Uma História Sobre O Medo Em V Atos

I.

O medo tem a cara de um homem.
Não sei descrever seus traços, seus cabelos, sua voz ou seu tamanho.
É apenas um homem.
Medo.
Gênero masculino.
Medo, com seus braços largos que apertam e machucam, com suas mãos que esmagam meus ossos, com seus lábios vermelhos de escárnio, com sua boca suja de sangue.
O meu medo tem a cara de um homem.

II.

Um dia, uma amiga me explicava o que era o amor.
Como era estar apaixonada, como era bom ser tocada, apreciada, amada.
Como era bom não sentir dor.
Eu olhei para ela com curiosidade, como alguém que escuta uma língua nova, uma língua nunca antes detectada pelos ouvidos.
“Entenderei o que é o amor o dia em que eu não sentir medo.”
Disse para o vazio, enquanto ela cantava para si mesma uma canção apaixonada.

III.

Percebi que havia algo estranho quando você andou ao meu lado e eu não senti medo.
Lembro de olhar para nossos pés, lado a lado, e nossos passos pisarem na mesma cadência, na mesma direção.
Não era normal. Eu nunca antes havia deixado os pés de um homem pisarem na mesma cadência que os meus.
Percebi que havia algo estranho quando seus olhos chamaram os meus olhos e eu não senti medo. Lembro de sentir que não era a primeira vez que eles se encaravam.
Não era normal. Eu nunca antes havia encontrado pela primeira vez alguém que eu já conhecia.
Você percebeu que havia algo estranho quando se encontrou no meu olhar e sentiu medo.
Não era normal. Você nunca antes havia permitido se reconhecer dentro dos olhos de uma mulher.
Você então mudou o ritmo de seus pés, seus olhos foram chamar outros olhos, de preferência olhos que não o refletissem.
(É mais fácil assim, não é?)
O seu medo ainda tem o meu rosto.

IV.

Uma música lamentosa ressoa sua melodia no fim da noite.
Diz a letra:
“Você chegou tarde demais para mim, eu cheguei cedo demais para você.”
É isso.

V.

Sinto muita falta de não sentir medo.

Saúde Mental Em Tempos de (Mais) Crise

Muito se tem ouvido nos últimos dias sobre os cuidados que devemos ter com a chegada do novo corona vírus em nosso país. Os jornais na tv e a internet nos passam informações a todo momento sobre como se cuidar, como lavar as mãos corretamente, os diversos apelos para que as pessoas não saiam de casa e novidades em tempo real chegam a todo tempo. O cuidado com a saúde e todas as questões materiais é primordial, entretanto, o cuidado com o nosso emocional também é. E, infelizmente, vejo poucas pessoas e veículos abordarem esse tema tão importante que é a saúde mental em tempos de (mais) crise.
A quarentena vem sendo tratada como algo simples de se fazer e apenas “chato”, não poder trabalhar, não poder sair de casa, não poder encontrar os amigos e ter todas as atividades de lazer com as quais estamos acostumados. Listas de filmes, documentários, livros, séries e novelas rolam aos montes por aí como dicas super válidas para ajudar a atravessar esses dias imprevisíveis que estamos vivendo. Entretanto, pouco se fala sobre pessoas que lutam todos os dias contra a depressão, síndrome do pânico, bipolaridade, alcoolismo, violência e abuso dentro de casa, além de muitos outros transtornos que requerem uma atenção mais do que especial.
Se toda essa situação de pandemia e quarentena está sendo terrível pra você que não precisa lidar com essas questões, imagina pra quem literalmente precisa estar em contato com outras pessoas e estar fora de casa pra sobreviver aos demônios da própria cabeça. Pessoas que precisam do trabalho, dos amigos, de uma vida regulada para não se perderem de vez.
Ficar em casa deveria ser sinônimo de segurança, mas para muita gente não é. Muito pelo contrário. Não é novidade pra ninguém o tanto de família que vive refém de todas essas questões citadas anteriormente e muitos deles sem tratamento. Agora imaginem todo mundo preso no mesmo lugar por tempo indeterminado e vendo todos os dias na tv o mundo fora de controle. É a receita ideal para um desastre também emocional.
Todos estamos abalados com o que está acontecendo, mas tem gente à beira do abismo e que só precisa de uma palavra de carinho. Que precisa de mais amor, de mais atenção, de mais cuidado. Saúde mental é tão importante quanto a saúde física. Jamais subestimem a importância da saúde mental, principalmente nesses tempos. Por isso, eu imploro para que vocês que conhecem pessoas que estão nessa situação que cuidem muito, que mesmo que de longe, por mensagem ou ligação, ofereçam uma palavra amiga, um conforto para seus amigos e parentes que vocês sabem que vivem esse tipo de situação. Às vezes um carinho é suficiente para salvar uma vida. Apoiar o setembro amarelo e militar na internet sobre a importância dos cuidados com a saúde mental é algo muito simples de se fazer. Não seja simples, faça mais, faça o que você puder. A hora de mostrar o quanto você se importa de verdade com seu meio social é agora.
Precisamos nos distrair e tentar atravessar este momento da melhor forma possível, mas não se esqueçam do mais importante: desinfetem tudo com frequência, não saiam de casa, alimentem-se bastante e liguem, façam uma chamada de vídeo, enviem uma mensagem para aquele amigo ou parente que está passando por alguma dificuldade emocional mais grave para dizer que a vida dele importa, que ele é amado e que não está sozinho.
Em tempos de crise e pânico, é cuidando um dos outros e amando uns aos outros que vamos conseguir sobreviver.
Talvez seja uma ótima oportunidade pro ser humano parar de sentir vergonha de demonstrar sentimentos e dizer um “eu te amo”. Vamos tirar boas lições deste momento e sermos os melhores que pudermos ser. Sua demonstração de afeto pode salvar mais uma vida. Não se esqueçam disso.
Fiquem bem!

