17 – Ainda Temos Onde Nos Agarrar?

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O mundo inteiro acompanhou ontem a apuração de votos da eleição americana. Mesmo aqueles que nunca haviam se interessado por política americana ficaram ligados, seja pela internet ou pela TV, para acompanhar o maior embate político dos últimos tempos. E acredito que a maioria não tenha se apaixonado pela política da noite por dia… Mas sabiam que um candidato racista, misógino, xenófobo etc. não podia sair vencedor da eleição mais importante do mundo, principalmente quando esse mesmo mundo precisa cada vez mais de amor e aceitação. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Acordamos assustados. Acordamos sabendo que um louco, sem qualquer experiência prévia na política ou nas forças armadas, agora tem um enorme poder nas mãos. Um homem que abusa de mulheres, que dispara frases de ódio contra mulçumanos e latinos, que prega um discurso bélico, e que agora tem o poder de decidir sobre o uso de armas nucleares ou se lutar contra o aquecimento global vale a pena ou não.
Pessoalmente, me interesso e leio muito sobre política americana desde o 11 de Setembro. E não porque acho os EUA um lugar maravilhoso ou porque desgosto do meu país, mas sim porque desde então eu me dei conta de que tudo o que acontece por lá afeta todos nós. E se ainda tem alguém que pensa que o que aconteceu ontem não vai afetar ninguém além das fronteiras americanas e que isso não deve ser da preocupação de brasileiros, por favor, se informe, estude, saiba o que está acontecendo fora da sua bolha, porque sempre afetou e continuará afetando cada vez mais. Goste ou não, os EUA detém o poder sobre a maior parte do mundo. Se um pauzinho dos pilares do planeta como conhecemos hoje for retirado por eles, caímos quase todos. É uma droga, mas é assim que é.
O ódio está crescendo como um câncer fora de controle. Banalizamos a violência, achamos normal o machismo, vemos crianças morrendo afogadas ou soterradas por prédios explodidos na Síria e em seguida vamos jantar. E ainda continuamos com o discurso de “não adianta fazer nada”. Por quanto tempo mais seguiremos apáticos em relação a tudo o que acontece?
É verdade, talvez não tenhamos poder político ou financeiro para fazer muita coisa. Nossas vidas já são complicadas o bastante. Mas você não precisa sustentar a África ou concorrer a um cargo político para fazer a diferença. A mudança se apresenta aos nossos olhos todos os dias, nas mínimas coisas, e geralmente passam despercebidas. Não são os acordos políticos que mudam o mundo. São os pequenos gestos de cada dia. E isso todos nós podemos fazer… juntos!
Após o desespero e a estupefação que tomou conta de todos ontem à noite, enquanto muitos choravam e outros sentiam raiva daqueles que batem no peito e se orgulham por discriminar um semelhante, uma luzinha de esperança começou a surgir. No Twitter, famosos e não famosos fizeram uma pequena promessa, uma promessa de 140 caracteres, de cuidar um do outro em tempos tão difíceis. Prometeram que serão pacientes com os que ainda não entenderam a gravidade da exclusão; prometeram que irão agir cada vez que virem alguma discriminação nas ruas, que irão defender as minorias, que espalharão paz e amor em todas as oportunidades, até nas mais difíceis; prometeram que serão luz no meio de tanta escuridão, um sopro de esperança para os desesperados, a força que não possuem os mais fracos. Façamos o mesmo por aqui.
A vitória de Donald Trump deu voz àqueles que lutam por uma supremacia de raça, de gênero e de religião. Cada vez mais vemos a quantidades de lobos que estão espalhados pelo mundo, uivando suas ideias loucas e assassinas. E a pior parte de tudo é ver pessoas que amamos fazerem coros a essas vozes. Li comentários que pregavam que deveríamos virar às costas para quem apóia esse tipo de políticos. Entretanto, será esse o caminho certo? Não será que virar as costas para nossos amigos, para nossas famílias, para aqueles que amamos por causa de suas visões “tortas” do mundo é fazer o mesmo que “o lado de lá”, que é excluir? Se lutamos contra a exclusão, não é incoerente fazer o mesmo “do lado de cá”? Eu proponho uma outra ideia. A ideia de que podemos conversar, convencer, informar aos que estão próximos de que a ideia do totalitarismo e a falta de empatia num mundo globalizado como o nosso já não cabe mais. Que somos livres para desgostar de muitas coisas, mas que não podemos deixar que esse nosso desgosto saia de nós e machuque alguém. Pregar a ideia de que seu direito acaba quando começa o direito do seu próximo. E precisamos fazer isso com a voz baixa, com paciência e com um olhar amoroso. Não é berrando e atirando pedras que vamos ser diferentes daqueles que julgamos ruins e nocivos, pois eles fazem exatamente isso. O maior perigo de uma luta talvez seja nos transformar naquilo que mais desprezamos.
Mantenham isso em mente. Assim como ontem centenas de pessoas começaram uma corrente de promessas para o bem, comecemos uma hoje aqui também. Não iremos mudar a cabeça de todo mundo, mas qualquer pessoa que consiga ver o absurdo e o crime que é odiar alguém por causa das escolhas que essa pessoa fez para a própria vida, já será uma vitória. Não desistam daqueles que ainda mantêm uma mente fechada: com calma, amor e muita, mas muita paciência, você pode obter resultados inimagináveis. Vamos acreditar e lutar por isso.
Hoje é um dia de luto para todos aqueles que tinham a esperança de ver uma mulher presidente do maior cargo político do mundo e que acreditam na integração e na compreensão entre povos. Vamos chorar nossas lágrimas e tirar esse dia para refletir tendo em mente que, a partir de amanhã, nossa luta por um lugar melhor precisa recomeçar. É muito difícil tirar forças do nada quando vemos tanta maldade e morte todos os dias ante nossos olhos. Nesta manhã eu mesma acordei pensando se isso tudo vale a pena e se ainda há no que se agarrar. Até que minha mente me lembrou de uma cena da minha história favorita de todos os tempos, que queria deixar aqui e compartilhar com vocês. Esta cena mudou minha vida e me dá forças cada vez que eu começo a acreditar que nada vale a pena. Espero que tenha o mesmo efeito sobre vocês também.

