Um Projeto de Conto e Uma Conversa Comigo Mesma

Pego minha caneta e meu caderno e tiro o pó que se acumulou nas páginas depois de tanto tempo. Pode um escritor se autodenominar escritor mesmo sem escrever? As ideias e o mundo na cabeça bastam para receber tal título?

Abro o caderno e encaro as páginas em branco. Tenho mil histórias na cabeça, mais mil poemas, mais mil pensamentos que desejo escrever e expressar e são tantos tantos tantos que nem sei por onde começar.

Decido pela história da menina dos olhos de luz e paro na primeira frase. A história parece promissora, pelo menos na minha cabeça, mas será mesmo? Será que vale a pena ser escrita? Será que existe alguém lá fora que vai amar essa menina dos olhos de luz da mesma forma que eu já amo? Será que alguém vai se importar?

“Ninguém hoje em dia lê mais nada!”, a voz de uma pessoa conhecida ressoa em minha mente, provocando-me um certo desânimo. De fato, ninguém mais lê. Passamos pelas redes sociais lendo frases cada vez mais curtas, vídeos cada vez mais rápidos e ficamos horas vendo coisas pequenas e muitas vezes sem conteúdo apenas para “desestressar”. Vejo amigas e conhecidos até mostrando que leem, mas no geral são um tipo de narrativa também rápidas, receitas de bolo que sempre funcionam, que ajudam a acalmar o coração e a mente. Isso não é uma crítica, eu também amo histórias receitas de bolo que acalmam o coração e a mente, inclusive estou lendo um agora (e amando!). É apenas a contestação de um fato. Deveria eu escrever um livro assim também? Questões.

Enquanto reflito, a página continua praticamente em branco. Penso em desistir. Pra quê escrever se ninguém irá ler? A menina dos olhos de luz não é uma história receita de bolo. É densa, é sombria, é reflexiva e era para ser um conto que está prestes a virar uma novela, pois as imagens não param de chegar e eu não consigo parar de imaginar. Eu quero escrever essa história. Quero muito. Mas tão pouco tempo e tão pouco esforço valerão a pena? Se eu transformá-la em vídeo terei mais atenção? Alguém tirará 5 minutos do seu dia para ouvir essa história que eu tenho para contar?

“Você deve oferecer ao leitor algo em troca”, foi o que recomendaram em um dos muitos cursos e lives sobre escrita criativa. “Você deve dar a ele um mundo onde ele possa mergulhar, você deve criar um universo só seu, onde o leitor sentirá a necessidade de habitar esse mundo e reconhecerá a sua marca mesmo de olhos fechados.” Caramba, então todo escritor agora tem que virar Taylor Swift? Respiro profundamente. Estou ferrada. Talvez se eu pudesse me dedicar 100% a esse ofício eu conseguisse criar esse tal universo paralelo, essa tal marca. Mas tenho outras obrigações que ocupam 80% do meu dia, sentar para conseguir escrever é um privilégio. Eu não tenho todo o tempo de Taylor Swift pois não vivo do meu ofício, como ela vive. Eu só sou uma mulher levemente esquizofrênica e que sente a necessidade de transformar os próprios sentimentos em contos de fadas para que a realidade se torne um pouquinho mais cor de rosa. E partir daí saem umas coisas mirabolantes que eu não tinha nem ideia que existiam dentro de mim, como uma história sobre uma boneca de pano, uma alcóolatra e um super-herói que encontram o amor em um lugar sem esperança, uma caixa de madeira pintada em lilás que esconde fantasmas e, agora, uma menina cujo os olhos iluminam qualquer escuridão por onde passa e que tem essa luz ameaçada quando alguém bate à sua porta de madrugada. Um pouco de loucura com uma pitada de magia, é só o que tenho para entregar. Isso basta?

Talvez não baste. E isso me assusta. Gosto de contar histórias, mas gosto também que exista alguém do outro lado para ouvi-las. Para que se forme uma conexão especial entre escritor e leitor, que um dia foi toda a minha razão de viver. E eu sinto muita, muita falta dessa conexão. Sinto muita falta de ser escritora. Sinto muita falta de ser a melhor versão de mim.

