O Girassol

Numa manhã de primavera, um girassol abriu-se em flor pela primeira vez.
Quando os primeiros raios do sol tocaram suas pétalas, apaixonou-se. A luz atravessou suas folhas, passou pelo caule, até tocar a raiz e fez com que o pequeno girassol transbordasse de amor em cada pedaço de sua existência. Era recém-chegado à vida, mas o girassol já sabia que havia nascido, que fora criado para amar o sol e para sempre ser-lhe fiel.
Não havia outras flores ao redor. Era uma flor solitária que tinha florescido em um vasto campo verde com vista para a montanha. “Assim seria melhor”, ele pensou. Dessa forma poderia amar sozinho o sol e ser amado por ele, sem que nenhuma outra flor entrasse no caminho para competir.
Durante todo o dia o girassol sentiu-se feliz para sempre. Seria eterno enquanto o sol existisse. O sol insistia em mudar de lugar, movimentando-se da direita para a esquerda lentamente, afastando-se cada vez mais da flor apaixonada. Mas o girassol, insistente, seguia seu rastro movendo também seu centro da direita para a esquerda, sem deixar o amado sair de vista. Entretanto, apesar das tentativas, o sol parecia escapar-lhe cada vez mais, indo em direção à montanha. Então, foi desaparecendo de pouquinho em pouquinho, até deixar somente um rastro de luz amarelada que contornava a imperiosa montanha.
A brisa gelada trouxe consigo o crepúsculo. O girassol, agora doído e desesperado, não podia mais seguir o sol. Sua luz havia desaparecido por detrás da montanha e era impossível correr até o outro lado para ver onde o seu amado havia se escondido.
O girassol tentou falar, pedir para que o sol ficasse, para que não o deixasse… mas não tinha voz. Era uma planta inútil, presa à terra, alma solitária em um terreno intocado por mãos humanas. O sol era sua única esperança de vida. Se o sol não estava ali, não poderia mais existir.
A noite apareceu por completo quando toda a luz do sol foi substituída pelo brilho das estrelas. O girassol, triste e desolado, curvou-se, encarando a terra que o aprisionava. Seu corpo não era mais preenchido de luz, de calor, de nada. Era uma flor vazia, sem propósito de existência, sem ter para quem mirar o seu centro. A tristeza do girassol arrebentou-lhe, enfraqueceu-lhe as pétalas, que caíam uma por uma sobre o campo verde, que assistia ao desespero da enamorada flor sem nada poder fazer.
Durante toda a madrugada, o girassol foi definhando aos poucos, desprendendo-se de si mesmo, desprendendo-se da vida. A cruel solidão da noite o desmanchou em fragmentos com suas mãos frias e impiedosas. Olhando uma última vez para a montanha que escondeu o seu amado para sempre, o girassol deixou-se terminar pela escuridão que o devorou.
O vento veio recolher os seus restos e os levou pelos ares, carregando sua alma em direção ao desconhecido. Agora, sobre o vasto campo verde em uma madrugada de primavera, não havia mais nenhuma flor.
Quando o sol voltou a nascer na manhã seguinte, pronto para ser adorado pelo girassol apaixonado, ele não estava mais ali para recebê-lo.

#4 – O Cachorro e o Prego, um conto por Amanda Palmer [Youtube]

Hoje trago uma pequena história retirada de um livro que me marcou muito, chamado “A Arte de Pedir”, escrito pela cantora e escritora Amanda Palmer.

É uma história para se fazer uma profunda reflexão sobre as decisões que tomamos (ou deixamos de tomar) em nossas vidas.

Espero que gostem desse pequeno conto tanto quanto eu gosto!

#2 – A Menina e a Mulher [Youtube]

O Setembro Amarelo é uma campanha brasileira que busca a prevenção ao suicídio e também procura a estimular o debate sobre saúde mental no país. Saúde mental é um tema que me toca pessoalmente e o texto do vídeo de hoje foi retirado do meu romance intitulado “Need”. Na história, minha personagem Lois Morrison luta contra a depressão e o alcoolismo, e mantém um blog onde ela escreve sobre suas dores e desafios na luta contra os fantasmas da própria cabeça.

Espero que esse texto faça você pensar um pouco mais sobre como tem tratado a si mesmo (a) . Cuide-se da mesma forma com que você cuidaria de uma criança que ainda está começando a dar os primeiros passos no mundo. Se você seria incapaz de machucar um ser inocente, então não faça o mesmo com você. Procure ajuda!

Obrigada a todos que seguem apoiando meus projetos e gostam do que escrevo! Cada curtida, cada mensagem que recebo é valiosa demais para mim e me ajuda a seguir com este trabalho que é tão desafiador e cansativo, porém muito gratificante. Inscreva-se no canal, ative o sininho, curta esse vídeo e compartilhe com aqueles que você acha que irão gostar!

[Linhas Invisíveis] Capítulo 5 – É Melhor Você Correr Por Toda a Noite

Helena, Montana. Julho de 2009.
3 da tarde.

— Lois! – disse a voz sussurrante da menina que olhava de um lado para o outro, temendo ser vista por alguém. – Lois, pelo amor de Deus, desce daí!
— Eu preciso dar o fora desse hospício! – disse Lois Morrison, enquanto tentava pular o muro do lugar onde já estava presa há 5 dias. – Preciso ver Noah!
— Como você pretende voltar para Seattle sozinha, sua maluca? – perguntou Taylor, a única pessoa em muito tempo que ela podia chamar de amiga.
— De ônibus, ora! – respondeu Lois, olhando ao redor para ver se alguém se aproximava. – A rodoviária não fica muito longe daqui e eu tenho o suficiente para comprar uma passagem de volta. Não posso passar mais um minuto nesse retiro ridículo, eu vou endoidar!
— Lois, pense bem no que está fazendo. – alertou a menina, olhando em volta mais uma vez. – Você pode prejudicar o sir Michael e o sir Ryan! Já pensou na responsabilidade que cairá sobre eles quando descobrirem que uma jovem fugiu do retiro?
— Isso é problema deles, não meu. – respondeu, dando de ombros. – Se esse programa para jovens cristãos fosse menos insuportável, eu não estaria me arriscando desse jeito para fugir. Eles que inventem algo mais atrativo da próxima vez.
— O programa não é chato, você que é uma maluca! – respondeu a menina, impaciente.
— Maluca é a senhora Anne Morrison que realmente achou que me enfiando uma semana em um retiro cristão ia me ajudar de alguma forma. – retrucou uma amargurada Lois. – Por isso preciso estar com Noah! Ele é o único que me entende e com quem eu posso verdadeiramente contar! Não preciso de Deus quando já tenho Noah comigo.
— Pelo amor de Jesus, você acabou de começar a namorar o cara e não pode ficar uma semana sem ele? Isso é doença, você deveria se tratar!
— Você é minha amiga ou minha inimiga? – Lois perguntou, sentindo-se pessoalmente atacada.
— Eu sou sua amiga e por isso mesmo estou dizendo o que penso! – Taylor respirou fundo, tentando manter o controle para não brigar com a amiga. – Lois, pare com isso, hoje não vai ser tão ruim! Estão dizendo que à noite teremos uma palestra com um convidado especial, um amigo da escola de sir Ryan! Parece que ele já está no acampamento e umas das meninas disse que ele é um gato!
— Não me interessa, eu já tenho um homem pra chamar de meu! – respondeu Lois, ignorando por completo o aviso de Taylor sobre sua obsessão com o novo namorado. – Agora pare de encher o saco e me ajude a pular isso aqui!
— Argh, tudo bem, eu ajudo! Mas só porque quem vai ficar maluca sou eu se passar mais um minuto ouvindo sobre esse tal de Noah! O que eu preciso fazer?

