Vamos Fazer Um Acordo.

Me leve embora desta praia.
Vamos usar um ao outro.
Você me leva embora desta praia e eu
realizo todos os seus desejos.
Vamos fazer um acordo:
Apenas diversão, nunca ir além da paixão
Apenas um fim de semana correndo pelas calçadas
Ou subindo montanhas para alcançar estrelas.

Para você, digo sim para o que for.

Veja, eu não posso deixar de amar o mar.
Já faz 300 anos, múltiplas vidas e ainda sigo aqui
Sentada na areia desta praia
Desejando ardentemente pertencer a algo
Que não fará nada além de me afogar.
Já faz 300 anos, múltiplas vidas
E ainda espero que brânquias brotem em minha pele
Para que esta ânsia chegue ao fim.
Mas milagres não acontecem.
Eu sei disso.
Porém sigo esperando
Mesmo após 300 anos e múltiplas vidas.
E já não aguento mais tanto esperar!

Você poderia me ajudar?
Poderia pegar em minha mão
Devagar, gentilmente
Sorrir aquele sorriso, me preencher com seu olhar
Contar uma piada de mau gosto em meu ouvido
E me levar para longe do mar?

Vamos fazer um acordo:
Apenas diversão, nunca ir além da paixão
Pois se eu conseguir respirar
Longe das ondas, do azul, do sal,
Nem que seja por um par de dias
Nem que seja por algumas horas
E sentir meu corpo livre da dor
Eu juro, meu garoto
Para você, digo sim para o que for.

Para Minha Pequena Criança.

 

Me perdoe por tê-la abandonado.
Me perdoe por tê-la deixado por tanto tempo perdida, sozinha, lutando contra fortes demônios com tão pouca idade.
Me perdoe por tê-la abandonado como muitos outros fizeram. Eu sabia que tudo o que você precisava era de alguém que segurasse em sua mão e te puxasse, te levantasse do chão e dissesse que tudo iria ficar bem. Que com amor tudo sempre fica bem. Com amor tudo funciona, tudo segue.
(Talvez por isso você tenha ficado paralisada por todos esses anos!)
Mas eu não te dei amor. Muito pelo contrário. Eu só te dei raiva, desprezo, até ódio às vezes (muitas vezes!). É difícil admitir, mas é preciso. Chega uma hora que é preciso. Acho que esse momento chegou. Para nós duas.
Em minha defesa (se é que há alguma), eu te tratei tão mal porque eu achava que isso era amor. Porque foi isso que me ensinaram como amor: dar esperando receber, se esconder para que outros pudessem aparecer, obedecer para que outros pudessem mandar, me calar para que outros pudessem gritar. Aprendi a oferecer meu corpo como um meio de satisfação para outras pessoas, nunca para mim. Jamais para mim. Porque eu precisava ser uma boa menina. Precisávamos, não é verdade? Sim… precisávamos.
Mas eu não poderia ter deixado isso acontecer. Posso justificar que isso faz parte do crescer, que só sei disso agora, tanto tempo depois que o estrago foi feito, e que todos os longos anos de agressões e desamor foram necessários para chegarmos aqui hoje. Talvez. Não sei. Só sei que queria ter feito diferente. Ou ter tirado a venda dos meus olhos muito antes. Durou tempo demais. Foi quase uma vida inteira. Tanto tempo foi perdido, tanto, tanto! Mas espero que ainda sobre vida para fazer diferente.
Me perdoe por tê-la abandonado, minha pequena criança. Você é a coisa mais importante que eu tenho. É por você que eu vivo, é por você que eu sigo. Porque você merece mais, você merece algo melhor que tudo o que precisou agüentar até hoje.
Pegue em minha mão. Caminhemos juntas. Talvez encontremos ainda alguns obstáculos pelo caminho, alguns tropeços, pequenos momentos de novos abandonos e desamores, mas eu prometo que dessa vez será diferente. Dessa vez eu a defenderei com unhas e dentes. Porque eu aprendi a colocar você em primeiro lugar. Porque eu aprendi a amá-la como você merece. E prometo, com todo este amor que guardo no peito, com todo este amor que pode acalentar o mundo (e acalentará!), que não haverá mais abusos, gritos, desprezo e ódio.
Você está segura. Você está protegida. Você é amada.
E será uma vida diferente a partir de agora.
Isso é uma promessa.

Imagine.

