#24 – A História De Martha

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Grades de ferro matavam a liberdade de Martha.
Estava presa há tanto tempo que nem se lembrava como havia parado ali pela primeira vez. Talvez estivesse presa desde criança, não sabia ao certo. Não tinha memória e nem história, era apenas Martha, a mulher presa atrás das grades.
A prisão de Martha não era uma prisão qualquer. Todas as paredes eram grades e, desta forma, Martha podia ver tudo o que acontecia ao seu redor. Ela via o céu, os campos verdes, os animais e as pessoas que por ali passavam. Martha via as pessoas, mas as pessoas não viam Martha. Ela e sua prisão eram como as árvores do local: já faziam parte da paisagem. Gritava por ajuda, para que alguém viesse abrir a porta de sua prisão, mas ninguém escutava. E Martha chorava, chorava e chorava pela sua má sorte, pelo destino que alguém em algum lugar havia reservado para si.
Martha não tinha sobrenome, nem parente, Martha era um acidente da vida, alguém que havia surgido naquele lugar e que ali deveria ficar. Ela tentou aceitar este fato, tentou se convencer de que talvez havia nascido mesmo para ser árvore, e que seu papel no mundo era apenas existir até que alguém a enxergasse e viesse abrir sua porta. Ela tentou bastante, mas a vontade de ser mais do que árvore era latente demais e impossível de ser ignorada. Martha gritava, chorava e esperneava para que algum chave caísse do céu ou que algum vendaval viesse para arrancar as grades do chão e libertá-la desta existência inerte. Mas só a chuva caía do céu para Martha e o máximo que a força do vento naquele local conseguia era despentear seus cabelos escuros.
Então, se rendeu. Desistiu de lutar e de se jogar contra as grades. Deixou seu corpo escorregar pela porta de sua prisão e, sem querer, seu cotovelo esbarrou na maçaneta da porta e esta, de repente e sem qualquer maior esforço, se abriu. Martha caiu de costas sobre a grama e pela primeira vez na vida viu o sol sob outro ângulo. Levantou-se rapidamente, tirou a terra do corpo e checou com assombro que a porta nunca havia estado trancada.  Não era preciso nenhuma chave mágica ou um monstruoso vendaval. No fim das contas, o segredo para sua liberdade não era nada mais do que girar a maçaneta.
Martha saiu correndo em direção ao mundo que estava à sua frente. Não sabia para onde ia, mas estava indo. Não era mais a Martha entre grades, a prisioneira de seu destino ou a desafortunada pela vida. Era Martha livre, era Martha liberdade.
Sua história começa agora.