Uma História Sobre Fantasmas em III Atos.

I.

Graças a você não tenho mais medo de fantasmas.
Quando era criança, fantasmas apareciam em meus sonhos e continuavam ao meu lado mesmo depois de acordada.
Costumava chamar minha mãe no meio da noite em busca de proteção, mas ela dizia para que eu fechasse os olhos e esperasse os fantasmas desaparecerem.
Mas eles nunca desapareciam.
Eles continuavam vindo e vindo até o dia em que decidi não dormir mais à noite.
Fantasmas têm medo da luz. E eu só encontrava a paz quando o sol despontava no horizonte.
As pessoas me julgaram dizendo que eu estava arruinando meu corpo. Mal sabiam elas que apenas estava tentando salvar minha mente.

II.

No primeiro dia em que nos conhecemos, você me pediu que caminhasse em sua direção e eu me vi incapaz de dizer não. Subi uma montanha até você, sem imaginar que aceitar a este pedido custaria toda a minha alma.
Eu subi uma montanha e, quando cheguei ao topo, decidi construir uma casa dentro de seus olhos. Eles me eram familiares e eu não entendia por quê.
(Até hoje não entendo o porquê)
Você me deu boas vindas e eu me senti bem-vinda.
Eu construí uma casa dentro de seus olhos e por um mísero segundo pensei que havia encontrado o lar que sempre procurei.
Mas não demorou para que eu começasse a ver, começasse a ver fantasmas em seus olhos, dentro da casa que eu construí com tanto cuidado.
Foi então que percebi que não era a única que lutava contra fantasmas.
Decidi que poderia salvar você, porque eu, apenas eu sabia muito bem como lutar contra fantasmas ou escapar deles. Eu o avisei, eu abri meus braços e meu coração para que o menino que chora dentro do seu peito pudesse encontrar a saída e construir uma casa dentro de meus olhos.
Dentro de mim você estaria seguro. Tinha certeza disso.
Busquei seu olhar, abri a porta para que escapássemos juntos, entrelacei meus dedos com os seus, mas você não se moveu.
Você não queria achar a saída.
Ao contrário de mim, você nunca teve problemas para dormir.
Ao contrário de mim, o menino que você um dia foi (para mim, o menino que você ainda é) fez amizade com seus fantasmas e prometeu nunca deixá-los.
(Você de fato é um homem fiel)
Foi preciso me partir em mil pedaços para entender que você não queria uma saída, que não precisava de salvação.
Que você não precisava e nem mesmo queria uma casa dentro de meus olhos.
Foi então que percebi que fugi de fantasmas a vida inteira para acabar me apaixonando por um.

III.