Com a ajuda de Taylor, Lois conseguiu a altura que precisava para se debruçar e então pular o muro. Ralou os joelhos e as mãos na queda, mas não se incomodou com a dor. Só de se ver livre daquele lugar que havia sido sua prisão nos últimos 5 dias, compensava qualquer dor física. Olhando uma última vez para o retiro, temendo que a alguém a visse, Lois atravessou a rua com o sinal aberto, desviando perigosamente dos carros, e correu o mais rápido que conseguiu.
Sabia que o que estava fazendo era uma maluquice e que Anne Morrison jamais a perdoaria por ter feito algo assim. Mas a relação com sua mãe já estava bastante desgastada e uma decepção a mais, uma a menos, não iria fazer a menor diferença.
Assim que se viu segura, longe o suficiente do retiro, Lois abriu a mochila e pegou o mapa da cidade, procurando a rodoviária. Como já havia visto na noite anterior, quando passou a madrugada acordada bolando o seu grande plano de fuga, o local não era muito distante. Precisaria andar mais ou menos uns 30 minutos, mas chegaria sã e salva. E mesmo que não chegasse sã e salva, o importante era chegar, pensou Lois Morrison. Não podia mais passar um minuto longe de Noah, sem saber o que estava fazendo, sem conseguir falar com ele, sem sentir-se calma do jeito que só ele a fazia sentir. Que fosse ao inferno esse retiro ridículo e todas as pessoas que achavam que precisava ser salva de alguma coisa. Ela não precisava de ajuda, não precisava ser encontrada nem por Deus, nem por Jesus, nem por ninguém. Tudo o que precisava era estar com alguém que a fazia se sentir querida de verdade.
Amanhã pela manhã ela já estaria de volta a Seattle e ao lado de Noah, de onde nunca deveria ter saído em primeiro lugar. E pretendia jamais deixá-lo outra vez.

**

Helena, Montana. Julho de 2009.
10 da manhã.

— Brandon Reed? – Brandon parou imediatamente de escrever no notebook e olhou para cima. – Não acredito! O que o garoto mais inteligente de Nova York está fazendo perdido na capital de Montana?
— Ryan Gallagher! – Brandon levantou-se e cumprimentou o amigo que não via desde a época de colégio. – Que surpresa encontrá-lo por aqui! Não nos vemos faz quanto tempo, uns…
— 7 anos! – respondeu prontamente. – Como está seu pai?
— Está bem, trabalhando e publicando como nunca. Sente-se, vamos colocar o papo em dia!

Ryan aceitou a sugestão de Brandon e ambos sentaram-se à mesa. Antes de reiniciarem o assunto, Ryan chamou a garçonete e pediu um café. Brandon salvou o que estava fazendo no notebook e abaixou a tela para que pudessem conversar sem distrações.

— Está morando aqui ou está de passagem, como eu? – perguntou Brandon.
— Moro aqui faz uns 4 anos já. Eu lidero um grupo de jovens cristão que estão um pouco perdidos na vida. Descobri minha missão de vida tentando ajudar a juventude a encontrar um caminho mais limpo para caminhar.
— Poxa, cara, que legal, fico feliz por você! – Brandon sorriu com sinceridade. – É sempre bonito encontrar alguém que encontrou um propósito na vida. Fico feliz.
— Às vezes encontramos nosso verdadeiro caminho onde menos esperamos. Essa é a mágica da vida. – refletiu Ryan. – E você, o que faz aqui?
— Vim para um ciclo de palestras sobre neuropsicologia. Era um evento aberto ao público e decidi me inscrever. – explicou Brandon. – Aproveitei então para conhecer o lugar, nunca antes havia estado em Helena. É tudo muito bonito aqui.
— Ah, então você seguiu mesmo o caminho da psicologia? Sempre soube que você seguiria os passos de seu pai, vocês são parecidos em tudo.
— Bem, não exatamente. – Brandon coçou a nuca, constrangido. – Estudo psicologia por diversão e porque creio que consigo ser um ser humano melhor a partir do momento que me proponho entender o outro. Não entrei em nenhuma faculdade depois que saí da escola.
— Como assim? – Ryan foi tomado por um choque ao ouvir a notícia. Depois de ter convivido com Brandon toda a adolescência, essa era a última informação que esperava escutar. – O cérebro de ouro de uma das mais importantes escolas de Nova York decidiu não ter um curso superior? O que foi que eu perdi?
— Não tem nada demais. – ele sorriu, sem graça. – Eu só escolhi a liberdade de encontrar o conhecimento que preciso além das páginas de um livro e as limitações de uma sala de aula. Explorar é o melhor caminho para o conhecimento.
— Seu pai deve ter surtado com essa notícia… – comentou Ryan, lembrando-se do gentil e intelectual pai de Brandon.
— Bem, vamos dizer que ele não foi um entusiasta dessa decisão. – comentou Brandon, sem detalhar o sermão que levou de Paul Reed antes dele se conformar com a decisão do filho. – Mas no fim ele apoiou, pois entendeu que a melhor maneira de me fazer feliz era me deixar livre para tomar minhas próprias decisões.
— Bem, que bom que tudo deu certo na família Reed, então.
— Sim, acho que deu. – respondeu Brando, sabendo que seu pai o apoiava até mesmo naquilo que não concordava. Ele tinha o melhor pai do mundo e sabia bem disso.

A garçonete chegou com o café de Ryan e Brandon decidiu pedir algo para comer. Enquanto a moça anotava o pedido, Ryan encarou a figura de Brandon por alguns segundos, pensando como o filho de Paul Reed, apesar de não ter seguido um caminho religioso, tinha algo especial dentro de si. Era possível ver o coração de Brandon através de seus olhos e ele se sentia uma pessoa de sorte por ter tido a oportunidade de ter convivido, ainda que por poucos anos, com Brandon e Paul. “Essa família é especial”, ele pensou.
Sentindo uma inspiração repentina, talvez uma inspiração divina, Ryan teve uma ideia que pensou ser vantajosa para ambos.

