Sejamos Todos Feministas – O Livro Que Toda Pessoa Deveria Ler

hibisco-roxo

“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.”

“Sejamos Todos Feministas”, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é um ensaio derivado de uma palestra que a escritora ofereceu em uma conferência Ted em dezembro de 2012. Chimamanda foi aplaudida de pé e a palestra fez tanto sucesso que a autora reescreveu alguns trechos e lançou uma nova versão em livro.
No ensaio, a autora aborda o tema da desigualdade de gêneros e nos mostra alguns exemplos que ela, amigas e conhecidas (com as quais todas as mulheres seguramente vão se identificar!) sofreram por causa do machismo que povoa quase todas as culturas desde o início dos tempos. Chimamanda também conta casos de amigos homens que, apesar de serem boas pessoas, também mantinham atitudes e pensamentos machistas e excludentes, devido a uma educação que ensina, tanto aos meninos quanto às meninas, que os homens devem escolher e mandar e as mulheres apenas obedecer. Esse tipo de educação não pode mais ser perpetuada nos dias de hoje.
“Precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente”, diz a autora em um dos trechos do livro. Não podemos querer que o conceito de uma sociedade mude se continuamos a educar as nossas crianças da mesma forma com que nossos pais nos criaram. Se ninguém diz a uma menina que ela não deve se sentir inferior por causa de seu gênero ou se ninguém explica a um menino que uma garota tem os mesmos direitos e poderes que ele, não podemos esperar que eles se tornem adultos bem resolvidos e realizados.
“Sejamos Todos Feministas” é uma introdução do que é realmente o pensamento feminista. É um livro que pode e deve ser livro por qualquer pessoa, de qualquer idade, quer você se sinta homem ou se sinta mulher, quer você seja quem seja. O livro possui apenas 63 páginas de linguagem fácil e clara, seus olhos não irão ficar cansados e seu cérebro irá agradecer por poder absorver grandiosas informações.
O livro é apenas um ensaio pequeno e por isso não entra em questões mais profundas, que devemos procurar futuramente para nos inteirarmos mais sobre o assunto. Mas é uma enriquecedora introdução, principalmente para aqueles que ainda possuem ideias tão tortas e desinformadas sobre o que é o feminismo.
O feminismo não é o contrário do machismo, não é pregar uma troca de papéis onde as mulheres devem mandar e controlar o mundo enquanto os homens apenas precisam obedecer. Feminismo é libertar-se da ideia de que somos um gênero mais fraco, menor e incapaz de fazer e realizar as mesmas coisas. É ouvir o outro lado, é se interessar e admirar as diferenças entre os sexos e respeitar-nos acima de tudo como iguais. Somos todos seres humanos e queremos um mundo melhor para nossos descendentes. Comecemos por dar o exemplo.
O livro físico não custa mais do que quinze reais e a cópia digital grátis pode ser encontrada na Amazon.
Leia o livro, absorva as palavras, reflita e então permita que este pequeno livro chegue às mãos do maior número de pessoas possível. Espalhar palavras e ideias que abram a cabeça das pessoas é nosso dever como individuo em uma sociedade. Se queremos mesmo um mundo melhor, façamos por onde.
Parafraseando Mário Quintana, livros são capazes de mudar pessoas e pessoas são capazes de mudar o mundo. Acredito que “Sejamos Todos Feministas” seja um destes livros.

15 – Precisamos Falar Sobre Muitas Coisas, Mas Será Que Estamos Nos Ouvindo?

