#5 – Cidade do Vento [Youtube]

“Você não faz ideia de quanto tempo te esperei…”

“Cidade do Vento” é um conto inserido no meu livro “Pássaro Azul”. Esse livro é uma reunião de histórias românticas que escrevi na época quando ainda era adolescente/jovem adulta. São contos pequenos, porém que mostram meus primeiros passos como escritora. “Cidade do Vento” é o meu conto preferido desse livro. Espero que venha a ser o seu também.

Não se esqueçam de me seguir lá no Instagram @evelynmarquesescritora, onde eu posto (quase) diariamente os meus projetos e dou avisos para quem acompanha o meu trabalho.

Espero que gostem do vídeo, pois esse deu muito mais trabalho que os outros e me deu uma estressada! ???? Mas é de coração ❤

InstaPost #007 – Síndrome de Hermione Granger

Sofro de um “transtorno” que costumo chamar de “Síndrome de Hermione Granger”. Eu tenho, creio que desde nova, a mania de querer ser boa em tudo, saber de todos os assuntos, fazer bem todas as coisas e tenho a obsessão de ser reconhecida como inteligente. Só que de uns tempos pra cá eu tenho percebido o quanto isso é nocivo e o quanto também mascara uma profunda sensação de insuficiência dentro de mim. A gente sempre escuta aquela máxima de que perfeição não existe, mas vamos combinar que o mundo não é muito gentil com quem costuma demonstrar seus defeitos.
Eu escrevo desde os meus quinze anos, mas sempre adiei colocar minhas palavras do mundo, além do nicho que criei pra mim no Orkut, pois precisa estar “pronta” para fazê-lo. Precisava ser boa o bastante para estar nesse meio literário de gente tão incrível e não podia ficar pra trás. Como consequência, quinze anos se passaram e tirando uns textos e poemas que publicava mensalmente no Sonhos de Letras, me vi com 30 anos e sem publicar nada de fato. Só que o Universo sempre tem aquele seu jeitinho doce como o coice de um cavalo de colocar a gente no devido lugar e acabei me vendo praticamente obrigada a lançar minhas coisas por motivos de 1) atingi o pré-sal do desespero financeiro e 2) os cabelos brancos começaram a me avisar que eu não estava ficando mais jovem, muito pelo contrário.
O tempo passa e passa rápido demais, mesmo quando à nossa frente nada parece estar se movendo. A gente só tem uma vida (e olha que acredito em reencarnação, but still) e se não realizarmos nossos sonhos agora, quando iremos fazê-lo?
Este ano estou trabalhando 100% em divulgar minhas coisas e criando projetos que nunca pensei ser capaz. Fala pra Evelyn de 2019 que um dia ela vai ter um canal no YouTube e com certeza ela irá rir na sua cara e te mandar pro psiquiatra. Mas é isso, 2023 chegou e eu tenho um canal no YouTube, apesar do medo do fracasso, apesar de fazer tudo sozinha e com minha experiência autodidata de edição de vídeos, eu tenho um canal no YouTube. E sinceramente? Acho isso incrível!
Não pelo meu trabalho ser excepcional – minha síndrome jamais me permite achar qualquer coisa minha excepcional – mas por estar desafiando meu perfeccionismo e estar colocando meu trabalho no mundo, mesmo ele sendo bem imperfeito. Olhar pra isso me permite ver que é melhor estar fazendo alguma coisa, ainda que com tropeços e cheio de defeitos, do que passar quinze anos em busca de uma perfeição que nunca vai chegar.
Quem tem boas condições financeiras pode ter o privilégio de criar uma equipe de especialistas que irão ajudar a aparar as arestas de um determinado trabalho e pode ser que esse trabalho chegue perto da perfeição. Mas como esse não é o meu caso e tudo o que vocês veem tanto no Instagram, como no Sonhos de Letras, como no YouTube é 100% feito por mim, é impossível não deixar passar alguns (muitos!) erros e, apesar de sentir uma faca girar em meu estômago cada vez que encontro algum tipo de equívoco no meu trabalho (e eu encontro toda hora!), preciso lembrar que não sou Hermione Granger e que até mesmo ela tinha suas imperfeições. Fazendo tanta coisa ao mesmo tempo é impossível não deixar passar nada. E só me resta aceitar e seguir caminhando com o trabalho que eu acredito que tenho para mostrar ao mundo e que espero, do fundo do meu coração, que um dia faça a diferença na vida de alguém.
Obrigada ao guerreiro que leu esse texto até aqui num mundo onde um parágrafo virou textão, mas eu só funciono assim. E sigo aqui, tentando trazer o melhor de mim para vocês, mesmo sabendo que esse melhor podia ser beeeeem melhor.
(Ainda bem que amanhã tenho terapia rs!)