 

 

Para finalizar, deixo aqui minha frase preferida de Abraham Lincoln, para muitos o maior presidente americano da História. Não necessito dizer mais nada… ela fala por si só.

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Resenha 15 – A Condessa Cega E A Máquina De Escrever

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“Eu vagava pela floresta havia dias. Você era, pelo que me lembro, um pequeno córrego que não constava de nenhum mapa. Eu mesmo não a marquei no meu, pensando em mantê-la como um segredo, mas, por outro lado, nunca consegui achar o meu caminho de volta.”

Sou apaixonada por descobrir livros desconhecidos. Livros dos quais você nunca ouviu falar e nem sequer conhece o seu autor. Todos nós (espero!) já nos deparamos com um livro assim: aquele que você encontra no cantinho das enormes prateleiras de uma livraria e sente uma imediata conexão com a capa e com a sinopse. É uma compra arriscada, de fato, pois é complicado gastar dinheiro em algo tão desconhecido para depois, quem sabe, odiar. Mas em todas as minhas compras “arriscadas”, até o presente momento, fui muito feliz. E o livro  “A Condessa Cega e a Máquina de Escrever” foi mais um que entrou para essa lista de descobertas magníficas.
Apesar da escritora Carey Wallace ser americana, a história se passa na Itália do século XIX. Carolina, uma jovem e bonita condessa, vai perdendo a visão gradativamente. Ela tenta alertar aos pais e ao noivo sobre o que está acontecendo, porém ninguém acredita em suas palavras. Só quem lhe dá algum crédito é Turri, seu vizinho e melhor amigo. Conforme vai vendo o mundo se apagando com o passar dos dias, Carolina abre os olhos para o mundo mágico dos sonhos, muitas vezes ajudada pela imaginação irrefreável de Turri. Quando toda a luz se vai para sempre, ela ainda consegue se enxergar em sonhos e é isso que a mantém viva.
A protagonista da história é Carolina, mas Turri rouba as cenas nos poucos (talvez nem tão poucos assim, eu é que queria Turri presente em todas as páginas mesmo!) capítulos em que aparece. Dono de uma personalidade única e que vai na contramão do estilo da sociedade em que vive, Turri é marginalizado por suas invenções mirabolantes. Se tivesse recursos e oportunidades maiores, seguramente entraria para a História como algum cientista que mudou para sempre a forma como as pessoas vêem o mundo. Mas como está preso a um pequeno vilarejo na Itália, ele é apenas considerado louco, pois suas experiências nem sempre dão certo. Sua curiosidade é tão grande que Turri vive para descobrir respostas às coisas mais simples, como por que a chuva cai do jeito que cai ou por que jogar uma pedra sobre a água provoca sobre a mesma movimentos circulares. Ninguém tem paciência para as experiências de Turri, apenas Carolina, que muitas vezes também participa de suas invenções.
Carolina e Turri se complementam e se entendem, se enxergam além das aparências e se cuidam com tanta ternura que acaba sendo difícil para ambos manter tanto amor apenas mascarado de amizade, ainda que ambos sejam comprometidos. E é a partir de um presente especial de Turri que a vida de Carolina muda para sempre.
“A Condessa Cega e a Máquina de Escrever” vai muito além de uma clichê história fofa de amor, pois traz um final que alguns leitores acostumados com o mesmo enredo “príncipe-encontra-princesa-e-chega-o-final-feliz” podem não gostar muito. Apesar da escrita da autora ser carregada de poesias e metáforas que nos transportam ao mundo de sonhos de Carolina e Turri, é uma história bem verdadeira, onde todos os personagens que compõem o enredo parecem ser de carne e osso. E nada no nosso feio mundo real é preto no branco, a gente desliza mesmo por várias camadas de cinzas e imagino que o final do livro tenha de fato acontecido com muitos apaixonados do passado, que não puderam viver sua história de amor do jeito que sonharam devido às circunstâncias. Mas se olharmos o livro sob a perspectiva de que o verdadeiro amor é dar ao outro o poder de sonhar e de nos devolver a vontade de estar vivos, talvez consigamos ficar um pouco menos melancólicos.
Ame ou odeie o final, a verdade é que “A Condessa Cega e a Máquina de Escrever” é um livro que fica em você. Faz mais de duas semanas que acabei de lê-lo e ainda estou relendo alguns trechos para matar as saudades de Turri. Confesso que ainda estou numa ressaca literária com este livro e tenho certeza de que falarei sobre a ternura deste livro por muito e muito tempo…