Conversation Pop Art

É comum vermos o termo “precisamos falar sobre” pelas redes sociais quando alguém faz um texto querendo explorar um determinado assunto polêmico para elucidar o público quanto à sua importância. Feminismo, homossexualismo, racismo, xenofobia e intolerância religiosa estão entre os temas mais discutidos e, como sempre, são temas que causam bastante discussão e seria muito saudável ter uma discussão diária sobre todas essas coisas se ao menos conseguíssemos, de verdade, falar sobre isso. O problema é que o assunto quase nunca é só falado. Ele é brigado, é berrado, se torna agressão e até uma Terceira Guerra Mundial, principalmente no Facebook. Então, do que estamos mesmo falando?
São tempos difíceis, tensos, não só para o Brasil, mas também para o mundo. As pessoas parecem estar sempre à flor da pele e prontas para fazer o Michael Douglas no aclamado “Um Dia De Fúria”. É muito mais fácil agredir alguém e perguntar depois do que praticarmos a paciência e “corrigir” algum pensamento equivocado com explicações e não xingamentos.
A humanidade está passando por uma transformação importantíssima, as sociedades estão evoluindo ao reparar os próprios erros e tentar corrigi-los através do progresso. Não é mais aceitável diminuir alguém por causa da cor da pele, pelo sexo, pela religião, pelo lugar onde nasceu etc. e cada vez mais as pessoas estão tomando consciência disso (ainda tem muita gente sem noção e preconceituosa, mas eu prefiro acreditar que a maioria está tentando melhorar e fazer deste lugar um mundo melhor). Mas nenhuma transformação ocorre de um dia para o outro. Mudar a cabeça e fazer seres humanos entenderem que precisam se respeitar acima de tudo é algo muito complicado, leva tempo e requer paciência. E estamos todos suscetíveis ao erro, sejam estes pequenos ou grandes.
Textos bem intencionados que procuram divulgar a ideia de igualdade viram discussões agressivas porque o autor empregou uma palavra ou usou um termo que não se deve usar mais. Às vezes a culpa não é nem da palavra mal empregada e sim um erro de interpretação de um leitor, que leva outros leitores preguiçosos a interpretarem com a cabeça deste primeiro leitor, e todo mundo sai partindo para uma batalha que ninguém sabe de onde saiu em primeiro lugar. No fim, todos saem agredidos e feridos e o protagonista da história, que era a causa a ser defendida, fica em segundo, terceiro ou em nenhum plano.
Precisamos falar sobre muitas coisas, todos os dias para evoluirmos, mas não estamos nos entendendo. E o mais curioso é que não estou falando de pessoas com ideias opostas, o clássico coxinhas x petralhas. Estou me referindo a pessoas que defendem a mesma causa e ainda assim conseguem arranjar um motivo para se odiarem e organizarem um motim na internet uma contra a outra. Qual é o sentido disso tudo?
É preciso entender que errar faz parte da transformação, do esclarecimento. Se aquele autor fez um texto com o intuito de falar sobre a importância de ver um ser humano além da raça e empregou aquela palavrinha errada que é uma reprodução que ele ouviu dos avós, cabe a você chegar e dizer: “Fulano, essa palavra está mal empregada por isso, isso e isso, não faz mais parte do contexto hoje em dia. Abraços!” e não sair escrevendo em caps lock que o cara é um racista enrustido. Se uma amiga sua que luta pela causa feminista acabou reproduzindo uma frase machista sem se dar conta, cabe a você explicar porque ela não deve mais usar aquele termo e porque esta frase não cabe dentro da luta feminista. E não chamá-la de machista (isso é o que mais vejo em discussões feministas!) ou falsa porque ela simplesmente se equivocou.
A verdade é que ainda reproduzimos muito do que nos foi dito ao longo da vida por uma sociedade que oprimia as minorias desde o nascimento do primeiro ser humano. Não pensamos em cada palavra que sai de nossa boca (mas devemos!) e às vezes não nos damos conta que aquilo é errado. Dê uma chance, pelo menos uma chance, de uma pessoa se equivocar antes de xingá-la de tudo quanto é nome e criar um mal estar em uma rede social ou até mesmo pessoalmente que pode deixar cicatrizes para a vida inteira. Devemos acabar com este mundo de guerras, dentro e fora das redes sociais, e não contribuir para a criação de mais uma.
Com a liberdade de expressão que a internet deu para as pessoas da nossa geração, queremos e precisamos falar sobre muitas coisas. Entretanto, é importantíssimo e urgente refletir o quanto, de verdade, estamos ouvindo uns aos outros.

Literatura Para Quê?