Cidade do Vento [versão 2023]

Eu tive um sonho. O mais belo de todos. O mais estranho de todos. Mas principalmente, o mais verdadeiro de todos.
Andava por uma longa estrada, sem caminho e sem rumo, parecia que eu estava em busca de algo, ainda que não soubesse certamente o quê.
Uma leve brisa soprava meus cabelos, empurrando-os para frente. Era como se o vento estivesse me dizendo para continuar nos momentos em que eu tinha vontade de desistir. Estava sendo empurrado, guiado para algum lugar. Para alguém.
E então, escutei uma voz.
Um sussurro.
Era como se o vento estivesse falando comigo.
Era como se o vento estivesse me chamando.
Assim que abri os olhos ao despertar, decidi seguir esse vento. Há sonhos que não são simplesmente sonhos e sim algum aviso para mudarmos nossa forma de ser ou de viver. E estava na hora de pegar a estrada. A estrada da qual havia sonhado. E deixar que o vento me guiasse.
Com uma mochila nas costas e sem esquecer das pessoas que estava deixando para trás, dei o primeiro passo para sair de casa. Estava em busca de algum maravilhoso mundo novo ou de alguma nova canção para minha vida tocar.
A verdade é que eu estava em busca da vida. E só poderia encontrá-la se fosse atrás do movimento.
Um convite bate à nossa porta todos os dias. Um convite invisível, talvez também incompreensível, mas que está ali. Porém as pessoas não veem, viram a cara, têm medo. Elas não querem sair da rotina. Porque o desconhecido é um terreno bastante perigoso.
Eu atendi ao convite da vida. E estava à procura da felicidade. 
Durante o caminho encontrei muitas pedras. Enfrentei muitas tempestades, passei fome e sede. Lutei contra dragões perigosos e andei sobre o mar. Saltei até segurar uma nuvem em minhas mãos e, ao prová-la, vi que era mesmo feita de algodão doce.
Cumprimentei fadas, lutei ao lado dos elfos e ajudei aos duendes reestruturarem uma floresta destruída pelo fogo da ganância e do poder.
Andei mais por vários dias. Em uma noite de exaustão e desânimo, me deitei sob as estrelas, pensando que tudo tinha sido em vão. Por que eu, aquele típico ser humano que está sempre querendo mais do que pode ter, ainda não estava satisfeito? Por um momento a razão falou mais alto e pensei que talvez fosse uma completa loucura largar a minha vida para buscar algo que eu nem mesmo sabia o que podia ser. E entre pensamentos abatidos e desesperançosos, adormeci.
Sonhei com anjos. As nuvens – que eram mesmo de algodão doce – estavam repletas deles, vestidos com suas túnicas brancas e abençoados com as auréolas em suas cabeças. Todos me observavam, enquanto eu seguia deitado na relva, encarando todo aquele público que me olhava. De repente o menor dos anjos saiu detrás das nuvens, com algo em sua mão. Era uma criança, que descia dos céus para me dar um presente.
Eu não conseguia me mover. Estava entorpecido por toda aquela áurea angelical. A menina loira e de cabelos cacheados colocou algo entre minhas mãos. Mas era invisível.
Ela meu deu um beijo e me disse: “Siga a rosa branca”.
E então partiu. E eu acordei.
O vento soprou no instante em que abri meus olhos. O vento outra vez. Ele me passava as mensagens, ele me impulsionava a continuar.
Peguei novamente minha mochila e reconstruí os sonhos e as esperanças. Se eu já havia percorrido tanto, deveria ter algum propósito. Ninguém recebe tantos sinais se não for para segui-los. E eu seguiria o meu destino.
Parei de contar os dias, as horas, os minutos, pois tudo isso atrasa a vida. Deixei o sopro do vento me conduzir para o caminho certo, acompanhei seu rumo e prossegui sem medo. O que interrompe a estrada de alguém não são as tempestades ferozes ou o sol escaldante. É simplesmente o medo. E eu fiz questão de mantê-lo bem longe de mim.
Uma canção de amor sussurrava em minha mente quando pisei no primeiro paralelepípedo. Só então notei que a estrada arenosa havia acabado e que havia chegado a algum lugar. Levantei meu rosto e pude ver uma cidade à minha frente, com um arco-íris circundando-a devido à leve chuva que havia caído junto com o sol que escalava o azul do céu aos poucos.