Título: A Condessa Cega e a Máquina de Escrever
Autor: Carey Wallace
Editora: Rocco
Número de Páginas: 256

#26 – Catarina E A Noite

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Catarina se esconde da noite.
Quando o sol se põe atrás do morro de sua humilde casa, ela corre pelos corredores acendendo todos os interruptores que encontra pela frente.
“É para evitar que o dia acabe”, diz Catarina com os olhos arregalados.
Catarina tem vinte anos de idade e muita memória na cabeça. Suas irmãs já não sabem o que fazer, os vizinhos olham desconfiados quando passam por ela, julgam-lhe anormal. Catarina não tem nada de anormal, assim como não tem nada de pais ou de amigos. Tem apenas um ursinho de pelúcia que carrega sempre consigo.
Janaína e Mara, as irmãs, já tentaram arranjar-lhe um marido, mas que homem quer disputar a atenção com um bichinho de pelúcia? Quer pessoa quer cuidar de alguém que ficou parada no tempo?
Ah, o tempo! Vamos falar sobre o tempo!
Vamos falar sobre aquela data, sobre aquela noite, quinze anos atrás.
“Vamos, vamos falar”, diz Catarina, mas ninguém quer ouvir. Melhor é ignorar, deixar que o silêncio leve as pegadas das palavras que ainda restam ser ditas.
Catarina fala sobre a sombra em seu quarto, sobre o medo chegando, sobre a dor, muita, muita, muita dor! Janaína sai da sala, Mara sacode a menina esperando que suas memórias chacoalhem tanto até virar areia. Areia que pode ser varrida para fora de casa e se perder com o sopro do vento.
Ninguém aguenta mais Catarina e suas memórias.
Ninguém aguenta mais Catarina… Nem Catarina!

Catarina se esconde da noite.
Luzes, lanternas, abajures, tudo está aceso, só para prevenir. Mas… e se não der pra prevenir? E se não der para evitar como não evitou quinze anos atrás?
Catarina mantém os olhos abertos.
Pode acabar a luz, pode ficar escuro, pode sim, tudo pode acontecer, a qualquer momento tudo pode acontecer!
A menina mantém os olhos abertos, põe o seu ursinho de pelúcia como sentinela e espera…. espera… espera…
Faltam 8 horas para o sol nascer, por volta de 5:15 da manhã, já até sabe a hora certinha, Catarina sempre sabe… Catarina sempre sabe, sempre soube, mas finge não saber. É sempre mais fácil, mais suportável não saber…
Faltam 8 horas, falta muito, ah, como falta!
Mas ela iria esperar, como todos os dias, iria esperar, de olhos abertos e luzes acesas.
Uma hora o sol vai nascer, pode demorar, mas uma hora ele aparece lá de trás do morro. Uma hora a luz toca a janela de seu quarto, marca suas pegadas pelo chão e abraça Catarina com uma segurança materna.
Catarina ainda vive, só vive, porque o sol uma hora aparece…
E a boa notícia, ah, Catarina!
A boa notícia é que ele sempre aparece…

Escritor 34 – Eduardo Galeano

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Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu em uma família católica de classe média de ascendência europeia. Na infância, Galeano tinha o sonho de se tornar um jogador de futebol; esse desejo é retratado em algumas de suas obras, como O futebol de sol a sombra (1995). Na adolescência, Galeano trabalhou em empregos nada usuais, como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. Aos 14, vendeu sua primeira charge política para o jornal El Sol, do Partido Socialista.
Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960 como editor do Marcha, influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti. Foi também editor do diário Época e editor-chefe do jornal universitário por dois anos. Em 1971 escreveu sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina.
Em 1973, com o golpe militar do Uruguai, Galeano foi preso e mais tarde seu nome foi colocado na lista dos esquadrões da morte e, temendo por sua vida, exilou-se na Espanha, onde deu início à trilogia Memória do Fogo. Em 1985, com a redemocratização de seu país, Galeano retornou a Montevidéu, onde viveu até sua morte, em 2015.
Em princípios de 2007 Galeano caiu seriamente doente, mas recuperou-se, após uma bem-sucedida cirurgia em Montevidéu.
Galeano foi internado dia 10 de abril e morreu próximo das 9h em 13 de abril de 2015, em Montevidéu, de câncer no mediastino, após o tumor provocar metástase.

Fonte: Wikipédia

Principais Obras:

As Veias Abertas da América Latina (1971)
Memórias Do Fogo (1982 – 1986)
Os Filhos Dos Dias (2012)

Opinião Pessoal: Eduardo Galeano só perde para Virginia Woolf na minha lista de escritores favoritos. Sua capacidade de contar histórias, que ao mesmo tempo são narrativas e ao mesmo tempo poesia, me inspiram e me ensinam a ser uma escritora melhor cada vez que pego num livro seu.
Para aprender mais sobre a América Latina não tem escritor melhor. Ele conta trajetória do nosso continente através da vida das pessoas, histórias reais (talvez com um toquezinho de ficção) que atravessaram os piores períodos nas mãos dos ditadores e nosso povo, sempre sofrendo com a política torta que parece nunca se ajeitar. Seu livro mais famoso “As Veias Abertas Da América Latina” é respeitado mundialmente e usado em diversas faculdades.
Para minha sorte, Galeano tem uma obra imensa e ainda não cheguei a ler nem metade de seus livros. Mas daqui a alguns anos, mesmo quando  completar minha leitura de suas letras traduzidas, seguramente vou procurar ler toda sua obra no idioma original, para que, assim, eu nunca tenha que me despedir deste escritor que mudou para sempre minha forma de enxergar a Literatura e o nosso maravilhoso continente.

