#26 – Catarina E A Noite

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Catarina se esconde da noite.
Quando o sol se põe atrás do morro de sua humilde casa, ela corre pelos corredores acendendo todos os interruptores que encontra pela frente.
“É para evitar que o dia acabe”, diz Catarina com os olhos arregalados.
Catarina tem vinte anos de idade e muita memória na cabeça. Suas irmãs já não sabem o que fazer, os vizinhos olham desconfiados quando passam por ela, julgam-lhe anormal. Catarina não tem nada de anormal, assim como não tem nada de pais ou de amigos. Tem apenas um ursinho de pelúcia que carrega sempre consigo.
Janaína e Mara, as irmãs, já tentaram arranjar-lhe um marido, mas que homem quer disputar a atenção com um bichinho de pelúcia? Quer pessoa quer cuidar de alguém que ficou parada no tempo?
Ah, o tempo! Vamos falar sobre o tempo!
Vamos falar sobre aquela data, sobre aquela noite, quinze anos atrás.
“Vamos, vamos falar”, diz Catarina, mas ninguém quer ouvir. Melhor é ignorar, deixar que o silêncio leve as pegadas das palavras que ainda restam ser ditas.
Catarina fala sobre a sombra em seu quarto, sobre o medo chegando, sobre a dor, muita, muita, muita dor! Janaína sai da sala, Mara sacode a menina esperando que suas memórias chacoalhem tanto até virar areia. Areia que pode ser varrida para fora de casa e se perder com o sopro do vento.
Ninguém aguenta mais Catarina e suas memórias.
Ninguém aguenta mais Catarina… Nem Catarina!

Catarina se esconde da noite.
Luzes, lanternas, abajures, tudo está aceso, só para prevenir. Mas… e se não der pra prevenir? E se não der para evitar como não evitou quinze anos atrás?
Catarina mantém os olhos abertos.
Pode acabar a luz, pode ficar escuro, pode sim, tudo pode acontecer, a qualquer momento tudo pode acontecer!
A menina mantém os olhos abertos, põe o seu ursinho de pelúcia como sentinela e espera…. espera… espera…
Faltam 8 horas para o sol nascer, por volta de 5:15 da manhã, já até sabe a hora certinha, Catarina sempre sabe… Catarina sempre sabe, sempre soube, mas finge não saber. É sempre mais fácil, mais suportável não saber…
Faltam 8 horas, falta muito, ah, como falta!
Mas ela iria esperar, como todos os dias, iria esperar, de olhos abertos e luzes acesas.
Uma hora o sol vai nascer, pode demorar, mas uma hora ele aparece lá de trás do morro. Uma hora a luz toca a janela de seu quarto, marca suas pegadas pelo chão e abraça Catarina com uma segurança materna.
Catarina ainda vive, só vive, porque o sol uma hora aparece…
E a boa notícia, ah, Catarina!
A boa notícia é que ele sempre aparece…

Escritor 34 – Eduardo Galeano

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Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu em uma família católica de classe média de ascendência europeia. Na infância, Galeano tinha o sonho de se tornar um jogador de futebol; esse desejo é retratado em algumas de suas obras, como O futebol de sol a sombra (1995). Na adolescência, Galeano trabalhou em empregos nada usuais, como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. Aos 14, vendeu sua primeira charge política para o jornal El Sol, do Partido Socialista.
Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960 como editor do Marcha, influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti. Foi também editor do diário Época e editor-chefe do jornal universitário por dois anos. Em 1971 escreveu sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina.
Em 1973, com o golpe militar do Uruguai, Galeano foi preso e mais tarde seu nome foi colocado na lista dos esquadrões da morte e, temendo por sua vida, exilou-se na Espanha, onde deu início à trilogia Memória do Fogo. Em 1985, com a redemocratização de seu país, Galeano retornou a Montevidéu, onde viveu até sua morte, em 2015.
Em princípios de 2007 Galeano caiu seriamente doente, mas recuperou-se, após uma bem-sucedida cirurgia em Montevidéu.
Galeano foi internado dia 10 de abril e morreu próximo das 9h em 13 de abril de 2015, em Montevidéu, de câncer no mediastino, após o tumor provocar metástase.

Fonte: Wikipédia

Principais Obras:

As Veias Abertas da América Latina (1971)
Memórias Do Fogo (1982 – 1986)
Os Filhos Dos Dias (2012)

Opinião Pessoal: Eduardo Galeano só perde para Virginia Woolf na minha lista de escritores favoritos. Sua capacidade de contar histórias, que ao mesmo tempo são narrativas e ao mesmo tempo poesia, me inspiram e me ensinam a ser uma escritora melhor cada vez que pego num livro seu.
Para aprender mais sobre a América Latina não tem escritor melhor. Ele conta trajetória do nosso continente através da vida das pessoas, histórias reais (talvez com um toquezinho de ficção) que atravessaram os piores períodos nas mãos dos ditadores e nosso povo, sempre sofrendo com a política torta que parece nunca se ajeitar. Seu livro mais famoso “As Veias Abertas Da América Latina” é respeitado mundialmente e usado em diversas faculdades.
Para minha sorte, Galeano tem uma obra imensa e ainda não cheguei a ler nem metade de seus livros. Mas daqui a alguns anos, mesmo quando  completar minha leitura de suas letras traduzidas, seguramente vou procurar ler toda sua obra no idioma original, para que, assim, eu nunca tenha que me despedir deste escritor que mudou para sempre minha forma de enxergar a Literatura e o nosso maravilhoso continente.

