Era uma doce tarde de outono quando um par de olhos apaixonados a avistou.
Sentada no banco da praça coberta por folhas secas, que caíam das árvores incessantemente, ele a observou perdida em profundos pensamentos.
Hesitou em aproximar-se.
Talvez preferisse ficar sozinha.
Talvez não desejasse uma voz banal entupindo seus ouvidos com palavras desperdiçadas.
Mas foi impossível dar meia volta e se afastar. Ela estava ali, à sua frente, com um espaço vazio no banco, como se este estivesse reservado para ele. E o semblante melancólico o fez perguntar se ela realmente não precisava de uma simples companhia.
Seguindo seus instintos – aqueles irritantes, que o faziam apenas desejar estar ao lado dela, mesmo que nenhuma palavra precisasse ser dita –, ele aproximou-se e sentou-se ao seu lado.
— No que pensas? – Perguntou sem mais delongas, curiosíssimo para ler aquela mente misteriosa.
— Em buracos. – respondeu baixinho com os olhos fixos em uma árvore seminua à sua frente.
— Buracos? – franziu o cenho, pondo o cérebro para trabalhar, a fim de decifrar sua linguagem constante de enigmas e metáforas. – Como assim?
— Buracos… – repetiu. – Aquela coisa preta, profunda, vazia. Buracos e mais buracos, por todos os cantos, por todos os lugares. Apenas buracos e não sei como escapar deles.
— Onde estão?
— Aqui dentro. – a ruiva colocou a palma sobre o lado esquerdo do peito. – É grande, é oco, é vazio. Acho que sempre esteve aqui, durante toda a minha vida. Sempre consegui tapá-lo. Porém, agora… – um suspiro pesado escapou de seus lábios. – Já tentei de tudo. Ciência, Filosofia, Literatura e Arte… Desde pequena, sempre foram o bastante. Desde pequena era só recorrer a eles e pronto! A mágica estava feita, o buraco estava tapado e o mundo podia ser colorido outra vez. Mas ultimamente nada tem adiantado. E sinto medo. Sinto medo do vazio fundo e eterno. Não quero cair nele.
— Você cita Ciência, Filosofia, Literatura e Arte… – disse ele, esperando tranqüilizá-la. – São quatro pilares para a saúde mental de alguém como a gente. Mas esqueceste um. O mais especial. O mais importante.
— Qual? – os olhos melancólicos finalmente caíram sobre os dele, ansiando por uma resposta imediata.
— Amor. – disse com ternura, expressando nas pequenas quatro letras a intensidade de seus sentimentos, ainda que ela não tenha notado.
— Amor… – a palavra soou estranha em seus lábios, como um tempero desconhecido e distinto, do qual nunca antes havia provado. – Amor… Já ouvi que isso pode matar. Já ouvi que isso pode causar buracos mais ainda profundos. Buracos que Ciência, Filosofia, Literatura e Arte jamais poderão fechar.
— Não é tão ruim se for correspondido…
— Mas não é este o mais difícil? Não é este exatamente o perigo? – perguntou de forma inocente e levemente temerosa. – Não o ser?
— Talvez… – respondeu incerto, um pouco confuso com suas rápidas indagações. – Mas, quem sabe, no fim, todo o risco valha a pena?
Ele esperou longos segundos por uma resposta que jamais chegou.
Ela tornou a encarar a árvore seminua à sua frente e mergulhou no mar profundo de seus pensamentos.
O rapaz não sabia se a conversa havia terminado ali. Com ela era assim: o assunto nascia e morria com a mesma velocidade, na mesma freqüência. E tudo que restava fazer era esperá-la dar o próximo passo.
E deu.
A garota levantou-se de repente e foi caminhando a passos lentos do banco, onde o espaço vazio deixado por ela começou, pouco a pouco, a deixar buracos vazios dentro dele.
— Aonde vai? – tomou a decisão de perguntar e a viu parar de repente e virar-se para ele.
A doce tarde de outono começava a se transformar em um maravilhoso crepúsculo jamais visto antes por simples olhos humanos.
Abrindo um sorriso singelo, digno de seus olhos doces e inocentes, que fez seu coração disparar violentamente dentro do peito, ela respondeu:
— Voltarei para a Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. – ela deu de ombros e suspirou. – No fim, é só o que me resta.
— E o amor?
— Não é exato. – respondeu. – Eu preciso de resultados, de contas certas que sempre terminem de forma coerente. Preciso de respostas corretas, textos que tenham um início, meio e fim e paisagens prontas pintadas à tinta óleo dentro de uma bela moldura. Preciso da precisão; da lógica que apenas Ciência, Filosofia, Literatura e Arte podem me dar.
