#25 – Um Tal Futebol

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Ninguém avisou a Michel que tanta dor poderia caber em um pequeno corpo. Tinha apenas dez anos de idade, mas já pensava saber tudo o que precisava sobre frustrações e sofrimentos. Se existisse algo além do que ele sentiu naquela noite, depois daquele momento, ele realmente não queria saber.
Tudo começou quando seu pai lhe entregou aquela caixa grande e azul, no dia do seu sexto aniversário. Michel já tinha ouvido falar num tal de futebol, algo bem ao longe, nas conversas de família em datas comemorativas, mas nunca havia se importado muito, sequer tinha visto um jogo inteiro na vida. Mas aí veio seu pai e caixa grande e bonita, que fez seus olhinhos brilharem mesmo sem saber o que havia ali dentro. Michel rasgou o embrulho com sua ansiedade de criança e, quando abriu a caixa, ali estava: um uniforme de time de futebol, um time de sua cidade, Barcelona, que tinha como principal jogador um craque argentino com um sobrenome engraçado. Michel enrugou o nariz , mas preferiu não discutir. Fazia um ano que não morava mais com seu pai e só o via aos fins de semana. Sentia muita falta de sua companhia diária, de vê-lo chegar do trabalho e ir correndo abraçá-lo. Então quando seu pai lhe deu aquele uniforme azul e grená, Michel preferiu fingir que havia adorado, pois temia que ele desaparecesse para sempre caso dissesse que não havia gostado do presente.
Então Michel colocou o uniforme e deixou-se entrar naquela vida. Começou bem de mansinho, vendo uns vídeos na internet sobre o tal craque que o seu pai mostrava com grande animação. Deixou que o pai o matriculasse numa escolinha de futebol e lá descobriu que havia jeito para a coisa. Segundo o técnico, ele tinha um talento inato, se o garoto investisse no ramo, poderia dar um grande jogador no futuro. Michel, que nunca havia sido bom em nada, principalmente na escola, começou a aceitar a ideia. Para aprender mais, começou a freqüentar o Camp Nou com o pai e passou a ver outros jogos, campeonatos de outros países, na TV. Nem sabia dizer em que momento havia começado, qual foi o ponto chave em que seu coração foi completamente amarrado por aquele esporte que até outro dia não significava nada em sua vida. Foi assim mesmo, de repente, um dia era apenas um garoto normal e no outro já estava pulando no sofá – para o desespero de sua mãe.
Os anos se passaram e Michel foi evoluindo como torcedor e jogador. Não falava de outra coisa na escola e nas aulas chatas desenhava na última folha do caderno a camisa 10 de Lionel Messi. Se algum coleguinha fosse comemorar o aniversário no dia e na hora de um jogo, seja de grande importância ou apenas um amistoso, ele já tinha a resposta na ponta da língua: “Não posso, vou ao jogo do Barcelona.”
Tudo era alegria na vida de Michel até que aquele dia chegou.
Barcelona não era um time de derrotas e, se dependesse de Michel, nunca seria. Mas nenhum time depende de seu torcedor, muito pelo contrário! Jogadores vem e vão, diretores existem e então não mais, mas os torcedores sempre são os mesmos. Se times dependessem do amor de seus torcedores, nenhum deles jamais conheceria a derrota.
Era semi-final de Liga dos Campeões e seria sua primeira vez em um estádio de Madri. Seu pai havia juntado o dinheiro para que os dois pudessem viver aquele momento juntos, para que pudessem ver seu time mais uma vez na final do torneio de clubes mais importante do mundo.  Michel ia perder o aniversário da mãe, mas ela o perdoaria, no fim, mães sempre perdoam. Mas Michel não podia deixar de estar naquele jogo, naquele momento, vendo o seu maior ídolo de perto e o time do coração.
O Barcelona ia ganhar, tinha certeza. Era o melhor time do mundo, com o melhor jogador do mundo. Não tinha como dar errado! Michel já se via no estádio da final, faria seu pai comprar os ingressos e as passagens, pois eles precisavam estar lá! Seria uma ótima oportunidade para passar ainda mais tempo com seu pai, de quem sentia tanta, tanta falta!
O jogo começou e Michel já sabia o desfecho.
Mas não sabia de verdade.
O cenário que se desenhou à sua frente não passou pela sua cabeça nem nos seus piores pesadelos. O craque argentino sumiu em campo, ninguém viu ou ouviu, algo raro de se acontecer, mas aconteceu. A defesa, sempre sólida e colecionando minutos sem levar um gol, levou dois. De cabeça. Raro de acontecer, mas aconteceu. O Barcelona foi eliminado e viu o segundo maior time de Madrid pegar a sua vaga na final. Raro de acontecer, mas aconteceu.
