#26 – Catarina E A Noite

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Catarina se esconde da noite.
Quando o sol se põe atrás do morro de sua humilde casa, ela corre pelos corredores acendendo todos os interruptores que encontra pela frente.
“É para evitar que o dia acabe”, diz Catarina com os olhos arregalados.
Catarina tem vinte anos de idade e muita memória na cabeça. Suas irmãs já não sabem o que fazer, os vizinhos olham desconfiados quando passam por ela, julgam-lhe anormal. Catarina não tem nada de anormal, assim como não tem nada de pais ou de amigos. Tem apenas um ursinho de pelúcia que carrega sempre consigo.
Janaína e Mara, as irmãs, já tentaram arranjar-lhe um marido, mas que homem quer disputar a atenção com um bichinho de pelúcia? Quer pessoa quer cuidar de alguém que ficou parada no tempo?
Ah, o tempo! Vamos falar sobre o tempo!
Vamos falar sobre aquela data, sobre aquela noite, quinze anos atrás.
“Vamos, vamos falar”, diz Catarina, mas ninguém quer ouvir. Melhor é ignorar, deixar que o silêncio leve as pegadas das palavras que ainda restam ser ditas.
Catarina fala sobre a sombra em seu quarto, sobre o medo chegando, sobre a dor, muita, muita, muita dor! Janaína sai da sala, Mara sacode a menina esperando que suas memórias chacoalhem tanto até virar areia. Areia que pode ser varrida para fora de casa e se perder com o sopro do vento.
Ninguém aguenta mais Catarina e suas memórias.
Ninguém aguenta mais Catarina… Nem Catarina!

Catarina se esconde da noite.
Luzes, lanternas, abajures, tudo está aceso, só para prevenir. Mas… e se não der pra prevenir? E se não der para evitar como não evitou quinze anos atrás?
Catarina mantém os olhos abertos.
Pode acabar a luz, pode ficar escuro, pode sim, tudo pode acontecer, a qualquer momento tudo pode acontecer!
A menina mantém os olhos abertos, põe o seu ursinho de pelúcia como sentinela e espera…. espera… espera…
Faltam 8 horas para o sol nascer, por volta de 5:15 da manhã, já até sabe a hora certinha, Catarina sempre sabe… Catarina sempre sabe, sempre soube, mas finge não saber. É sempre mais fácil, mais suportável não saber…
Faltam 8 horas, falta muito, ah, como falta!
Mas ela iria esperar, como todos os dias, iria esperar, de olhos abertos e luzes acesas.
Uma hora o sol vai nascer, pode demorar, mas uma hora ele aparece lá de trás do morro. Uma hora a luz toca a janela de seu quarto, marca suas pegadas pelo chão e abraça Catarina com uma segurança materna.
Catarina ainda vive, só vive, porque o sol uma hora aparece…
E a boa notícia, ah, Catarina!
A boa notícia é que ele sempre aparece…

#24 – A História De Martha

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Grades de ferro matavam a liberdade de Martha.
Estava presa há tanto tempo que nem se lembrava como havia parado ali pela primeira vez. Talvez estivesse presa desde criança, não sabia ao certo. Não tinha memória e nem história, era apenas Martha, a mulher presa atrás das grades.
A prisão de Martha não era uma prisão qualquer. Todas as paredes eram grades e, desta forma, Martha podia ver tudo o que acontecia ao seu redor. Ela via o céu, os campos verdes, os animais e as pessoas que por ali passavam. Martha via as pessoas, mas as pessoas não viam Martha. Ela e sua prisão eram como as árvores do local: já faziam parte da paisagem. Gritava por ajuda, para que alguém viesse abrir a porta de sua prisão, mas ninguém escutava. E Martha chorava, chorava e chorava pela sua má sorte, pelo destino que alguém em algum lugar havia reservado para si.
Martha não tinha sobrenome, nem parente, Martha era um acidente da vida, alguém que havia surgido naquele lugar e que ali deveria ficar. Ela tentou aceitar este fato, tentou se convencer de que talvez havia nascido mesmo para ser árvore, e que seu papel no mundo era apenas existir até que alguém a enxergasse e viesse abrir sua porta. Ela tentou bastante, mas a vontade de ser mais do que árvore era latente demais e impossível de ser ignorada. Martha gritava, chorava e esperneava para que algum chave caísse do céu ou que algum vendaval viesse para arrancar as grades do chão e libertá-la desta existência inerte. Mas só a chuva caía do céu para Martha e o máximo que a força do vento naquele local conseguia era despentear seus cabelos escuros.
Então, se rendeu. Desistiu de lutar e de se jogar contra as grades. Deixou seu corpo escorregar pela porta de sua prisão e, sem querer, seu cotovelo esbarrou na maçaneta da porta e esta, de repente e sem qualquer maior esforço, se abriu. Martha caiu de costas sobre a grama e pela primeira vez na vida viu o sol sob outro ângulo. Levantou-se rapidamente, tirou a terra do corpo e checou com assombro que a porta nunca havia estado trancada.  Não era preciso nenhuma chave mágica ou um monstruoso vendaval. No fim das contas, o segredo para sua liberdade não era nada mais do que girar a maçaneta.
Martha saiu correndo em direção ao mundo que estava à sua frente. Não sabia para onde ia, mas estava indo. Não era mais a Martha entre grades, a prisioneira de seu destino ou a desafortunada pela vida. Era Martha livre, era Martha liberdade.
Sua história começa agora.