No último dia em que nos vimos, você fechou seus olhos para mim. Você fechou para sempre a porta da casa que eu construí com tanto cuidado e negou que um dia tivesse me dado as boas-vindas.
Negou que um dia eu pude viver dentro de seus olhos.
Negou tudo.
Eu tenho dormido à noite desde então.
Graças a você não tenho mais medo de fantasmas.
Não tenho mais medo de nada.
Eu ainda vejo fantasmas em sonhos, ainda os sinto quando acordo. Mas eles não me assustam.
Porque desde o último dia em que nos vimos, nada me assusta mais do que a ideia de ter para sempre o seu fantasma dentro de mim.

Não Mais “E Se?”

Eu parei de sentir medo.
Eu abri a gaiola, saí pro mundo, abri meu peito e respiro mais fundo.
Estou vencendo meu pavor de pessoas, agora piso forte, canto mais alto, agora falo o que penso, não temo os olhares e tampouco me importo com os lamentos.
Agora acredito que sou inteligente (o bastante), que tenho talento (o bastante), sonho e realizo, agora eu sigo, consigo o que quero, o que preciso, o que mereço.
Larguei a necessidade de aprovação, a obsessão em ser amada – por tudo, por todos – agora eu olho no espelho e vejo alguém que vale muito a pena.
Estou buscando perdoar meu pai e recompensar minha mãe – por tudo, por todos – e já não existe nenhuma culpa, pois me vejo como o brilho nos olhos dos outros.
Sobrevivo de arte e de letras porque é o que sou, o que eu respiro, e com isso digo a verdade, a minha verdade, e finalmente não preciso me esconder para evitar sofrer – por tudo, por todos –, pois já entendo quem eu nasci pra ser (não quero nunca mais me esconder).
Entendi o esplendor que há em viver.
E não quero nunca mais viver de “e se?”

Vamos Fazer Um Acordo.

Me leve embora desta praia.
Vamos usar um ao outro.
Você me leva embora desta praia e eu
realizo todos os seus desejos.
Vamos fazer um acordo:
Apenas diversão, nunca ir além da paixão
Apenas um fim de semana correndo pelas calçadas
Ou subindo montanhas para alcançar estrelas.

Para você, digo sim para o que for.

Veja, eu não posso deixar de amar o mar.
Já faz 300 anos, múltiplas vidas e ainda sigo aqui
Sentada na areia desta praia
Desejando ardentemente pertencer a algo
Que não fará nada além de me afogar.
Já faz 300 anos, múltiplas vidas
E ainda espero que brânquias brotem em minha pele
Para que esta ânsia chegue ao fim.
Mas milagres não acontecem.
Eu sei disso.
Porém sigo esperando
Mesmo após 300 anos e múltiplas vidas.
E já não aguento mais tanto esperar!

Você poderia me ajudar?
Poderia pegar em minha mão
Devagar, gentilmente
Sorrir aquele sorriso, me preencher com seu olhar
Contar uma piada de mau gosto em meu ouvido
E me levar para longe do mar?

Vamos fazer um acordo:
Apenas diversão, nunca ir além da paixão
Pois se eu conseguir respirar
Longe das ondas, do azul, do sal,
Nem que seja por um par de dias
Nem que seja por algumas horas
E sentir meu corpo livre da dor
Eu juro, meu garoto
Para você, digo sim para o que for.

Para Minha Pequena Criança.

 