— Hey, me diga uma coisa… – Ryan retomou a conversa. – Quais são seus planos para os próximos dias?
— Devo voltar para casa depois de amanhã. – respondeu Brandon, pensando por alguns segundos se tinha algo de muito a importante a fazer. – No momento o plano é não fazer planos, estou explorando as possibilidades que essa cidade adorável tem para me oferecer.
— Pô, se você não tiver nada para fazer hoje, o que acha de pintar lá no meu retiro de jovens e dar uma palestra especial para os garotos? Sinto que eles já estão meio entediados com o programa e seria legal trazer gente nova.
— Ryan, eu respeito e admiro demais o que você faz, mas você sabe que eu não sou muito adepto à questões religiosas. – respondeu com toda a cautela que conseguiu. – Igrejas não são pra mim.
— Não, você me entendeu mal! – Ryan tratou rapidamente de explicar. – Você não vai falar de Deus, nem nada disso. O programa é muito mais do que só ler e falar sobre a bíblia, procuramos integrar todos os tipos de conhecimento que podem beneficiar os jovens neste momento tão confuso de suas vidas. Acho que seria uma adição muito especial para o programa trazer alguém com os seus conhecimentos sobre psicologia, eles vão gostar muito de ouvir alguém como você.
— Bem, não sei, sinceramente… – Brandon respondeu, incerto em relação ao convite. Gostava muito de Ryan, mas a verdade é que tinha um pouco de pavor de grupos religiosos. Não conseguia ver como poderia ajudar aquele grupo de pessoas que acreditavam em coisas da qual ele ainda não era capaz de crer.
— De verdade, confie em mim. Ninguém aqui vai tentar te converter. – garantiu Ryan com descontração ao ver a hesitação do amigo. – Eles precisam justamente de algo diferente do que conheceram até agora e acho que você é a pessoa certa para isso. Estou precisando de ajuda com alguns deles, soube pelo meu colega de trabalho, Sir Michael, que uns jovens já têm até problemas de consumo excessivo de álcool mesmo sendo menores de idade. Você tem uma boa lábia, lembro de você falando na hora do intervalo sobre seus conhecimentos e todo mundo prestando em cada palavra que dizia. – recordou. – Acho que suas palavras poderão ter o mesmo efeito no retiro.

Brandon parou um pouco para pensar, sentindo que estava sendo convencido por Ryan.
Quando saiu de Nova York e foi descobrir um outro lado da vida em Phoenix, decidiu que queria se desafiar a fazer algo diferente, algo que jamais faria se seguisse no mesmo lugar onde nasceu e cresceu, com as mesmas pessoas que conhecia desde a infância. Dar uma palestra científica em um retiro para jovens cristãos era a última coisa que pensou em fazer na vida, mas agora a ideia não parecia ser tão ruim. Ele podia sim oferecer alguns conhecimentos sobre transtornos psicológicos e, quem sabe, fazer com que alguém se sentisse compreendido e menos julgado. Paul Reed o havia ensinado muito bem durante a vida e agora ele mesmo buscava outros conhecimentos sobre psicologia em diversas partes do país. Talvez Ryan tivesse razão. Talvez ele tivesse mesmo uma grande bagagem de conhecimentos e podia agora passar isso a quem precisava ouvir. Seria uma experiência no mínimo curiosa e de repente ele sentiu vontade de tentar e ver onde aquela loucura iria dar.

— Tudo bem, eu aceito. – respondeu, para a alegria de Ryan. – Mas com uma condição: não mencione de quem sou filho. Não quero que a fama do meu pai atrapalhe o trabalho que eu possa vir a fazer com eles. Sabe como adolescentes são deslumbrados por pessoas famosas e não quero isso.
— Perfeito, do jeito que quiser! – concordou um animado Ryan. – Podemos ir assim que acabarmos aqui, tudo bem?

Brandon concordou e eles mudaram de assunto enquanto terminavam o café.
Podia não ser a pessoa mais crente do mundo, mas Brandon gostava de observar como o destino tinha sua própria maneira de fazer as coisas. Quando se inscreveu naquele evento de neuropsicologia em Montana, tudo o que desejava era estar entre os mais inteligentes do meio e aproveitar para desfrutar de uma cidade que ainda não havia conhecido. E agora estava ali, conversando com um ex-amigo de colégio com o qual havia perdido o contato, e pronto para passar o dia ao lado de um grupo de jovens cristãos que, quem sabe, poderia se beneficiar de seus aprendizados. Para Brandon Reed, um homem que adorava planejar até os horários de suas refeições diárias, perceber seu caminho tomando um outro rumo era assustador, ainda que também excitante. Sempre que pensava estar no controle, algo maior acontecia que o fazia perceber que, na verdade, o livre arbítrio sobre o qual as religiões amavam falar, não era tão livre assim.
Percebendo-se empurrado para este retiro, sem ter ainda ideia do propósito desse repentino desvio de caminho, Brandon Reed pensou quais surpresas ou quem ele poderia encontrar nesse lugar cheio de esperança.

InstaPost #006 – Os Caminhos do Livro, Os Caminhos da Poesia

Esta semana terminei de ler um livro de poesias de uma escritora italiana chamada Martina Vivian. Nunca tinha ouvido falar nela e nem pretendia ler nada nesse idioma por agora, mas, como sempre digo que são as melhores leituras, apenas “aconteceu”.
Encontrei o livro por puro acidente em um sebo de rua, naquelas promoções maravilhosas de “leve 3 por 10”. Ele estava embaixo de um outro livro aleatório e, quando o vi, fiquei surpresa de encontrar uma coletânea de poesias em italiano, o que não é muito comum por aqui. E fiquei ainda mais surpresa quando percebi que ele estava em perfeito estado, como novo, como se nunca tivesse sido lido. Como estou praticando o idioma, pensei “por que não?”. E acabei levando o livro pra casa.
As poesias de Martina Vivian são muito pessoais, como se tivessem saído de seu diário particular. Acredito que ela tenha escrito após uma forte decepção amorosa – o que, vamos combinar, acaba gerando as melhores obras – e colocou no papel todo o seu processo de luto sobre o fim da relação e o caminho para a superação. Gostei, gostei muito. E fiquei satisfeita ao perceber que estou bem familiarizada com a língua, pois acho que entendi 90% do livro.
Ler Martina Vivian me faz pensar como nossas palavras podem viajar pelo mundo sem que tenhamos ideia. Acredito que, neste momento, a moça italiana nem imagina que tem alguém no Brasil fazendo uma análise do livro dela, alguém que se identificou com muito dos poemas e que ficou pensando como queria conversar com ela sobre a vida, pois sua visão de mundo parece um pouco com a minha. Mesmo escrevendo há tanto tempo e ter tido a sorte de ser lida por muita gente na época do Orkut, ainda fico fascinada como histórias podem atravessar fronteiras e mudar a vida de pessoas que nem conhecemos. Como estamos conectados mesmo sem ter ideia de quem somos, como diria Delta Goodrem.
Escolher o caminho da escrita, da literatura e da poesia, envolve muita coragem e determinação, pois não é fácil atrair a atenção das pessoas nesse mundo que gera milhões de conteúdos todos os dias, não é fácil ter que abrir mão de uma vida mais tradicional, por assim dizer, para se dedicar a esse tipo de trabalho onde você fala sozinho a maior parte do tempo. Não sei se o livro de Martina fez algum sucesso na Itália, pois não encontrei maiores informações sobre ele ou sobre a autora, e não sei se ela ficou ou não frustrada por seu livro não ter tido um alcance maior. De qualquer forma, de uma maneira que eu jamais vou saber ao certo, o seu livro cruzou o Atlântico, foi parar num sebo de rua, chegou até mim e me tocou profundamente. Como não ver beleza nisso? Como não achar que, no fim, por mais que pensemos que estamos falando sozinhos, tem sempre alguém em algum canto do mundo ouvindo com atenção tudo o que temos para dizer?
E é por isso que sigo fazendo o que faço: a poesia e a literatura têm uma força que foge à nossa compreensão… e acho isso tudo bonito demais! Acho que me arrependeria para sempre se escolhesse outro caminho para mim e decidisse não fazer parte disso.
Enquanto sigo meu trabalho de formiguinha, enquanto sigo gritando em um mundo onde todo mundo parece conseguir gritar mais forte que eu, só posso desejar que um dia minhas palavras também atravessem fronteiras e façam alguma diferença na vida de alguém, assim como as palavras de Martina fizeram na minha.