#23 – Dona Adélia

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Dona Adélia tinha 65 anos e morava num modesto prédio na rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Até onde se sabia era sozinha, pois por ali nunca se havia visto parentes ou amigos. As únicas pessoas que iam até o lar de Dona Adélia eram os entregadores de comida, que entravam com uma cara e saíam com outra.
Dona Adélia tentou ter um gato, mas ele desapareceu no segundo dia. Tentou ter um sabiá, mas o danadinho arranjou um jeito de fugir da gaiola em menos de uma semana e nunca mais voltou.
Outra coisa que se conhecia sobre Dona Adélia era sua antipatia feroz. Ela não só não  cumprimentava os outros moradores quando se cruzavam pelo corredor do prédio, como também parecia odiar que lhe dirigisse qualquer cumprimento. Fazia questão de olhar na cara das pessoas e enrugar o nariz, como se todos à sua volta fedessem. Era o terror nas reuniões de condomínio, pois, apesar da ótima administração do prédio, onde o síndico resolvia tudo o mais rápido possível, Dona Adélia reclamava e como reclamava! Reclamava que as cartas não eram colocadas corretamente em seu escaninho, reclamava dos latidos dos cachorros, dos choros dos bebês, do produto – que só ela achava – fedorento com o qual as meninas da limpeza desinfetavam os corredores e uma vez até arranjou um caso porque – pasmem só! – a senhora Adriana do 307 desceu no elevador amamentando sua menina de 3 meses.
A cada fim de ano Dona Adélia só colocava 10 centavos na caixinha de Natal dos funcionários do prédio porque, como disse para seu vizinho de uma porta uma vez, não gostava de fomentar a preguiça entre os subordinados. “Pois esse povo é assim”, dizia ela sem notar a cara de enfado do vizinho, “você dá um dinheirinho a mais e daqui a pouco tão pensando que estão acima de você!”
Ninguém tinha a menor paciência com Dona Adélia, nem mesmo as crianças mais carinhosas. Mas a maior vítima de seus ataques histéricos era Orlandinho, o porteiro negro que frequentemente ouvia reclamações e comentários maldosos em relação à sua cor de pele. Dona Adélia já havia recebido duas cartas de notificação por seu comportamento racista para com o porteiro, que era adorado por todos os moradores do prédio, mas ela nunca perdia a oportunidade de abrir a boca para falar mais besteiras cada vez que passava pela portaria.
Até que aconteceu um caso curioso, que Dona Adélia nunca conseguiu desvendar, por mais que pensasse sobre isso no futuro.
Estava saindo, como de costume, numa manhã de domingo – pois era uma pessoa de bem que nunca faltava à missa aos domingos – e acabou ficando presa no elevador entre o terceiro e o segundo andar. A velha senhora apertou o alarme, mas ninguém veio. Bateu com força na porta e berrou pedindo ajuda, mas ninguém respondeu. Tentou ligar para o síndico, mas o celular estava fora de área. Esperou por alguns minutos ouvir qualquer voz, mas não havia nada. Parecia não existir nenhuma alma viva naquele dia para vir ao socorro de Dona Adélia, que precisou sentar no chão para que suas pernas parassem de doer de tanto esperar.
Ficou quase uma hora presa até que o porteiro finalmente veio ao seu socorro e conseguiu abrir a porta. Esbravejando para todos os lados, Dona Adélia perguntou ao rapaz como era possível que, num prédio com mais de 100 moradores e em um domingo de manhã, onde a maioria das pessoas estava em casa, ninguém tivesse ouvido seus gritos por socorro.
Segurando o riso, Orlandinho apenas deu de ombros e disse que não tinha a menor ideia.