O mundo me chama lá fora, mas eu quero muito começar essa história. A menina dos olhos de luz e alguém que bate à sua porta. Eu acredito nessa história, que ainda penso se terá um final triste ou feliz (algumas histórias precisam ter um final triste mas, nem por isso, menos bonito). Será essa história o suficiente? Bastará a este conto (ou novela) não entregar um universo de coisas, mas apenas beleza e, quem sabe, alguns minutos de paz neste mundo tão caótico e violento? Será suficiente se apenas for bonito?

Respiro profundamente mais uma vez. Olho para a página em branco. Talvez isso tudo seja uma perda de tempo. Talvez tentar ser escritor no mundo dos vídeos seja mesmo uma perda de vida, de dinheiro, de sanidade. Penso em parar. Penso em desistir. De novo. Mas não consigo. Minha mão está ansiosa para desenhar letras que formem uma história neste caderno. A imagem da casa da menina dos olhos de luz e de alguém que bate à sua porta continua em minha cabeça. Há uma voz em meu ouvido que diz “conte, você precisa contar essa história. Se não for por você, conte por ela. Pois ela precisa ganhar vida” (já disse que sou levemente esquizofrênica, não julguem). 

Então, contrariando toda a paranoia, o medo da rejeição e ansiedade por viver numa época em que histórias como a da menina dos olhos de luz não atraiam uma legião de leitores, eu pouso a ponta da caneta no papel e escrevo: “Era uma vez uma menina que carregava uma radiante luz em seus olhos e iluminava toda e qualquer escuridão por onde passava…”

InstaPost 002 – Tempo

Tenho pensado muito sobre o tempo esses dias. Sobre como o mundo em geral parece estar andando em uma velocidade impossível de alcançar, enquanto eu fico aqui meio que assustada, olhando ao redor e tentando entender onde me encaixo nessa pressa toda. Acho que as redes sociais potencializaram esse passar urgente do tempo, onde todo dia precisamos postar, trazer conteúdo, produzir e criar como se fossemos robôs prontos para executar essa tarefa a qualquer momento e sem ter o direito de errar ou não fazer direito, porque, além da pressa, é preciso ser perfeito também dentro de toda essa velocidade. Não sei pra vocês, mas pra mim isso é impossível.
Durante muito tempo eu fui dessas que fazia tudo na empolgação, jogava qualquer coisa na internet achando que era uma ótima ideia e acabava desistindo e largando o projeto porque enjoava ou ele não tinha a recepção que eu esperava. Agora eu quero ir devagar, eu quero entender qual a minha posição aqui nesse lugar, o que eu de fato quero entregar para as pessoas. Tempo é mesmo dinheiro, mas acima de tudo eu quero produzir algo que tenha significado. Um dia as minhas palavras fizeram a diferença na vida das pessoas e eu entendi, naquele momento, que tinha encontrado minha missão de vida. Quero poder sentir isso de novo.
Costumo brincar que sou como o coelhinho branco de Alice No País das Maravilhas, pois sinto que estou sempre atrasada. Tudo o que a maioria das pessoas fez enquanto jovem eu consegui fazer apenas tarde demais, pois na minha juventude eu estava apenas tentando me manter viva. E ainda que se manter viva seja algo muito importante (rs) eu às vezes penso que isso me atrasou para muitas outras coisas. E assim vejo minha vida até hoje: todos estão correndo, enquanto ainda engatinho. Mas esse é o meu tempo de fazer as coisas. Esse é o meu tempo de olhar ao redor e entender o que eu quero de verdade para mim.