Imagine se eu pudesse escrever todas as coisas que eu gostaria de escrever.
Imagine, apenas imagine, se eu pudesse dizer que sou apaixonada pelo mar, tão apaixonada, que eu evito chegar perto pois tenho medo de deixar tudo para trás, mergulhar nele e me afogar.
Imagine se eu pudesse confessar que todo o meu corpo é estranho para mim, como se meu espírito estivesse no lugar errado, como se ele devesse estar em outro corpo, e por pelo menos um momento não sentir culpa por isso.
Imagine se eu pudesse colocar em palavras como esse corpo estranho treme cada vez que encontra outro corpo estranho e que eu tremo, eu tremo, eu tremo tanto que todo esse terremoto dentro de mim me faz esquecer as palavras de minha própria língua. Imagine como seria bom se eu não fosse julgada por isso. Imagine como seria bom se eu não odiasse a mim mesma por isso.
Imagine, apenas imagine, se eu tivesse talento com as palavras e pudesse moldar todos esses sentimentos ruins em poesia como minha melhor amiga faz. Se eu fosse capaz de usar metáforas, ritmo e imagem para descrever como eu sofro todo dia desde criança por sentir que esse lugar me faz mal.
Mas não consigo.
Eu só consigo dizer que eu sofro todos os dias desde a infância por sentir que esse lugar me faz mal. Sem metáforas. Sem ritmo. Sem imagem. Assim mesmo, de forma clara e sem graça.
Imagine o quão longe eu poderia ir se realmente acreditasse que sou uma borboleta, porque eu me sinto tão próxima a elas que esqueço ser humana. Mas não posso acreditar que sou uma borboleta porque fui ensinada desde tenra idade que sou humana, de carne, osso e sem asas, e que eu devo me convencer disso. (20 anos depois e eu ainda não consigo me convencer disso).
Imagine se eu pudesse admitir todas essas coisas em público, deixando todo o podre ir embora e finalmente deixando de vomitar sentimentos em forma de bile, de sentir meu estômago doer toda a porra do dia, deixando de ter esses pesadelos que sugam toda a energia boa da minha alma e finalmente falando, cantando, gritando, finalmente, finalmente… sendo eu.
Sem vergonha. Apenas um dia na minha vida sem sentir vergonha.
Imagine se eu pudesse viver sem vergonha. Ah, é um pensamento maravilhoso! Mas, ainda assim, apenas um pensamento.
Imagine se eu pudesse escrever todas as coisas que gostaria de escrever.
E pudesse viver o mar.
E pudesse me sentir.
E pudesse me relacionar.
E pudesse ser poesia.
E borboleta.
E pudesse falar.
Sem vergonha.
Simplesmente falar.
Aqui e agora.
Imagine.
Apenas imagine.

Charlotte: Uma Biografia Poética.

“Diante das incoerências maternas, Charlotte era dócil.
Domava sua melancolia.
É assim que nos tornamos artistas?
Acostumando-nos às loucura dos outros?”

Descobri o livro “Charlotte” em mais uma daquelas minhas costumeiras andanças por livrarias da cidade. Começa sempre da mesma maneira: entro na livraria pensando “sou vou entrar para sentir o cheiro dos livros e nada mais” ou “só preciso estar perto de livros para espairecer um pouco, mas prometo que não vou comprar nada” e saio de lá com mais um (ou dois, ou três…) livros na mão. A descoberta de “Charlotte” foi um encontro parecido com o que tive com “A Condessa Cega e a Máquina de Escrever”. Apenas um livro que eu puxei de uma estante qualquer, gostei da capa, gostei da sinopse e então resolvi arriscar. E é incrível como essa minha mania de encontrar livros avulsos e desconhecidos em estantes por aí sempre se mostra bastante recompensadora.
“Charlotte’, do escritor francês David Foenkinos, é uma biografia romanceada da pintora alemã Charlotte Salomon, morta em Auschwitz ao final da Segunda Guerra Mundial. O escritor tem uma verdadeira obsessão pela história desta mulher e mistura os fatos que aconteceram à ela desde o inicio de seus dias à peregrinação pela Alemanha e França atrás dos lugares onde ela pisou e o legado que deixou. Toda sua escrita é carregada de admiração e paixão, sentimentos estes que foram expostos de maneira bem interessante através de versos e não de prosa. É a primeira vez que leio uma biografia de alguém como se estivesse lendo uma poesia e gostei bastante da experiência, apesar de sentir que muita coisa se perdeu na tradução e que, em alguns momentos, a forma com que as palavras foram organizadas não fazia muito sentido em nossa língua.
Livros que envolvem a Segunda Guerra Mundial sempre me deixam com um nó na garganta ao imaginar o que todas aquelas pessoas passaram, principalmente as mulheres. Apesar da escrita de David Foenkinos ser bem fluida, o livro em si é denso, é triste e deixa uma sensação de ressaca após o término. Contudo, é uma leitura que vale muito a pena, principalmente por apresentar a nós, brasileiros, que em geral não temos muito contato com a arte alemã, principalmente porque a biografia não fala apenas de Charlotte, mas também menciona figuras importantes como Albert Salomon, pai de Charlotte e o médico que descobriu a cura para a úlcera; Paula Salomon-Lindberg, uma famosa cantora de ópera e madrasta de Charlotte; Ludwig Bartning, artista e professor na escola alemã de Belas Artes; além de nomear famosos e intelectuais como Kurt Singer, Aby Warburg e até uma breve aparição de Hannah Arendt.
Em tempos de exaltação à tortura e retorno à barbárie, livros como a biografia Charlotte são sempre um convite à reflexão e à lembrança de tempos obscuros e carregados de derramamento de sangue que não devem, jamais, voltar a nos assombrar.
“Charlotte” é um registro em forma de poesia de tudo o que pode haver de mais belo no mundo – e também de mais cruel.
Uma leitura imprescindível em qualquer época.