#22 – O Milagre

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Luane não acreditava em milagres, mas vivia pedindo uma vida a Deus.
Não que estivesse morta ou perto de bater as botas – muito pelo contrário, estava gozando de uma ótima saúde! – mas Luane sentia falta de sentir uma vida dentro de sua vida.
Era assim desde criança ou talvez até antes. Acreditava ter vindo ao mundo com um defeito de nascença. Não tinha apreço por muitas coisas ou não conseguia sentir algo pulsando dentro dela. Enquanto seus coleguinhas de escola se comparavam a bichos, personalidades ou jogadores de futebol, Luane se via como um recipiente vazio. Os professores não lhe davam muita atenção, seus pais – olha só! – até esqueciam de que tinha uma filha em casa, e amigos circulavam pelo seu quarto através dos anos, mas nunca nenhum deles parou por muito tempo ali. Luane não sabia como ser pessoa e, mesmo já tendo completado duas décadas de vida, ainda não aprendera a sê-lo.
Então pedia, mesmo que não acreditasse, mesmo que Deus fosse tão real para ela como uma Fênix dos livros mitológicos, ela pedia. “Só quero ver vida”, repetia todas as noites, exaustivamente, numa prece que durava menos do que dez segundos. Mas os dias passavam, os meses se arrastavam e nenhuma vida parecia acordar dentro dela.
Luane continuou seguindo em frente com sua vida sem vida, arranjou um emprego, fez mais alguns amigos que sabia que não ia durar, ligou para familiares nas datas comemorativas e continuou a ignorar o vazio dentro de si enquanto esperava o seu pequeno milagre.
“Milagres demoram a acontecer”, disse-lhe um amigo bastante religioso um dia, e era verdade, Luane não acreditava em muitas coisas, mas acreditava nisso. Se fosse fácil, se fosse só pedir um potinho de tesouro e – paft! – ele aparecesse na sua frente e resolvesse todos os seus problemas até que você conseguisse o seu final feliz antes dos 30, pra que habitar este mundo, não é mesmo?
Foi de súbito, assim de repente, enquanto lavava a louça, que Luane se deu conta de que talvez aqueles que viviam uma vida sem vida eram os que tinham um potinho de ouro nas mãos quando e onde desejassem. Esse pensamento, essa nova forma de olhar para o mundo começou a arrancar-lhe sorrisos e Luane até arriscou-se a fazer algumas piadas para os seus novos amigos. Luane resolveu largar essa ideia de milagres pra cá e vida pra lá e decidiu viver pela busca. Busca de quê, de quem, de que lugar, isso não importava. Mas deu-se conta de que existir era movimentar-se e enquanto não parasse de buscar, de uma maneira ou de outra, ela ficaria bem.
E foi numa manhã de abril que Luane  encontrou o milagre que tanto desejara! Passou tanto tempo imersa em si mesma que só naquele dia foi reparar num ninho de sabiá feito no vão embaixo do parapeito de sua janela. Ela chegou bem na hora do nascimento, quando pequenas cabecinhas quebravam a casca do ovo e gritavam ao ver o mundo pela primeira vez.
Com lágrimas nos olhos, Luane correu para pegar sua câmera fotográfica para registrar aquele momento. Tirou várias fotos, de diversos ângulos e ia guardá-las num lugar especial para lembrá-la no futuro, quando as coisas ficassem difíceis e o vazio se tornasse insuportável, que preces de dez segundos também são atendidas e pequenos milagres sempre acontecem à nossa volta.

#21 – Laila E A Primavera

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É dito que a primavera vem vindo e Laila sai correndo pela grama.
Pequena moça de cabelos cacheados, loiros, até a cintura, Laila sorri para o vento fresco com seu vestido branco, tão branco quanto lírios que tanto idolatra!
É dito que a primavera vem vindo e Laila acredita. Não tem noção de muita coisa, mas sabe quando o vento toca a sua pele de forma diferente, quando o ar gélido já não lhe oprime os pulmões e quando a esperança torna a brilhar em seus olhos castanhos.
“É primavera!” – grita a menina com a voz jovem de seus dezoito anos de idade. “É primavera, olhem! A felicidade está voltando!”
Laila é seguida por suas cuidadoras, por moças dez anos mais velhas que ela e que sempre estão ao seu lado. Até hoje não sabe, não entende porque estão ali, porque cismam em lhe seguir, mas não importa, não importa nem um pouco! “É primavera!”, segue berrando, enquanto rodopia com as borboletas multicoloridas ao seu redor.
É dito que a primavera vem vindo e que ele está voltando! Laila senta-se sobre a grama, descansa de seus rodopios e olha o delicado relógio em seu pulso. Falta muito para o meio dia e ela nem sabe ao certo porque está esperando o meio dia! Ele não disse hora, não precisou muita coisa, só fez promessas, disse que pediria sua mão ao seu pai, como toda dama merecia, e Laila acreditava que ali ele estaria, depois do meio dia. É verdade, ele viria, com seu terno marrom, o cabelo engomado, aquele porte de lorde inglês, coluna ereta e voz grave. Laila também nuca havia visto um lorde inglês, raramente saía de casa depois de seus quinze anos completos, mas imaginava que ele parecesse um.
É dito que a primavera vem vindo e Laila gargalha de felicidade junto ao canto dos pássaros que vieram cantar com a menina uma canção de alegria e amor! Primavera significa muitas coisas, significa botões dando flor, o fim de um inverno gelado e sombrio, o renascimento do sol por detrás da colina e o regresso dele, o pedido de casamento e seu final feliz! É primavera, finalmente primavera, e como Laila amava a estação dos frutos, a estação das flores!
É dito que a primavera vem vindo e ali estava ele, finalmente! “Olhem, olhem, ele voltou!” – berrava a menina aos saltos, apontando para detrás dos portões de ferro que protegiam o terreno da enorme propriedade de seu pai. “Ali está, ali vem ele, meu amor, meu amor voltou!”. Não era ainda meio dia, pensou Laila, nem sabia que horas eram, não tinha noção de muita coisa, nunca teve e isso nunca importou. Só importava seu amado e seu amor; o resto do mundo ao resto deveria ficar.
A felicidade fez flores brotarem em seu peito, flores brancas, lírios, os mais belos lírios que os olhos de Laila haviam visto!
É dito que a primavera vem vindo e ela veio, ela chegou! “Vamos, abram os portões! Abram os portões, ele chegou! Ele chegou!”
A menina continuava a rir com os pássaros, a rodopiar com as borboletas e a colher lírios de seu peito. Ele lhe sorria por detrás do portão e acenava, ele estava ali e era chegado o momento! Ele pediria a sua mão e Laila, pequena Laila teria seu tão esperado final feliz!