Quando a gente passa dos 30 é preciso calar as vozes das pessoas que dizem a todo o momento o que você precisa fazer, pra onde precisa ir, qual o melhor caminho tomar. Essa resposta só existe dentro da gente mesmo. E ainda que muita gente que conheço parece ter a vida encaminhada depois dos 30 e isso me deixe um pouco apreensiva e culpada por ainda estar tropeçando tanto, sinto que agora é agora de decidir o que quero pra mim. Fazer escolhas baseada na minha intuição e encontrar as respostas em meu próprio silêncio. Afinal, a vida é minha. Só eu posso vivê-la por mim.

Esse texto poderia estar indo para o meu diário pessoal, mas compartilho aqui pois sempre tenho aquele pingo de esperança de que alguém pode ler, se identificar e, quem sabe, ajudar de alguma forma. Sei que é difícil parar hoje em dia para ler um texto desse tamanho, mas eu nunca soube fazer diferente, quem me conhece sabe. E sinceramente, nem quero ser diferente. Então sigo aqui, produzindo conteúdo para vocês a passos de tartaruga e esperando que, por mais que seja aos pouquinhos, bem aos pouquinhos, minha arte importe (hello Peyton Sawyer). Porque é melhor fazer algo bom bem lentamente do que fazer qualquer coisa correndo e se arrepender depois. A Need, por exemplo, levou 10 anos para ficar pronta, mas eu tenho muito, muito orgulho dela. Se tivesse terminado antes, com pressa, ela não seria nem metade do que é.

Para quem tomou um tempo pra ler esse texto aqui, muito obrigada, eu sei o quanto isso é raro nos dias de hoje! Espero que para você, que gosta do que eu escrevo, mesmo que seja esse textão improvisado e melodramático, minhas palavras tenham ressoado de alguma forma. Sigo aqui tentando entregar o meu melhor ainda que bem, beeem devagar… ❤️

Uma História Sobre Perguntas e Respostas em V Atos

I.

Meu pai costuma dizer que sempre tenho uma resposta pra tudo.
Desde muito pequena eu procuro o sentido das coisas como se minha vida dependesse disso.
Por que o céu é azul?
Por que não podemos voar?
Por que não posso viver no mar?
Qual o sentido da vida, por que estamos aqui, o que é Deus, de onde eu vim?
Se havia perguntas, eu ia atrás das respostas.
E não tinha nada e nem ninguém que pudesse parar minha mente irrequieta e meu coração apaixonado por descobertas.

II.

Na escola, os professores não sabiam responder às minhas perguntas. Eu perguntava tanto, mas tanto, mas tanto, que eles precisavam implorar para eu calar a boca a fim de seguir com a aula.
Eu calei minha boca, mas não calei minhas perguntas.
À minha maneira, fui atrás das respostas, me vendo cada vez mais longe das explicações vazias e impacientes que uma sala de aula tradicional poderia me oferecer.
À minha maneira, encontrei minhas próprias respostas.
À minha maneira, me encontrei em minhas próprias respostas.

III.

Eu preciso saber. Se eu não sei, se eu não explico, eu não respiro, eu não vivo, eu não sei mais quem sou.
Procuro minhas respostas na psicologia, na astrologia, na física quântica, na biologia, nos meus sonhos, na espiritualidade, procuro as respostas e as respostas eu sempre encontro.
Meu pai tem razão.
Eu tenho mesmo uma resposta para tudo.

IV.

Eu não consigo explicar por que quando você me chamou pela primeira vez, eu senti que não era a primeira vez.
Eu não consigo explicar por que cada vez que você sorri é como se eu estivesse vendo alguém que eu já conheci.
Eu não consigo explicar por que eu sabia que você me queria antes mesmo de você descobrir. E porque também sabia que você fugiria assim que descobrisse.
Eu não consigo explicar por que você ainda está aqui quando há tanto foi embora.
Quando eu olho para você, nada tem uma explicação, nada faz sentido.
Quando eu olho para você, eu já não sei mais quem sou.
Não há psicologia, astrologia, física quântica, biologia, sonhos ou espiritualidade que nos explique.
Eu procuro o sentido de nosso encontro como se minha vida dependesse disso.
Eu procuro e não encontro.
Não há nada.
Não há nada em lugar algum.

