Rosa e Eucalipto, parte 2.

parte 2

Meus olhos correm pela multidão à sua procura.
Caço seu par de olhos castanhos, seu sorriso sublime, sua presença adorável.
Procuro, caço, perscruto, mas você não está lá.
Olho o relógio pela milésima vez, observando que você está atrasado. Muito atrasado.
Meu coração palpita no peito em uma ansiedade irritante que não consigo arrancar daqui.
Ele bate, bate, bate; e cada batida é uma letra do seu nome que está tatuado bem dentro de mim.
Ele está gritando por você.
Será que não está ouvindo? Onde quer que esteja, não o está ouvindo? Não está me ouvindo?
Ele grita alto (com uma grande ajuda dos pulmões), esperando que você finalmente o escute e venha mais depressa.
Oh, como se atreve?
Como se atreve a apontar-me o dedo e dizer, com todas as letras, que não te amo?
Como se atreve me olhar nos olhos e duvidar do sabor mais doce que já provei nesta vida?
Estamos apenas algumas horas apartados e a falta do seu sorriso já começa a me enlouquecer.  Apenas horas, espaços medíocres de sessenta minutos, que parecem sessenta anos.
Minhas pernas tremem, batem contra o chão, contando os microssegundos que ainda restam para eu poder visualizar seu rosto outra vez.
Por que demoras tanto?
É algum tipo de castigo? É uma punição por ainda dividir meu coração?
O que você está fazendo comigo?
Não seja como o outro.
Não me faça entrar em desespero. Não comece a provocar espasmos espinhentos por todo o meu corpo que me fazem sangrar absurdamente.
Você é a única cura para o meu vício mortal e impiedoso.
Você é sanidade para a minha loucura, a luz para a minha enorme escuridão.
E, cima de tudo e de todas as coisas, você é aquela explosiva vontade de viver, quando desejo mais do que nunca desaparecer deste mundo.
Oh, como se atreve?
Como se atreve a dizer que não te amo o bastante?
Ainda estou aqui, esperando, roendo o último que sobrou de minhas unhas e com um coração latente que continua a berrar seu nome sem cessar.
As pessoas falam comigo, puxam assuntos banais e tudo o que eu consigo fazer é presenteá-las com um sorriso amarelo e sem graça.
Eu não quero estar com elas.
Não quero conversar com elas, não quero ouvi-las ou ter de fingir uma tranqüilidade que estou longe de sentir.
Eu quero estar com você.
Viver você, respirar você, amar você.
Eu quero estar por cima de você, por baixo de você, dentro de você.
Eu quero você e todo o seu amor que corre por entre minhas veias, deixando o rastro hipnotizante de  Rosa com Eucalipto.
E a sensação de frescor e doçura arrebata-me por inteiro quando vejo sua silhueta ao longe. Você é apenas mais um ponto na multidão, quase como um fantasma do próprio corpo, mas é o bastante.
Oh, Deus, como é o bastante!
Seu andar, seu jeito, todo você.
Suas mãos, seu olhar, seu sorriso, todo você.
Seu cabelo perfeito, a cor de sua pele, todo você.
Oh, como se atreve?
Como se atreve a duvidar de toda essa carga que me atinge com tão só vê-lo?
Se isso não é amor, o que é, então?
Explique-me, diga-me… O que é?
Se eu tivesse de escolher uma cor para este sentimento, escolheria o azul.
Isso mesmo…  azul.
Porque o que sinto nada se assemelha ao rosa melado dos amores juvenis ou ao vermelho sangue da paixão carnal dos adultos.
É azul. Azul celeste, como o céu claro que vive sobre nossas cabeças.
É azul perfeito como a cor dos oceanos. É azul reluzente como uma flor exótica, raramente encontrada em lugares simplórios.
É o azul da morada dos anjos. A mesma morada onde possui uma piscina de rosas por toda a água límpida. Uma piscina de rosas e com cheiro de eucalipto.
Azul da morada para onde iremos após partirmos deste mundo. Juntos.
O fantasma de você se transforma em sua forma de carne e osso conforme vai se aproximando.
Olho para as minhas mãos e percebo que estou tremendo. Fecho os dedos, respiro fundo, tento manter o controle, mas é impossível. Meu corpo inteiro está reagindo ante à presença eminente do seu. Meus dedos tremem tanto que mal consigo pegar a alça da minha bolsa e colocá-la sobre o ombro.
Já estou de pé; já estou com os braços ansiosos para abraçar sua figura como se não houvesse amanhã.
Seu sorriso cai como uma cachoeira sobre meu corpo, como gotas cristalizadas de chuva após um longo período de sol escaldante.
Oh, como se atreve?
Como se atreve dizer que não é amor?