É dito que a primavera vem vindo mas ela não chega, ela nunca chega para o mundo fora de Laila.
Suas cuidadoras se entreolham, tristes, esperando que sua euforia acabe, que um dia tudo isso acabe, em algum momento dos anos, em algum espaço do tempo, como que por um milagre.
Suas cuidadoras esperam, como sempre esperam, os lírios destroçados caírem do peito de Laila para então se levantarem, colherem suas pétalas e regressar com a menina à casa, num ciclo que não termina e não tem previsão de terminar.
Laila sorri, canta e rodopia para o vento, apenas para o vento, que passa e passa invisível do outro lado do portão.

Ideia De Nobel.

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“Foi um sonho bem real”, pensou Joaquim Ferreira. Foi muito real, tão real que ainda podia senti-lo em sua pele, mesmo horas depois de acordado. Sonhou que estava lá em Estocolmo, recebendo o Nobel de Literatura, sendo aclamado pelos maiores pensadores e intelectuais do mundo.
Joaquim não tinha nenhum livro publicado, aliás, Joaquim não tinha nenhum livro escrito. Todo o seu acervo literário era resumido em um caderno de poemas que levava consigo desde os quinze anos de idade e ainda não completara. Rabiscos, frases e pensamentos que algum dia, quem sabe, se transformariam em livro.
Mas ele sonhou com o Nobel, não, ele viveu esse momento em alguma realidade paralela onde era possível ver o futuro e teve a certeza de que esse sonho se tornaria matéria em algum ponto de seu caminho. Joaquim foi para o seu trabalho pensando em como aquela vida medíocre que leva há anos iria acabar assim que publicasse seu primeiro livro, o que com certeza lhe abriria portas e lhe permitira ter uma carreira literária de respeito, que o levaria até o seu final feliz, o final feliz de seu sonho.
Contudo, havia aquele pequeno problema chamado ideia. Joaquim tinha muitas coisas na cabeça, mas não tinha uma história boa. Quer dizer, até tinha algumas histórias boas, um “garoto encontra garota” com final surpreendente, uma cena de assassinato que poderia muito bem virar um romance policial, uma história sobre doença e superação, essas coisas, essas coisas até legais, mas não dignas de um Nobel. Teria de pensar mais, muito mais para fazer um ótimo livro de estreia, um que o colocasse como principal nome do cenário intelectual brasileiro, isso só para começar.
Enquanto a musa inspiradora não vinha bater à sua porta, Joaquim contou para todos os amigos e familiares sobre seu sonho, sobre como tudo iria ser realidade no futuro e então poderia ser rico, famoso e sustentar todo mundo. É claro que Joaquim percebeu os olhares trocados e teve de ignorar alguns deboches e ironias sobre o que havia acabado de contar, mas a certeza de que um dia iria provar a todos que estava certo o fez engolir o orgulho e seguir em frente.
Os anos se passaram e Joaquim ainda esperava pela ideia. Gastou todo um caderno só para anotar as sinopses de suas possíveis ideias, mas não conseguia desenvolver nada, era tudo fraco, já inventado, o cúmulo do clichê, não valiam a pena. Não eram uma ideia de Nobel ainda, mas uma hora tinha que aparecer, uma hora iria chegar. E enquanto não chegava, Joaquim seguia sua vida em seu trabalho burocrático, infeliz e triste, e fazendo-se surdo às ironias dos amigos quanto ao seu maior e ainda não realizado sonho.
Chegou à meia idade e com um total de 5 cadernos de ideias completas. Nenhuma delas digna de um Nobel. Nenhuma delas valia ser escrita. Mas um dia iria chegar, um dia iria acontecer, já estava com idade avançada, era verdade, mas seria o primeiro escritor a ganhar o Nobel com apenas um par de livros escritos. Livros ainda não tinha nenhum, mas esperanças, ah! Esperanças tinha de sobra! Só ele sabia o que tinha visto, o que tinha sentido, era um aviso dos anjos, ele sabia, aconteceria em algum lugar do futuro.
Joaquim Ferreira morreu aos 72 anos, cheio de cadernos e nenhum livro escrito.
Em seu enterro, um de seus amigos comentou: “Esse aí, uma figura! Preocupou-se tanto com esse tal de Nobel que esqueceu-se de apenas escrever um bom livro.”