Me perdoe por tê-la abandonado.
Me perdoe por tê-la deixado por tanto tempo perdida, sozinha, lutando contra fortes demônios com tão pouca idade.
Me perdoe por tê-la abandonado como muitos outros fizeram. Eu sabia que tudo o que você precisava era de alguém que segurasse em sua mão e te puxasse, te levantasse do chão e dissesse que tudo iria ficar bem. Que com amor tudo sempre fica bem. Com amor tudo funciona, tudo segue.
(Talvez por isso você tenha ficado paralisada por todos esses anos!)
Mas eu não te dei amor. Muito pelo contrário. Eu só te dei raiva, desprezo, até ódio às vezes (muitas vezes!). É difícil admitir, mas é preciso. Chega uma hora que é preciso. Acho que esse momento chegou. Para nós duas.
Em minha defesa (se é que há alguma), eu te tratei tão mal porque eu achava que isso era amor. Porque foi isso que me ensinaram como amor: dar esperando receber, se esconder para que outros pudessem aparecer, obedecer para que outros pudessem mandar, me calar para que outros pudessem gritar. Aprendi a oferecer meu corpo como um meio de satisfação para outras pessoas, nunca para mim. Jamais para mim. Porque eu precisava ser uma boa menina. Precisávamos, não é verdade? Sim… precisávamos.
Mas eu não poderia ter deixado isso acontecer. Posso justificar que isso faz parte do crescer, que só sei disso agora, tanto tempo depois que o estrago foi feito, e que todos os longos anos de agressões e desamor foram necessários para chegarmos aqui hoje. Talvez. Não sei. Só sei que queria ter feito diferente. Ou ter tirado a venda dos meus olhos muito antes. Durou tempo demais. Foi quase uma vida inteira. Tanto tempo foi perdido, tanto, tanto! Mas espero que ainda sobre vida para fazer diferente.
Me perdoe por tê-la abandonado, minha pequena criança. Você é a coisa mais importante que eu tenho. É por você que eu vivo, é por você que eu sigo. Porque você merece mais, você merece algo melhor que tudo o que precisou agüentar até hoje.
Pegue em minha mão. Caminhemos juntas. Talvez encontremos ainda alguns obstáculos pelo caminho, alguns tropeços, pequenos momentos de novos abandonos e desamores, mas eu prometo que dessa vez será diferente. Dessa vez eu a defenderei com unhas e dentes. Porque eu aprendi a colocar você em primeiro lugar. Porque eu aprendi a amá-la como você merece. E prometo, com todo este amor que guardo no peito, com todo este amor que pode acalentar o mundo (e acalentará!), que não haverá mais abusos, gritos, desprezo e ódio.
Você está segura. Você está protegida. Você é amada.
E será uma vida diferente a partir de agora.
Isso é uma promessa.

Imagine.

Imagine se eu pudesse escrever todas as coisas que eu gostaria de escrever.
Imagine, apenas imagine, se eu pudesse dizer que sou apaixonada pelo mar, tão apaixonada, que eu evito chegar perto pois tenho medo de deixar tudo para trás, mergulhar nele e me afogar.
Imagine se eu pudesse confessar que todo o meu corpo é estranho para mim, como se meu espírito estivesse no lugar errado, como se ele devesse estar em outro corpo, e por pelo menos um momento não sentir culpa por isso.
Imagine se eu pudesse colocar em palavras como esse corpo estranho treme cada vez que encontra outro corpo estranho e que eu tremo, eu tremo, eu tremo tanto que todo esse terremoto dentro de mim me faz esquecer as palavras de minha própria língua. Imagine como seria bom se eu não fosse julgada por isso. Imagine como seria bom se eu não odiasse a mim mesma por isso.
Imagine, apenas imagine, se eu tivesse talento com as palavras e pudesse moldar todos esses sentimentos ruins em poesia como minha melhor amiga faz. Se eu fosse capaz de usar metáforas, ritmo e imagem para descrever como eu sofro todo dia desde criança por sentir que esse lugar me faz mal.
Mas não consigo.
Eu só consigo dizer que eu sofro todos os dias desde a infância por sentir que esse lugar me faz mal. Sem metáforas. Sem ritmo. Sem imagem. Assim mesmo, de forma clara e sem graça.
Imagine o quão longe eu poderia ir se realmente acreditasse que sou uma borboleta, porque eu me sinto tão próxima a elas que esqueço ser humana. Mas não posso acreditar que sou uma borboleta porque fui ensinada desde tenra idade que sou humana, de carne, osso e sem asas, e que eu devo me convencer disso. (20 anos depois e eu ainda não consigo me convencer disso).
Imagine se eu pudesse admitir todas essas coisas em público, deixando todo o podre ir embora e finalmente deixando de vomitar sentimentos em forma de bile, de sentir meu estômago doer toda a porra do dia, deixando de ter esses pesadelos que sugam toda a energia boa da minha alma e finalmente falando, cantando, gritando, finalmente, finalmente… sendo eu.
Sem vergonha. Apenas um dia na minha vida sem sentir vergonha.
Imagine se eu pudesse viver sem vergonha. Ah, é um pensamento maravilhoso! Mas, ainda assim, apenas um pensamento.
Imagine se eu pudesse escrever todas as coisas que gostaria de escrever.
E pudesse viver o mar.
E pudesse me sentir.
E pudesse me relacionar.
E pudesse ser poesia.
E borboleta.
E pudesse falar.
Sem vergonha.
Simplesmente falar.
Aqui e agora.
Imagine.
Apenas imagine.