Meus 9 Trechos Favoritos Do Livro “E Se Obama Fosse Africano”, De Mia Couto.

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Mia Couto é um dos mais importantes escritores de Moçambique. Ele é conhecido pelos seus incríveis romances, contos e poesias. Mas no livro “E Se Obama Fosse Africano”, uma coletânea de palestras que proferiu em diversos lugares do mundo, Mia também se mostra espetacular como um pensador contemporâneo. Suas visões sobre política, desigualdades sociais e raciais, cultura e literatura deixam qualquer leitor, seja este fã ou apenas um novo conhecedor de seu trabalho, maravilhado com as ideias do escritor.
Foi muito difícil escolher apenas nove trechos – uma vez que eu marquei o livro quase todo – mas aqui estão os que, para mim, tiveram mais importância:

1)    “O único segredo, a única sabedoria é sermos verdadeiros, não termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades.”

2)    “Estamos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra a nossa pessoa, o nosso grupo, a nossa etnia, a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os ‘outros’.”

3)    “Fala-se muito dos jovens. Fala-se pouco com os jovens. Ou melhor, fala-se com eles quando se convertem num problema. A juventude vive essa condição ambígua, dançando entre a visão romantizada (ela é a seiva da Nação) e uma condição maligna, um ninho de riscos e preocupações (a Sida, a droga, o desemprego).”

4)    “A escola é um meio para querermos o que não temos. A vida, depois, ensina-nos a termos aquilo que não queremos. Entre a escola e a vida resta-nos sermos verdadeiros e confessar aos mais jovens que nós também não sabemos e que, nós, professores e pais, também estamos à procura de respostas.”

5)    “A verdade é que nós somos sempre não uma mas várias pessoas e deveria ser norma que a nossa assinatura acabasse sempre por não conferir. Todos nós convivemos com diversos eu, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.”

6)    “Quanto mais pobre é um país maior é a capacidade de se destruir a si mesmo.”

7)    “A cilada maior é acreditarmos que as armadilhas estão sempre fora de nós, num mundo que temos por cruel e desumano. Ora, por mais que nos custe, nós somos também esse mundo. E as armadilhas que pensávamos exteriores residem profundamente dentro de nós. Quebrar as armadilhas do mundo é, antes de mais, quebrar o mundo de armadilhas em que se converteu nosso próprio olhar.”

8)    “Tenho escrito repetidamente que o nosso maior inimigo somos nós mesmos. O adversário do nosso progresso esta dentro de cada um de nós, mora na nossa atitude, vive no nosso pensamento.”

9)    “Cada um de nós corre o risco de ficar sepultado no seu próprio passado. Todos temos de resistir para não ficarmos aprisionados numa memória simplificada que é o retrato que outros fizeram de nós. Todos trazemos escrito um livro e esse texto quer-se impor como nossa nascente e como nosso destino. Se existe uma guerra em cada um de nós é a de nos opormos a este fardo de estarmos condenados a uma única e previsível narrativa.”

Bônus: “Um país em que as mulheres só podem ser a sua metade está condenado a ter apenas metade do seu futuro.”

Resenha 13 – Se Você Me Chamar Eu Largo Tudo… Mas Por Favor, Me Chame

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“Em plena madrugada, olhe para os edifícios altos e vai ver que há poucas luzes acesas, pouquíssimas. Quase todo mundo dorme, só há uns poucos que estão acordados… E esses são os que procuram e os que encontram. Nessas altas horas da noite, quando todo mundo dorme, eles estão amando ou desfrutando de conversas intensas… E esse sentimento e essas palavras mudam a vida deles.”