Resenha 14 – Três Semanas Com O Meu Irmão

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Categorizo o livro “Três semanas com meu irmão” como aquele que mudou minha visão sobre Nicholas Sparks.
Quando o peguei para ler tinha o sentimento de “vamos lá para mais uma típica história do senhor Sparks”. Não que eu odeie suas invenções, muito pelo contrário, adoro a forma com que ele escreve, porém depois de alguns livros você acaba percebendo vícios, detalhes parecidos em todos eles. Já sabia que seria um pouco diferente por ser uma história real e ser escrita junto ao irmão, entretanto continuava com a sensação de que leria o mesmo de sempre. Logo de começo a narrativa é diferente por se tratar da história dele, e então eu comecei a me apaixonar por Nick (como seu irmão o chama), fui me identificando com a criança que ele foi e com sua maneira de ser. Enquanto lia suas aventuras e dificuldades familiares, pensava em todas as suas obras que li e até mesmo naquelas que não li, mas assisti aos filmes (ei, não me diga que nunca assistiu a um filme baseado numa história de Nicholas Sparks?) e vi todas de forma diferente. Nunca imaginei que “Um amor para recordar” era baseado em sua irmã, nem que “O resgate” foi inspirado no seu filho Ryan.
Pensando nas histórias pude ver um pouquinho de Nicholas nelas, pude ver um pouco da dor que ele passou, um pouco da sua simplicidade em cada frase. Pensei muitas vezes que os romances acabavam parecidos por ele fazê-los apenas por dinheiro, por ter se tornado algo para lucrar e mudei de opinião sobre Nicholas, por saber tudo que ele passou e perdeu, tudo que ele ganhou e também os sacrifícios que fez para que essas histórias tivessem início, meio e fim.
Ao terminar o livro “Três semanas com meu irmão” senti vontade de abraçar os dois, tanto Nick quanto Micah e agradecer um ao outro por terem tido essa relação maravilhosa que serviu de apoio a ambos, além de possibilitarem a todos lerem e conhecerem essas aventuras e tragédias. Foi o melhor livro que eles poderiam ter escrito.
Indico o livro pra quem gosta do autor, pra quem não gosta e tem interesse de mudar de ideia, pra quem simplesmente quer conhecê-lo melhor. No livro é apresentada a história da família Sparks, desde a infância até a atualidade da escrita do mesmo, por lembranças em meio a uma viagem feita por Nicholas e seu irmão Micah. A escrita é a mesma fluida de todos os outros livros, você se apega às pessoas que nunca conheceu, se entristece e se alegra a cada minuto. Espero que mais pessoas se emocionem com a vida dessas duas pessoas e possam gostar um pouco ou ainda mais desse autor tão conhecido e ao mesmo tempo desconhecido por nós.

Título: Três Semanas Com O Meu Irmão
Autor: Nicholas Sparks
Editora: Arqueiro
Número de Páginas: 320

Meus 9 Trechos Favoritos Do Livro “E Se Obama Fosse Africano”, De Mia Couto.

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Mia Couto é um dos mais importantes escritores de Moçambique. Ele é conhecido pelos seus incríveis romances, contos e poesias. Mas no livro “E Se Obama Fosse Africano”, uma coletânea de palestras que proferiu em diversos lugares do mundo, Mia também se mostra espetacular como um pensador contemporâneo. Suas visões sobre política, desigualdades sociais e raciais, cultura e literatura deixam qualquer leitor, seja este fã ou apenas um novo conhecedor de seu trabalho, maravilhado com as ideias do escritor.
Foi muito difícil escolher apenas nove trechos – uma vez que eu marquei o livro quase todo – mas aqui estão os que, para mim, tiveram mais importância:

1)    “O único segredo, a única sabedoria é sermos verdadeiros, não termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades.”

2)    “Estamos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra a nossa pessoa, o nosso grupo, a nossa etnia, a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os ‘outros’.”

3)    “Fala-se muito dos jovens. Fala-se pouco com os jovens. Ou melhor, fala-se com eles quando se convertem num problema. A juventude vive essa condição ambígua, dançando entre a visão romantizada (ela é a seiva da Nação) e uma condição maligna, um ninho de riscos e preocupações (a Sida, a droga, o desemprego).”

4)    “A escola é um meio para querermos o que não temos. A vida, depois, ensina-nos a termos aquilo que não queremos. Entre a escola e a vida resta-nos sermos verdadeiros e confessar aos mais jovens que nós também não sabemos e que, nós, professores e pais, também estamos à procura de respostas.”

5)    “A verdade é que nós somos sempre não uma mas várias pessoas e deveria ser norma que a nossa assinatura acabasse sempre por não conferir. Todos nós convivemos com diversos eu, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.”

6)    “Quanto mais pobre é um país maior é a capacidade de se destruir a si mesmo.”

7)    “A cilada maior é acreditarmos que as armadilhas estão sempre fora de nós, num mundo que temos por cruel e desumano. Ora, por mais que nos custe, nós somos também esse mundo. E as armadilhas que pensávamos exteriores residem profundamente dentro de nós. Quebrar as armadilhas do mundo é, antes de mais, quebrar o mundo de armadilhas em que se converteu nosso próprio olhar.”