[Linhas Invisíveis] Capítulo 4 – Um Nascer do Sol Na Palma de Sua Mão

Seattle, Washington.
21 de Outubro de 2003
.

— Mãe, eu não quero ir! – resmungou a pequena Lois, enquanto era arrastada pela mãe através das ruas movimentadas do seu bairro. – Toda vez que você vai até a sapataria do sir Stephen você nunca mais sai de lá!
— Não reclame, Lois Morrison, eu preciso consertar esse sapato, pois é meu preferido e não estou podendo gastar dinheiro com um novo. Você pediu para que passássemos mais tempo juntas e agora está reclamando?
— Passar tempo juntas significa realmente fazer algo, não te acompanhar até o sapateiro. – Lois cruzou os braços e bufou, irritada.
— Você pode ficar na sorveteria ao lado então, já que está impaciente demais para esperar. – Anne tirou uma nota de cinco dólares do bolso e entregou para a menina. – Vá, compre aquele sorvete de chocolate que você ama e não enjoa nunca e me espere no banquinho ali do lado de fora. Não devo demorar.
— Sei… – respondeu a menina, tendo certeza de sua mãe iria demorar, como sempre.

Assim que chegaram no endereço certo, Anne Morrison entrou na sapataria e Lois foi correndo buscar o seu amado sorvete de chocolate. Como sua mãe havia pedido, a menina de cabelos castanhos sentou-se no banquinho do lado de fora da sorveteria e devorou o sorvete em poucos minutos. Para a ansiosa garota, sua mãe estava demorando demais e já não aguentava mais esperar.
Anne Morrison não precisou verbalizar qualquer palavra para Lois saber que as constantes idas ao sapateiro tinham menos a ver com os sapatos e mais com a beleza do sir Stephen. Em sua imaginação fértil, Lois imaginou que sir Stephen se apaixonaria por sua mãe, se casaria com ela e ambos iriam morar em alguma cidade bem distante, deixando a menina sozinha em Seattle, entregue à própria sorte. Em seu íntimo, Lois desejava que sir Stephen fosse casado e que não tirasse a única pessoa que ainda estava ao seu lado.

— Olá, querida! – Lois virou o rosto e viu uma mulher de sorriso brilhante e olhos verdes sentar-se ao seu lado. – O que uma menina bonita como você faz sozinha neste lugar?
— Não estou sozinha. – respondeu, sentindo um pouco de medo da desconhecida. – Minha mãe está na loja aqui do lado consertando um sapato. Estou esperando por ela.
— Não tenha medo, eu não vou te fazer mal. – disse a mulher ao perceber a tensão no corpo da menina.
— Isso é o que as pessoas que querem sequestrar crianças costumam dizer… – respondeu Lois em tom afiado.

A mulher soltou uma gargalhada e Lois reparou como o som que saiu de sua boca tinha uma melodia especial, quase como uma canção. Era a primeira vez na vida que ouvia alguém rir em forma de música.

— Você é muito esperta para uma menina de… – ela parou um momento para analisar a idade pela sua aparência. – 13 anos?
— 11, quase 12.. – respondeu Lois. – Sou mais nova do que aparento ser.
— 11, quase 12, certo… – a mulher continuava analisando Lois como se pudesse ver através dela. – Eu gostei de você. Parece ser uma menina muito especial, porém um pouco solitária.
— Eu tenho muitos amigos. – mentiu Lois, sentindo-se invadida, de certa forma, pelo olhar da mulher. – Você não sabe nada sobre mim.
— Desculpe, não quis ofendê-la. – respondeu com doçura no tom de voz. – Um solitário reconhece outro solitário apenas com um olhar. Eu olhei para você e encontrei uma alma semelhante, apenas isso. Meu nome é India. – a mulher lhe estendeu a mão e Lois retribuiu ao cumprimento. – Eu sou uma cigana. Você sabe quem são os ciganos?
— Acho que já vi algo sobre vocês em filmes… – respondeu Lois, sentindo-se um pouco mais curiosa em conhecer a mulher que agora já não lhe dava tanto medo.
— Se tudo o que conhece sobre a gente você viu em filmes, então não nos conhece de verdade. – respondeu. – Somos apenas pessoas como você, como todos, que procuram encontrar um lugar no mundo da nossa própria maneira. Mas nos julgam das piores coisas e nos colocam à margem da sociedade. As pessoas não sabem lidar com o diferente e isso é lamentável.
— Eu sinto muito, India. – respondeu Lois com sinceridade, compadecendo-se com ela. – Ser julgado é uma coisa terrível. Eu sou julgada na escola e não gosto. Então entendo o que está sentindo.
— Obrigada, querida. – India sorriu e Lois pode jurar que viu seus olhos brilharem como se fossem esmeraldas. – Conversar com você no dia de hoje me fez muito feliz. Sabe, as pessoas passam pela gente e nos desprezam por todo o tipo de razão. Às vezes só queremos conversar e nos conectar, mas conseguir essa abertura não é fácil. Obrigada por ter me permitido sentar aqui e conversar um pouco com você. Seu coração é muito bonito.

Lois ficou sem saber o que dizer, pois não estava acostumada a ser elogiada. Sua mãe sempre encontrava uma razão para criticá-la e na escola ela não era a garota mais popular, nem entre os colegas e muito menos entre os professores. Não sabia como India tinha descoberto, mas ela tinha razão. Lois era mesmo uma pré-adolescente solitária que, assim como a cigana, também estava tentando encontrar o seu lugar no mundo.

— Quero te dar um presente. Abra sua mão direita. – pediu India. – Pode confiar em mim. Você vai gostar.

Lois pensou duas vezes se deveria aceitar presente de desconhecidos, mas sua curiosidade falou mais alto. Fazendo o que a cigana havia pedido, Lois abriu sua mão.

— Geralmente eu cobro por esse tipo de serviço, pois é meu ganha pão e comer está bem difícil ultimamente. Mas você me deu o presente de sua atenção e quero retribuir com uma leitura de seu futuro.
— Você consegue ler mesmo o meu futuro? – perguntou Lois, fascinada com a possibilidade de saber como seriam seus próximos anos.
— Sim e não. – respondeu India. – É mais uma direção. O futuro, na verdade, é a gente que faz. Mas acredito sim que nossos caminhos estão na palma de nossas mãos. Literalmente.

Segurando delicadamente na mão da menina, India começou sua leitura.
Olhou com atenção cada linha, passando o indicador por toda a sua palma, como se estivesse realmente vendo algo em todas aquelas linhas que para Lois eram apenas marcas que todos os seres humanos tinham.

— Hmm… Interessante. – disse India, para então ficar longos segundos em silêncio.
— O que foi? – perguntou uma curiosa Lois.
— Existem muitas linhas desencontradas… – explicou a cigana, sem tirar os olhos da mão de Lois. – Seu caminho não será reto, não será um caminho comum como o da maioria das pessoas. Você vai precisar andar muito, por diversos lugares, até encontrar conseguir encontrar aquilo que um dia chamará de lar.
— Mas meu lar é aqui. – retrucou Lois, sentindo-se confusa. – Com a minha mãe.
— Sim, querida, e ainda será por alguns anos. Mas não será para sempre. Você é muito maior do que essa cidade. Você é muito maior do que pensa ser.