Seu pai lhe abraçou e lhe dedicou palavras de consolo, mas Michel não conseguia ouvir. Era como se um chão tivesse aberto sob seus pés e ele estava caindo lentamente em um buraco sem fundo. Ninguém o avisou que entrar nessa coisa louca chamada futebol lhe traria mais tristezas do que alegria. Se tivessem avisado, ele nem teria começado.
Foi para casa em silêncio, derramando algumas lágrimas de tristeza pelo sonho partido. “Tem sempre a próxima partida”, disse seu pai, tentando animá-lo. “A primeira vez é assim mesmo, parece o fim do mundo, parece injusto e é! Caramba, a gente tinha o melhor time! Mas vai passar, filho, prometo que vai passar e logo você estará gritando pelo Barça outra vez!”
“Não vai passar não!”, respondeu o menino emburrado.
Ninguém mais quis discutir o assunto.
Ao chegar em casa, Michel correu para seu quarto e fechou a porta. Aos prantos, guardou seu tão adorado uniforme dentro de uma sacola e prometeu que daria para outra pessoa. Não queria mais saber de futebol, de Barcelona, de Messi, de nada! Queria era voltar para sua vida antiga, sua vida antes de conhecer o futebol, antes de saber como era prazeroso correr atrás de uma bola e marcar um gol. Antes de saber o que era sentir a atmosfera de entrar num estádio, com toda a torcida berrando juras de amor e paixão. Antes de conhecer a glórias de mil vitórias e o peso de uma decisiva derrota. Seus amiguinhos que não gostavam de futebol não precisavam passar por isso e Michel queria ser um deles. A partir de amanhã não veria mais um jogo e nem pegaria no jornal para ver qualquer resultado. Queria distância, queria se afastar desse mundo completamente e nunca mais ver um jogador de futebol na sua frente. Iria se afastar para sempre do futebol e nada, mas nada mesmo o faria voltar atrás!
No dia seguinte, o pai de Michel ligou para saber como ele estava e lhe disse que tinha duas entradas para o próximo jogo do Barça pelo Campeonato Espanhol. Perguntou se o menino não queria se juntar a ele nessa nossa aventura junto ao time do coração e esquecer um pouco da tristeza do dia anterior.
Em dores de futebol, nenhum remédio é mais eficaz do que aquele famoso um dia após o outro.
Com um sorriso no rosto e os olhos esperançosos, Michel nem precisou pensar duas vezes: disse sim.

11 – Futebol: Amor Que Não Se Explica.

amor que não se explica

A primeira Copa do Mundo que acompanhei foi a da França, em 1998. Eu tinha apenas 6 anos de idade. Lembro das ruas sendo enfeitadas e o nervosismo de meus pais nos primeiros jogos, ainda sem muito entender o significado de tudo aquilo. Fiquei chateada com a derrota do Brasil porque meus pais ficaram e tomei nojo da França porque meus pais tomaram.
A segunda Copa do Mundo que acompanhei foi a de 2002, sediada na Coreia do Sul e no Japão. Não lembro de nenhuma partida em especial da época, a não ser a final contra a seleção – até então pra mim desconhecida – da Alemanha. Tudo o que eu sabia sobre a Alemanha era que eles tinham um goleiro que era chamado de “muito feito” por quase todas as pessoas ao meu redor, como se feiura ou beleza realmente fizessem alguma diferença em uma partida de futebol. Eu tinha 10 anos de idade e começava a flertar com este esporte que andava me chamando muita atenção nos campeonatos brasileiros que meu avô via na televisão a todo momento. Fiquei feliz com a vitória do Brasil porque todos ao meu redor ficaram. Novamente, eu não entendia a importância de tudo aquilo.
A terceira Copa do Mundo que acompanhei foi a de 2006. Eu tinha 14 anos de idade. E um pouco antes dessa Copa, conheci alguém que iria mudar tudo, de diversas formas, na minha vida.