Charlotte: Uma Biografia Poética.

“Diante das incoerências maternas, Charlotte era dócil.
Domava sua melancolia.
É assim que nos tornamos artistas?
Acostumando-nos às loucura dos outros?”

Descobri o livro “Charlotte” em mais uma daquelas minhas costumeiras andanças por livrarias da cidade. Começa sempre da mesma maneira: entro na livraria pensando “sou vou entrar para sentir o cheiro dos livros e nada mais” ou “só preciso estar perto de livros para espairecer um pouco, mas prometo que não vou comprar nada” e saio de lá com mais um (ou dois, ou três…) livros na mão. A descoberta de “Charlotte” foi um encontro parecido com o que tive com “A Condessa Cega e a Máquina de Escrever”. Apenas um livro que eu puxei de uma estante qualquer, gostei da capa, gostei da sinopse e então resolvi arriscar. E é incrível como essa minha mania de encontrar livros avulsos e desconhecidos em estantes por aí sempre se mostra bastante recompensadora.
“Charlotte’, do escritor francês David Foenkinos, é uma biografia romanceada da pintora alemã Charlotte Salomon, morta em Auschwitz ao final da Segunda Guerra Mundial. O escritor tem uma verdadeira obsessão pela história desta mulher e mistura os fatos que aconteceram à ela desde o inicio de seus dias à peregrinação pela Alemanha e França atrás dos lugares onde ela pisou e o legado que deixou. Toda sua escrita é carregada de admiração e paixão, sentimentos estes que foram expostos de maneira bem interessante através de versos e não de prosa. É a primeira vez que leio uma biografia de alguém como se estivesse lendo uma poesia e gostei bastante da experiência, apesar de sentir que muita coisa se perdeu na tradução e que, em alguns momentos, a forma com que as palavras foram organizadas não fazia muito sentido em nossa língua.
Livros que envolvem a Segunda Guerra Mundial sempre me deixam com um nó na garganta ao imaginar o que todas aquelas pessoas passaram, principalmente as mulheres. Apesar da escrita de David Foenkinos ser bem fluida, o livro em si é denso, é triste e deixa uma sensação de ressaca após o término. Contudo, é uma leitura que vale muito a pena, principalmente por apresentar a nós, brasileiros, que em geral não temos muito contato com a arte alemã, principalmente porque a biografia não fala apenas de Charlotte, mas também menciona figuras importantes como Albert Salomon, pai de Charlotte e o médico que descobriu a cura para a úlcera; Paula Salomon-Lindberg, uma famosa cantora de ópera e madrasta de Charlotte; Ludwig Bartning, artista e professor na escola alemã de Belas Artes; além de nomear famosos e intelectuais como Kurt Singer, Aby Warburg e até uma breve aparição de Hannah Arendt.
Em tempos de exaltação à tortura e retorno à barbárie, livros como a biografia Charlotte são sempre um convite à reflexão e à lembrança de tempos obscuros e carregados de derramamento de sangue que não devem, jamais, voltar a nos assombrar.
“Charlotte” é um registro em forma de poesia de tudo o que pode haver de mais belo no mundo – e também de mais cruel.
Uma leitura imprescindível em qualquer época.

Título: Charlotte
Autor: David Foenkinos
Editora: Bertrand Brasil
Número de Páginas: 238

13 Frases Para Aquecer O Coração De Um Aspirante A Escritor.

Quem está iniciando a carreira de escritor – ou está na estrada já há um tempo mas não saiu muito do lugar – sabe o quanto pode ser desesperador uma tela em branco e um monte de vozes em sua cabeça lhe dizendo o quanto você não vai conseguir ou o quanto você não é bom o bastante (acontece comigo todo o tempo). Pode ser muito complicado acreditar em si mesmo ou no seu trabalho quando você ainda se sente muito imaturo e cru para um mundo que parece ser tão cheio de gente talentosa e com uma autoconfiança de dar inveja.
Todos os escritores, por melhores que possam parecer, passam por momentos de insegurança e instabilidade criativa. Muitos tiram dessas experiências ótimos e reconfortantes conselhos para quem está começando ou para aqueles que ficam aterrorizados com uma folha em branco.
Aqui estão alguns deles:

1 – “É importante saber o titulo antes de começar – então você saberá sobre o que está escrevendo.” – Nadine Gordimer

2 – “Uma história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nesta ordem.” – Jean-Luc Godard

3 – “Nada do que você escrever, se você espera ser minimamente bom, sairá como você esperava.” – Lillian Hellman

4 – “Não tenha medo de ser conciso.” – Susan Sontag

5 – “Nada te impedirá de ser criativo tão efetivamente como o medo de cometer um erro.” – John Cleese

6 – “A poesia é a linguagem mais forte que temos.” – Maya Angelou

7 – “A coisa mais fácil de se fazer no mundo é não escrever.” – William Goldman

8 – “Escreva para o seu medo.” – Dorothy Allison

9 – “Escreva o seu livro agora, o mundo espera.” – Dave Eggers

10 – “Você quer ser um escritor? Um escritor é alguém que escreve todos os dias – então comece a escrever.” – Shonda Rhimes

11 – “Se a sua fidelidade ao perfeccionismo é alta demais, você nunca fará nada.” – David Foster Wallace

12 – “Proteja o tempo e o espaço em que você escreve. Mantenha todo mundo longe, até mesmo as pessoas mais importantes pra você.” – Zadie Smith

13 – “Leia selvagemente… e às vezes, enquanto imerso na multidão de vozes de outros, você poderá encontrar sua própria voz.” – Chimamanda ngozi Adichie

Todas as frases foram retiradas da internet e traduzidas por mim.

Vidas Secas E A Questão Da Identidade

Como todo livro clássico, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, pode ser lido por diferentes aspectos. É possível abordar a seca nordestina e o sofrimento dos retirantes, a relação do homem com os animais ao seu redor, a inteligência de Sinhá Vitória, que mesmo não tendo estudo sabia contar e mantinha a estrutura da família, entre tantos outros temas. Eu abordarei Vidas Secas pela perspectiva da identidade – ou a falta dela – de Fabiano, o protagonista do livro.
Fabiano é nordestino, analfabeto, homem do campo. “Um bruto”, como costuma referir a si próprio inúmeras vezes. Ele e a família – a mulher, dois filhos e a cachorra Baleia – são retirantes, obrigados a se deslocarem a pé por terras e terras para fugirem da seca. Depois de muita luta na estrada, a família de Fabiano se abriga em uma parte abandonada de uma fazenda. Alguns dias depois, o dono aparece e, após uma conversa, acaba contratando Fabiano como vaqueiro.

Na página 18 podemos observar o seguinte trecho: “Ele não era um homem. (…) Encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra”.

Na página 36: “Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos… Nunca viu uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.”

Na página 55: “Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca.”

Os três trechos apontam a falta de identidade de Fabiano. Por não saber ler, nem escrever, não sabia se expressar. Seu vocabulário era limitado, falava através de murmúrios, onomatopeias, o que o reduzia quase a um animal. Se um homem não pode ser identificar como homem, então o que é? Qual o seu papel no mundo? Para onde poderá ir, o que poderá alcançar?
No caso de Fabiano era mais fácil saber-se uno com os bichos, já que, assim como ele, também murmuravam, existiam através de ruídos e eram jogados para lá e para cá dependendo da condição do ambiente. Os homens brancos, como seu patrão, não se assemelhavam a ele: tinham terras, sabiam mandar, sabiam ler e contar, tinham estudo, eram gente. Apesar da biologia, eles não eram iguais e o nunca o seriam perante a sociedade.
É perturbador refletir que uma pessoa de carne e osso, que pensa, que – mal ou bem – fala e vive se sinta mais parecido com uma cabra do que com um ser humano. E é mais perturbador ainda saber que, como Fabiano, existem milhões por aí, principalmente em nosso país, em nossa esquina, que se sentem e vivem da mesma forma.

Um outro trecho, na página 76, diz: “Como ele era manipulado por não saber nada. E como ele temia saber e ser obrigado a sair de sua situação de bicho.”