Foi ano passado que achei este livro numa livraria. O nome me chamou muito a atenção com um titulo que é mais uma frase e uma frase muito bem formulada. Aliada à ótima sinopse da contracapa, não resisti e resolvi levá-lo. Como faço com a maioria dos meus livros, o coloquei em minha estante e esperei que chegasse a hora de lê-lo. O último fim de semana me fez redescobrir este livro entre tantos outros, pois queria algo pequeno (o livro tem apenas 150 páginas!) e leve para ler em um final de semana e descansar um pouco dos estudos e leituras literárias que ando fazendo.
“Se Você Me Chamar Eu Largo Tudo… Mas Por Favor, Me Chame” foi escrito pelo espanhol Albert Espinosa. A história também se passa na Espanha e conta a vida de Dani, um homem que se dedica a buscar crianças desaparecidas e está separando de sua mulher. Enquanto a esposa arruma as malas e vai embora, Dani recebe a ligação de um pai desesperado atrás do filho desaparecido, que foi levado pelo sequestrador até a ilha de Capri, na Itália. Por ter vivido momentos mágicos nessa ilha, Dani aceita o caso e retorna à ilha tendo como missão encontrar o menino e reencontrar em suas próprias lembranças o menino que um dia foi.
A história tem uma premissa muito boa, mas não foi bem executada. A narrativa – que é sempre feita em primeira pessoa – me pareceu pobre e preguiçosa. Os parágrafos são curtíssimos e a história é mesmo explicada através dos diálogos. Deu a impressão que o autor tinha algum prazo curto pra terminar a história e fez um rascunho em forma de livro.
Outro ponto que me incomodou foi a falta de perguntas respondidas. O autor criou toda uma trama interessante, onde o passado do protagonista parece ter algo a ver com o menino que desapareceu, mas Albert Espinosa resolveu deixar todas as questões em aberto. Eu adoro finais abertos quando são bem feitos e tem um propósito, o que não foi o caso. Outra vez, me pareceu tudo muito corrido e no fim a justificativa para todas as questões se reduzem simplesmente no bordão “a vida é assim, cheia de mistérios” e fica por isso mesmo.
Entretanto, existem pontos positivos, como os personagens com quem Dani se encontra no passado e mudam sua vida completamente. As conversas do protagonista com duas pessoas bem mais velhas, em diferentes fases da vida, nos coloca para refletir sobre diversos aspectos sobre a paixão de estar vivo e fazer nosso tempo aqui valer a pena.
Também me agradou uma certa característica física do personagem principal que achei bem original e não costumo ver em livros. A sinopse não fala nada sobre isso, então é muito legal descobrir de repente  que Dani é diferente.
“Se você me chamar…” é um livro bom e só. Ótimo pra ser lido em um dia e para relaxar a mente, que era meu objetivo. Mas não é um livro que marca ou que vá fazer muita diferença em nossas vidas. Com um nome atrativo desses e uma capa muito bem feita, é uma pena.

16 – O 1% Que Faz A Diferença (Um Desabafo!)