“Seja bem-vindo à Cidade do Vento”

A inscrição na placa de madeira fixa na entrada fez meu coração saltar.
Eu tinha seguido o vento. E ele havia me trazido até aqui.
Como mágica, o vento começou a soprar em minhas costas e eu avistei, na primeira casa onde minha visão conseguia alcançar, uma mulher sentada em um pequeno banco. Meus olhos não conseguiram desviar para outro lado e percebi quando ela me avistou também. Mesmo de longe, pude ver um lindo sorriso se abrir em seu rosto. Ela veio caminhando até a mim, com seus cabelos balançando pelos ares e, quando se aproximou, vi que tinha algo em sua mão: uma rosa branca.
Naquele momento meu peito encheu-se de um ar mais puro, de uma felicidade indescritível.
Nunca a tinha visto em minha vida. Mas a conhecia de muito antes.

— Estás aqui. Finalmente. – disse com a voz baixinha, quase como num sussurro, e sorriu em seguida.
— Estava esperando por mim? – indaguei.
— Você não faz ideia de quanto tempo te esperei.
— E você não faz ideia do que eu fiz para te achar.

E então ela segurou minha mão como se não pretendesse mais soltá-la. Mesmo não tendo se apresentado, eu a conhecia. Porque não são necessários nomes para identificar alguém. Mesmo que se passem vidas ou eras, quando se trata de um reencontro, a gente sempre sabe.
E sentindo seus dedos se entrelaçarem aos meus, me conduzindo para dentro da Cidade do Vento, percebi, com um enorme alívio e conforto no peito, que havia conseguido alcançar meu objetivo.
Tinha encontrado o meu lugar.
Finalmente.
Eu estava em casa…

O Girassol

Numa manhã de primavera, um girassol abriu-se em flor pela primeira vez.
Quando os primeiros raios do sol tocaram suas pétalas, apaixonou-se. A luz atravessou suas folhas, passou pelo caule, até tocar a raiz e fez com que o pequeno girassol transbordasse de amor em cada pedaço de sua existência. Era recém-chegado à vida, mas o girassol já sabia que havia nascido, que fora criado para amar o sol e para sempre ser-lhe fiel.
Não havia outras flores ao redor. Era uma flor solitária que tinha florescido em um vasto campo verde com vista para a montanha. “Assim seria melhor”, ele pensou. Dessa forma poderia amar sozinho o sol e ser amado por ele, sem que nenhuma outra flor entrasse no caminho para competir.
Durante todo o dia o girassol sentiu-se feliz para sempre. Seria eterno enquanto o sol existisse. O sol insistia em mudar de lugar, movimentando-se da direita para a esquerda lentamente, afastando-se cada vez mais da flor apaixonada. Mas o girassol, insistente, seguia seu rastro movendo também seu centro da direita para a esquerda, sem deixar o amado sair de vista. Entretanto, apesar das tentativas, o sol parecia escapar-lhe cada vez mais, indo em direção à montanha. Então, foi desaparecendo de pouquinho em pouquinho, até deixar somente um rastro de luz amarelada que contornava a imperiosa montanha.
A brisa gelada trouxe consigo o crepúsculo. O girassol, agora doído e desesperado, não podia mais seguir o sol. Sua luz havia desaparecido por detrás da montanha e era impossível correr até o outro lado para ver onde o seu amado havia se escondido.
O girassol tentou falar, pedir para que o sol ficasse, para que não o deixasse… mas não tinha voz. Era uma planta inútil, presa à terra, alma solitária em um terreno intocado por mãos humanas. O sol era sua única esperança de vida. Se o sol não estava ali, não poderia mais existir.
A noite apareceu por completo quando toda a luz do sol foi substituída pelo brilho das estrelas. O girassol, triste e desolado, curvou-se, encarando a terra que o aprisionava. Seu corpo não era mais preenchido de luz, de calor, de nada. Era uma flor vazia, sem propósito de existência, sem ter para quem mirar o seu centro. A tristeza do girassol arrebentou-lhe, enfraqueceu-lhe as pétalas, que caíam uma por uma sobre o campo verde, que assistia ao desespero da enamorada flor sem nada poder fazer.
Durante toda a madrugada, o girassol foi definhando aos poucos, desprendendo-se de si mesmo, desprendendo-se da vida. A cruel solidão da noite o desmanchou em fragmentos com suas mãos frias e impiedosas. Olhando uma última vez para a montanha que escondeu o seu amado para sempre, o girassol deixou-se terminar pela escuridão que o devorou.
O vento veio recolher os seus restos e os levou pelos ares, carregando sua alma em direção ao desconhecido. Agora, sobre o vasto campo verde em uma madrugada de primavera, não havia mais nenhuma flor.
Quando o sol voltou a nascer na manhã seguinte, pronto para ser adorado pelo girassol apaixonado, ele não estava mais ali para recebê-lo.