8)    “Tenho escrito repetidamente que o nosso maior inimigo somos nós mesmos. O adversário do nosso progresso esta dentro de cada um de nós, mora na nossa atitude, vive no nosso pensamento.”

9)    “Cada um de nós corre o risco de ficar sepultado no seu próprio passado. Todos temos de resistir para não ficarmos aprisionados numa memória simplificada que é o retrato que outros fizeram de nós. Todos trazemos escrito um livro e esse texto quer-se impor como nossa nascente e como nosso destino. Se existe uma guerra em cada um de nós é a de nos opormos a este fardo de estarmos condenados a uma única e previsível narrativa.”

Bônus: “Um país em que as mulheres só podem ser a sua metade está condenado a ter apenas metade do seu futuro.”

Resenha 13 – Se Você Me Chamar Eu Largo Tudo… Mas Por Favor, Me Chame

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“Em plena madrugada, olhe para os edifícios altos e vai ver que há poucas luzes acesas, pouquíssimas. Quase todo mundo dorme, só há uns poucos que estão acordados… E esses são os que procuram e os que encontram. Nessas altas horas da noite, quando todo mundo dorme, eles estão amando ou desfrutando de conversas intensas… E esse sentimento e essas palavras mudam a vida deles.”

Foi ano passado que achei este livro numa livraria. O nome me chamou muito a atenção com um titulo que é mais uma frase e uma frase muito bem formulada. Aliada à ótima sinopse da contracapa, não resisti e resolvi levá-lo. Como faço com a maioria dos meus livros, o coloquei em minha estante e esperei que chegasse a hora de lê-lo. O último fim de semana me fez redescobrir este livro entre tantos outros, pois queria algo pequeno (o livro tem apenas 150 páginas!) e leve para ler em um final de semana e descansar um pouco dos estudos e leituras literárias que ando fazendo.
“Se Você Me Chamar Eu Largo Tudo… Mas Por Favor, Me Chame” foi escrito pelo espanhol Albert Espinosa. A história também se passa na Espanha e conta a vida de Dani, um homem que se dedica a buscar crianças desaparecidas e está separando de sua mulher. Enquanto a esposa arruma as malas e vai embora, Dani recebe a ligação de um pai desesperado atrás do filho desaparecido, que foi levado pelo sequestrador até a ilha de Capri, na Itália. Por ter vivido momentos mágicos nessa ilha, Dani aceita o caso e retorna à ilha tendo como missão encontrar o menino e reencontrar em suas próprias lembranças o menino que um dia foi.
A história tem uma premissa muito boa, mas não foi bem executada. A narrativa – que é sempre feita em primeira pessoa – me pareceu pobre e preguiçosa. Os parágrafos são curtíssimos e a história é mesmo explicada através dos diálogos. Deu a impressão que o autor tinha algum prazo curto pra terminar a história e fez um rascunho em forma de livro.
Outro ponto que me incomodou foi a falta de perguntas respondidas. O autor criou toda uma trama interessante, onde o passado do protagonista parece ter algo a ver com o menino que desapareceu, mas Albert Espinosa resolveu deixar todas as questões em aberto. Eu adoro finais abertos quando são bem feitos e tem um propósito, o que não foi o caso. Outra vez, me pareceu tudo muito corrido e no fim a justificativa para todas as questões se reduzem simplesmente no bordão “a vida é assim, cheia de mistérios” e fica por isso mesmo.
Entretanto, existem pontos positivos, como os personagens com quem Dani se encontra no passado e mudam sua vida completamente. As conversas do protagonista com duas pessoas bem mais velhas, em diferentes fases da vida, nos coloca para refletir sobre diversos aspectos sobre a paixão de estar vivo e fazer nosso tempo aqui valer a pena.
Também me agradou uma certa característica física do personagem principal que achei bem original e não costumo ver em livros. A sinopse não fala nada sobre isso, então é muito legal descobrir de repente  que Dani é diferente.
“Se você me chamar…” é um livro bom e só. Ótimo pra ser lido em um dia e para relaxar a mente, que era meu objetivo. Mas não é um livro que marca ou que vá fazer muita diferença em nossas vidas. Com um nome atrativo desses e uma capa muito bem feita, é uma pena.

16 – O 1% Que Faz A Diferença (Um Desabafo!)