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Faz mais ou menos uma hora que estou olhando para a página em branco no Word pensando no que escrever. Queria dizer algo feliz, mas não sei como. Queria escrever um post inspirado para dar esperanças às pessoas e falar que tudo vai acabar bem. Queria escrever um conto pro projeto #52contos que dissesse algo, que passasse uma boa mensagem, mas não sei o que escrever. Tenho muitas histórias para serem escritas, para fazer com que saiam de mim e existam em um papel e a fila só aumenta. Mas hoje não consigo criar uma história e fingir que nada está acontecendo. Pensei em deixar pra lá, fechar tudo e deixar pra escrever outro dia quando tudo acalmar. Mas o problema é que quero escrever. Eu quero dizer, sinto a necessidade, minhas mãos coçam, meu peito está cheio, tenho muito o que dizer ainda que saiba direito o quê.
Não é de hoje e nem de ontem que parece que o mundo enlouqueceu. Nós nos chocamos com alguma coisa agora e depois nos chocamos com outra. Talvez conseguimos um dia para respirar e então tudo volta outra vez. Parece que só piora e que tudo está perdido.
Não conheço ninguém na Franca, não conheço ninguém na Turquia, ou na Síria, ou na Nigéria ou no Iraque. Alias, é verdade, conhecer conheço pouca gente perto da maioria das pessoas. Mas existe algo chamado empatia e eu não posso evitar em me sentir mal, realmente mal, por tudo o que está acontecendo.
Sou apaixonada por culturas e religiões, devoro o que puder sobre o assunto e às vezes me sinto tão conectada a um desses lugares que até me sinto parte deles, mesmo nunca tendo pisando naquele território. O modo de vida e as crenças das pessoas me deixam apaixonada e com mais vontade ainda de viver neste mundo para saber mais e mais. Mesmo não concordando com tudo e até achando algumas coisas muito doidas, eu tento olhar sempre de fora, me reconhecendo como alguém que tem uma visão de vida diferente da que estou observando, mas que ambas compartilhamos o mundo e temos a obrigação de nos respeitar. E por isso me dói, me destrói ver essas pessoas de quem me sinto tão próxima serem ou difamadas por causa de suas crenças ou destruídas fisicamente e moralmente por essa obsessão do homem pelo poder acima de qualquer coisa. Nunca antes estivemos tão conectados e nunca antes nos destruímos tanto. A oportunidade que tínhamos de nos conhecer e de nos aproximarmos como povos e de descobrirmos as belezas de nossas vidas está sendo usada para nos matarmos. Estamos vivendo numa selva onde o “salve-se quem puder” virou lei e que tirar uma vida virou tão banal quanto arrancar uma flor de um canteiro.
Isso tem que parar!
Antes de chegar em uma rede social e endossar mais ainda o ódio que vemos nos noticiários todos os dias, se informem. Usem os 5 minutos que vocês têm pra fazer um post preconceituoso para estudar o que é de verdade a religião mulçumana, que nada tem a ver, sob nenhum aspecto, com o que o Estado Islâmico faz. Se querem criar guerra por causa de política, romper laços com amigos e familiares e falar coisas absurdas e que não tem qualquer fundamento, procurem ler mais livros sobre a história do nosso país, sobre a história da América Latina (que tudo tem a ver com a história do Brasil). Indico Eduardo Galeano e Darcy Ribeiro só pra começar. Verifiquem informações antes de tomá-las como certas e saírem reproduzindo discursos burros que ouviram da boca de outras pessoas. Se você, assim como eu, se pergunta o que pode fazer diante de tanta guerra e tantas mortes pelo mundo, procure primeiro olhar o outro como um indivíduo cheio de belezas e imperfeições, alguém que tem uma vida e uma educação totalmente diferente da sua e que ainda assim tem em mãos um mundo maravilhoso para te mostrar.
Pequenas ações levam à grandes diferenças. O Sonho de Letras , por exemplo, não tem muitos acessos, não é um lugar com mil visitas por dia mas, ainda assim, eu não consigo desistir disso aqui porque é uma maneira muito pequena que eu tenho de falar aquilo que acredito que possa fazer a diferença na vida de alguém. A Literatura e a escrita salvaram minha vida de inúmeras maneiras e me deram um presente que nada e nem ninguém mais deu: a oportunidade de reconhecer o outro como alguém além de mim e cuja vida vale tanto quanto a minha, não importa de onde viemos e no que acreditamos como certo. Se algo nesse site faz diferença na vida de pelo menos 1 pessoa, então eu já me sinto muito feliz e com a sensação de dever cumprido, de que a vida que eu vivo não é em vão.
Então, peço o mesmo a vocês. Não sabia o que escrever quando comecei este texto, mas agora acho que sei. Criem, espalhem, comuniquem o melhor de vocês! Observem a oportunidade que temos, uma oportunidade que nunca antes na Historia o ser humano teve de se comunicar e de se conhecer melhor. Usem essa oportunidade para melhorar nem que seja 1% das atrocidades que vocês vêem na TV todos os dias. Não estou dizendo que é fácil sermos amigos, darmos as mãos e cantarmos uma canção feliz ou que sei todas as soluções para os problemas do mundo. Eu sei que também julgo mal, que tenho acessos de raiva, que guardo mágoas, que às vezes posso estar usando as janelas da internet para falar algo errado, todos nós fazemos, somos humanos, mas eu juro que tento todos os dias não fazê-lo. Eu falho e falho muito, mas continuo acordando acreditando que posso dar tudo de mim para ser alguém melhor. Por que como posso pedir paz no mundo se não me esforçar e nem ser minimamente decente para as pessoas que me amam? Como eu posso pedir compreensão e amor do outro se não estou oferecendo o mesmo? Como podemos querer ver um mundo diferente se repetimos os mesmos erros todos os dias, sem nos darmos conta, porque estamos muito ocupados apontando dedos ao invés de olhar nosso reflexo no espelho?
Amanhã é bem possível que acordemos com um novo atentado, com um novo golpe, com mais vidas perdidas, mais sangue derramado e o ódio cantando sua canção assustadora pelas ruas de qualquer parte do mundo. Não sei se um dia isso vai mudar, se existirá igualdade, justiça e respeito como deve ser. Sei de pouquíssimas coisas no momento e confesso que me sinto muito assustada. Mas eu ainda acredito no poder que nós temos de sermos melhores.    Nunca comprei a filosofia de que o homem é mal por natureza e que não há nada que se possa fazer. Há muito a fazer e pessoas que foram pequenos sopros de esperança já demonstraram isso  desde o início dos tempos.
Se você quer ver uma mudança urgente no mundo, seja uma. Por favor, seja uma! O seu 1% já é o suficiente para mudar alguém e esse alguém dando mais 1% pode chegar a outra pessoa que também dará 1% e assim sucessivamente. E então esse número que parece tão insignificante  pode ser a mudança que esperamos e até hoje não vimos chegar.
Esse meu texto foi um desabafo improvisado, mas não pretendo mudar nada nele, não importa quantos erros técnicos tenha. A escritora cheia de paranoias quanto à perfeição não tem lugar aqui hoje. E isso sou eu dando 1% de mim neste momento.
Prometo amanhar dar ainda mais.