#4 – O Cachorro e o Prego, um conto por Amanda Palmer [Youtube]

Hoje trago uma pequena história retirada de um livro que me marcou muito, chamado “A Arte de Pedir”, escrito pela cantora e escritora Amanda Palmer.

É uma história para se fazer uma profunda reflexão sobre as decisões que tomamos (ou deixamos de tomar) em nossas vidas.

Espero que gostem desse pequeno conto tanto quanto eu gosto!

#2 – A Menina e a Mulher [Youtube]

O Setembro Amarelo é uma campanha brasileira que busca a prevenção ao suicídio e também procura a estimular o debate sobre saúde mental no país. Saúde mental é um tema que me toca pessoalmente e o texto do vídeo de hoje foi retirado do meu romance intitulado “Need”. Na história, minha personagem Lois Morrison luta contra a depressão e o alcoolismo, e mantém um blog onde ela escreve sobre suas dores e desafios na luta contra os fantasmas da própria cabeça.

Espero que esse texto faça você pensar um pouco mais sobre como tem tratado a si mesmo (a) . Cuide-se da mesma forma com que você cuidaria de uma criança que ainda está começando a dar os primeiros passos no mundo. Se você seria incapaz de machucar um ser inocente, então não faça o mesmo com você. Procure ajuda!

Obrigada a todos que seguem apoiando meus projetos e gostam do que escrevo! Cada curtida, cada mensagem que recebo é valiosa demais para mim e me ajuda a seguir com este trabalho que é tão desafiador e cansativo, porém muito gratificante. Inscreva-se no canal, ative o sininho, curta esse vídeo e compartilhe com aqueles que você acha que irão gostar!

[Linhas Invisíveis] Capítulo 5 – É Melhor Você Correr Por Toda a Noite

Helena, Montana. Julho de 2009.
3 da tarde.