Lois seguiu sem entender nada do que a cigana queria dizer. Sempre se sentiu pequena demais para tudo, como se estivesse limitada por algo maior e não pudesse se desenvolver. Passava a maior parte do tempo buscando obsessivamente a atenção de sua mãe enquanto tentava sobreviver ao tédio que sentia na escola. Como alguém que tinha uma limitada carreira escolar e possuía um número restrito de amigos poderia ser alguém nessa vida?

— Você vai cruzar algumas fronteiras até chegar a este lugar. – disse a voz de India, cortando os pensamentos de Lois. – Talvez até internacionais, não sei. Sua missão nessa vida é atravessar fronteiras, querida. Se você seguir o chamado de seu coração, não importa o quão louco isso possa parecer aos olhos de outras pessoas, eu garanto: você vai encontrar tudo o que sempre sonhou.
— Mas para onde eu tenho que ir? Quais fronteiras eu preciso cruzar?
— Isso você vai ter que descobrir sozinha. – respondeu India, fechando a mão de Lois entre as suas. – Você passará por alguns caminhos que farão com que você duvide, com que você queira desistir até de si mesma. Mas não desista, não volte atrás. Quando você sentir que chegou o fim, você vai entender que era apenas o início de algo muito bonito. Seus encontros serão muito significativos e você vai mudar vidas sem saber disso.
— Eu não estou entendendo nada… – respondeu Lois, com lágrimas nos olhos. – Como vou saber qual é esse lugar? Aliás, quando eu vou saber que preciso ir? Não quero deixar minha mãe sozinha.
— Como eu disse antes, ouça tudo o que seu coração te disser. Ele vai indicar quando será o dia e a hora exata de partir. Eu olho para você e vejo um belo pássaro, um pássaro de asas vermelhas, como se fossem de fogo, pronto para bater as asas e embelezar a vida de todos que tiverem a sorte de cruzar seu caminho. Eu olho para você e vejo uma fêni…
— LOIS! – um grito interrompeu a conversa, fazendo com que as duas saltassem de susto no banco. Anne Morrison aproximou-se tal como uma leoa e puxou Lois pelo braço, tirando-a de perto da mulher desconhecida.
— O que está fazendo com minha filha?! – gritou Anne, ainda sentindo o desespero no peito, pois pensava que esteve prestes a perder Lois.
— Desculpe, senhora, eu estava apenas conversando com a menina. Não quis causar nenhum mal…
— É, mãe, o nome dela é India e ela é legal. Só estava me explicando que…
— Eu não quero saber! – ralhou Anne Morrison. – O que eu falei para você a vida inteira, Lois? Não é para falar com estranhos, se lembra? Você não tem ideia do perigo que corre! Sabia que não deveria deixá-la sozinha, sabia! Vamos embora!

Anne saiu puxando Lois pela rua sem deixar que se despedisse da cigana.
Lois queria ter continuado com a conversa, queria saber mais, queria conhecer mais sobre India e a história de seu povo. Mas sequer houve tempo de agradecer, de se despedir. Tudo o que Lois conseguiu fazer foi virar o rosto para trás e acenar para India, que retribuiu ao aceno com um sorriso triste. Lamentou em seu íntimo por saber que nunca mais encararia aqueles olhos cor de esmeralda e desejou que um dia ela também encontrasse o seu lugar no mundo.
Durante todo o caminho de volta para casa, Lois ficou olhando para as linhas visíveis de suas mãos, perguntando-se se poderia ser verdade tudo o que India havia lhe dito. Se era mesmo possível desvendar o futuro através das linhas das mãos, se era mesmo verdade que ela iria encontrar um lugar melhor para viver. Não era feliz naquele lugar, nunca havia sido, mas ali estava sua mãe e, talvez por ser tão nova, nunca havia pensado em viver longe daquela que era toda a sua razão de viver. Mas, pela primeira vez na vida, Lois começou a imaginar lugares diferentes, pessoas que poderia conhecer, todas as coisas que poderia fazer longe do lugar que havia nascido e crescido. De repente, para Lois, o mundo pareceu um lugar maravilhoso, quase como um mapa do tesouro, cheio de coisas brilhantes para descobrir, tão brilhantes como o sorriso da cigana que havia conhecido.
O que poderia existir além das fronteiras?
Que tipo de gente ela poderia encontrar?
Haveria mais pessoas como India por aí?
Em sua mente criativa, a jovem Lois Morrison começou a visualizar uma vida bem longe de todo aquele gelo e aquele cinza, uma vida onde poderia bater suas asas de fogo e voar para bem longe, como sua amiga cigana havia previsto.
Esse encontro havia mudado a sua vida para sempre. Agora que Lois podia se imaginar vivendo em diferentes lugares, Seattle parecia ainda menor ante seus olhos.
Ela tinha muito para viver, muito para descobrir, muitas fronteiras para cruzar.
E, na hora certa, iria cruzá-las.

**

Cidade de Nova York, Nova York.
21 de Outubro de 2003.

Era seu aniversário. Dezenove anos.
Brandon olhava para a tela do computador, observando todo o planejamento que havia feito no último ano. Estava tudo pronto, tudo certo, era só pegar as malas e ir. Finalmente partir. Como há muito tempo desejava.
Seria difícil contar para o seu pai que precisaria deixá-lo para ir em busca de uma vida completamente diferente daquela que fora planejada pra ele. Mas precisava criar coragem, precisava olhar nos olhos de seu pai e explicar que Nova York não era seu futuro, que uma carreira tradicional não alimentaria sua alma, que ele necessitava buscar o seu lugar em outra cidade. E começaria por Phoenix, no Arizona. Se este seria o seu destino definitivo ou se precisaria buscar ainda mais até se encontrar, ele não sabia. Só sabia que precisava partir e viver, finalmente, uma vida para ele mesmo. Esperava que seu pai tivesse a mesma compreensão com ele como tinha com seus pacientes, pois não queria partir brigado com aquele que mais amava no mundo. Entretanto, independente do que Paul Reed dissesse, Brandon ia partir. Sabia que essa decisão iria quebrar o coração de Kerry e frustrar seu pai, mas a vida era dele. E ninguém mais poderia vivê-la por ele.

