Para Minha Pequena Criança.

 

Me perdoe por tê-la abandonado.
Me perdoe por tê-la deixado por tanto tempo perdida, sozinha, lutando contra fortes demônios com tão pouca idade.
Me perdoe por tê-la abandonado como muitos outros fizeram. Eu sabia que tudo o que você precisava era de alguém que segurasse em sua mão e te puxasse, te levantasse do chão e dissesse que tudo iria ficar bem. Que com amor tudo sempre fica bem. Com amor tudo funciona, tudo segue.
(Talvez por isso você tenha ficado paralisada por todos esses anos!)
Mas eu não te dei amor. Muito pelo contrário. Eu só te dei raiva, desprezo, até ódio às vezes (muitas vezes!). É difícil admitir, mas é preciso. Chega uma hora que é preciso. Acho que esse momento chegou. Para nós duas.
Em minha defesa (se é que há alguma), eu te tratei tão mal porque eu achava que isso era amor. Porque foi isso que me ensinaram como amor: dar esperando receber, se esconder para que outros pudessem aparecer, obedecer para que outros pudessem mandar, me calar para que outros pudessem gritar. Aprendi a oferecer meu corpo como um meio de satisfação para outras pessoas, nunca para mim. Jamais para mim. Porque eu precisava ser uma boa menina. Precisávamos, não é verdade? Sim… precisávamos.
Mas eu não poderia ter deixado isso acontecer. Posso justificar que isso faz parte do crescer, que só sei disso agora, tanto tempo depois que o estrago foi feito, e que todos os longos anos de agressões e desamor foram necessários para chegarmos aqui hoje. Talvez. Não sei. Só sei que queria ter feito diferente. Ou ter tirado a venda dos meus olhos muito antes. Durou tempo demais. Foi quase uma vida inteira. Tanto tempo foi perdido, tanto, tanto! Mas espero que ainda sobre vida para fazer diferente.
Me perdoe por tê-la abandonado, minha pequena criança. Você é a coisa mais importante que eu tenho. É por você que eu vivo, é por você que eu sigo. Porque você merece mais, você merece algo melhor que tudo o que precisou agüentar até hoje.
Pegue em minha mão. Caminhemos juntas. Talvez encontremos ainda alguns obstáculos pelo caminho, alguns tropeços, pequenos momentos de novos abandonos e desamores, mas eu prometo que dessa vez será diferente. Dessa vez eu a defenderei com unhas e dentes. Porque eu aprendi a colocar você em primeiro lugar. Porque eu aprendi a amá-la como você merece. E prometo, com todo este amor que guardo no peito, com todo este amor que pode acalentar o mundo (e acalentará!), que não haverá mais abusos, gritos, desprezo e ódio.
Você está segura. Você está protegida. Você é amada.
E será uma vida diferente a partir de agora.
Isso é uma promessa.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
Cuera

Últimos posts por Cuera (exibir todos)