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Faz mais ou menos uma hora que estou olhando para a página em branco no Word pensando no que escrever. Queria dizer algo feliz, mas não sei como. Queria escrever um post inspirado para dar esperanças às pessoas e falar que tudo vai acabar bem. Queria escrever um conto pro projeto #52contos que dissesse algo, que passasse uma boa mensagem, mas não sei o que escrever. Tenho muitas histórias para serem escritas, para fazer com que saiam de mim e existam em um papel e a fila só aumenta. Mas hoje não consigo criar uma história e fingir que nada está acontecendo. Pensei em deixar pra lá, fechar tudo e deixar pra escrever outro dia quando tudo acalmar. Mas o problema é que quero escrever. Eu quero dizer, sinto a necessidade, minhas mãos coçam, meu peito está cheio, tenho muito o que dizer ainda que saiba direito o quê.
Não é de hoje e nem de ontem que parece que o mundo enlouqueceu. Nós nos chocamos com alguma coisa agora e depois nos chocamos com outra. Talvez conseguimos um dia para respirar e então tudo volta outra vez. Parece que só piora e que tudo está perdido.
Não conheço ninguém na Franca, não conheço ninguém na Turquia, ou na Síria, ou na Nigéria ou no Iraque. Alias, é verdade, conhecer conheço pouca gente perto da maioria das pessoas. Mas existe algo chamado empatia e eu não posso evitar em me sentir mal, realmente mal, por tudo o que está acontecendo.
Sou apaixonada por culturas e religiões, devoro o que puder sobre o assunto e às vezes me sinto tão conectada a um desses lugares que até me sinto parte deles, mesmo nunca tendo pisando naquele território. O modo de vida e as crenças das pessoas me deixam apaixonada e com mais vontade ainda de viver neste mundo para saber mais e mais. Mesmo não concordando com tudo e até achando algumas coisas muito doidas, eu tento olhar sempre de fora, me reconhecendo como alguém que tem uma visão de vida diferente da que estou observando, mas que ambas compartilhamos o mundo e temos a obrigação de nos respeitar. E por isso me dói, me destrói ver essas pessoas de quem me sinto tão próxima serem ou difamadas por causa de suas crenças ou destruídas fisicamente e moralmente por essa obsessão do homem pelo poder acima de qualquer coisa. Nunca antes estivemos tão conectados e nunca antes nos destruímos tanto. A oportunidade que tínhamos de nos conhecer e de nos aproximarmos como povos e de descobrirmos as belezas de nossas vidas está sendo usada para nos matarmos. Estamos vivendo numa selva onde o “salve-se quem puder” virou lei e que tirar uma vida virou tão banal quanto arrancar uma flor de um canteiro.
Isso tem que parar!
Antes de chegar em uma rede social e endossar mais ainda o ódio que vemos nos noticiários todos os dias, se informem. Usem os 5 minutos que vocês têm pra fazer um post preconceituoso para estudar o que é de verdade a religião mulçumana, que nada tem a ver, sob nenhum aspecto, com o que o Estado Islâmico faz. Se querem criar guerra por causa de política, romper laços com amigos e familiares e falar coisas absurdas e que não tem qualquer fundamento, procurem ler mais livros sobre a história do nosso país, sobre a história da América Latina (que tudo tem a ver com a história do Brasil). Indico Eduardo Galeano e Darcy Ribeiro só pra começar. Verifiquem informações antes de tomá-las como certas e saírem reproduzindo discursos burros que ouviram da boca de outras pessoas. Se você, assim como eu, se pergunta o que pode fazer diante de tanta guerra e tantas mortes pelo mundo, procure primeiro olhar o outro como um indivíduo cheio de belezas e imperfeições, alguém que tem uma vida e uma educação totalmente diferente da sua e que ainda assim tem em mãos um mundo maravilhoso para te mostrar.
Pequenas ações levam à grandes diferenças. O Sonho de Letras , por exemplo, não tem muitos acessos, não é um lugar com mil visitas por dia mas, ainda assim, eu não consigo desistir disso aqui porque é uma maneira muito pequena que eu tenho de falar aquilo que acredito que possa fazer a diferença na vida de alguém. A Literatura e a escrita salvaram minha vida de inúmeras maneiras e me deram um presente que nada e nem ninguém mais deu: a oportunidade de reconhecer o outro como alguém além de mim e cuja vida vale tanto quanto a minha, não importa de onde viemos e no que acreditamos como certo. Se algo nesse site faz diferença na vida de pelo menos 1 pessoa, então eu já me sinto muito feliz e com a sensação de dever cumprido, de que a vida que eu vivo não é em vão.
Então, peço o mesmo a vocês. Não sabia o que escrever quando comecei este texto, mas agora acho que sei. Criem, espalhem, comuniquem o melhor de vocês! Observem a oportunidade que temos, uma oportunidade que nunca antes na Historia o ser humano teve de se comunicar e de se conhecer melhor. Usem essa oportunidade para melhorar nem que seja 1% das atrocidades que vocês vêem na TV todos os dias. Não estou dizendo que é fácil sermos amigos, darmos as mãos e cantarmos uma canção feliz ou que sei todas as soluções para os problemas do mundo. Eu sei que também julgo mal, que tenho acessos de raiva, que guardo mágoas, que às vezes posso estar usando as janelas da internet para falar algo errado, todos nós fazemos, somos humanos, mas eu juro que tento todos os dias não fazê-lo. Eu falho e falho muito, mas continuo acordando acreditando que posso dar tudo de mim para ser alguém melhor. Por que como posso pedir paz no mundo se não me esforçar e nem ser minimamente decente para as pessoas que me amam? Como eu posso pedir compreensão e amor do outro se não estou oferecendo o mesmo? Como podemos querer ver um mundo diferente se repetimos os mesmos erros todos os dias, sem nos darmos conta, porque estamos muito ocupados apontando dedos ao invés de olhar nosso reflexo no espelho?
Amanhã é bem possível que acordemos com um novo atentado, com um novo golpe, com mais vidas perdidas, mais sangue derramado e o ódio cantando sua canção assustadora pelas ruas de qualquer parte do mundo. Não sei se um dia isso vai mudar, se existirá igualdade, justiça e respeito como deve ser. Sei de pouquíssimas coisas no momento e confesso que me sinto muito assustada. Mas eu ainda acredito no poder que nós temos de sermos melhores.    Nunca comprei a filosofia de que o homem é mal por natureza e que não há nada que se possa fazer. Há muito a fazer e pessoas que foram pequenos sopros de esperança já demonstraram isso  desde o início dos tempos.
Se você quer ver uma mudança urgente no mundo, seja uma. Por favor, seja uma! O seu 1% já é o suficiente para mudar alguém e esse alguém dando mais 1% pode chegar a outra pessoa que também dará 1% e assim sucessivamente. E então esse número que parece tão insignificante  pode ser a mudança que esperamos e até hoje não vimos chegar.
Esse meu texto foi um desabafo improvisado, mas não pretendo mudar nada nele, não importa quantos erros técnicos tenha. A escritora cheia de paranoias quanto à perfeição não tem lugar aqui hoje. E isso sou eu dando 1% de mim neste momento.
Prometo amanhar dar ainda mais.