— Querido, posso entrar? – perguntou a voz que quebrou o silêncio no qual estava imerso. – Atrapalho?
— A senhora nunca atrapalha, dona Christina! – Brandon levantou-se e dirigiu-se até a mãe de Lucy com o sorriso aberto.
— Feliz aniversário, meu menino! – Christina o abraçou com força e deu um beijo estalado em seu rosto. – Olhe para você! Já é um homem feito! Como o tempo passa rápido!
— É o que todos estão dizendo. – Brandon coçou a nuca, sentindo-se um pouco constrangido. – Lucy não veio?
— Resolveu sair com o namorado, sabe como é a minha filha. – Christina revirou os olhos com impaciência. – Disse-lhe que achei um absurdo, mas ela me respondeu dizendo que você não ligaria, que não é como seu pai que faz questão de afagos no aniversário.
— Nisso sua filha está certa. – Brandon riu, lembrando-se do jeito único de sua melhor amiga. – Não gosto de festas ou grandes comoções por causa de um aniversário. Não se preocupe, eu tenho certeza que ela ligará mais tarde.
— É um dia importante, meu querido! Não vai fazer nem mesmo uma festinha para celebrar?
— Por mim eu ficava em casa lendo um livro ou estudando, a senhora me conhece. – respondeu Brandon. – Mas Kerry quer sair para jantar e disse que irá me levar para uma boate nova que estreou aqui perto. – Brandon soltou um largo e descontente suspiro. – Era longe do que eu queria fazer, mas sabemos como é Kerry… Se eu negar ela vai fazer aquele drama e eu não estou a fim de discutir no meu aniversário.
— Então vai aceitar fazer algo que não quer só pra agradar Kerry? – perguntou Christina, vendo Brandon dar de ombros, como se não houvesse outra opção. – Querido, longe de querer me meter em sua vida, mas sabe que o tenho como filho e preciso perguntar… Você está feliz ao lado de Kerry?

Brandon tentou responder afirmativamente, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Geralmente quando perguntavam se estava feliz em relação a algo ou alguém, Brandon costumava dar uma resposta burocrática, pois não gostava de ficar explicando seus complicados sentimentos para as outras pessoas. Mas com Christina era diferente. Assim como Madame Esther, Christina também cumpriu um papel importante em sua vida após a morte da mãe. Christina tinha um doçura no olhar e uma forma de falar que fazia com que qualquer um se abrisse sem medo de ser julgado. Com ela, Brandon sentia que podia ser ele mesmo.

— Você sabe que pode confiar em mim. – continuou Christina ao ver hesitação na resposta de Brandon. – Sou amiga de Esther e também amo Kerry como se fosse minha filha, mas me pergunto, às vezes, se vocês dois não cresceram em direções opostas e estão negando o óbvio…
— Eu jamais deixo de ver o óbvio, dona Christina. – disse Brandon, desistindo de continuar negando seus sentimentos. – Você tem toda e completa razão. Kerry ainda me ama muito, mas eu… acho que da minha parte o sentimento já se transformou em uma amizade. E não sei como dizer isso pra ela.
— É melhor dizer logo do que ficar dando esperanças pra uma jovem menina apaixonada que ainda tem muito a viver… – observou Christina.
— Eu concordo e vou fazer isso… Só preciso tomar coragem.
— E quando você acha que essa coragem virá? – perguntou Christina, com doçura no tom de voz. – Se esperar demais pode acabar piorando a situação.

Brandon ficou em silêncio, sem saber o que dizer, pois sabia que a mãe de Lucy tinha razão. Há muito tempo já sabia que não queria continuar o relacionamento com Kerry e há muito adiava o momento da definitiva conversa. Detestava magoar as pessoas, de ser a razão da decepção de alguém, mas não podia seguir a vida tentando controlar como os outros se sentiam em relação a ele. Precisava ser sincero com Kerry o quanto antes.

— A senhora tem razão. Não vou esperar mais. Vou deixar passar essa semana do meu aniversário e vou falar com ela. Prometo.
— Isso. A sinceridade sempre é o melhor caminho, por mais que doa no começo. Você vai fazer a coisa certa, ainda que Kerry precise derramar algumas lágrimas pelo caminho.
— Por falar em caminho… Posso compartilhar uma coisa com a senhora? Uma coisa que eu ainda não contei a ninguém, nem mesmo ao meu pai?
— Claro, querido. Você sabe que pode me contar tudo.

Brandon foi em direção à sua escrivaninha e pegou o notebook. Sentando-se junto à Christina em sua cama, Brandon mostrou à mãe de Lucy todo o planejamento no qual havia trabalho durante todo o ano.

— Não quero que ninguém saiba por enquanto. Mas precisava compartilhar com alguém, pois manter esse segredo só pra mim estava me matando.
— Entendo que queira sair da aba do seu pai e explorar novas oportunidades, mas… por que tão longe? – Christina franzia o cenho, tentando entender os planos do garoto. – Com tantos lugares que você poderia ir, por que logo Phoenix?
— Não sei, acho que pelo nome. – Brandon sorriu um sorriso inocente. – Sei que vai parecer loucura o que vou dizer, mas… Eu nunca consegui ser eu mesmo nessa cidade. Não sei exatamente o que sou, mas sei que não sou… isso. Nova York não combina com a minha personalidade. Eu preciso mudar completamente de ares e acho que uma cidade como Phoenix vai me mostrar o oposto do que eu sempre vi por aqui. É uma intuição, não sei explicar. Só sinto que é o lugar para onde devo ir.
— Se é o que você sente em seu íntimo, então você deve ir. – Christina colocou a mão em seu peito, bem na direção do coração. – Imagino que deva estar preocupado com a reação do seu pai, mas eu, Esther e todos nossos amigos estaremos aqui. Ele não estará sozinho.
— Muito obrigado. – Brandon deitou a cabeça sobre o ombro de Christina como se ela fosse sua própria mãe. – Lucy tem muita sorte de ter uma mãe como a senhora.
— E eu tenho certeza… – respondeu Christina, pegando Brandon pelo rosto e olhando diretamente em seus olhos. – Que onde quer que sua mãe esteja, ela está muito orgulhosa do filho que deixou aqui nesse mundo. Você é muito especial, Brandon, e não digo isso da boca pra fora. Você tem o coração mais puro que eu já conheci e tenho certeza que quando encontrar a pessoa que conseguirá ver através de você, ela terá muita sorte.
— Obrigado, mas eu não acredito que irei encontrar nenhuma “cara metade” pelo caminho. – afirmou Brandon, tentando não parecer rude. – Acho que preciso trilhar meu destino sozinho, sem estar amarrado a ninguém. Há muito o que descobrir no mundo e não vou conseguir fazer isso se estiver preso a outra pessoa.
— Você está muito jovem, ainda tem muito pela frente. – Christina lhe deu dois tapinhas sobre os ombros. – Não se feche ao amor dessa forma.
— Não estou fechado. – respondeu Brandon, sentindo que a frase tinha soado como uma mentira. – Eu só tenho planos muito individuais para mim, planos que não seguem o que a sociedade tem como confortável. E não consigo imaginar que pode existir alguém disposto a trilhar esse mesmo caminho comigo.
— Bem, é seu direito pensar o que quiser. Mas eu, como uma mulher romântica e que acredita que o amor move o mundo, penso que existe uma pessoa certa para cada um.
— É, a pessoa certa do meu pai era a minha mãe e a gente sabe como essa história acabou… – comentou com amargor.
— O que aconteceu foi uma tragédia, mas eu não tenho dúvidas de que seu pai é uma pessoa melhor porque conheceu sua mãe. E o amor deles deu você ao mundo, meu querido, e que presente para nós ter você por aqui! – Christina depositou um terno beijo na bochecha de Brandon e se levantou. – Não vou mais insistir nesse assunto, pois não quero ser chata. Mas se posso te dar um presente hoje, neste seu aniversário, é meu desejo de que você encontre nos olhos de alguém uma resposta para todas as suas perguntas.

Christina caminhou em direção à porta, deixando um pensativo Brandon encarando o vazio.
Antes que a mãe de Lucy pudesse sair de seu quarto, deixando-o com mil interrogações na cabeça, Brandon a chamou.