#17 – Pesadelos

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Assim que Carlos colocou os pés no salão no térreo daquele prédio, pôde vislumbrar todo o seu futuro. Era o primeiro dia de trabalho naquela importante empresa e o cargo lhe daria segurança financeira para toda a vida.
Tinha lutado muito por esse emprego. Foram anos de cursinho atrás de cursinho, de concurso atrás de concurso, para finalmente pertencer a uma das maiores empresas do país. Sua mãe não poderia estar mais orgulhosa. Seu pai fazia questão de contar a todos no trabalho onde é que o seu primogênito estava indo trabalhar a partir de hoje e, se Deus quisesse, pelo resto da vida. Seu irmão menor já tinha preparado toda uma lista de presentes que queria ganhar assim que Carlos recebesse o primeiro salário.
Trabalharia no sétimo andar. Uma sala enorme, com outros 3 empregados, com direito à um computador de última geração e uma vista decente para os outros prédios da cidade.
Quando chegou à sua sala, foi cumprimentado pelos seus novos colegas de trabalho. Recebeu abraços, desejo de boas vindas, boas vibrações e até mesmo marcaram uma saideira para mais tarde, para comemorar sua grande conquista.
Carlos sentou sobre a cadeira giratória e deu uma boa olhada para a sua mesa. Um espaço enorme, dava para colocar fotos de amigos e familiares, espalhar os arquivos, trabalhar com conforto no deslumbrante computador e ainda colocar alguns mimos recebidos de sua família como recompensa por todo o esforço de anos.
Soltando um longo suspiro, Carlos começou a se preparar para o trabalho burocrático que seria o seu destino até o fim de sua aposentadoria.

**

E então, o despertar.
Com o peito arfante e a testa encharcada de suor, Carlos encontrou-se em seu quarto parcialmente escuro, iluminado apenas pela lua cheia lá fora. Acendeu o abajur e levantou-se com pressa da cama, assegurando-se de que estava realmente acordado.
Carlos caminhou pelo quarto em direção ao seu pequeno espaço criativo, onde suas telas, tintas, colas, pincéis e papéis estavam em seu devido lugar. Uma sensação de alívio preencheu-lhe o peito. Ele estava seguro, onde mais amava, com o que mais amava.
Carlos lambuzou os lábios ao beijar a tela à óleo que tinha pintado no dia anterior. E, rindo consigo mesmo no meio da madrugada, agradeceu a Deus por tudo não ter passado de um pesadelo.

#16 – Quando O Vento Sopra (E Ele Sempre Vem Soprar)

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Sempre que podia, Vanessa escondia toda a poeira por debaixo do tapete.
Não aquela que fica no canto da sala, o pozinho branco que insiste em aparecer diariamente nos lugares mais cerrados e inimagináveis. Mas a poeira que se escondia atrás de seu peito quando suas emoções ficavam fora de controle.
Vanessa não era uma pessoa comum. Algo diferente acontecia com ela: seus sentimentos não eram apenas aquela sensação incômoda que a maioria das pessoas sente na região do estômago ou do coração. Os sentimentos de Vanessa viravam poeira concreta, tão concreta que era possível pegar nas mãos e ver escorrer entre os dedos, como um punhado de areia. Era um transtorno para a jovem garota ter de limpar todos os dias a sujeira causada pela sensibilidade de seu corpo. Odiava ver aquilo, sentir-se coberta de pó o tempo inteiro era irritante. Por isso, cada vez que sua sensibilidade era afetada e um monte de poeira caía sobre o chão, Vanessa pegava a vassoura e escondia tudo debaixo do tapete o mais rápido possível.
Havia uma outra solução, dizia a curandeira (ou feiticeira, como dizia as más línguas), de seu vilarejo. Em um dia do passado, quando foi procurar secretamente ajuda para seu problema, a velha curandeira disse-lhe que uma outra opção seria encarar de frente sua sujeira, revirar todo o pó negro e asqueroso que espalhava pelo chão. Compreender e a aceitar o que seu corpo produzia era a melhor maneira para afinar aquela poeira. Ela desaparecia no minuto em que Vanessa fizesse isso. Mas Vanessa não acreditou, apressou-se a negar tal solução, isso era impossível, disse enquanto abria a porta da pequena casa e deixava a curandeira falando sozinha.
Retornou à casa inconformada, revoltada por ter nascido sob tal condição. Era uma amaldiçoada, com certeza alguém lá em cima a detestava para criá-la desse jeito. Ou era um karma muito grande a se pagar, se é que essa baboseira de vidas passadas realmente existia. Toda a raiva de si mesmo e do mundo produziu mais e mais poeira, cada vez mais suja, cada vez mais espessa. E lá ia pobre Vanessa, pegar uma vassoura para esconder tudo debaixo do tapete.
Vanessa foi ficado mais velha e sua casa não tinha mais tapetes para esconder tanta sujeira. Continuava olhando o mundo pela sua janela, imaginando uma vida perfeita, imaginando um destino diferente, desses que as pessoas de sorte possuem, enquanto atrás de si a poeira só ia aumentando e ganhando o formato de pequenas dunas, que as centenas de tapetes comprados já não conseguiam mais esconder.
Foi na primeira semana de outono que aconteceu. Após um dia de muito calor, a cidade foi invadida por uma ventania arrebatadora. O vento foi engolindo tudo o que aparecia pela frente, janelas, portas, telhados e até mesmo alguns animais de pequeno porte.
Vanessa tentou se esconder, mas não tinha espaço. A casa estava completa de poeira, a sua poeira que acumulou debaixo de tapetes, da cama, atrás do sofá e dentro do armário. Quando o vento entrou, não teve piedade de sua condição. Descobriu toda a poeira que Vanessa acumulou durante a vida e arrastou a garota para dentro do que havia construído.
Vanessa afogou-se em seu próprio mar.