Sobre Eu, Você e o Fim.

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Minhas palavras sentem sua falta. Esquecê-lo e seguir em frente adoeceu minhas letras. Não escrevo para mais ninguém, e como conseqüência, não escrevo.
Minhas cartas de amor soam falsas porque são falsas. Não sou poeta e não posso fingir. O que escrevo é verdade, é fato, é toque, é contato. Se não está aqui, não sei sentir.
Então recorro à sua memória como última tentativa de sentir algo, uma esperança para a continuidade de minhas letras.
Mas já não sei a quem escrevo. Tudo de você que restou em mim foi um borrão ao qual não consigo dar forma. Esqueci finalmente e agora estou aqui.
Onde estou?
Perdão por arrastá-lo de volta às minhas memórias. Prometi que não mais o faria e não consegui cumprir.
Acabo de ouvir nossa música no rádio e me dei conta de que ela não é mais nossa música. Não representa mais nada. Com otimismo digo que posso ouvi-la agora como apenas uma música. Com tristeza percebo que não mais nos significa.
É verdade, segui mesmo em frente. Minhas palavras são só mais uma despedida, uma última tentativa de eternizá-lo em letras. Já me reconheço outra pessoa (pelo menos na maior parte do tempo) e com uma vida que quero em mãos para ser vivida. Não sei se posso crer que outro ocupará o espaço que você ocupou; procuro não pensar nisso. Tenho planos, sonhos, objetivos… e sorrio ao pensar que eles não mais envolvem nosso retorno. Quero chegar longe, quero respirar vida, quero fazer cada segundo valer a pena e tudo isso por mim mesma. Não sei se um reencontro seria possível, mas, com sinceridade, espero que não. Admito que choro ao dizê-lo… mas é a mais pura verdade. Não sei como reagiria ou o que sua presença faria de mim… Juro, juro que não preciso saber! Para o meu bem, para o nosso bem… Não quero saber. Melhor deixar tudo como está. Melhor… sim, melhor.
Desejo-lhe uma ótima vida, cheia de aprendizados e regada de muito, muito amor. Um dia, talvez em outro tempo fora daqui, poderemos estar juntos sem nos destruirmos. E então repararemos tudo, remontaremos as paredes do Universo que quebramos e poderemos usar a palavra amor em sua verdadeira essência. Antes disso, precisaremos trilhar longos caminhos separados. Agora entendo isso. Sei que sente o mesmo.
Receba meu amor e meus melhores desejos de longe, muito longe. Não espere por mim e eu não esperarei por você. Vivamos simplesmente! Vivamos…