— Precisão? – enrugou a testa, pensando no absurdo que estava dizendo. – Você nunca encontrará lógica ou coerência em nenhum deles. A Ciência não consegue provar todos os mistérios do mundo; na Filosofia sempre há mais perguntas do que respostas; na Literatura sempre existe margem para inúmeras interpretações; e a Arte, mesmo que concreta e precisa, também abre espaço para infinitas indagações. Monalisa está aí para provar o meu ponto. – ele finalmente levantou-se e ficou de frente para ela, encarando-a diretamente nos olhos. – O fato é que na vida nada é preciso; nada é seguro. Nem mesmo o 2 com 2… às vezes dá 4, às vezes vira 22. Tudo depende do ponto de vista. O mesmo com o amor: às vezes correspondido, às vezes não correspondido. Às vezes tapa buracos, às vezes abre outros mais profundos. A verdade é que nunca irá saber se não tentar.
— Prefiro deixar este para os poetas. – rebateu com toda a doçura de uma criança e toda a experiência de um idoso. – Estes falam e vivem de amor. Mas o que sou eu? Quem sou eu? Como serei digna de algo tão importante, de algo tão forte? Eu não sei brincar de fazer amor. Nunca aprendi e, honestamente, nem sei se desejo aprender deste jogo sem regras. Acho lindas as palavras afetuosas, os sentimentos sem limites, toda aquela carga que parece vir de outras vidas. Mas como irei fazê-lo? Como irei vivê-lo? Não sei, não sei como lidar com ele, não sei como aceitá-lo. Não sei como acreditar nele. Tudo o que sei é viver de Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. É tudo o que sou. É tudo o que sempre serei.
Ele abaixou os olhos e desistiu. Tirou o exército de palavras de campo e alçou a bandeira branca do silêncio.
O que haveria mais a ser dito?
Ao parecer, o par de olhos apaixonados nunca veria o outro par à sua frente olhá-lo com a mesma intensidade, com o mesmo amor.
— O buraco se foi. – ela disse de repente, fazendo-o alçar os olhos, completamente surpreso, pois acreditava que ela já tinha ido embora. – Não sei o que houve, não sei explicar. – ela sorriu de forma tímida enquanto encarava suas próprias mãos. – Você chegou e ele foi embora… O vazio. Você chegou e ele não está mais aqui.
— Fico feliz em ter ajudado. – ele bem que tentou reprimir o largo sorriso bobo que teimava em se abrir em seus lábios, mas foi impossível. Com certeza estava com o semblante mais estúpido do mundo grudado em sua face. Semblante este que refletia toda a sua excitação e alegria. Por que não é isso do que o amor é feito? Não é isso que o amor provoca? Palavras fugazes e encontros singulares que podem significar o mundo para quem ama? – Se houver mais buracos, se eles se abrirem outra vez, fazendo-a cair em todo o seu céu de escuridão e desespero… Sabe onde me encontrar.
— Você deveria sorrir mais. – ela tornou a encará-lo, agora com um brilho em sua íris. Um brilho que, por um momento, por um simples momento, ele pensou significar algo mais. – Eu sei que isso não tem nada a ver com o que estamos falando, mas achei necessário dizer. Porque gosto quando você o faz. As pessoas costumam preferir os olhos, dizem que são o espelho da alma, mas… Eu sempre vou preferir sorrisos.
— Sorrirei mais… – ele já o estava fazendo sem perceber. – Se assim desejar. Se você gosta, se você realmente se importa, o farei para deixá-la mais feliz. Mesmo quando quiser chorar.
— Ótimo, obrigada. – ela mordeu com força os pequenos lábios rosados e perguntou-se o que estava acontecendo.
Buracos… Buracos profundos, vazios, cheios de escuridão e desespero, onde estavam agora?
Procurou por eles em pouquíssimos segundos dentro de si, mas não os encontrou.
Eles não haviam desaparecido, sabia disso. Não haviam se fechado; de fato, não sabia se esse milagre poderia acontecer algum dia.
Mas agora, eles já não mais incomodavam.
Agora, ao invés de buracos, havia letras. Letras que navegavam junto à sua corrente sanguínea, fazendo com que esta esquentasse de repente. Letras embaralhadas, misturadas, que, pelo menos por agora, não faziam sentido algum.
Que palavra formariam essas letras? Ciência? Filosofia? Literatura? Arte?
Que palavra era tão poderosa que havia fechado tão rapidamente seus buracos, como se estes nunca houvessem existido?