Fabiano não sabia de nada desde que nascera. Seu conhecimento era de terras, de vida dura, do sertão. Não conhecia-se nem como gente e o reconhecer-se bicho já fazia tanto parte de sua personalidade – talvez a única identidade que possuía – que ele temia sair dessa condição. Se por acaso viesse a aprender a ler, escrever e ganhar algum saber, ele seria obrigado a perder essa identidade de animal e adquiriria uma identidade de homem. E então, o que seria dele? Pode ser apavorante para uma pessoa que não tem nada imaginar-se num mundo onde se tem tudo.
“Se aprendesse qualquer coisa…”, relata o narrador na página 22, “necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.” Como em Fabiano, o saber causa medo a muita gente. Não é difícil ouvir dizer por aí que ler muito pode enlouquecer as pessoas, que livros manipulam a cabeça dos jovens e alguns mais radicais colocam até o diabo na questão. Mas Graciliano mostra que é justamente o contrário: quanto mais se lê, quanto mais se sabe, mais um homem pode fazer cargo da própria vida. Quanto mais se aprende, mais um homem, pode evitar ser manipulado, mais um homem pode expressar suas ideias, sentir-se dono de seu próprio ser e ser livre para pensar e criticar tudo ao seu redor. Não à toa a primeira atitude de governos totalitários é queimar livros que ofereçam “perigo” ao poder instituído. Porque não há arma mais forte e mais poderosa que o saber. E junto com o saber vem a crítica, a luta por um mundo melhor e uma humanidade mais justa. Entretanto, o saber crítico dá trabalho e como dá! É necessário muita leitura, direcionamento por parte de professores preparados, força de vontade para sair de sua bolha, de sua zona de conforto e olhar o mundo como algo que vai muito além de você e do seu quadrado. Muitas pessoas não querem – ou não foram ensinadas – ir além de sua ignorância.
Ninguém nunca disse a Fabiano que ele poderia ser homem. Que ele tinha direito a ser homem, não biologicamente falando, mas sociologicamente. Por isso, ele nunca se sentiu e nem sabia que era possível se sentir como homem.
Um personagem que se mostra diferente devido a seu saber e costuma aparecer freqüentemente no livro, apesar de ser apenas na fala e na lembrança de Fabiano, é o Tomás da bolandeira, um homem do sertão como ele. Porém, segundo o protagonista, Tomás da bolandeira “falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros” e Fabiano sentia uma certa inveja de como o velho se expressava com eloqüência. Ele tentava imitar o respeitado senhor versado em livros, mas nunca dava certo, sempre se atrapalhava com as palavras, pois “um sujeito como ele não havia nascido para falar certo.” (pág. 22) Como não conseguia ir além de um par de palavras ditas, Fabiano encolhia-se como bicho e retornava à toca da ignorância. Para ele, não poderia haver nada além disso.
Graças à sua rudeza, Fabiano era constantemente enganado pelas pessoas ao seu redor, principalmente pelo patrão, que lhe pagava menos do que o merecido, o que foi descoberto por sua astuta esposa, Sinhá Vitória. Quando Fabiano foi questioná-lo, este usou de seu poder para lhe dizer que procurasse trabalho em outro lugar, tendo a perfeita ciência de que o maior medo daqueles que têm pouco é terminar sem nada. Diante da ameaça, o protagonista encolhe-se outra vez e pede desculpas, alegando que sua esposa deve ter feito algum cálculo errado. Fabiano sai do encontro ainda empregado, porém, ainda mais ciente de sua inexistência como homem.
Graciliano Ramos é considerado um dos maiores autores da literatura brasileira e Vidas Secas exemplifica bem o porquê disso. O livro é carregado de denúncias sobre a injustiça das classes sócias, do abuso de poder, e da miséria física e psicológica que sofre a maior parte da população brasileira. Lançado 1938, o autor escreve sobre um Brasil que ainda conhecemos em 2018. O que mudou de lá pra cá? Quantos milhões de Fabianos, que não tem nem o direito de saber assinar o nome, existem por aí? Quantos mais continuarão a existir nos anos que se seguirem?
Parafraseando o narrador, o povo brasileiro trabalha como um negro e nunca arranja a carta de alforria. E há muitos donos de escravos – sejam eles de barro nas calças ou de terno e gravata – que querem que tudo continue assim.

Livro: Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Número de Páginas: 155