Sempre sua,

#25 – Um Tal Futebol

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Ninguém avisou a Michel que tanta dor poderia caber em um pequeno corpo. Tinha apenas dez anos de idade, mas já pensava saber tudo o que precisava sobre frustrações e sofrimentos. Se existisse algo além do que ele sentiu naquela noite, depois daquele momento, ele realmente não queria saber.
Tudo começou quando seu pai lhe entregou aquela caixa grande e azul, no dia do seu sexto aniversário. Michel já tinha ouvido falar num tal de futebol, algo bem ao longe, nas conversas de família em datas comemorativas, mas nunca havia se importado muito, sequer tinha visto um jogo inteiro na vida. Mas aí veio seu pai e caixa grande e bonita, que fez seus olhinhos brilharem mesmo sem saber o que havia ali dentro. Michel rasgou o embrulho com sua ansiedade de criança e, quando abriu a caixa, ali estava: um uniforme de time de futebol, um time de sua cidade, Barcelona, que tinha como principal jogador um craque argentino com um sobrenome engraçado. Michel enrugou o nariz , mas preferiu não discutir. Fazia um ano que não morava mais com seu pai e só o via aos fins de semana. Sentia muita falta de sua companhia diária, de vê-lo chegar do trabalho e ir correndo abraçá-lo. Então quando seu pai lhe deu aquele uniforme azul e grená, Michel preferiu fingir que havia adorado, pois temia que ele desaparecesse para sempre caso dissesse que não havia gostado do presente.
Então Michel colocou o uniforme e deixou-se entrar naquela vida. Começou bem de mansinho, vendo uns vídeos na internet sobre o tal craque que o seu pai mostrava com grande animação. Deixou que o pai o matriculasse numa escolinha de futebol e lá descobriu que havia jeito para a coisa. Segundo o técnico, ele tinha um talento inato, se o garoto investisse no ramo, poderia dar um grande jogador no futuro. Michel, que nunca havia sido bom em nada, principalmente na escola, começou a aceitar a ideia. Para aprender mais, começou a freqüentar o Camp Nou com o pai e passou a ver outros jogos, campeonatos de outros países, na TV. Nem sabia dizer em que momento havia começado, qual foi o ponto chave em que seu coração foi completamente amarrado por aquele esporte que até outro dia não significava nada em sua vida. Foi assim mesmo, de repente, um dia era apenas um garoto normal e no outro já estava pulando no sofá – para o desespero de sua mãe.
Os anos se passaram e Michel foi evoluindo como torcedor e jogador. Não falava de outra coisa na escola e nas aulas chatas desenhava na última folha do caderno a camisa 10 de Lionel Messi. Se algum coleguinha fosse comemorar o aniversário no dia e na hora de um jogo, seja de grande importância ou apenas um amistoso, ele já tinha a resposta na ponta da língua: “Não posso, vou ao jogo do Barcelona.”
Tudo era alegria na vida de Michel até que aquele dia chegou.
Barcelona não era um time de derrotas e, se dependesse de Michel, nunca seria. Mas nenhum time depende de seu torcedor, muito pelo contrário! Jogadores vem e vão, diretores existem e então não mais, mas os torcedores sempre são os mesmos. Se times dependessem do amor de seus torcedores, nenhum deles jamais conheceria a derrota.
Era semi-final de Liga dos Campeões e seria sua primeira vez em um estádio de Madri. Seu pai havia juntado o dinheiro para que os dois pudessem viver aquele momento juntos, para que pudessem ver seu time mais uma vez na final do torneio de clubes mais importante do mundo.  Michel ia perder o aniversário da mãe, mas ela o perdoaria, no fim, mães sempre perdoam. Mas Michel não podia deixar de estar naquele jogo, naquele momento, vendo o seu maior ídolo de perto e o time do coração.
O Barcelona ia ganhar, tinha certeza. Era o melhor time do mundo, com o melhor jogador do mundo. Não tinha como dar errado! Michel já se via no estádio da final, faria seu pai comprar os ingressos e as passagens, pois eles precisavam estar lá! Seria uma ótima oportunidade para passar ainda mais tempo com seu pai, de quem sentia tanta, tanta falta!
O jogo começou e Michel já sabia o desfecho.
Mas não sabia de verdade.
O cenário que se desenhou à sua frente não passou pela sua cabeça nem nos seus piores pesadelos. O craque argentino sumiu em campo, ninguém viu ou ouviu, algo raro de se acontecer, mas aconteceu. A defesa, sempre sólida e colecionando minutos sem levar um gol, levou dois. De cabeça. Raro de acontecer, mas aconteceu. O Barcelona foi eliminado e viu o segundo maior time de Madrid pegar a sua vaga na final. Raro de acontecer, mas aconteceu.
Seu pai lhe abraçou e lhe dedicou palavras de consolo, mas Michel não conseguia ouvir. Era como se um chão tivesse aberto sob seus pés e ele estava caindo lentamente em um buraco sem fundo. Ninguém o avisou que entrar nessa coisa louca chamada futebol lhe traria mais tristezas do que alegria. Se tivessem avisado, ele nem teria começado.
Foi para casa em silêncio, derramando algumas lágrimas de tristeza pelo sonho partido. “Tem sempre a próxima partida”, disse seu pai, tentando animá-lo. “A primeira vez é assim mesmo, parece o fim do mundo, parece injusto e é! Caramba, a gente tinha o melhor time! Mas vai passar, filho, prometo que vai passar e logo você estará gritando pelo Barça outra vez!”
“Não vai passar não!”, respondeu o menino emburrado.
Ninguém mais quis discutir o assunto.
Ao chegar em casa, Michel correu para seu quarto e fechou a porta. Aos prantos, guardou seu tão adorado uniforme dentro de uma sacola e prometeu que daria para outra pessoa. Não queria mais saber de futebol, de Barcelona, de Messi, de nada! Queria era voltar para sua vida antiga, sua vida antes de conhecer o futebol, antes de saber como era prazeroso correr atrás de uma bola e marcar um gol. Antes de saber o que era sentir a atmosfera de entrar num estádio, com toda a torcida berrando juras de amor e paixão. Antes de conhecer a glórias de mil vitórias e o peso de uma decisiva derrota. Seus amiguinhos que não gostavam de futebol não precisavam passar por isso e Michel queria ser um deles. A partir de amanhã não veria mais um jogo e nem pegaria no jornal para ver qualquer resultado. Queria distância, queria se afastar desse mundo completamente e nunca mais ver um jogador de futebol na sua frente. Iria se afastar para sempre do futebol e nada, mas nada mesmo o faria voltar atrás!
No dia seguinte, o pai de Michel ligou para saber como ele estava e lhe disse que tinha duas entradas para o próximo jogo do Barça pelo Campeonato Espanhol. Perguntou se o menino não queria se juntar a ele nessa nossa aventura junto ao time do coração e esquecer um pouco da tristeza do dia anterior.
Em dores de futebol, nenhum remédio é mais eficaz do que aquele famoso um dia após o outro.
Com um sorriso no rosto e os olhos esperançosos, Michel nem precisou pensar duas vezes: disse sim.