*

Quando as pessoas saíram de suas casas para ver os estragos causados pelo vento, perceberam uma montanha de terra negra no lugar que antes era a casa de Vanessa. Olhos perdidos buscavam em outros olhos alguma explicação para tal fenômeno, mas ninguém parecia achar uma resposta para o sumiço da moça e o aparecimento daquele monte de terra escura e pesada. Percebendo que havia bastante trabalho a ser feito para reconstruir o vilarejo, as pessoas se afastaram aos poucos, comentando ainda com perplexidade o acontecido.
Apenas um rosto triste permaneceu.
Com lágrimas nos olhos, a velha curandeira ajoelhou-se e fez o sinal da cruz para o monte de terra à sua frente. Fez uma rápida e sincera prece, dedicou um último olhar à poeira da menina e foi embora desejando que ela tivesse um pouco mais de coragem na próxima vida.

#11 – Sorte

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Foi realmente duro vê-lo partir. De todas as dores já sofridas e de todas as esperanças destroçadas, nenhuma dor se comparava a esta. Quando gritou para que partisse e buscasse uma vida melhor, acreditou estar fazendo o certo para os dois. Mas não era verdade. Vê-lo ir embora para sempre não era o melhor para Eliseu.
Enquanto via o seu pelo amarelo desbotado e o corpo magro dobrar a esquina e perder-se de vista, lembrou de como ele havia chegado em sua vida.
Foi num dia quente, muito quente na cidade do Rio de Janeiro, desses que deixa até o mais otimista carioca se perguntando como alguém consegue agüentar tamanho calor. Se estava ruim para os empresários em sua salas refrigeradas e os carros de última geração, bem equipados para suportar uma tarde inteira no deserto do Saara, estava bem pior para Eliseu, sentado sobre o asfalto quente, debaixo de uma marquise de uma loja popular. Eliseu vivia nas ruas já há dois anos, com sua perna quebrada e uma ferida que havia infeccionado há alguns meses. Vivia de moedas jogadas sobre um potinho transparente que ele havia achado no lixo certa vez e só. Às vezes era brindado por uma alma caridosa com um salgado no quiosque ali do lado e já considerava o seu dia feito. Às vezes tudo o que lhe restava eram sobras de frutas, refrigerantes ou saquinhos parcialmente cheios de biscoitos que as pessoas jogavam no lixo do poste à sua frente.
Mas neste dia especial, apesar do calor sufocante, ele apareceu em sua vida. Magrelo, de olhinhos pretos e pelo desbotado, ele se jogou ao seu lado debaixo da marquise, muito cansado, como se tivesse andado longas distâncias para chegar até ali. O cachorro estava em petição de miséria, pior até do que Eliseu. Parecia não comer ou beber nada há semanas. Eliseu pegou o que sobrava da sua garrafinha d’água e, movendo delicadamente a cabeça do cachorro, deu-lhe de beber. Enquanto sorvia do líquido da vida, o cachorro o mirou com gratidão no olhar e foi se achegando cada vez mais perto do homem que havia lhe dado uma sobrevida. Eliseu colocou um pano velho sobre o chão e mandou que o cachorro deitasse ali para não se queimar com o calor do asfalto. Mesmo sem nunca terem se conhecido antes, o cachorro obedeceu e se esticou sobre o pano como se fosse a melhor caminha do mundo. Eliseu ficou encarando o cachorro que adormeceu ali mesmo, sob aquelas circunstâncias, e se perguntou se ele ficaria muito tempo. Afinal, mal tinha condições de salvar a própria vida. Seria muito complicado ter de alimentar uma segunda boca.
Contudo, algo muito estranho começou a acontecer. Algumas horas depois, uma velhinha se aproximou de Eliseu e perguntou se ele não estaria interessado no frango assado que havia comprado para o neto. Segundo ela, o netinho recém havia se tornado vegetariano e ela não tinha ideia do que ia fazer com aquilo. Levantando-se numa perna só, Eliseu pegou o saquinho da mão da senhora e lhe agradeceu mil vezes pelo regalo, desejando-lhe muitas bênçãos na vida. Assim que tornou a sentar-se, o cachorro despertou e levantou o focinho para sentir o aroma irresistível que vinha de dentro do saco. Os olhos do cachorro de repente foram tomados por um brilho ansioso e Eliseu não precisou de mais sinais para saber que o cachorro deveria estar mais faminto do que ele. Dividiram o frango assado com a alegria de um bêbado e Eliseu começou a chamar o pequeno cachorro de Sorte, pois desde antes de sua chegada ninguém havia lhe dado algo tão grande para comer.
Com o passar dos dias, Eliseu foi ganhando empadão, feijão com arroz, salgado no almoço e no jantar, e tudo dividia com Sorte ao seu lado. Talvez o cachorro atraísse mais pena e compaixão do que um ser humano, mas isso não importava agora.
Antes de chegar à sua vida, Eliseu não tinha noção de que pior do que um estômago vazio, era um coração vazio. Sempre acreditou não ser digno de amor e desde sua infância aceitou essa ideia. Algumas pessoas nasciam para a felicidade e outras não. Eliseu fazia parte do segundo grupo. Muitos colegas seus de rua praguejavam contra os céus e tinham ódio de tudo e todos à sua volta, maldizendo os que eram felizes e haviam nascido em berço de ouro. Eliseu apenas aceitava a vida que lhe fora designada e procurava não analisar toda a sua história. Se inconformar e se revoltar não o faria rico, não o faria mais feliz, não traria nada de bom. Então, como um morto-vivo, Eliseu vagava pelas ruas vivendo um dia após o outro, como alguém que esqueceu seu passado e não possui quaisquer perspectivas para o futuro. Mas isso foi até Sorte chegar. Ele admitia que no começo havia deixado o cachorro ficar pois era graças ao animal que ele estava comendo muito melhor. Mas ao contrário de Eliseu, Sorte não vivia apenas para comer. Durante o dia ficava correndo ao redor dele, querendo brincar e com uma felicidade estampada no rosto de alguém que não tinha ideia do quão miserável é a própria vida. Mesmo com uma perna inutilizada, Eliseu fazia o que podia para corresponder às investidas do animalzinho e, em troca, ganhava grandes e babadas lambidas no rosto. À noite, Sorte abandonava o seu paninho para se enroscar junto às pernas de Eliseu. No