— Lois! – disse a voz sussurrante da menina que olhava de um lado para o outro, temendo ser vista por alguém. – Lois, pelo amor de Deus, desce daí!
— Eu preciso dar o fora desse hospício! – disse Lois Morrison, enquanto tentava pular o muro do lugar onde já estava presa há 5 dias. – Preciso ver Noah!
— Como você pretende voltar para Seattle sozinha, sua maluca? – perguntou Taylor, a única pessoa em muito tempo que ela podia chamar de amiga.
— De ônibus, ora! – respondeu Lois, olhando ao redor para ver se alguém se aproximava. – A rodoviária não fica muito longe daqui e eu tenho o suficiente para comprar uma passagem de volta. Não posso passar mais um minuto nesse retiro ridículo, eu vou endoidar!
— Lois, pense bem no que está fazendo. – alertou a menina, olhando em volta mais uma vez. – Você pode prejudicar o sir Michael e o sir Ryan! Já pensou na responsabilidade que cairá sobre eles quando descobrirem que uma jovem fugiu do retiro?
— Isso é problema deles, não meu. – respondeu, dando de ombros. – Se esse programa para jovens cristãos fosse menos insuportável, eu não estaria me arriscando desse jeito para fugir. Eles que inventem algo mais atrativo da próxima vez.
— O programa não é chato, você que é uma maluca! – respondeu a menina, impaciente.
— Maluca é a senhora Anne Morrison que realmente achou que me enfiando uma semana em um retiro cristão ia me ajudar de alguma forma. – retrucou uma amargurada Lois. – Por isso preciso estar com Noah! Ele é o único que me entende e com quem eu posso verdadeiramente contar! Não preciso de Deus quando já tenho Noah comigo.
— Pelo amor de Jesus, você acabou de começar a namorar o cara e não pode ficar uma semana sem ele? Isso é doença, você deveria se tratar!
— Você é minha amiga ou minha inimiga? – Lois perguntou, sentindo-se pessoalmente atacada.
— Eu sou sua amiga e por isso mesmo estou dizendo o que penso! – Taylor respirou fundo, tentando manter o controle para não brigar com a amiga. – Lois, pare com isso, hoje não vai ser tão ruim! Estão dizendo que à noite teremos uma palestra com um convidado especial, um amigo da escola de sir Ryan! Parece que ele já está no acampamento e umas das meninas disse que ele é um gato!
— Não me interessa, eu já tenho um homem pra chamar de meu! – respondeu Lois, ignorando por completo o aviso de Taylor sobre sua obsessão com o novo namorado. – Agora pare de encher o saco e me ajude a pular isso aqui!
— Argh, tudo bem, eu ajudo! Mas só porque quem vai ficar maluca sou eu se passar mais um minuto ouvindo sobre esse tal de Noah! O que eu preciso fazer?

Com a ajuda de Taylor, Lois conseguiu a altura que precisava para se debruçar e então pular o muro. Ralou os joelhos e as mãos na queda, mas não se incomodou com a dor. Só de se ver livre daquele lugar que havia sido sua prisão nos últimos 5 dias, compensava qualquer dor física. Olhando uma última vez para o retiro, temendo que a alguém a visse, Lois atravessou a rua com o sinal aberto, desviando perigosamente dos carros, e correu o mais rápido que conseguiu.
Sabia que o que estava fazendo era uma maluquice e que Anne Morrison jamais a perdoaria por ter feito algo assim. Mas a relação com sua mãe já estava bastante desgastada e uma decepção a mais, uma a menos, não iria fazer a menor diferença.
Assim que se viu segura, longe o suficiente do retiro, Lois abriu a mochila e pegou o mapa da cidade, procurando a rodoviária. Como já havia visto na noite anterior, quando passou a madrugada acordada bolando o seu grande plano de fuga, o local não era muito distante. Precisaria andar mais ou menos uns 30 minutos, mas chegaria sã e salva. E mesmo que não chegasse sã e salva, o importante era chegar, pensou Lois Morrison. Não podia mais passar um minuto longe de Noah, sem saber o que estava fazendo, sem conseguir falar com ele, sem sentir-se calma do jeito que só ele a fazia sentir. Que fosse ao inferno esse retiro ridículo e todas as pessoas que achavam que precisava ser salva de alguma coisa. Ela não precisava de ajuda, não precisava ser encontrada nem por Deus, nem por Jesus, nem por ninguém. Tudo o que precisava era estar com alguém que a fazia se sentir querida de verdade.
Amanhã pela manhã ela já estaria de volta a Seattle e ao lado de Noah, de onde nunca deveria ter saído em primeiro lugar. E pretendia jamais deixá-lo outra vez.

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Helena, Montana. Julho de 2009.
10 da manhã.