#24 – A História De Martha

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Grades de ferro matavam a liberdade de Martha.
Estava presa há tanto tempo que nem se lembrava como havia parado ali pela primeira vez. Talvez estivesse presa desde criança, não sabia ao certo. Não tinha memória e nem história, era apenas Martha, a mulher presa atrás das grades.
A prisão de Martha não era uma prisão qualquer. Todas as paredes eram grades e, desta forma, Martha podia ver tudo o que acontecia ao seu redor. Ela via o céu, os campos verdes, os animais e as pessoas que por ali passavam. Martha via as pessoas, mas as pessoas não viam Martha. Ela e sua prisão eram como as árvores do local: já faziam parte da paisagem. Gritava por ajuda, para que alguém viesse abrir a porta de sua prisão, mas ninguém escutava. E Martha chorava, chorava e chorava pela sua má sorte, pelo destino que alguém em algum lugar havia reservado para si.
Martha não tinha sobrenome, nem parente, Martha era um acidente da vida, alguém que havia surgido naquele lugar e que ali deveria ficar. Ela tentou aceitar este fato, tentou se convencer de que talvez havia nascido mesmo para ser árvore, e que seu papel no mundo era apenas existir até que alguém a enxergasse e viesse abrir sua porta. Ela tentou bastante, mas a vontade de ser mais do que árvore era latente demais e impossível de ser ignorada. Martha gritava, chorava e esperneava para que algum chave caísse do céu ou que algum vendaval viesse para arrancar as grades do chão e libertá-la desta existência inerte. Mas só a chuva caía do céu para Martha e o máximo que a força do vento naquele local conseguia era despentear seus cabelos escuros.
Então, se rendeu. Desistiu de lutar e de se jogar contra as grades. Deixou seu corpo escorregar pela porta de sua prisão e, sem querer, seu cotovelo esbarrou na maçaneta da porta e esta, de repente e sem qualquer maior esforço, se abriu. Martha caiu de costas sobre a grama e pela primeira vez na vida viu o sol sob outro ângulo. Levantou-se rapidamente, tirou a terra do corpo e checou com assombro que a porta nunca havia estado trancada.  Não era preciso nenhuma chave mágica ou um monstruoso vendaval. No fim das contas, o segredo para sua liberdade não era nada mais do que girar a maçaneta.
Martha saiu correndo em direção ao mundo que estava à sua frente. Não sabia para onde ia, mas estava indo. Não era mais a Martha entre grades, a prisioneira de seu destino ou a desafortunada pela vida. Era Martha livre, era Martha liberdade.
Sua história começa agora.

#23 – Dona Adélia

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Dona Adélia tinha 65 anos e morava num modesto prédio na rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Até onde se sabia era sozinha, pois por ali nunca se havia visto parentes ou amigos. As únicas pessoas que iam até o lar de Dona Adélia eram os entregadores de comida, que entravam com uma cara e saíam com outra.
Dona Adélia tentou ter um gato, mas ele desapareceu no segundo dia. Tentou ter um sabiá, mas o danadinho arranjou um jeito de fugir da gaiola em menos de uma semana e nunca mais voltou.
Outra coisa que se conhecia sobre Dona Adélia era sua antipatia feroz. Ela não só não  cumprimentava os outros moradores quando se cruzavam pelo corredor do prédio, como também parecia odiar que lhe dirigisse qualquer cumprimento. Fazia questão de olhar na cara das pessoas e enrugar o nariz, como se todos à sua volta fedessem. Era o terror nas reuniões de condomínio, pois, apesar da ótima administração do prédio, onde o síndico resolvia tudo o mais rápido possível, Dona Adélia reclamava e como reclamava! Reclamava que as cartas não eram colocadas corretamente em seu escaninho, reclamava dos latidos dos cachorros, dos choros dos bebês, do produto – que só ela achava – fedorento com o qual as meninas da limpeza desinfetavam os corredores e uma vez até arranjou um caso porque – pasmem só! – a senhora Adriana do 307 desceu no elevador amamentando sua menina de 3 meses.
A cada fim de ano Dona Adélia só colocava 10 centavos na caixinha de Natal dos funcionários do prédio porque, como disse para seu vizinho de uma porta uma vez, não gostava de fomentar a preguiça entre os subordinados. “Pois esse povo é assim”, dizia ela sem notar a cara de enfado do vizinho, “você dá um dinheirinho a mais e daqui a pouco tão pensando que estão acima de você!”
Ninguém tinha a menor paciência com Dona Adélia, nem mesmo as crianças mais carinhosas. Mas a maior vítima de seus ataques histéricos era Orlandinho, o porteiro negro que frequentemente ouvia reclamações e comentários maldosos em relação à sua cor de pele. Dona Adélia já havia recebido duas cartas de notificação por seu comportamento racista para com o porteiro, que era adorado por todos os moradores do prédio, mas ela nunca perdia a oportunidade de abrir a boca para falar mais besteiras cada vez que passava pela portaria.
Até que aconteceu um caso curioso, que Dona Adélia nunca conseguiu desvendar, por mais que pensasse sobre isso no futuro.
Estava saindo, como de costume, numa manhã de domingo – pois era uma pessoa de bem que nunca faltava à missa aos domingos – e acabou ficando presa no elevador entre o terceiro e o segundo andar. A velha senhora apertou o alarme, mas ninguém veio. Bateu com força na porta e berrou pedindo ajuda, mas ninguém respondeu. Tentou ligar para o síndico, mas o celular estava fora de área. Esperou por alguns minutos ouvir qualquer voz, mas não havia nada. Parecia não existir nenhuma alma viva naquele dia para vir ao socorro de Dona Adélia, que precisou sentar no chão para que suas pernas parassem de doer de tanto esperar.
Ficou quase uma hora presa até que o porteiro finalmente veio ao seu socorro e conseguiu abrir a porta. Esbravejando para todos os lados, Dona Adélia perguntou ao rapaz como era possível que, num prédio com mais de 100 moradores e em um domingo de manhã, onde a maioria das pessoas estava em casa, ninguém tivesse ouvido seus gritos por socorro.
Segurando o riso, Orlandinho apenas deu de ombros e disse que não tinha a menor ideia.

