Uma Menina, Um Ballet e Sua Música.

ballet

O grito desesperador está preso em sua garganta.
No meio de um enorme estúdio de ballet, há uma garota encarando seu reflexo no espelho.
Há um par de olhos amaldiçoando seu reflexo no espelho.
A música corre livremente, solta, leve, perfeita. Qualidades que ela não encontra mais. Características que não encontra mais. Ela as perdeu.
Oh, não!
Não…
Ela se perdeu.
A sapatilha rosada é agora apenas mais um calçado largado no ângulo de uma parede. Não tem mais coragem de colocá-la nos pés; não consegue. Porque calçá-las significaria retornar ao inferno particular que tem enfrentado nas últimas semanas. Calçá-las significaria trazer de volta toda a pressão, toda a perfeição que não consegue mais alcançar.
A música continua tocando insistentemente num alto volume, dentre as quatro paredes. Apenas há ela e seu reflexo distorcido no espelho. Apenas há ela e sua alma perturbada, transtornada, atormentada.
Oh, como voltar?
Como retornar?
Como alcançar o ápice dos movimentos leves e milimetricamente executados outra vez?
A vontade ainda está ali, ardente, inclemente, brutalmente pedindo para que ela retorne ao centro do salão e faça o que sabe fazer de melhor: dançar.

Mas como, como voltar?
Como dançar, como bailar?
Como pode de sua mente as críticas apagar?

O silêncio irrompe o salão.
O pequeno espaço de tempo onde uma música termina para outra vir a ser tocada é o suficiente para que ela sinta uma pressão contra o peito. O suficiente para que as notas musicais a abandonem e a deixem-na largada no meio de uma sala enorme, encarando o reflexo dos enormes olhos castanhos.
E isso basta.
É o necessário para que ela se sinta no auge de sua miséria, no centro de sua solidão, largada, desprezada, abandonada.
As pessoas a deixaram. Isso sempre aconteceu. Isso sempre ocorreu. Não é novidade e nunca será.
Já estava mais do que acostumada, não tinha nem mais do que se queixar!
Mas a música? Oh, não, a música não! Oh, não, a música nunca!
As canções sempre estiveram ali. Os passos ensaiados sempre a seguraram de uma forma que qualquer braço humano jamais o fez.
Se a música sempre esteve perto, ao seu alcance, a qualquer instante, porque a estava deixando?
Por que a estava abandonando?

A valsa de Tchaikovsky explode repentinamente contra as quatro paredes. Era sua favorita. A playlist rodava no aleatório e, no momento exato, no minuto exato, seus acordes favoritos preencheram todo o ar.
Ah! Como era bom respirar!
Era um alívio, um nirvana, não sabia como explicar.
Não havia tristeza no mundo que sua música favorita não pudesse curar!

As notas encheram seus ouvidos, revitalizando cada célula apagada e melancólica.
Sua mente retornou 12 anos no passado, quando abriu aquele presente de Natal no dia 25 de dezembro e vislumbrou as belas sapatilhas rosadas pela primeira vez.
Onde vislumbrou toda sua alma refletida naquele objeto pela primeira vez.
Tudo era tão mais fácil. Tudo era tão mais leve, mais brando, mais perfeito.
Era perfeito porque não havia perfeição. Não havia uma meta impossível de ser atingida e tampouco os olhares de desprezo por não conseguir ser quem os outros gostariam que fosse.
Apenas existia uma menina de sete anos, sapatilhas rosadas e The Sleeping Beauty fazendo magia com sua alma.
Sua imagem frente ao espelho agora estava de pé. As sapatilhas rapidamente foram tiradas do ângulo de uma parede e colocadas de volta ao lugar que pertenciam: em seus pequeninos pés.
Ela dançou.
Apenas com a valsa de expectadora, deixou-se levar.
Os passos não eram obrigatórios. Não valiam pontos. Não determinavam se ela era merecedora ou não de seu grande sonho.
Existiam duas coisas naquele momento: seu espírito reacendido e a enorme vontade de viver de ballet até o seu último suspiro.
Por isso dançou.
Deixou a pressão de lado, jogou a perfeição para escanteio e dançou.
Voltou ao tempo onde era só uma garotinha de sete anos que descobria a música clássica e suas maravilhas. Voltou ao tempo de inocência, de criança boba e sonhadora que não queria mais arrancar as sapatilhas rosadas dos pés.
E dançou.
Dançou e esqueceu-se da vida. Esqueceu da ansiedade enervante que é viver dia após dia sem saber para onde ir. Da ansiedade enervante que é abrir os olhos e se encontrar parada no mesmo lugar, quando a sensação é de que andou milhões de quilômetros sem cessar.
E dançou.
Dançou e esqueceu-se o que é sentir a pele queimar pela ausência latente de alguém querido. Esqueceu-se de como é acordar com aquele soco diário no estômago, onde a frustração constrói todo um castelo de tijolos pesados. Tijolos que ela pensa não mais conseguir suportar.
Tinha apenas 19 anos, ombros finos e notas musicais sob seus pés.
Dançou e dançou sem parar.
Dançou e esqueceu-se de como se apegar, amar e querer pode ser tão complicado quanto uma equação matemática. Que pode ser tão complicado a ponto do resultado sempre dar zero por não encontrar qualquer outra resposta mais plausível. E que ela sempre seria reprovada quantas vezes fossem necessárias.
Ela dançava e sentia seu corpo planar para longe.
Para longe das mentiras, da dor, da solidão.
Para longe de todos estes sentimentos que ela desprezava sem exceção.
Para longe do fantasma da imperfeição, da vergonha constante, do constrangimento alucinante.
Para uma terra distante. Para um lugar onde só fosse possível viver de música. Onde Tchaikovsky seria seu melhor amigo e comporia uma valsa exclusiva, apenas para seus pés bailarem.
Para um mundo onde a arte era cultivada e venerada por sua beleza e o dom de encantar, não por sua extrema técnica e a perfeição alcançar.
Ela dançava.
Dançava e chorava.
Chorava sem parar.
As lágrimas caíam, mas ela não sentia; não percebia.
Porque seu corpo continuava bailando livremente pelo salão, tocando magicamente cada metro quadrado do chão.
Como largar? Como deixar a música clássica ir embora de sua vida dessa forma? Como largar o seu único sustento remanescente, seu ímpeto fortificante de viver sempre que desejava desfalecer em uma pilha de ossos debaixo da terra? Como deixar sua essência escapulir, fugir, como um monte medíocre de areia escorregando entre os dedos?
Não, isso nunca.
Por favor, não!
Se não havia mais nenhum motivo para abrir os olhos ao amanhecer, a música lhe daria.
Se não havia mais ninguém para dar-lhe um abraço cálido nos momentos desesperadores, a música lhe daria.
Se não havia mais motivos para continuar respirando o ar desta terra tão distinta e estranha à sua alma singular, a música lhe daria.
A música, sempre a música.
E ela jamais, sob qualquer hipótese, sob qualquer circunstância, poderia deixá-la ir embora para viver neste mundo silencioso dos pífios seres humanos.
Era só fechar os olhos.
Era só fechar os olhos e dançar.
E então… Ah!
Então a música estaria lá!

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
Cuera

Últimos posts por Cuera (exibir todos)

1 comment / Add your comment below

Deixe uma resposta