V.

Você é a única pergunta para qual eu não tenho uma resposta.

Um Lembrete.

Queria dizer para a minha menina que tudo vai ficar bem. Que de alguma forma, ela vai sair viva e melhor de todos os desafios que aparecerem pelo caminho.
Queria dizer pra ela que esse sorriso e o brilho nesse olhar são os seus maiores tesouros. Que ela deve se agarrar a isso com todas as forças e jamais deixar que ambos se percam de seu rosto.
Queria pedir pra ela nunca esquecer da sua essência. Nunca esquecer que ela é naturalmente alegre, que ama fazer piadas e ver as pessoas rindo por algo que ela disse ou fez, que é aventureira, curiosa, exploradora, carinhosa, sincera e que todo o amor que mora dentro desse peito é tão grande que não cabe nem nesse planeta. Que o amor que vive dentro dela é tão imenso assim que é necessário mais um planeta pra que ela possa derramar-se e espalhar-se por mais espaços (mas que vai ter que se conformar em espalhar-se só por aqui mesmo porque é o que dá pra fazer por enquanto). E que mesmo quando ela se perder dessa essência – o que irá acontecer quando ela largar tudo o de mais belo pra buscar amor dentro dos olhos daqueles que não sabem nem como amar a si mesmos – que ela olhe para si, olhe para esse brilho e esse sorriso e lembre-se de quem ela é.
Porque ela sabe amar e como sabe! Ela já nasceu amando e criando, pronta para pintar com cores e risadas todo esse mundo cinza e sem graça que precisa de histórias e muitas histórias para sorrir. E ela nasceu para escrevê-las.
Que a minha criança saiba que esse corpo foi feito perfeito assim para construir. Porque ela nasceu para construir. E que ela entenda, de uma vez por todas e para sempre, que beleza é tudo o que ela é. Que beleza é tudo o que sai dela.
Ela não precisa de pedaços de ninguém para se construir. Ela já é inteira assim.
Onde quer que essa criança more dentro de mim, que ela saiba que é amada. Muito amada. E que ela pode ficar tranquila pra escrever, pintar, cantar, dançar, explorar e amar sem medo de qualquer bronca ou julgamentos.
Eu estou aqui pra ela. Agora estou aqui.
E eu vou ficar.

Junho.

É junho.
Faz hoje dez meses desde que eu ri pela primeira vez de uma de suas horríveis piadas e disse sim ao seu convite.
Minha melhor amiga fez um bolo para celebrar nosso décimo terceiro aniversário e diz que me ama, diz que me ama mais do que ama bolo, e eu compreendo o quanto a minha vida tem significado.
Lá fora o outono esqueceu que é outono e o sol se exibe como se fosse a sua estação.
Os olhos do meu cachorro brilham com os raios dourados após dias preso dentro de casa e agora ele anda por essas ruas como se todo esse chão lhe pertencesse. Levanto os olhos para ver os pássaros voando na imensidão de azul como se fosse o início da primavera. As árvores dançam a dança do vento e nesse momento em particular sinto que não há nenhuma dor capaz de me esmagar. Digo oi para os pássaros mesmo sabendo que eles não podem me ouvir, contemplo a grande imensidão de azul e agradeço.
Agradeço por estar viva, por ter toda a sorte de habitar esse corpo capaz de sentir tudo intensamente, agradeço por ter a oportunidade de viver debaixo dessa pele tão sensível, de sentir esse coração, esse coração irrequieto e impulsivo, mas que é meu e só meu para cuidar e proteger, agradeço, agradeço muito por estar aqui.
Eu amo estar aqui.
E eu vou ficar.