— Brandon Reed? – Brandon parou imediatamente de escrever no notebook e olhou para cima. – Não acredito! O que o garoto mais inteligente de Nova York está fazendo perdido na capital de Montana?
— Ryan Gallagher! – Brandon levantou-se e cumprimentou o amigo que não via desde a época de colégio. – Que surpresa encontrá-lo por aqui! Não nos vemos faz quanto tempo, uns…
— 7 anos! – respondeu prontamente. – Como está seu pai?
— Está bem, trabalhando e publicando como nunca. Sente-se, vamos colocar o papo em dia!

Ryan aceitou a sugestão de Brandon e ambos sentaram-se à mesa. Antes de reiniciarem o assunto, Ryan chamou a garçonete e pediu um café. Brandon salvou o que estava fazendo no notebook e abaixou a tela para que pudessem conversar sem distrações.

— Está morando aqui ou está de passagem, como eu? – perguntou Brandon.
— Moro aqui faz uns 4 anos já. Eu lidero um grupo de jovens cristão que estão um pouco perdidos na vida. Descobri minha missão de vida tentando ajudar a juventude a encontrar um caminho mais limpo para caminhar.
— Poxa, cara, que legal, fico feliz por você! – Brandon sorriu com sinceridade. – É sempre bonito encontrar alguém que encontrou um propósito na vida. Fico feliz.
— Às vezes encontramos nosso verdadeiro caminho onde menos esperamos. Essa é a mágica da vida. – refletiu Ryan. – E você, o que faz aqui?
— Vim para um ciclo de palestras sobre neuropsicologia. Era um evento aberto ao público e decidi me inscrever. – explicou Brandon. – Aproveitei então para conhecer o lugar, nunca antes havia estado em Helena. É tudo muito bonito aqui.
— Ah, então você seguiu mesmo o caminho da psicologia? Sempre soube que você seguiria os passos de seu pai, vocês são parecidos em tudo.
— Bem, não exatamente. – Brandon coçou a nuca, constrangido. – Estudo psicologia por diversão e porque creio que consigo ser um ser humano melhor a partir do momento que me proponho entender o outro. Não entrei em nenhuma faculdade depois que saí da escola.
— Como assim? – Ryan foi tomado por um choque ao ouvir a notícia. Depois de ter convivido com Brandon toda a adolescência, essa era a última informação que esperava escutar. – O cérebro de ouro de uma das mais importantes escolas de Nova York decidiu não ter um curso superior? O que foi que eu perdi?
— Não tem nada demais. – ele sorriu, sem graça. – Eu só escolhi a liberdade de encontrar o conhecimento que preciso além das páginas de um livro e as limitações de uma sala de aula. Explorar é o melhor caminho para o conhecimento.
— Seu pai deve ter surtado com essa notícia… – comentou Ryan, lembrando-se do gentil e intelectual pai de Brandon.
— Bem, vamos dizer que ele não foi um entusiasta dessa decisão. – comentou Brandon, sem detalhar o sermão que levou de Paul Reed antes dele se conformar com a decisão do filho. – Mas no fim ele apoiou, pois entendeu que a melhor maneira de me fazer feliz era me deixar livre para tomar minhas próprias decisões.
— Bem, que bom que tudo deu certo na família Reed, então.
— Sim, acho que deu. – respondeu Brando, sabendo que seu pai o apoiava até mesmo naquilo que não concordava. Ele tinha o melhor pai do mundo e sabia bem disso.

A garçonete chegou com o café de Ryan e Brandon decidiu pedir algo para comer. Enquanto a moça anotava o pedido, Ryan encarou a figura de Brandon por alguns segundos, pensando como o filho de Paul Reed, apesar de não ter seguido um caminho religioso, tinha algo especial dentro de si. Era possível ver o coração de Brandon através de seus olhos e ele se sentia uma pessoa de sorte por ter tido a oportunidade de ter convivido, ainda que por poucos anos, com Brandon e Paul. “Essa família é especial”, ele pensou.
Sentindo uma inspiração repentina, talvez uma inspiração divina, Ryan teve uma ideia que pensou ser vantajosa para ambos.

