Literatura Para Quê?

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À literatura, bem como às outras formas de arte, não é conferido valores práticos. Entretanto, a necessidade do ser humano pelas instâncias artísticas é constantemente defendida e colocada como essencial. Contudo, sem uma finalidade utilitária, o motivo pelo qual a literatura é concebida como fundamental ao homem pode parecer confuso.
Partiremos do princípio de que o termo “literatura” refere-se ao uso estético da linguagem; da utilização da palavra com finalidade artística. Justamente por se apoiar na língua para a construção de seu significado, a literatura não se prende unicamente à percepção sensorial, como coloca Jouve (2012), e por isso se difere de outras instâncias artísticas. A reflexão por ela provocada apresentará um caráter ruminante. Sendo essa, talvez, a maior força da literatura enquanto arte.
Em consonância, a possibilidade reflexiva da literatura é coloca por Antonio Candido, em 1972, na palestra A literatura e a formação do homem, como essencial para o desenvolvimento humano. Candido defende que, através de três funções principais, a literatura possui caráter humanizador na formação do indivíduo. Sendo concebida “como algo que exprime o homem e depois atua na própria formação do homem” (CANDIDO, 1972, p. 82).
A primeira função, a função psicológica, se relaciona à necessidade humana da ficção e da fantasia. O que é defendido por Candido é a impossibilidade de o Homem viver todos os dias de sua vida sem imaginar, devanear e contemplar a fantasia. A literatura seria, então, uma das modalidades mais ricas de fantasia, que ao se relacionar ao mundo real cria realidades possíveis. Tais realidades, Candido defende, atuam no processo de formação do homem.
Quando, posteriormente, se debruça sobre esse assunto no clássico O direito à literatura, Candido acrescenta que “talvez não haja equilíbrio social sem a literatura”, isso se deve ao fato de que atua do inconsciente para o consciente. “A literatura confirma e nega, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas” (CANDIDO, 1988, p. 24).
Tal função defendida por Candido pode ser associada à ideia de alteridade. O principio da alteridade, como defende o professor Mário Sérgio Cortella (2005), é enxergar o outro como o outro e não como um estranho que nos amedronta e se faz nosso adversário. Nessa perspectiva, a literatura, através da função psicológica, dá meios àquele que a lê, para a compreensão do outro e percepção de que dele faz parte.
A segunda função apresentada por Candido é a função formadora da literatura. A função formadora da literatura, adverte o autor, não se refere ao ideal pedagogizante que percebe a literatura como um meio para repassar ideologias. Mas atenta para o fato de que a literatura não é uma experiência tranquila, forma o ser que a lê porque atua como a própria vida (da qual é reflexo), desestabilizando a realidade com as mais diversas ambivalências. O autor ainda defende que a literatura não corrompe nem edifica, mas faz viver e, assim, humaniza.
Por fim, em razão desse contato com as mais diversas vivências, Candido nos apresenta a terceira função da literatura, a de conhecimento do mundo e do ser. Nessa relação com diferentes realidades, a literatura possibilita ao leitor um novo conhecimento de si e do mundo que o cerca. O que está sendo defendido, em sumo, é que, através da leitura de uma determinada obra, o leitor pode entrar em contato com uma realidade completamente diferente da sua e conhecer facetas sobre sua própria personalidade e humanidade que não conhecia.
Alguns anos depois, ratificando e aprofundando os argumentos levantados em A literatura e formação do homem, em O direito à literatura, Candido permanece em defesa da literatura para o processo formativo do homem e vai além: defende que a literatura é um direito inalienável. Partindo do ponto de vista do sociólogo, e também padre, Louis-Joseph Lebret, que classifica a existência de bens compressíveis e incompressíveis, a literatura seria um direito que não pode ser negado a ninguém. A justificativa do autor para assim classificar a literatura está no fato de que os bens incompressíveis não devem ser apenas aqueles que asseguram a integridade física do ser humano, mas também aqueles que asseguram a integridade espiritual do ser humano.
A literatura, entre outras manifestações artísticas, se configura, então, como “uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza” (CANDIDO, 1988, 35).
Além da função humanizadora da literatura, o direito à literatura também se dá porque, aos indivíduos, deve ser garantido o conhecimento de seu o patrimônio artístico e cultural. Em defesa desse aspecto, em consonância com Candido, Jouve (2012) salienta que o estudo das obras literárias e a discussão acerca delas atualizam as relações entre a obra e o universo cultural de forma sincrônica, pois o texto traz em si os pilares de nossas representações; e diacrônica, pois o texto se configura como uma herança cultural que a transmite e a reavalia. Por essas razões, o texto literário contribui para o desenvolvimento crítico daquele que o lê, bem como sua capacidade de análise e reflexão.
A literatura se apresenta, tal qual outros domínios artísticos, como um direito não constitucionalizado, porém inalienável para a formação do cidadão. Não é sem motivo que, como nos lembra Vieira (2014), nos momentos em que houve, durante o caminhar da história, ideologias que tolhiam o pensamento crítico e visavam uma concepção de pensamento totalitários, a literatura era tida como perigosa e chegou a ser proibida.
Tal proibição se deve ao fato de que a literatura, bem como outras expressões artísticas, concede ao homem os meios para a construção de um mundo possível. Ao visitar esse mundo possível, que só é possível por causa das palavras, através de uma construção estética, o indivíduo pode se colocar no lugar do outro, perceber outras realidades e, a partir do momento em que a ficção e a realidade entram uma no domínio da outra, há o espaço para a reflexão.