É junho.
E estou cansada de pensar.
Você não está mais aqui. Acho que nunca esteve de verdade.
Há tanta vida lá fora, tanta luz, tanto amor, pessoas, bichos, esplendores
Há tanto que esse imenso mundo pode ainda me oferecer, viver
Tanta coisa além das migalhas que você jogou em minha direção para conseguir lidar com sua confusão
E agora já não importa mais se você sentiu aquilo ou não
Porque, sinceramente, você nunca será capaz de responder a essa pergunta de um milhão
Nunca será capaz de responder a uma questão da qual nem você sabe a resposta.
Você nem sabe como se sente em relação a si mesmo ou em relação aos outros ou o que realmente pensa sobre o amor ou a vida e talvez esperar alguma lógica de você
seja o mesmo que esperar um navio retornar ao seu porto mesmo após ter sido engolido pelo mar… Simplesmente não vai acontecer.

É junho.
Não sei onde você está ou se já arranjou outros olhos grandes como caixas capazes de acolher toda a sua confusão, mas já não importa agora.
Porque você não está aqui, mas eu estou. Eu estou aqui de uma forma que você nunca esteve. De uma forma que nenhum homem foi capaz de estar.
Eu me sinto. Eu me pertenço finalmente após passar anos tentando construir casa nos olhos de outras pessoas, após passar toda uma vida ofertando pedaços de mim a qualquer um, esperando que algum deles tivesse a disposição de montar minhas peças e me colocar no lugar.
Eu me pertenço e não vou mais me abandonar.
Eu vou ficar.

É Junho.
O outono esqueceu que é outono. Lá fora, o sol se exibe como se fosse a sua estação.
Espero que você possa encontrar uma cura para o seu coração partido.
Estou tentando fazer o mesmo por aqui.
Espero que você um dia consiga ser feliz.
De verdade.
Eu sei que eu serei.
Eu construí uma casa dentro de meus olhos ela é tudo o que eu sempre quis.
Eu amo estar aqui,
Nessa casa, nessa vida, em mim.
Eu amo estar aqui.
E eu vou ficar.
Sim.

Eu vou ficar…

Uma História Sobre O Medo Em V Atos

I.

O medo tem a cara de um homem.
Não sei descrever seus traços, seus cabelos, sua voz ou seu tamanho.
É apenas um homem.
Medo.
Gênero masculino.
Medo, com seus braços largos que apertam e machucam, com suas mãos que esmagam meus ossos, com seus lábios vermelhos de escárnio, com sua boca suja de sangue.
O meu medo tem a cara de um homem.

II.

Um dia, uma amiga me explicava o que era o amor.
Como era estar apaixonada, como era bom ser tocada, apreciada, amada.
Como era bom não sentir dor.
Eu olhei para ela com curiosidade, como alguém que escuta uma língua nova, uma língua nunca antes detectada pelos ouvidos.
“Entenderei o que é o amor o dia em que eu não sentir medo.”
Disse para o vazio, enquanto ela cantava para si mesma uma canção apaixonada.

III.

Percebi que havia algo estranho quando você andou ao meu lado e eu não senti medo.
Lembro de olhar para nossos pés, lado a lado, e nossos passos pisarem na mesma cadência, na mesma direção.
Não era normal. Eu nunca antes havia deixado os pés de um homem pisarem na mesma cadência que os meus.
Percebi que havia algo estranho quando seus olhos chamaram os meus olhos e eu não senti medo. Lembro de sentir que não era a primeira vez que eles se encaravam.
Não era normal. Eu nunca antes havia encontrado pela primeira vez alguém que eu já conhecia.
Você percebeu que havia algo estranho quando se encontrou no meu olhar e sentiu medo.
Não era normal. Você nunca antes havia permitido se reconhecer dentro dos olhos de uma mulher.
Você então mudou o ritmo de seus pés, seus olhos foram chamar outros olhos, de preferência olhos que não o refletissem.
(É mais fácil assim, não é?)
O seu medo ainda tem o meu rosto.

IV.

Uma música lamentosa ressoa sua melodia no fim da noite.
Diz a letra:
“Você chegou tarde demais para mim, eu cheguei cedo demais para você.”
É isso.

V.

Sinto muita falta de não sentir medo.

Não Mais “E Se?”