Sobre Eu, Você e o Fim.

dai

 

Minhas palavras sentem sua falta. Esquecê-lo e seguir em frente adoeceu minhas letras. Não escrevo para mais ninguém, e como conseqüência, não escrevo.
Minhas cartas de amor soam falsas porque são falsas. Não sou poeta e não posso fingir. O que escrevo é verdade, é fato, é toque, é contato. Se não está aqui, não sei sentir.
Então recorro à sua memória como última tentativa de sentir algo, uma esperança para a continuidade de minhas letras.
Mas já não sei a quem escrevo. Tudo de você que restou em mim foi um borrão ao qual não consigo dar forma. Esqueci finalmente e agora estou aqui.
Onde estou?
Perdão por arrastá-lo de volta às minhas memórias. Prometi que não mais o faria e não consegui cumprir.
Acabo de ouvir nossa música no rádio e me dei conta de que ela não é mais nossa música. Não representa mais nada. Com otimismo digo que posso ouvi-la agora como apenas uma música. Com tristeza percebo que não mais nos significa.
É verdade, segui mesmo em frente. Minhas palavras são só mais uma despedida, uma última tentativa de eternizá-lo em letras. Já me reconheço outra pessoa (pelo menos na maior parte do tempo) e com uma vida que quero em mãos para ser vivida. Não sei se posso crer que outro ocupará o espaço que você ocupou; procuro não pensar nisso. Tenho planos, sonhos, objetivos… e sorrio ao pensar que eles não mais envolvem nosso retorno. Quero chegar longe, quero respirar vida, quero fazer cada segundo valer a pena e tudo isso por mim mesma. Não sei se um reencontro seria possível, mas, com sinceridade, espero que não. Admito que choro ao dizê-lo… mas é a mais pura verdade. Não sei como reagiria ou o que sua presença faria de mim… Juro, juro que não preciso saber! Para o meu bem, para o nosso bem… Não quero saber. Melhor deixar tudo como está. Melhor… sim, melhor.
Desejo-lhe uma ótima vida, cheia de aprendizados e regada de muito, muito amor. Um dia, talvez em outro tempo fora daqui, poderemos estar juntos sem nos destruirmos. E então repararemos tudo, remontaremos as paredes do Universo que quebramos e poderemos usar a palavra amor em sua verdadeira essência. Antes disso, precisaremos trilhar longos caminhos separados. Agora entendo isso. Sei que sente o mesmo.
Receba meu amor e meus melhores desejos de longe, muito longe. Não espere por mim e eu não esperarei por você. Vivamos simplesmente! Vivamos…

Sempre sua,

#25 – Um Tal Futebol

lok

 

