“O Tipo”, poema por Sarah Kay

Sarah Kay está no top 5 de poetas que mais admiro na minha. Digo com toda a certeza que o ritmo de sua poesia falada e as imagens que ela consegue evocar em nossa mente com uma simplicidade e beleza que beiram ao absurdo influenciam muito na minha própria maneira de fazer poesia.
Ela é muito conhecida pelo seu poema recitado no Ted Talks, intitulado “If I Should Have a Daughter”, mas para mim, o seu melhor poema é, de longe, o “The Type”.
Não lembro exatamente quando ouvi o poema pela primeira vez, mas lembro de sentir o seu impacto. “The Type” é o tipo de poema atemporal, daqueles que vão adquirindo um sentido mais profundo conforme você vai amadurecendo. Pode ser considerado um poema feminista, um poema de amor, de desamor ou de autoamor. Talvez seja tudo isso ao mesmo tempo. O fato é que ele entra na pele, ele abraça o seu coração e faz com que você se sinta acolhida mesmo quando todo o seu corpo parece estar em chamas. É, seguramente, um dos poemas mais bonitos que eu já li na vida.
Sarah não tem nenhum livro seu traduzido para o português, o que é uma pena. Gostaria que todos tivessem a oportunidade de sentir o conforto que é estar em contato com suas palavras. Resolvi então traduzir o “The Type”, para que mais pessoas, principalmente mulheres, possam conhecer toda a beleza que essa poetisa americana tem a dizer.
Já traduzi muitos textos, matérias de jornal e até um livro de ficção, mas poesia é minha primeira vez. Resolvi arriscar e espero que a minha tradução faça jus ao poema original. Traduzir um poema é muito complicado, uma vez que poesia é puro ritmo e imagem e, na maioria das vezes, ao passar um poema de uma língua para outra muita coisa se perde. Mas tentei fazer o melhor que pude e amei a experiência de poder traduzir este poema que significa tanto para mim.

O Tipo

Se você vier a se tornar o tipo de mulher que os homens querem olhar
Você pode deixar que eles te olhem.

Não confunda olhos com mãos.
Ou janelas. Ou espelhos.

Deixem que eles vejam o que é uma mulher.
Talvez eles nunca tenham visto uma antes.

Se você vier a se tornar o tipo de mulher que os homens querem tocar
Você pode deixar que eles te toquem.

Às vezes não é você quem eles estão tentando alcançar.
Às vezes é uma garrafa. Uma porta. Um sanduíche.

Um Pulitzer. Outra mulher.
Mas as mãos deles encontraram você primeiro.

Não confunda a si mesma com uma guardiã.
Ou uma musa. Ou uma promessa. Ou uma vítima. Ou uma merenda.

Você é uma mulher. Pele e ossos. Veias e nervos. Cabelos e suores.
Você não é feita de metáforas. Nem de perdões. Nem de desculpas.

Se você vier a se tornar o tipo de mulher que os homens querem abraçar
Você pode deixar que eles te abracem.

Todos os dias eles treinam em como deixar seus corpos esticados —
Mesmo após toda essa evolução, ainda parece pouco natural

A forma como firmam os músculos, como tensionam os braços e a coluna.
Apenas alguns homens irão querer aprender qual a sensação de se enroscarem como um


um ponto de interrogação ao seu redor e admitir que eles não têm as respostas
Que pensaram que teriam até agora;

alguns homens irão querer te abraçar como se você fosse A Resposta.
Você não é a resposta.

Você não é o problema. Você não é o poema
Ou o trocadilho ou a charada ou a piada.

Mulher. Se você vier a se tornar o tipo que os homens querem amar
Você pode deixar que eles te amem.

Ser amada não é o mesmo que amar.
Quando você ama, é como descobrir o oceano

Após passar anos brincando com poças. É perceber que você tem mãos.
É atravessar uma corda bamba quando toda a multidão já foi para casa.

Não perca seu tempo se perguntando se você é o tipo de mulher
Que os homens irão ferir. Se eles a deixarem com um alarme cantando em seu coração

Aprenda a cantar junto. É difícil deixar de amar o oceano
Mesmo quando ele a deixou arfando e coberta de sal.

Perdoe a si mesma pelas decisões que você tomou.
Aquelas que você ainda chama de erros quando as esconde no meio da noite

E saiba disso:

Saiba que você é o tipo de mulher
Que está procurando um lugar para chamar de seu.

Deixe que as estátuas sucumbam.
Você sempre foi esse lugar.

Você é uma mulher que pode construí-lo por si mesma.
Você nasceu para construir.

Evelyn Marques

Evelyn Marques

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). É escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
Evelyn Marques

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