Flávia era uma garota cheia de personalidade e que não se importava com que os outros achavam dela. Dentre as 1001 coisas que a destacavam entre as pessoas, ela me disse um dia, em uma de nossas inúmeras conversas sobre futebol, que torcia pela Alemanha. “Como alguém pode torcer por alguma seleção de outro país?”, pensei naquele momento. Mesmo verbalizando a pergunta, ela não me deu qualquer resposta que fizesse sentido, mas mandou que eu visse uma partida da Alemanha e prestasse atenção num tal de Michael Ballack. Além de ser o melhor jogador do time, ele era o mais bonito também (palavras dela!). Fiz o que minha amiga me pediu e vi um jogo da Alemanha antes que começasse a tão esperada Copa daquele ano. Prestei muita atenção no tal Michael Ballack, mas meus olhos também acharam um tal de Lukas Podolski, e foi amor à primeira vista. A Alemanha tinha um jeito diferente de jogar, uma força, um empenho diferente, um estilo singular que nunca antes tinha visto em qualquer outra seleção. Poucos dias antes de começar a Copa que, coincidentemente – ou não – seria na Alemanha, falei para Flávia o quanto tinha gostado daquele time e que iria torcer para eles, caso o Brasil fosse eliminado.
Acho que não preciso relembrar o quão apático o Brasil estava em quase todos os jogos. O descaso em campo e o churrasco realizado na casa do Ronaldinho Gaúcho após de, mais uma vez, a seleção ter sido eliminada pela França, me fizeram pegar birra pela Seleção Brasileira. Como prometido, após a queda vergonhosa do Brasil, passei a torcer pela Alemanha. Infelizmente a seleção foi eliminada na semi-final pela Itália e eu só me lembro do choro da torcida na arquibancada e as lágrimas rolando pelo rosto do Ballack em campo. Naquele dia, aconteceu comigo algo que nunca antes havia acontecido em uma Copa do Mundo: eu havia sentido algo, não porque minha família e amigos sentiram, mas porque eu havia sentido. Desde aquele dia, eu passei a ver todos os jogos da Alemanha que consegui, mesmo que isso significasse negligenciar qualquer dever que me impedisse de sentar frente à televisão. Minha amiga singular e cheia de personalidade veio a falecer um ano e meio depois. Mas deixou comigo esse amor e essa torcida que eu não consigo explicar com palavras. Minha birra para com o Brasil passou (mais ou menos), mas meus sentimentos por essa seleção estrangeira, não.
Muitos hoje me fazem a mesma pergunta (com direito à nariz enrugado e olhares tortos) que eu fiz para minha amiga anos atrás: “Como você pode torcer por uma seleção de outro país que não o seu?”. E, assim como ela, eu não tenho qualquer resposta plausível para dar.
Futebol é mesmo um bando de homem correndo atrás de uma bola, se você quiser enxergar através da razão. Assim como Tênis são duas pessoas batendo bolinha por um tempo interminável sobre uma pequena rede, assim como Basquete é bater uma bola grande no chão até arremessá-la numa cesta. Mas o esporte é puro sentimento, é puro coração, ele salva vidas. Quem possui uma visão mais limitada acerca de esportes, seja ele qual for, nunca vai entender qual é a emoção de torcer para alguém em especial ou para um time. Como a alegria daquela pessoa, daquelas pessoas, de alguma forma mágica, se torna a sua, não importa em que parte do mundo você esteja.
O futebol não é o esporte mais popular do mundo à toa. À princípio pode parecer estranho e sem sentido, mas a partir do momento em que você começa a entendê-lo e se identifica com um grupo, com um time, é impossível não se deleitar (e sofrer também!) com este jogo tão sensacional e arrebatador. E não tem, não tem mesmo explicação. Por mais que um intelectual faça todo um estudo crítico e minucioso acerca do esporte, ele nunca vai conseguir capturar tudo o que este representa. Se fosse algo lógico, assim como 2+2 dá 4, não existiriam pais Flamenguistas com um filho Vascaíno ou pais com filhos Atleticanos e Cruzeirenses. Todos estes foram criados na mesma casa, com as mesmas regras, com a mesma educação e, assim como tudo na vida, têm opções diferentes, têm sensações diferentes. Talvez essa seja a resposta que mais chegue perto da pergunta “Como você pode torcer para uma seleção de outro país que não o seu?”, porém ainda não abarca todo o sentimento que eu e, acredito que muitas pessoas, possuem dentro de si.
Amor, sob qualquer forma, realmente não se explica. Por isso, nesta Copa do Mundo, torça para quem quiser, para a seleção que faça você realmente sentir alguma coisa por você mesmo, um sentimento do qual nunca conseguirá explicar exatamente o que é e de como surgiu. Essa é toda a magia do futebol, essa é a graça da coisa.
Que todos possamos torcer para nossas seleções do coração, sem julgarmos, criticarmos ou brigarmos com o outro, só por termos opiniões e sentimentos diferentes. Esse é o verdadeiro espírito e finalidade do esporte.
E que vença o melhor!