— Como os olhos de uma outra pessoa podem responder a uma pergunta?
— Acredite, meu menino, quando você encontrá-la, você saberá.

Christina saiu do quarto, levando consigo a paz de espírito de Brandon.
Ele tornou a olhar para o seu planejamento, tendo a certeza de que era aquele o caminho que precisava trilhar e tendo mais certeza ainda de que precisava trilhá-lo sozinho.
Esse aniversário seria o último onde ele faria tudo o que as pessoas esperavam dele e não o que queria de verdade. Prometeu a si mesmo que daqui pra frente tudo seria diferente. Prometeu que seus dezenove anos significariam o renascimento para uma nova vida, para um novo Brandon. Para alguém que ele sempre desejou ser.
Estava na hora de bater as asas e voar para longe do ninho seguro do qual vivera por tanto tempo.
Na cidade de Phoenix, no Arizona, a vida esperava por ele.

InstaPost #005 – Setembro Amarelo

Iniciado em 2015, o Setembro Amarelo é uma campanha brasileira que busca a prevenção do suicídio e também estimular pessoas que estejam passando por um momento difícil a pedirem ajuda.

Saúde mental é um tema que me toca pessoalmente, uma vez que luto contra a depressão e ansiedade crônica já há 15 anos. E se tem uma coisa que aprendi durante todo esse tempo é que a única maneira de manter nossa mente equilibrada é estar aberto a falar sobre o assunto.

Em uma era onde as pessoas nas redes sociais só expõem a parte feliz (e às vezes mentirosa) da vida, é muito fácil cairmos na ilusão de que tá todo mundo feliz e prosperando, enquanto somos os únicos seres fracassados do mundo que não conseguimos estar bem como os outros. E esse é um pensamento perigoso, principalmente se a pessoa não tem uma base familiar sólida para se apoiar ou amigos de confiança a quem recorrer. E essa sensação de solidão profunda pode levar a medidas extremas e desesperadas.

Tanto meu livro de contos “Essas Mulheres” como o meu romance “Need” falam explicitamente sobre depressão e suicídio, mas falam principalmente sobre pessoas que estão lutando para seguir em frente mesmo em meio a tantos traumas e dores. Mas neste Setembro Amarelo eu quero trazer também mais postes sobre o assunto para que isso deixe de ser tabu e a discussão possa ser cada vez mais naturalizada em nossa sociedade.

Para aqueles que estão lendo esse texto e sentem que precisam de ajuda, não deixem de ligar para o número 188. É gratuito e funciona 24 horas por dia. Você também pode seguir o @cvvoficial ou entrar no site www.cvv.org.br para mais informações.

Não se esqueçam que pedir ajuda jamais será fraqueza, muito pelo contrário… é um ato de coragem! Sua vida importa e muito! ❤️

[Linhas Invisíveis ] Capítulo 3 – Eu Queria Pertencer, Mas Não Me Sentia Bem Aqui

Seattle, Washington.

Maio de 2002.

Ela esperou a semana inteira por este momento.
A pequena Lois podia sentir o sangue ferver nas veias antes de entrar no palco. Dentro de seu corpo havia um misto de vergonha, ansiedade, animação e medo. Sentia tudo ao mesmo tempo.
Quando as cortinas se abriram e entrou no palco, a primeira coisa que fez foi procurar sua mãe na plateia. Queria que ela visse o quanto havia se preparado, o quanto poderia ser boa em alguma coisa, já que suas notas nas disciplinas tradicionais faziam sua mãe chorar de desgosto. Mas com as artes era diferente. Com as artes ela realmente se sentia em casa e parecia que tudo fluía com mais facilidade. Queria que a mãe, pela primeira vez, sentisse orgulho da filha que tinha.
As mães das outras crianças batiam palmas, tiravam fotos, gritavam o nome dos filhos, celebravam a peça infantil da escola como se fosse um espetáculo de Shakespeare. Tudo o que mais desejava era ver sua mãe fazendo o mesmo. Mas a pequena Lois descobriria cedo demais que querer não é poder e que sua mãe não estava na plateia. E soube disso assim que avistou Eleanor, a vizinha doce e prestativa que sempre cuidava de Lois quando Anne Morrison precisava trabalhar até mais tarde.
Eleanor aplaudia a menina e tirava fotos, torcendo por ela. Gostava muito da mulher, mas ela não era quem a menina precisava. Ela não era sua mãe.
A menina tentou ignorar sua decepção e decidiu se concentrar no que precisava fazer. Em meio a toda aquela gente sorrindo, Lois usava de toda a força que ainda tinha para não se derramar em água ali mesmo, em cima de um palco, na frente de todo mundo. Sorte que era apenas umas das três florzinhas da peça infantil e não tinha muitas falas, então sua péssima atuação não fez muita diferença. Falou o que precisava falar e ninguém prestou muita atenção no desespero que expressava em seus olhos.
A peça acabou normalmente. Havia corrido tudo bem. Pelo menos para as outras crianças e para as mães orgulhosas na plateia. Para Lois, nada estava bem.
Quando Eleanor veio ao seu encontro para abraçá-la, Lois mal conseguia se mover. Sem poder disfarçar os olhos marejados, levantou a cabeça e perguntou:

— Onde está minha mãe?
— Oh, querida, ela pediu mil desculpas por não poder estar presente. – explicou Eleanor com todo o cuidado do mundo. – Não fique chateada, é por uma boa causa. Ela precisou ficar no trabalho fazendo hora extra para conseguir pagar as dívidas no banco. Anne quer te dar uma vida melhor, você sabe que… – antes da mulher acabar de falar, Lois saiu em disparada em direção a qualquer lugar. – Lois! Espera! Volte aqui!

Eleanor ainda tentou correr atrás da menina, mas as pernas de Lois ganhavam uma velocidade extra quando precisava fugir de todos e estar sozinha. Correu e correu, passando por pessoas que mal conseguia ver o rosto, até encontrar o portão das escadas. Subiu os degraus sem sequer olhar pra baixo até que todo o barulho do evento lá fora ficasse bem distante e se sentou entre as escadas do terceiro e quarto andar.
Percebendo-se finalmente sozinha, permitiu que toda a água que conteve no corpo durante a última hora saísse, liberando a profunda frustração e raiva que sentia.
Lois não queria uma vida melhor, queria apenas que sua mãe pudesse estar presente em um momento tão importante. Depois de toda a semana de ensaios, depois de ter prometido que iria à escola ver sua primeira peça, não era justo que tivesse desistido em cima da hora. Ela havia prometido e Lois havia acreditado na promessa. Por não ter mais ninguém para chamar de família, sua mãe era a única pessoa da qual precisava. Não era justo. Não era!
A menina rasgou a fantasia que ainda vestia e permaneceu no mesmo lugar por quase uma hora, chorando copiosamente, esperando que alguém viesse ao seu resgate, esperando mãos amigas que pudessem acariciar suas costas, alguém que pudesse abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Mas ninguém apareceu.
Um estrondo assustador ecoou no céu, fazendo seu corpo saltar com o susto. Olhando pela janela das escadas, viu que se aproximava uma tempestade. Lois tinha pavor de tempestades, mas naquele momento desejou que um furacão invadisse a cidade e a levasse para bem longe. Para um lugar onde ela poderia pertencer, um lugar onde não tivesse a sensação diária de sufocamento, onde pudesse encontrar uma família de verdade.
Qualquer que fosse este lugar, não importava. Ela só queria ir embora, bater suas asas e voar como um pássaro por todo o mundo, até que pudesse encontrar um lugar para chamar de seu. Um lugar onde, finalmente, poderia chamar de lar

Cidade de Nova York, Nova York.
Maio de 2002.