começo ele tentou protestar e mandou o cachorro de volta para sua cama, mas era inútil. No meio da madrugada, Sorte sempre voltava para junto de suas pernas, até que um dia Eliseu desistiu de lutar contra e deixou que o cachorro dormisse com ele. Com o passar dos meses, Sorte foi abrindo um espaço no coração de Eliseu que o mendigo nem lembrava que existia. Desde então sua vida era uma vida melhor, o calor não parecia tão calor assim e, quando a tristeza vinha sem ser convidada, Sorte a espantava com seus olhos negros e pelo desbotado. Eliseu sentiu que tinha tudo o que precisava… Até que começou a ouvir a palavra “crise” pela boca do povo. E com o passar dos dias foram desaparecendo os frangos assados, os empadões, os pratos feitos e qualquer sorte de ganhar comida que o cachorro havia trazido consigo. Sorte, que já estava mais gordinho e com um pelo até mais bonito, voltou a exibir ossos no corpo e pelo desbotado. O coração de Eliseu apertou-se e a sensação de impotência lhe trouxe pesadelos todas as noites. Agüentou por muito tempo o seu próprio estômago vazio e a ideia da morte nunca lhe havia sido assustadora. Mas ver seu cachorrinho cada vez mais magro, sem energia e sem conseguir abrir os olhos de tão fraco era muito diferente. Ver o sofrimento de alguém amado era a pior das dores e não sabia o que fazer para manter os dois vivos.
Numa manhã fresca, Eliseu teve de tomar a pior decisão de sua vida. Acordou Sorte e começou a conversar com ele. As pessoas que passavam por ali franziam o cenho e julgavam-lhe louco, mas Eliseu sabia que  Sorte podia entendê-lo muito bem.
Com lágrimas nos olhos, pediu para que fosse embora. Ao contrário de Eliseu, o cachorro podia andar e ir buscar um lugar melhor para viver. Sorte precisava buscar a esperança, precisava procurar algo para comer e sobreviver. O tempo que haviam passado juntos fora o melhor de sua existência, mas agora ele tinha que deixá-lo ir embora. O cachorro esboçou um gemido e os olhos negros e tristes arrebentaram o coração de Eliseu. Porém, não podia ser fraco. Guardou o paninho do cachorro e o expulsou do local que havia sido o lar dos dois grandes amigos por quase um ano. Sorte fez de tudo para voltar, para tentar convencê-lo de que era ali onde ele queria estar, mas os gritos de Eliseu foram mais fortes e o assustaram a ponto de fazer o cachorro sair correndo com medo do dono que havia se transformado tão de repente.
Eliseu não tirou os olhos de Sorte até que ele desaparece de vez. E ao ver-se sozinho e com um enorme buraco dentro de si, deitou sobre o seu pano e começou a chorar copiosamente.
Eliseu havia perdido tudo na vida, mas nada lhe afetou tanto como a perda de seu melhor amigo. A fome e a sede já não importavam mais; Eliseu só queria morrer e se livrar desta desgraçada vida que lhe fora dada. Se sentia um azarado, um inútil que mal tinha pernas, que mal tinha ossos, que não tinha nada e nada podia fazer. Chorou e chorou durante a tarde, durante a noite, durante a madrugada, até finalmente adormecer.
Acordou no susto, sentindo algo gelado tocar o seu pescoço. Piscou varias vezes até que seus olhos focassem no focinho preto e na língua arfante estirada à sua frente. Sorte havia regressado e, ao seu lado, permanecia uma grande coxa de frango intacta. Eliseu não podia acreditar que ele havia regressado depois de como havia agido no dia anterior! Sorte não tinha apenas voltado, ele havia trazido o resultado de sua pequena caçada pelos lixões por aí e havia trazido comida para ambos, como num bando, como numa família. Abraçou o cachorro entre lágrimas e recebeu várias lambidas de amor em troca. Eliseu pediu mil desculpas ao cãozinho, prometendo nunca mais expulsá-lo, nem que para isso os dois precisassem morrer juntos com toda aquela miséria. Dividiram a coxa de frango e comeram como se fosse o último banquete de suas vidas.
Ainda inebriado pelos acontecimentos dos últimos minutos, Eliseu não percebeu uma menina se aproximar. Havia acabado de comer sua parte da coxa enquanto ela se apresentou como Carina, uma estudante de medicina que fazia parte de um projeto social que reabilitava e dava uma nova vida aos moradores de rua. Ainda em silêncio, Eliseu escutou como a menina explicava que a infecção em sua perna era muito grave e que se não buscasse um tratamento ele poderia perder o membro. Com o jeito doce de uma jovem que ainda acredita que pode mudar o mundo, Carina perguntou-lhe se ele queria essa ajuda. Ela poderia ligar a qualquer momento para a ambulância do hospital em que trabalhava e ele seria levado para cuidar de sua saúde.
“Mas… E ele?”, perguntou Eliseu olhando para o seu cãozinho que tinha no rosto a felicidade de quem acaba de comer uma ótima refeição. Carina sorriu e disse que o cachorro seria muito bem cuidado na casa de apoio enquanto Eliseu tratava da ferida no hospital. Ele não era o único morador de rua a ter um melhor amigo de quatro patas e ela prometeu que o cachorro seria muito bem cuidado e que brincaria com outros amiguinhos na sua ausência.
Eliseu olhou para Sorte e caiu outra vez em prantos. Sorte não havia trazido apenas uma coxa de frango para o almoço. Todas as coisas boas pareciam girar ao redor do cachorro e Eliseu teve a plena certeza de que essa menina havia cruzado seu caminho somente porque Sorte havia regressado. Entre lágrimas e gemidos incompreensíveis, Eliseu conseguiu responder que sim, que estava disposto a se tratar, que estava disposto a ter uma nova vida e fazer tudo o que fosse preciso, desde que ela garantisse que ele poderia viver ao lado do seu melhor amigo. Do contrário, preferia continuar nas ruas. Carina pediu um voto de confiança e lhe garantiu que o final feliz deles estava assegurado. E finalmente com sua permissão, ligou para o hospital e pediu que viessem pegar Eliseu e Sorte.
Já dentro da ambulância, deitado sobre a maca, enquanto mediam sua pressão e avaliavam o seu estado físico, Eliseu olhou para Sorte e o agradeceu por existir. Em resposta, o cachorro deu duas lambidas em sua mão e o encarou com um olhar de amor.