— Hey, me diga uma coisa… – Ryan retomou a conversa. – Quais são seus planos para os próximos dias?
— Devo voltar para casa depois de amanhã. – respondeu Brandon, pensando por alguns segundos se tinha algo de muito a importante a fazer. – No momento o plano é não fazer planos, estou explorando as possibilidades que essa cidade adorável tem para me oferecer.
— Pô, se você não tiver nada para fazer hoje, o que acha de pintar lá no meu retiro de jovens e dar uma palestra especial para os garotos? Sinto que eles já estão meio entediados com o programa e seria legal trazer gente nova.
— Ryan, eu respeito e admiro demais o que você faz, mas você sabe que eu não sou muito adepto à questões religiosas. – respondeu com toda a cautela que conseguiu. – Igrejas não são pra mim.
— Não, você me entendeu mal! – Ryan tratou rapidamente de explicar. – Você não vai falar de Deus, nem nada disso. O programa é muito mais do que só ler e falar sobre a bíblia, procuramos integrar todos os tipos de conhecimento que podem beneficiar os jovens neste momento tão confuso de suas vidas. Acho que seria uma adição muito especial para o programa trazer alguém com os seus conhecimentos sobre psicologia, eles vão gostar muito de ouvir alguém como você.
— Bem, não sei, sinceramente… – Brandon respondeu, incerto em relação ao convite. Gostava muito de Ryan, mas a verdade é que tinha um pouco de pavor de grupos religiosos. Não conseguia ver como poderia ajudar aquele grupo de pessoas que acreditavam em coisas da qual ele ainda não era capaz de crer.
— De verdade, confie em mim. Ninguém aqui vai tentar te converter. – garantiu Ryan com descontração ao ver a hesitação do amigo. – Eles precisam justamente de algo diferente do que conheceram até agora e acho que você é a pessoa certa para isso. Estou precisando de ajuda com alguns deles, soube pelo meu colega de trabalho, Sir Michael, que uns jovens já têm até problemas de consumo excessivo de álcool mesmo sendo menores de idade. Você tem uma boa lábia, lembro de você falando na hora do intervalo sobre seus conhecimentos e todo mundo prestando em cada palavra que dizia. – recordou. – Acho que suas palavras poderão ter o mesmo efeito no retiro.

Brandon parou um pouco para pensar, sentindo que estava sendo convencido por Ryan.
Quando saiu de Nova York e foi descobrir um outro lado da vida em Phoenix, decidiu que queria se desafiar a fazer algo diferente, algo que jamais faria se seguisse no mesmo lugar onde nasceu e cresceu, com as mesmas pessoas que conhecia desde a infância. Dar uma palestra científica em um retiro para jovens cristãos era a última coisa que pensou em fazer na vida, mas agora a ideia não parecia ser tão ruim. Ele podia sim oferecer alguns conhecimentos sobre transtornos psicológicos e, quem sabe, fazer com que alguém se sentisse compreendido e menos julgado. Paul Reed o havia ensinado muito bem durante a vida e agora ele mesmo buscava outros conhecimentos sobre psicologia em diversas partes do país. Talvez Ryan tivesse razão. Talvez ele tivesse mesmo uma grande bagagem de conhecimentos e podia agora passar isso a quem precisava ouvir. Seria uma experiência no mínimo curiosa e de repente ele sentiu vontade de tentar e ver onde aquela loucura iria dar.

— Tudo bem, eu aceito. – respondeu, para a alegria de Ryan. – Mas com uma condição: não mencione de quem sou filho. Não quero que a fama do meu pai atrapalhe o trabalho que eu possa vir a fazer com eles. Sabe como adolescentes são deslumbrados por pessoas famosas e não quero isso.
— Perfeito, do jeito que quiser! – concordou um animado Ryan. – Podemos ir assim que acabarmos aqui, tudo bem?