A literatura duplica o mundo no sentido mais amplo que essa palavra pode encerrar: a duplicação de homens e mulheres, de ideias, de cidades, de mitos, de deuses, dos sentimentos, dos pecados, das virtudes. Não apenas duplica: duplica ao tempo que promove o discurso, o debate e o contraditório (VIEIRA, 2014, p. 71).

Assim, a arte literária se configura como um bem imprescindível para a sociedade por seu caráter libertário e confrontador. Ferramenta imprescindível para estabelecer uma cultura que olhe para o outro como companheiro, a não garantia do acesso por parte do homem aos bens artísticos seria nociva para uma sociedade saudável.

Fontes:

VIEIRA, Anco Márcio Tenório. A literatura como espaço do discurso, do debate e do contraditório. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 55-76.
VIEIRA, Anco Márcio Tenório. A literatura como espaço do discurso, do debate e do contraditório. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 55-76.
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In:
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 17-40.

01 – Livros

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Eu realmente não lembro qual foi o primeiro livro que li na minha vida. Muitos, muitos passaram pelas minhas mãos desde quando era bem pequena até quando pude obter uma consciência do que era ler e o que isso significava realmente. Mas eu lembro, com certeza, o primeiro livro que me fez amar outros livros: Senhora, de José de Alencar.
Eu lembro como se fosse ontem a primeira vez que toquei neste livro. Eu não estava bem naquele dia. Tinha 13 anos, estava na 8ª série e a vida já estava acontecendo para mim. Naquele dia, minha turma foi obrigada a ver o vídeo “An Inconvenient Truth”, do Al Gore, na sala de vídeo – que também era chamada de Sala de Leitura, porque estudava numa escola pública e era tudo no mesmo lugar – e fiquei sentada numa mesa perto da estante de livros. Os minutos passaram, o vídeo tava me dando nos nervos (tinha muito animal morrendo, a cena dos porquinhos se afogando me traumatiza até hoje, não agüentei olhar), eu já estava de saco cheio daquilo tudo, de todas as pessoas ao meu redor e foi nesse momento que virei a cabeça para o lado para tentar respirar fundo e manter o controle. Foi quando olhei para um livro em particular e vi o nome “Senhora”. O primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi de realmente uma senhora de 80 anos, com um colar de pérolas e fazendo crochê em uma cadeira de balanço (sim, essa era a imagem preconceituosa e ignorante que vinha à minha cabeça cada vez que ouvia a palavra ‘senhora’). Lembro que perguntei-me porque diabos alguém escreveria sobre uma senhora de 80 anos e como aquilo daria um livro (again, perdoem o preconceito estúpido da idade). E foi entupida de curiosidade que tirei o livro da estante. Não exagero quando digo que imediatamente senti uma conexão especial com aquele livro, principalmente quando li a sinopse e vi que se tratava de um casamento arranjado e amor/ódio, que são meus tipos favoritos de histórias.
O tempo da aula acabou, coloquei o livro de volta na estante e fui para casa sem tirar ele da cabeça. No dia seguinte, assim que bateu o sinal do intervalo, eu já estava na sala de leitura com o livro na mão e com o meu nome já anotado no caderninho de empréstimos.
Vocês devem estar se perguntando porque diabos eu estou falando de um livro em particular quando o título desse primeiro pensamento se chama “LIVROS”. A resposta é simples: Senhora foi o primeiro livro que curou a dor do momento.
