eu diria que esse é um livro carregado de emoções. Tanto dos personagens quanto às do leitor. Você pode odiar ou amar o livro, mas você com certeza vai sentir algo. Ela é uma garota tão inocente e pura que sofre tanto, que não percebe como as coisas ao redor estão abundantemente erradas, e dá vontade de entrar no livro e arrancá-la de lá. A história te deixa com um nó na garganta, principalmente com o desenrolar ao longo das páginas, já no final do livro. Tinha horas em que eu tinha que parar de ler de tanta agonia que me dava, porque ninguém parecia enxergar a menina. Ninguém parecia se importar pois, como a maioria das pessoas, todo mundo está muito preocupado com suas próprias vidas para enxergar os problemas de uma criança. Afinal, quantos problemas podem ter alguém dessa idade? Muitos!
Outra coisa que achei bastante interessante a autora expressar no livro foi a linha tênue entre a fé o fanatismo. Fé é fundamental, não importa no que você acredite. Todo ser humano precisa acreditar em alguma coisa, nem que seja acreditar em si mesmo. O fanatismo é perigoso demais. Nunca vi um caso de fanatismo que acabasse bem. A pessoa fica realmente cega e vive em função daquilo. O pai de Judith é um fanático, não importa quais questões o levaram até este extremo. E como todo pai é um exemplo para seus filhos, ao longo do livro, começamos a ver esse traço se formando na personalidade da garota também.
A Menina Que Fazia Nevar é realmente um presente divino para quem se apega à história. Acho que um ateu ou agnóstico vai ter uma dificuldade maior de entender certas questões, pois o livro fala o tempo inteiro de fé e religião, ainda que em nenhum momento a autora tome partido de nenhuma. Ao contrário, em alguns momentos da narração, é notável a crítica que ela faz às atitudes extremamente religiosas e, para nós, sem sentido de alguns personagens. Ainda assim, pra quem não curte muito o assunto e não acredita mesmo, a leitura pode se tornar um pouco chata e sem noção.
Entretanto, creio que se o leitor mantiver a cabeça bem aberta, independente no que acredita, vai poder se deliciar e se questionar sobre várias questões do aspecto humano.

Título: A Menina Que Fazia Nevar
Autor: Grace McCleen
Editora: Paralela
Número de Páginas: 312

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
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