Brandon concordou e eles mudaram de assunto enquanto terminavam o café.
Podia não ser a pessoa mais crente do mundo, mas Brandon gostava de observar como o destino tinha sua própria maneira de fazer as coisas. Quando se inscreveu naquele evento de neuropsicologia em Montana, tudo o que desejava era estar entre os mais inteligentes do meio e aproveitar para desfrutar de uma cidade que ainda não havia conhecido. E agora estava ali, conversando com um ex-amigo de colégio com o qual havia perdido o contato, e pronto para passar o dia ao lado de um grupo de jovens cristãos que, quem sabe, poderia se beneficiar de seus aprendizados. Para Brandon Reed, um homem que adorava planejar até os horários de suas refeições diárias, perceber seu caminho tomando um outro rumo era assustador, ainda que também excitante. Sempre que pensava estar no controle, algo maior acontecia que o fazia perceber que, na verdade, o livre arbítrio sobre o qual as religiões amavam falar, não era tão livre assim.
Percebendo-se empurrado para este retiro, sem ter ainda ideia do propósito desse repentino desvio de caminho, Brandon Reed pensou quais surpresas ou quem ele poderia encontrar nesse lugar cheio de esperança.

InstaPost #006 – Os Caminhos do Livro, Os Caminhos da Poesia

Esta semana terminei de ler um livro de poesias de uma escritora italiana chamada Martina Vivian. Nunca tinha ouvido falar nela e nem pretendia ler nada nesse idioma por agora, mas, como sempre digo que são as melhores leituras, apenas “aconteceu”.
Encontrei o livro por puro acidente em um sebo de rua, naquelas promoções maravilhosas de “leve 3 por 10”. Ele estava embaixo de um outro livro aleatório e, quando o vi, fiquei surpresa de encontrar uma coletânea de poesias em italiano, o que não é muito comum por aqui. E fiquei ainda mais surpresa quando percebi que ele estava em perfeito estado, como novo, como se nunca tivesse sido lido. Como estou praticando o idioma, pensei “por que não?”. E acabei levando o livro pra casa.
As poesias de Martina Vivian são muito pessoais, como se tivessem saído de seu diário particular. Acredito que ela tenha escrito após uma forte decepção amorosa – o que, vamos combinar, acaba gerando as melhores obras – e colocou no papel todo o seu processo de luto sobre o fim da relação e o caminho para a superação. Gostei, gostei muito. E fiquei satisfeita ao perceber que estou bem familiarizada com a língua, pois acho que entendi 90% do livro.
Ler Martina Vivian me faz pensar como nossas palavras podem viajar pelo mundo sem que tenhamos ideia. Acredito que, neste momento, a moça italiana nem imagina que tem alguém no Brasil fazendo uma análise do livro dela, alguém que se identificou com muito dos poemas e que ficou pensando como queria conversar com ela sobre a vida, pois sua visão de mundo parece um pouco com a minha. Mesmo escrevendo há tanto tempo e ter tido a sorte de ser lida por muita gente na época do Orkut, ainda fico fascinada como histórias podem atravessar fronteiras e mudar a vida de pessoas que nem conhecemos. Como estamos conectados mesmo sem ter ideia de quem somos, como diria Delta Goodrem.
Escolher o caminho da escrita, da literatura e da poesia, envolve muita coragem e determinação, pois não é fácil atrair a atenção das pessoas nesse mundo que gera milhões de conteúdos todos os dias, não é fácil ter que abrir mão de uma vida mais tradicional, por assim dizer, para se dedicar a esse tipo de trabalho onde você fala sozinho a maior parte do tempo. Não sei se o livro de Martina fez algum sucesso na Itália, pois não encontrei maiores informações sobre ele ou sobre a autora, e não sei se ela ficou ou não frustrada por seu livro não ter tido um alcance maior. De qualquer forma, de uma maneira que eu jamais vou saber ao certo, o seu livro cruzou o Atlântico, foi parar num sebo de rua, chegou até mim e me tocou profundamente. Como não ver beleza nisso? Como não achar que, no fim, por mais que pensemos que estamos falando sozinhos, tem sempre alguém em algum canto do mundo ouvindo com atenção tudo o que temos para dizer?
E é por isso que sigo fazendo o que faço: a poesia e a literatura têm uma força que foge à nossa compreensão… e acho isso tudo bonito demais! Acho que me arrependeria para sempre se escolhesse outro caminho para mim e decidisse não fazer parte disso.
Enquanto sigo meu trabalho de formiguinha, enquanto sigo gritando em um mundo onde todo mundo parece conseguir gritar mais forte que eu, só posso desejar que um dia minhas palavras também atravessem fronteiras e façam alguma diferença na vida de alguém, assim como as palavras de Martina fizeram na minha.