Eu sempre fui lerda pra ler (ainda sou!), mas li Senhora em 3 dias, se não me engano. O primeiro livro que fiquei enrolando para terminar, pois não queria que aquela história acabasse de jeito nenhum. Como iria me despedir de Aurélia e Fernando dessa forma, quando vivi 3 intensos dias todo o turbilhão de sentimentos, de amores e orgulhos extremamente feridos, dentro de uma única casa? Eu vivia  história desses dois como se estivesse ali, como se eles fossem meus parentes, onde a dor, a frustração, o amor e todos os sentimentos deles também fossem meus.
Quando digo que Senhora foi o primeiro livro que curou a minha dor, não falo num sentido figurado, mas no literal mesmo. A sensação que me arrebatou quando acabei o livro foi tão intensa que, pelo menos por um par de dias ou um pouco mais, eu ainda estava vivendo com Aurélia e Fernando e tudo o que estava vivendo na minha vida naquela época foi meio que guardado em uma caixinha e, por alguns dias, ficou mais fácil respirar.
Eu sempre gostei de ler, desde que aprendi a juntar A com B, mas os livros para mim nada mais eram do que histórias sem noção e divertidas da coleção vaga-lume. Mas Senhora foi o divisor de águas, o que me fez aprender não só a ler como se deve um livro, mas também a vivê-lo intensamente. Nem mesmo Harry Potter, que foi o divisor de águas da minha geração, conseguiu esse efeito sobre mim.
Engraçado como os momentos-chave de nossas vidas acontecem da mesma forma: apenas aquele 1 segundo, 1 objeto, 1 brevíssimo espaço de tempo que muda todo o rumo de nossa história. A moral de todo esse texto é que, se eu não tivesse virado a cabeça naquele momento, olhado para aquele livro em particular e não pensasse porque alguém faria um livro sobre uma pessoa idosa, tudo seria diferente. Eu fui uma pessoa diferente antes e depois de Senhora.
Se eu achava que as coisas estavam melancólicas em 2005 é porque minha mente inocente não fazia ideia do que me esperava nos anos seguintes. Sem entrar em mais detalhes, eu posso dizer com toda a segurança do mundo que os livros (junto com algumas pessoas incomparáveis e especiais), salvaram minha vida.
Se hoje escrevo, é por causa dos livros.
Se as melhores pessoas do mundo hoje fazem parte da minha vida, é por causa dos livros.
Se hoje estou pobre de marré, também é por causa dos livros, porque eu compro uns 5 por mês, mesmo sabendo que nem duas vidas serão o bastante para ler tudo o que eu tenho aqui.
Existem pessoas que dizem que eu não vivo, que só sei ficar agarrada a uma ilusão e que isso não vai me levar a lugar algum. Pessoas que nunca leram um livro, claro, que nunca tiveram a oportunidade de pegar em um “Senhora” da vida e passar a ver o mundo sob uma nova perspectiva. Elas dizem que sou louca, mas loucas são elas, que vivem na entediante e insuportável realidade como se fosse a coisa mais sábia e sadia do mundo.
Quem me conhece pelo menos um pouquinho sabe que meu livro favorito de todos os tempos é A Menina Que Roubava Livros. Este foi outro que mudou a minha percepção sobre certos fatos da vida e, como costuma dizer uma das pessoas mais perfeitas do mundo, depois dele nunca mais vou sorrir. Mas ele só foi importante assim porque foi Senhora quem me ensinou a ler diferente, quem me ensinou a ler com outros olhos. Entendem esse rolo todo que eu falei aqui?
A verdade, a mais pura verdade é  que livros, palavras e histórias, têm o poder de transformar uma vida, de fazer-te olhar o mundo com outros olhos e até mesmo permitir que você seja uma pessoa muito, muito melhor.
Tenho a plena certeza de que quem diz que não gosta de ler é porque ainda não achou um “Senhora”, ou seja, não achou o livro certo.
Eu espero realmente que você encontre um livro assim e possa entender com plenitude cada palavra escrita aqui.