MACLHomepageImage

À literatura, bem como às outras formas de arte, não é conferido valores práticos. Entretanto, a necessidade do ser humano pelas instâncias artísticas é constantemente defendida e colocada como essencial. Contudo, sem uma finalidade utilitária, o motivo pelo qual a literatura é concebida como fundamental ao homem pode parecer confuso.
Partiremos do princípio de que o termo “literatura” refere-se ao uso estético da linguagem; da utilização da palavra com finalidade artística. Justamente por se apoiar na língua para a construção de seu significado, a literatura não se prende unicamente à percepção sensorial, como coloca Jouve (2012), e por isso se difere de outras instâncias artísticas. A reflexão por ela provocada apresentará um caráter ruminante. Sendo essa, talvez, a maior força da literatura enquanto arte.
Em consonância, a possibilidade reflexiva da literatura é coloca por Antonio Candido, em 1972, na palestra A literatura e a formação do homem, como essencial para o desenvolvimento humano. Candido defende que, através de três funções principais, a literatura possui caráter humanizador na formação do indivíduo. Sendo concebida “como algo que exprime o homem e depois atua na própria formação do homem” (CANDIDO, 1972, p. 82).
A primeira função, a função psicológica, se relaciona à necessidade humana da ficção e da fantasia. O que é defendido por Candido é a impossibilidade de o Homem viver todos os dias de sua vida sem imaginar, devanear e contemplar a fantasia. A literatura seria, então, uma das modalidades mais ricas de fantasia, que ao se relacionar ao mundo real cria realidades possíveis. Tais realidades, Candido defende, atuam no processo de formação do homem.
Quando, posteriormente, se debruça sobre esse assunto no clássico O direito à literatura, Candido acrescenta que “talvez não haja equilíbrio social sem a literatura”, isso se deve ao fato de que atua do inconsciente para o consciente. “A literatura confirma e nega, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas” (CANDIDO, 1988, p. 24).
Tal função defendida por Candido pode ser associada à ideia de alteridade. O principio da alteridade, como defende o professor Mário Sérgio Cortella (2005), é enxergar o outro como o outro e não como um estranho que nos amedronta e se faz nosso adversário. Nessa perspectiva, a literatura, através da função psicológica, dá meios àquele que a lê, para a compreensão do outro e percepção de que dele faz parte.
A segunda função apresentada por Candido é a função formadora da literatura. A função formadora da literatura, adverte o autor, não se refere ao ideal pedagogizante que percebe a literatura como um meio para repassar ideologias. Mas atenta para o fato de que a literatura não é uma experiência tranquila, forma o ser que a lê porque atua como a própria vida (da qual é reflexo), desestabilizando a realidade com as mais diversas ambivalências. O autor ainda defende que a literatura não corrompe nem edifica, mas faz viver e, assim, humaniza.
Por fim, em razão desse contato com as mais diversas vivências, Candido nos apresenta a terceira função da literatura, a de conhecimento do mundo e do ser. Nessa relação com diferentes realidades, a literatura possibilita ao leitor um novo conhecimento de si e do mundo que o cerca. O que está sendo defendido, em sumo, é que, através da leitura de uma determinada obra, o leitor pode entrar em contato com uma realidade completamente diferente da sua e conhecer facetas sobre sua própria personalidade e humanidade que não conhecia.
Alguns anos depois, ratificando e aprofundando os argumentos levantados em A literatura e formação do homem, em O direito à literatura, Candido permanece em defesa da literatura para o processo formativo do homem e vai além: defende que a literatura é um direito inalienável. Partindo do ponto de vista do sociólogo, e também padre, Louis-Joseph Lebret, que classifica a existência de bens compressíveis e incompressíveis, a literatura seria um direito que não pode ser negado a ninguém. A justificativa do autor para assim classificar a literatura está no fato de que os bens incompressíveis não devem ser apenas aqueles que asseguram a integridade física do ser humano, mas também aqueles que asseguram a integridade espiritual do ser humano.
A literatura, entre outras manifestações artísticas, se configura, então, como “uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza” (CANDIDO, 1988, 35).
Além da função humanizadora da literatura, o direito à literatura também se dá porque, aos indivíduos, deve ser garantido o conhecimento de seu o patrimônio artístico e cultural. Em defesa desse aspecto, em consonância com Candido, Jouve (2012) salienta que o estudo das obras literárias e a discussão acerca delas atualizam as relações entre a obra e o universo cultural de forma sincrônica, pois o texto traz em si os pilares de nossas representações; e diacrônica, pois o texto se configura como uma herança cultural que a transmite e a reavalia. Por essas razões, o texto literário contribui para o desenvolvimento crítico daquele que o lê, bem como sua capacidade de análise e reflexão.
A literatura se apresenta, tal qual outros domínios artísticos, como um direito não constitucionalizado, porém inalienável para a formação do cidadão. Não é sem motivo que, como nos lembra Vieira (2014), nos momentos em que houve, durante o caminhar da história, ideologias que tolhiam o pensamento crítico e visavam uma concepção de pensamento totalitários, a literatura era tida como perigosa e chegou a ser proibida.
Tal proibição se deve ao fato de que a literatura, bem como outras expressões artísticas, concede ao homem os meios para a construção de um mundo possível. Ao visitar esse mundo possível, que só é possível por causa das palavras, através de uma construção estética, o indivíduo pode se colocar no lugar do outro, perceber outras realidades e, a partir do momento em que a ficção e a realidade entram uma no domínio da outra, há o espaço para a reflexão.

A literatura duplica o mundo no sentido mais amplo que essa palavra pode encerrar: a duplicação de homens e mulheres, de ideias, de cidades, de mitos, de deuses, dos sentimentos, dos pecados, das virtudes. Não apenas duplica: duplica ao tempo que promove o discurso, o debate e o contraditório (VIEIRA, 2014, p. 71).

Assim, a arte literária se configura como um bem imprescindível para a sociedade por seu caráter libertário e confrontador. Ferramenta imprescindível para estabelecer uma cultura que olhe para o outro como companheiro, a não garantia do acesso por parte do homem aos bens artísticos seria nociva para uma sociedade saudável.

Fontes:

VIEIRA, Anco Márcio Tenório. A literatura como espaço do discurso, do debate e do contraditório. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 55-76.
VIEIRA, Anco Márcio Tenório. A literatura como espaço do discurso, do debate e do contraditório. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 55-76.
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In:
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: LIMA, Aldo de. (org.). O direito à literatura. 2ª Ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2014. p. 17-40.