Eu parei de sentir medo.
Eu abri a gaiola, saí pro mundo, abri meu peito e respiro mais fundo.
Estou vencendo meu pavor de pessoas, agora piso forte, canto mais alto, agora falo o que penso, não temo os olhares e tampouco me importo com os lamentos.
Agora acredito que sou inteligente (o bastante), que tenho talento (o bastante), sonho e realizo, agora eu sigo, consigo o que quero, o que preciso, o que mereço.
Larguei a necessidade de aprovação, a obsessão em ser amada – por tudo, por todos – agora eu olho no espelho e vejo alguém que vale muito a pena.
Estou buscando perdoar meu pai e recompensar minha mãe – por tudo, por todos – e já não existe nenhuma culpa, pois me vejo como o brilho nos olhos dos outros.
Sobrevivo de arte e de letras porque é o que sou, o que eu respiro, e com isso digo a verdade, a minha verdade, e finalmente não preciso me esconder para evitar sofrer – por tudo, por todos –, pois já entendo quem eu nasci pra ser (não quero nunca mais me esconder).
Entendi o esplendor que há em viver.
E não quero nunca mais viver de “e se?”

E Se?

 

E se eu parasse de sentir medo?
E se eu abrisse a gaiola, saísse para o mundo, se abrisse meu peito, se respirasse mais fundo?
E se eu vencesse meu pavor de pessoas, se pisasse mais forte, se cantasse mais alto, se falasse o que penso sem temer os olhares, sem me importar com os lamentos?
E se acreditasse que sou inteligente (o bastante), que tenho talento (o bastante), que posso sonhar e realizar, que posso seguir, conseguir o que quero, o que preciso, o que mereço?
E se eu largasse essa necessidade de aprovação, a obsessão em ser amada – por tudo, por todos – e se eu olhasse no espelho e visse alguém que vale a pena?
E se eu pudesse perdoar meu pai, e se eu pudesse recompensar minha mãe -por tudo, por todos -, e se eu pudesse largar essa culpa por nunca conseguir ser o brilho nos olhos dos outros?
E se eu pudesse sobreviver de arte, sobreviver de letras, se pudesse dizer a verdade, a minha verdade, sem precisar me esconder para evitar sofrer – por tudo, por todos -, e se eu pudesse ser quem eu nasci para ser? (Esconder só aumenta o sofrer)
E se eu pudesse finalmente começar a viver?
E se?

Branca De Neve Na Floresta.

 

Estou entrando em uma floresta, uma floresta de pedra. Ouço o barulho dos saltos sobre o chão de mármore e em meu peito apenas o silêncio. Nenhum ar entra, nenhum ar sai. Estou entrando na floresta e não consigo pensar.
Olhos me miram, me esperam e aguardam. As palavras que mantive alinhadas por toda a noite agora são redemoinhos na cabeça. Estou entrando na floresta, os saltos batem e batem, não penso e a consequência é não saber o que dizer.
Olhos me miram, muitos olhos, por todos os lugares, por todas as partes. É um pesadelo ao vivo e a cores. Olhos bravos, semicerrados, olhos que me observam e esperam, olhos que me desesperam.
Não sei o que acontece, apenas acontece. Me coloco na frente, estico a coluna tudo está bem, eu digo, tudo está bem, está bem, não, não está nada bem.
Não sei o que acontece, apenas acontece.
Não sei… Não sei.
Quero gritar, mas não faço nenhum som. Quero fugir, mas minhas pernas tremem demais para que eu possa dar qualquer passo sem cair. Mãos invisíveis apertam meus ombros, os olhos me miram, meu Deus, será que estão percebendo?
Olhos me miram e não sei, não sei!
Estou aqui e agora? Estou aqui e, meu Deus, só quero sair!
Solto uma risada (sempre o riso dissimulado!) e sigo em frente. Tudo está bem, está, se não está, vai ficar. Solto as palavras presas, jogo o redemoinho para a plateia confusa. Eles que peguem as palavras, eles que as organizem em fila indiana, que façam algum sentido disso. Eu não sei mais o que faço, apenas faço. Já não sou gente, já não sei o que sou, talvez uma máquina emitindo um som arranhado, prestes a dar defeito (acho que já dei…). Apenas termino a tarefa com sorriso de miss e uma piada impertinente.
O barulho dos saltos sobre o chão e meu peito em chamas. Saio da floresta, mas o pavor não sai de mim. Me escondo no canto, a vida segue, os olhos desviam, uma outra pessoa entra na floresta e as palavras saem em fila indiana (me pergunto se ela também está em chamas).
A vida segue, mas eu não.
Eu parei aqui.