Ninguém avisou a Michel que tanta dor poderia caber em um pequeno corpo. Tinha apenas dez anos de idade, mas já pensava saber tudo o que precisava sobre frustrações e sofrimentos. Se existisse algo além do que ele sentiu naquela noite, depois daquele momento, ele realmente não queria saber.
Tudo começou quando seu pai lhe entregou aquela caixa grande e azul, no dia do seu sexto aniversário. Michel já tinha ouvido falar num tal de futebol, algo bem ao longe, nas conversas de família em datas comemorativas, mas nunca havia se importado muito, sequer tinha visto um jogo inteiro na vida. Mas aí veio seu pai e caixa grande e bonita, que fez seus olhinhos brilharem mesmo sem saber o que havia ali dentro. Michel rasgou o embrulho com sua ansiedade de criança e, quando abriu a caixa, ali estava: um uniforme de time de futebol, um time de sua cidade, Barcelona, que tinha como principal jogador um craque argentino com um sobrenome engraçado. Michel enrugou o nariz , mas preferiu não discutir. Fazia um ano que não morava mais com seu pai e só o via aos fins de semana. Sentia muita falta de sua companhia diária, de vê-lo chegar do trabalho e ir correndo abraçá-lo. Então quando seu pai lhe deu aquele uniforme azul e grená, Michel preferiu fingir que havia adorado, pois temia que ele desaparecesse para sempre caso dissesse que não havia gostado do presente.
Então Michel colocou o uniforme e deixou-se entrar naquela vida. Começou bem de mansinho, vendo uns vídeos na internet sobre o tal craque que o seu pai mostrava com grande animação. Deixou que o pai o matriculasse numa escolinha de futebol e lá descobriu que havia jeito para a coisa. Segundo o técnico, ele tinha um talento inato, se o garoto investisse no ramo, poderia dar um grande jogador no futuro. Michel, que nunca havia sido bom em nada, principalmente na escola, começou a aceitar a ideia. Para aprender mais, começou a freqüentar o Camp Nou com o pai e passou a ver outros jogos, campeonatos de outros países, na TV. Nem sabia dizer em que momento havia começado, qual foi o ponto chave em que seu coração foi completamente amarrado por aquele esporte que até outro dia não significava nada em sua vida. Foi assim mesmo, de repente, um dia era apenas um garoto normal e no outro já estava pulando no sofá – para o desespero de sua mãe.
Os anos se passaram e Michel foi evoluindo como torcedor e jogador. Não falava de outra coisa na escola e nas aulas chatas desenhava na última folha do caderno a camisa 10 de Lionel Messi. Se algum coleguinha fosse comemorar o aniversário no dia e na hora de um jogo, seja de grande importância ou apenas um amistoso, ele já tinha a resposta na ponta da língua: “Não posso, vou ao jogo do Barcelona.”
Tudo era alegria na vida de Michel até que aquele dia chegou.
Barcelona não era um time de derrotas e, se dependesse de Michel, nunca seria. Mas nenhum time depende de seu torcedor, muito pelo contrário! Jogadores vem e vão, diretores existem e então não mais, mas os torcedores sempre são os mesmos. Se times dependessem do amor de seus torcedores, nenhum deles jamais conheceria a derrota.
Era semi-final de Liga dos Campeões e seria sua primeira vez em um estádio de Madri. Seu pai havia juntado o dinheiro para que os dois pudessem viver aquele momento juntos, para que pudessem ver seu time mais uma vez na final do torneio de clubes mais importante do mundo.  Michel ia perder o aniversário da mãe, mas ela o perdoaria, no fim, mães sempre perdoam. Mas Michel não podia deixar de estar naquele jogo, naquele momento, vendo o seu maior ídolo de perto e o time do coração.
O Barcelona ia ganhar, tinha certeza. Era o melhor time do mundo, com o melhor jogador do mundo. Não tinha como dar errado! Michel já se via no estádio da final, faria seu pai comprar os ingressos e as passagens, pois eles precisavam estar lá! Seria uma ótima oportunidade para passar ainda mais tempo com seu pai, de quem sentia tanta, tanta falta!
O jogo começou e Michel já sabia o desfecho.
Mas não sabia de verdade.
O cenário que se desenhou à sua frente não passou pela sua cabeça nem nos seus piores pesadelos. O craque argentino sumiu em campo, ninguém viu ou ouviu, algo raro de se acontecer, mas aconteceu. A defesa, sempre sólida e colecionando minutos sem levar um gol, levou dois. De cabeça. Raro de acontecer, mas aconteceu. O Barcelona foi eliminado e viu o segundo maior time de Madrid pegar a sua vaga na final. Raro de acontecer, mas aconteceu.
Seu pai lhe abraçou e lhe dedicou palavras de consolo, mas Michel não conseguia ouvir. Era como se um chão tivesse aberto sob seus pés e ele estava caindo lentamente em um buraco sem fundo. Ninguém o avisou que entrar nessa coisa louca chamada futebol lhe traria mais tristezas do que alegria. Se tivessem avisado, ele nem teria começado.
Foi para casa em silêncio, derramando algumas lágrimas de tristeza pelo sonho partido. “Tem sempre a próxima partida”, disse seu pai, tentando animá-lo. “A primeira vez é assim mesmo, parece o fim do mundo, parece injusto e é! Caramba, a gente tinha o melhor time! Mas vai passar, filho, prometo que vai passar e logo você estará gritando pelo Barça outra vez!”
“Não vai passar não!”, respondeu o menino emburrado.
Ninguém mais quis discutir o assunto.
Ao chegar em casa, Michel correu para seu quarto e fechou a porta. Aos prantos, guardou seu tão adorado uniforme dentro de uma sacola e prometeu que daria para outra pessoa. Não queria mais saber de futebol, de Barcelona, de Messi, de nada! Queria era voltar para sua vida antiga, sua vida antes de conhecer o futebol, antes de saber como era prazeroso correr atrás de uma bola e marcar um gol. Antes de saber o que era sentir a atmosfera de entrar num estádio, com toda a torcida berrando juras de amor e paixão. Antes de conhecer a glórias de mil vitórias e o peso de uma decisiva derrota. Seus amiguinhos que não gostavam de futebol não precisavam passar por isso e Michel queria ser um deles. A partir de amanhã não veria mais um jogo e nem pegaria no jornal para ver qualquer resultado. Queria distância, queria se afastar desse mundo completamente e nunca mais ver um jogador de futebol na sua frente. Iria se afastar para sempre do futebol e nada, mas nada mesmo o faria voltar atrás!
No dia seguinte, o pai de Michel ligou para saber como ele estava e lhe disse que tinha duas entradas para o próximo jogo do Barça pelo Campeonato Espanhol. Perguntou se o menino não queria se juntar a ele nessa nossa aventura junto ao time do coração e esquecer um pouco da tristeza do dia anterior.
Em dores de futebol, nenhum remédio é mais eficaz do que aquele famoso um dia após o outro.
Com um sorriso no rosto e os olhos esperançosos, Michel nem precisou pensar duas vezes: disse sim.