#10 – O Girassol

girassol 2

Numa manhã de primavera, um girassol abriu-se em flor pela primeira vez no mundo.
Quando os primeiros raios do sol tocaram suas pétalas, apaixonou-se. A luz atravessou suas folhas, passou pelo caule, até tocar a raiz e fazer o pequeno girassol transbordar de amor em cada canto de sua existência. Era recém-chegado à vida, mas o girassol já sabia que havia nascido, que fora criado para amar o sol e para sempre ser-lhe fiel.
Não havia outras flores ao redor. Era uma flor solitária que tinha florescido em um vasto campo verde com vista para a montanha. Assim seria melhor, ele pensou. Dessa forma poderia amar sozinho o sol e ser amado por ele, sem que nenhuma outra flor entrasse no caminho para competir.
Durante todo o dia o girassol sentiu-se feliz para sempre. Seria eterno enquanto o sol existisse. O sol insistia em mudar de lugar, movimentando-se da direita para a esquerda lentamente, se afastando cada vez mais da flor apaixonada. Mas o girassol, insistente e apaixonado, seguia seu rastro movendo também seu centro da esquerda para a direita, sem deixar o amado sair de vista. Entretanto, apesar das tentativas, o sol parecia escapar-lhe cada vez mais, indo em direção à montanha.
A brisa gelada trouxe consigo o crepúsculo. O girassol, agora doído e desesperado, não podia mais seguir o sol. Sua luz ia aos poucos desaparecendo atrás da montanha e não havia como correr até o outro lado para ver aonde o sol estava indo. O girassol tentou falar, pedir para que o sol ficasse, para que não o deixasse; mas não tinha voz. Era uma planta inútil, presa à terra, alma solitária em um terreno ermo. O sol era sua única esperança de vida. Se o sol não estava ali, não poderia existir.
A noite veio quando todo o brilho do sol desapareceu atrás da montanha. O girassol, triste e desolado, curvou-se, encarando a terra que o aprisionava. Seu corpo não era mais preenchido de luz, de calor, de nada. Era uma planta vazia, sem propósito de existência, sem ter para quem mirar o seu centro. A tristeza do girassol arrebentou-lhe, enfraqueceu-lhe as pétalas e uma por uma foi caindo sobre o campo verde que assistia a tudo sem nada poder fazer.
Durante toda a madrugada, o girassol foi definhando aos poucos, desprendendo-se de si mesmo, desprendendo-se da vida. A cruel solidão da noite lhe desmanchou em fragmentos com suas mãos frias e impiedosas. Olhando uma última vez para a montanha que escondeu o seu amado para sempre, o girassol deixou-se terminar pela escuridão que o devorou.
O vento veio recolher os seus restos e os levou pelos ares, carregando sua alma em direção ao desconhecido.
Sobre o vasto campo verde em uma madrugada de primavera, não havia mais nenhuma flor.
Quando o sol voltou a nascer na manhã seguinte, o girassol apaixonado não estava mais ali para recebê-lo.