Desculpe, Mas Não Posso Sair Esta Noite.

perfe

 

Eu preciso lhe comunicar a minha ausência no dia de hoje. Estou certa de que sua festa será ótima e espero que todos se divirtam muito, mas eu não posso sair esta noite. E não é que eu tenha outro encontro ou outras coisas para fazer… Sendo sincera, eu tenho sim muitas coisas para fazer, todas as noites, todos os dias, a todo o tempo, é só que… não consigo.
Veja, eu pareço estar de pé, me movendo um pouco pra cá, andando um pouco pra lá, mas apenas pareço. A verdade é que na maioria das vezes, quando as cortinas estão fechadas e as portas trancadas, estou deitada e nem um osso em meu corpo se move. Tudo está tremendo. Meus pensamentos não param de correr por todos os lados e correm e correm e correm e correm e meu corpo não consegue acompanhar a corrida. Estou deitada, mas meu coração bate, bate, bate contra minhas costelas e vai minando aos poucos qualquer controle respiratório que eu tente fazer para manter tudo aqui dentro no lugar.
Poderia tentar me entender? Não?
Vejo seus olhos me julgando. Eu sei que você foi criado para a ação, para a criação, aliás, não fomos todos? E eu sei que você nunca sentiu seus órgãos tremendo, suas mãos chacoalhando e sua boca tão seca  a ponto de fazer-lhe pensar que você irá morrer de sede a qualquer momento e eu entendo que é difícil de entender por que isso acontece quando nada aconteceu de verdade. Está tudo na minha cabeça, aqui dentro, mas não consigo tirá-lo com minhas mãos fracas.
Como se sente ser normal? De verdade, diga-me, como se sente ser uma pessoa que sabe ser pessoa?
Me ensinaram muitas coisas na escola e no núcleo familiar, mas não me ensinaram a ser pessoa. Não me ensinaram a me divertir como todo mundo, a dançar como todo mundo, a paquerar, respirar, viver, essas coisas, essas coisas simples da vida. Eu não sei quando foi que algo começou a dar errado, mas deu. Simplesmente deu e agora… Agora não sei. Ninguém sabe, eu acho. Então eu sento aqui e espero até que alguém saiba, até que alguém me dê uma pílula milagrosa que vai conectar algo desconectado em meu cérebro e então serei vocês, então serei como todos. Mas até lá, meu Deus!, até lá eu não sei…
Não sei de nada e só “não sei” sei dizer. Desculpe, eu queria ter algo mais a dizer, algo mais a justificar, mas adivinha? Pois é, eu não sei…
Então desculpe o transtorno, desculpe a avalanche de confusão, desculpe privar-lhes de minha presença (ainda que eu sinceramente acredite que todos vocês estarão melhor sem mim, Deus sabe, eu estaria melhor sem mim…), desculpe estar falando assim tão em cima da hora, mas é que acreditei até o ultimo minuto, acreditei que dessa vez conseguiria, mas hoje ainda não dá pra mim. Desculpe, mas eu realmente não posso sair esta noite.
Preciso de mais tempo, ainda que não tenha certeza pra quê exatamente eu preciso.
Fica pra próxima, quem sabe não estarei bem até lá? Quem sabe então não aprenderei a ser alguém, a ser pessoa e tudo aqui escrito vai ficar para trás como um texto de ficção de um personagem de alguém?
Quem sabe, não é?
Eu não sei.
Mas espero um dia saber.