— Desculpe o atraso. – você diz baixinho, com sua voz carinhosa e arrependida, antes de beijar meus lábios, pondo um fim em toda esta agonia.
— Não tem problema. – repliquei ao mesmo tempo que passei o braço esquerdo ao redor de sua cintura. – O que importa é que está aqui agora. Desde que sempre esteja, desde que sempre chegue… Não tem problema.
— Vamos para casa? – perguntou enquanto começávamos a caminhar por toda a multidão de pessoas como se estivéssemos completamente sozinhos.
— Será que não vê? Será que não entende? – encarei seus olhos confusos antes de terminar a sentença e sorri. – Eu já estou em casa.

Rosa e Eucalipto.

parte 1

— Você me cura. – ela sussurrou num quarto escuro, enquanto sua mão deslizava delicadamente pela bochecha do rapaz. – Sempre que me sinto doente, sempre que acho que vou perecer ante o olhar que tanto me faz mal, você chega e me segura. Você chega e me cura. E eu te amo por isso.
— Não da forma como o ama. Não da forma como eu te amo. – respondeu com certa amargura, deixando que as garras do ciúme penetrassem em seu puro coração. – Eu não consigo fazer sua cabeça girar. Eu não faço você sentir tonturas ou chorar de agonia. Eu não tenho o mesmo efeito sobre você que ele tem. Eu não te faço passar mal de amor, não faço sua pele queimar dolorosamente. Como ousa dizer me amar? Eu não sou ele. E jamais poderei ser.
— Você é melhor. – respondeu com meiguice, bloqueando as palavras enegrecidas que saíam dos lábios de alguém tão especial. – Será que você não sabe? Esse é o melhor tipo de amor. O amor que acalma ao invés de rasgar o coração. O amor que canta suavemente lindas melodias ao invés daquele que berra em seus ouvidos, ao ponto de deixar-lhe louco. O amor que faz você sentir estar no lugar certo. O amor que parece uma bênção, como gotas cristalizadas de chuva após um longo período de sol escaldante. O amor que acende uma alma, não aquele que a martiriza com pensamentos enlouquecedores e suicidas. – ela pegou com cuidado a mão rija sobre o lençol branco e depositou um singelo beijo sobre sua palma. O beijo lhe causou uma sensação extasiante, fazendo um caminho fresco por sua pele, que sabia a uma mistura de rosa com eucalipto. – Será que não vê? O melhor amor é o que faz viver, não o que mata. E o seu amor me faz querer viver mil encarnações ao seu lado, não importa quantas vezes o mundo queira cair ao meu redor.
— Ainda assim… – insistiu, mesmo tendo de lutar contra o efeito anestésico de seu beijo. – Você sempre irá amá-lo também.
— Isso não significa que eu não tenha feito uma escolha. E eu escolho você. Eu sempre vou escolher você.

Os braços carinhosos envolveram seu pescoço, calando-o de uma vez.
O silêncio pesou sobre o quarto escuro enquanto aquela sensação refrescante ainda tomava-o por inteiro, como um feitiço mágico que o impedia de ir embora.
Que o impedia de sair para procurar um coração que pudesse vir a ser inteiramente dele.
Porque ele não conseguia, ele não podia largar a rosa e o eucalipto que sempre navegavam por suas veias cada vez que ambos se roçavam.
Mas quando ela o tocava assim, quando o fazia sentir-se especial, despido de todos os pesadelos, em sua máxima vulnerabilidade, ele entendia o que era a calmaria de um amor puro e sincero do qual ela falava.
Entendia perfeitamente o que era o refresco de gotas cristalizadas de chuva após um longo período de sol escaldante.
Sentia a alma acendida, viva, desejando viver mil encarnações ao lado dela, não importava quantas vezes o mundo desejasse cair ao seu redor.
Porque – ainda que dividido – o amor dela o curava.
E – infelizmente ou não – era disso, somente disso que ele precisava para continuar respirando neste mundo.