“Phoenix, cidade localizada na região central do Arizona, é uma das cinco cidades mais populosas dos Estados Unidos. Rodeada pelo Deserto de Sonora, a cidade possui verões muito quentes e um clima bastante árido. Um lugar repleto de cultura, vasta gastronomia, arquitetura moderna e…”

— Amor?

A voz que preencheu o quarto repentinamente fez com que Brandon fechasse o notebook como se sua vida dependesse disso.
Olhando para trás, viu o rosto feliz de Kerry. Seus olhos o olhavam como se ele fosse um precioso tesouro e Brandon sorriu um sorriso meio amarelo, sentindo-se culpado por não conseguir sentir a mesma coisa pela namorada já há algum tempo.

— Está escondendo o que aí? – perguntou Kerry, percebendo como Brandon havia fechado o notebook rápido demais.
— Nada, só pesquisando algumas coisas. – desconversou, colocando o notebook sobre a escrivaninha.
— Espero que essa pesquisa seja sobre alguma faculdade da Ivy League para você se inscrever, pois se seu pai sequer desconfiar que andou pensando em não seguir para o ensino superior…
— Isso, era exatamente o que estava fazendo – disse com toda a convicção que conseguiu. – Mas o que houve?
— Nada, não posso vir ver meu namorado? – ela se aproximou, dando um rápido beijo em seus lábios.
— Você está com cara de que tem alguma novidade para me contar.
— Eu amo o quanto você me conhece só de olhar! – ela disse com efusividade, pensando ser a única por quem seu namorado tinha tal atenção. – Mamãe vai me dar uma viagem à Paris no meu aniversário! Vou passar uma semana lá, estou tão animada!
— Você fala como se não tivesse visitado a cidade, umas… cinco vezes? – disse Brandon, revirando os olhos.
— Não importa! Paris é sempre Paris! – Kerry suspirou, já imaginando em sua cabeça todo o roteiro que iria fazer pela cidade. – Você quer ir comigo?
— Ahn, não sei. – respondeu um desanimado Brandon, coçando a nuca. – Preciso estudar para os exames finais.
— Brandon, você é um CDF que tirou um A em todas as matérias. Mesmo que deixe de fazer uma prova você ainda vai ter média o bastante para passar. – observou.
— Não é só por mim. – explicou, desviando o olhar. – Estou ajudando Tim Clark com aulas extras de filosofia e não acho justo desmarcar uma semana de estudos com ele para ir a uma cidade que já conheço de cor.
— Você realmente vai trocar uma semana romântica no aniversário de sua namorada em Paris para ajudar o estúpido do Tim Clark? – Kerry cruzou os braços, enfadada com aquela conversa.
— Não é questão de trocar, Kerry, é questão de manter a palavra. – respondeu com firmeza. – Eu dei a minha palavra que iria ajudá-lo a passar na matéria e gosto de cumprir com o que prometo.
— Eu tenho mesmo que te amar muito, porque às vezes, sinceramente, você é completamente irritante. – Kerry revirou os olhos e bufou com frustração. – Pelo menos está cobrando pelas aulas extras?
— Kerry, eu acabei de descobrir que meus pais me deixaram uma conta no banco que custeia duas faculdades em qualquer lugar do país com sobras. Por que eu iria cobrar algum dólar de um garoto que estuda em nossa escola com bolsa de estudos integral?
— Por que é o certo a fazer quando a gente faz algum tipo de trabalho, independente de quanto temos na conta? – respondeu em tom debochado, sendo incapaz de acreditar que Brandon relutava em aceitar algo tão óbvio.
— Isso não é um trabalho, eu estou ajudando um colega de classe que sempre me tratou muito bem e sofre bullying da classe inteira. – disse com toda a calma que conseguiu, tentando mascarar sua crescente irritação pelas pontuações da namorada. – Eu jamais cobraria um centavo, mesmo que não fosse filho de quem sou.
— Eu acho melhor eu sair desse quarto antes que a gente discuta mais a sério, porque, eu juro, não consigo entender como alguém como você pode existir. – ela se virou para sair, a fim de evitar começar mais uma das brigas constantes que estavam tendo nos últimos tempos. – Eu ligo mais tarde.

Kerry saiu do quarto e bateu a porta, sem querer esconder toda a irritação com o namorado que às vezes parecia ter vindo de outro planeta.
Brandon deu de ombros e deixou que ela fosse. Também já estava ficando aborrecido com o jeito de falar de Kerry e com o fato de que não conseguia mais se conectar com a namorada como o fez um dia. Cada vez mais sentia dentro de si a necessidade de estar sozinho, sem ninguém a quem dar satisfações, para conseguir compreender mais a fundo os sentimentos confusos que angustiavam seu coração desde o início do ano. Era como se uma chave estivesse virando dentro dele e não sabia o que fazer com isso. Sabia que a adolescência era um momento difícil para todo ser em qualquer parte do mundo, mas não imaginava que fosse dessa forma. Não imaginava que, a cada dia que passava, ele sentia estar se transformando em outra pessoa, em alguém muito diferente de todos naquela cidade.
Algumas ideias rondavam sua cabeça, ideias que ele não conseguia deixar de pensar um minuto sequer. Sabia que seu pai e todos os amigos da família tinham planos para ele, principalmente por ser um dos melhores alunos de sua classe, mas Brandon sentia cada vez mais dentro de si que seu caminho não era um caminho em linha reta. Sempre teve uma sensação de distância das pessoas ao redor, do círculo da alta sociedade de Nova York, e não se via vivendo uma vida como a deles. Depois de tudo o que já tinha visto e aprendido em seus dezessete anos de vida, tinha cada vez mais claro em sua mente que seu destino era muito mais do que fazer uma faculdade, arranjar um emprego comum, encontrar qualquer mulher para casar, ter filhos, se aposentar e morrer. Sabia que sua verdadeira vida não estava ali entre aquelas pessoas, naquele mesmo lugar onde havia nascido e crescido.
Como uma ave que está amadurecendo o suficiente para sair do ninho, Brandon precisava voar para bem longe, a fim de encontrar seu caminho e entender mais sobre quem era de verdade, longe tudo o que sempre lhe foi imposto como certo.
Sentando-se na cadeira em frente à escrivaninha, o rapaz abriu novamente o notebook e passou longos minutos lendo e relendo a matéria sobre a cidade de Phoenix, no Arizona. Era um lugar que ele ainda não conhecia e parecia ter tudo o que precisava. Além do mais, o nome que remetia ao pássaro mitológico trazia a sensação de uma oportunidade de recomeço, uma oportunidade de queimar tão profundamente a ponto de se tornar algo novo, algo totalmente diferente. Ainda era muito cedo para tomar uma decisão, uma vez que precisava terminar a escola e se sentir seguro o bastante para viver uma vida afastado do seu pai depois de tudo o que enfrentaram juntos. Mas se tinha algo que Brandon Reed já sabia era que seu futuro não estava em Nova York. E já estava na hora de buscar o seu verdadeiro lugar no mundo.