— Café… – escutou a palavra escapulir dos lábios à sua frente, arrancando-a de seus pensamentos confusos. – Literário. – completou. – A duas quadras aqui, no espaço Ernest Hemingway. Sei que não gosta de café, mas misturado com livros… Acho que não terá problema nenhum. Você quer ir? – indagou, tremendo como uma folha empurrada pelo vento. Uma resposta negativa iria matá-lo.
Ah, se ela soubesse! Se soubesse o quanto era importante, o quanto apenas uma palavrinha saída daqueles lábios finos e perfeitos, poderiam fazer toda a diferença em sua medíocre e sem graça vida…
— Café Literário? Claro! – ela quase berrou devido à excitação. E estava tão animada e feliz que nem notou quando os dedos dele envolveram-se sutilmente ao redor de suas mãos, conduzindo-a para fora do parque. – Deus, como eu não fiquei sabendo? Acho que fiquei tão obcecada pelo especial sobre Nostradamus que está passando a semana inteira no History Channel que fiquei totalmente por fora das novidades literárias! Gosh, eu queria não ter de escolher entre Ciência, Filosofia, Literatura e Arte, mas sinto que o Nostradamus terá que viver sem mim hoje.
— E o que faremos em relação ao café? – sentiu seu corpo enrijecer após a pergunta, pois a ruiva entrelaçou seus dedos ao redor dos dele também, deixando todo o seu corpo completamente em êxtase com o toque.
— Bem… – ela torceu os lábios ao pensar na resposta que rapidamente encontrou. – Na companhia certa ele pode se tornar agradável. Você estará lá, não é?
— Sempre. – soprou as letras bem devagar, esperando que ela entendesse os inúmeros significados daquela palavra.
Ela era inocente demais e ingênua demais em assuntos amorosos para entender toda a sinceridade que poderia haver em um sempre, mas confiava que um dia iria descobrir.
Talvez a pequena ruivinha nerd apenas não tinha encontrado a pessoa certa. E… Oh! Ele rezava, ele clamava, implorava para todos os deuses que pudessem existir atrás do céu sobre suas cabeças, que pudesse ser ele. Que pudesse ser ele o escolhido, o certo, o único.
Pois foi o que sempre desejou desde a primeira vez em que seus olhos se cruzaram.
— Para Nostradamus não sentir muito a sua falta, conte-me sobre o que você aprendeu nesse especial.
— Você realmente quer saber? – ela parecia realmente chocada com a pergunta.
— Por que não iria?
— Não sei… – ela deu de ombros e deixou que um suspiro solitário atravessasse seus lábios. – Pessoas acham chato. Pessoas não querem saber de Nostradamus ou Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. É tudo sobre o que sei falar. E é tudo o que elas não querem ouvir. Talvez seja por isso que sou a eterna solitária: Sempre quero falar do que as pessoas não querem ouvir.
— Bem, estou aqui agora, não estou? – o aperto sutil que deu em sua mão a fez arrepiar-se de cima a baixo. E foi impossível não franzir o cenho ante essa sensação tão estranha, tão nova. – Estou aqui e quero escutar-te. Então, fale sobre Nostradamus! Fale sobre Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. Eu gosto de ouvir. Eu gosto de aprender. Principalmente quando vem de você.
— Eu acho que você pode se arrepender disso…
— Eu tenho certeza que não.
Após abaixar por alguns momentos o rosto e sentir que suas bochechas começavam a queimar, a pequena garota tomou coragem e desandou a falar sobre Nostradamus e tudo que pudesse envolvê-lo.
Ela adorava falar. E ele adorava escutá-la.
Porque no fim, pelo menos para eles, este casal estranho que adorava discutir sobre coisas que a maioria das pessoas normais detestava ouvir, tudo se resumisse mesmo à Ciência, Filosofia, Literatura e Arte.
Mas… Ah! Quem poderá negar? Quem poderá evitar?
A palavra de 4 letras cresce e cresce sem parar, a cada toque, a cada olhar.
Ela cresce, cresce, cresce e continua crescendo, sem que possam fazer nada para impedir.
Porque, mesmo que a ruivinha ainda não saiba, mesmo que negue, mesmo que não fale, ela precisa de cinco palavras para tapar buracos, cinco pilares sustentando-a, para poder passar por esta vida sentindo-se como um todo, não apenas a metade deste:
Ciência.
Filosofia.
Literatura.
Arte e…
Ah! De amor!
Sempre de amor.
Porque, no fim, é só do que todas as pessoas que passam por este planeta necessitam.
E ele sempre estaria ali para oferecê-lo a ela.