#22 – O Milagre

saa

 

Luane não acreditava em milagres, mas vivia pedindo uma vida a Deus.
Não que estivesse morta ou perto de bater as botas – muito pelo contrário, estava gozando de uma ótima saúde! – mas Luane sentia falta de sentir uma vida dentro de sua vida.
Era assim desde criança ou talvez até antes. Acreditava ter vindo ao mundo com um defeito de nascença. Não tinha apreço por muitas coisas ou não conseguia sentir algo pulsando dentro dela. Enquanto seus coleguinhas de escola se comparavam a bichos, personalidades ou jogadores de futebol, Luane se via como um recipiente vazio. Os professores não lhe davam muita atenção, seus pais – olha só! – até esqueciam de que tinha uma filha em casa, e amigos circulavam pelo seu quarto através dos anos, mas nunca nenhum deles parou por muito tempo ali. Luane não sabia como ser pessoa e, mesmo já tendo completado duas décadas de vida, ainda não aprendera a sê-lo.
Então pedia, mesmo que não acreditasse, mesmo que Deus fosse tão real para ela como uma Fênix dos livros mitológicos, ela pedia. “Só quero ver vida”, repetia todas as noites, exaustivamente, numa prece que durava menos do que dez segundos. Mas os dias passavam, os meses se arrastavam e nenhuma vida parecia acordar dentro dela.
Luane continuou seguindo em frente com sua vida sem vida, arranjou um emprego, fez mais alguns amigos que sabia que não ia durar, ligou para familiares nas datas comemorativas e continuou a ignorar o vazio dentro de si enquanto esperava o seu pequeno milagre.
“Milagres demoram a acontecer”, disse-lhe um amigo bastante religioso um dia, e era verdade, Luane não acreditava em muitas coisas, mas acreditava nisso. Se fosse fácil, se fosse só pedir um potinho de tesouro e – paft! – ele aparecesse na sua frente e resolvesse todos os seus problemas até que você conseguisse o seu final feliz antes dos 30, pra que habitar este mundo, não é mesmo?
Foi de súbito, assim de repente, enquanto lavava a louça, que Luane se deu conta de que talvez aqueles que viviam uma vida sem vida eram os que tinham um potinho de ouro nas mãos quando e onde desejassem. Esse pensamento, essa nova forma de olhar para o mundo começou a arrancar-lhe sorrisos e Luane até arriscou-se a fazer algumas piadas para os seus novos amigos. Luane resolveu largar essa ideia de milagres pra cá e vida pra lá e decidiu viver pela busca. Busca de quê, de quem, de que lugar, isso não importava. Mas deu-se conta de que existir era movimentar-se e enquanto não parasse de buscar, de uma maneira ou de outra, ela ficaria bem.
E foi numa manhã de abril que Luane  encontrou o milagre que tanto desejara! Passou tanto tempo imersa em si mesma que só naquele dia foi reparar num ninho de sabiá feito no vão embaixo do parapeito de sua janela. Ela chegou bem na hora do nascimento, quando pequenas cabecinhas quebravam a casca do ovo e gritavam ao ver o mundo pela primeira vez.
Com lágrimas nos olhos, Luane correu para pegar sua câmera fotográfica para registrar aquele momento. Tirou várias fotos, de diversos ângulos e ia guardá-las num lugar especial para lembrá-la no futuro, quando as coisas ficassem difíceis e o vazio se tornasse insuportável, que preces de dez segundos também são atendidas e pequenos milagres sempre acontecem à nossa volta.