Título: Charlotte
Autor: David Foenkinos
Editora: Bertrand Brasil
Número de Páginas: 238

13 Frases Para Aquecer O Coração De Um Aspirante A Escritor.

Quem está iniciando a carreira de escritor – ou está na estrada já há um tempo mas não saiu muito do lugar – sabe o quanto pode ser desesperador uma tela em branco e um monte de vozes em sua cabeça lhe dizendo o quanto você não vai conseguir ou o quanto você não é bom o bastante (acontece comigo todo o tempo). Pode ser muito complicado acreditar em si mesmo ou no seu trabalho quando você ainda se sente muito imaturo e cru para um mundo que parece ser tão cheio de gente talentosa e com uma autoconfiança de dar inveja.
Todos os escritores, por melhores que possam parecer, passam por momentos de insegurança e instabilidade criativa. Muitos tiram dessas experiências ótimos e reconfortantes conselhos para quem está começando ou para aqueles que ficam aterrorizados com uma folha em branco.
Aqui estão alguns deles:

1 – “É importante saber o titulo antes de começar – então você saberá sobre o que está escrevendo.” – Nadine Gordimer

2 – “Uma história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nesta ordem.” – Jean-Luc Godard

3 – “Nada do que você escrever, se você espera ser minimamente bom, sairá como você esperava.” – Lillian Hellman

4 – “Não tenha medo de ser conciso.” – Susan Sontag

5 – “Nada te impedirá de ser criativo tão efetivamente como o medo de cometer um erro.” – John Cleese

6 – “A poesia é a linguagem mais forte que temos.” – Maya Angelou

7 – “A coisa mais fácil de se fazer no mundo é não escrever.” – William Goldman

8 – “Escreva para o seu medo.” – Dorothy Allison

9 – “Escreva o seu livro agora, o mundo espera.” – Dave Eggers

10 – “Você quer ser um escritor? Um escritor é alguém que escreve todos os dias – então comece a escrever.” – Shonda Rhimes

11 – “Se a sua fidelidade ao perfeccionismo é alta demais, você nunca fará nada.” – David Foster Wallace

12 – “Proteja o tempo e o espaço em que você escreve. Mantenha todo mundo longe, até mesmo as pessoas mais importantes pra você.” – Zadie Smith

13 – “Leia selvagemente… e às vezes, enquanto imerso na multidão de vozes de outros, você poderá encontrar sua própria voz.” – Chimamanda ngozi Adichie

Todas as frases foram retiradas da internet e traduzidas por mim.

Vidas Secas E A Questão Da Identidade

Como todo livro clássico, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, pode ser lido por diferentes aspectos. É possível abordar a seca nordestina e o sofrimento dos retirantes, a relação do homem com os animais ao seu redor, a inteligência de Sinhá Vitória, que mesmo não tendo estudo sabia contar e mantinha a estrutura da família, entre tantos outros temas. Eu abordarei Vidas Secas pela perspectiva da identidade – ou a falta dela – de Fabiano, o protagonista do livro.
Fabiano é nordestino, analfabeto, homem do campo. “Um bruto”, como costuma referir a si próprio inúmeras vezes. Ele e a família – a mulher, dois filhos e a cachorra Baleia – são retirantes, obrigados a se deslocarem a pé por terras e terras para fugirem da seca. Depois de muita luta na estrada, a família de Fabiano se abriga em uma parte abandonada de uma fazenda. Alguns dias depois, o dono aparece e, após uma conversa, acaba contratando Fabiano como vaqueiro.

Na página 18 podemos observar o seguinte trecho: “Ele não era um homem. (…) Encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra”.

Na página 36: “Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos… Nunca viu uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.”

Na página 55: “Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca.”

Os três trechos apontam a falta de identidade de Fabiano. Por não saber ler, nem escrever, não sabia se expressar. Seu vocabulário era limitado, falava através de murmúrios, onomatopeias, o que o reduzia quase a um animal. Se um homem não pode ser identificar como homem, então o que é? Qual o seu papel no mundo? Para onde poderá ir, o que poderá alcançar?
No caso de Fabiano era mais fácil saber-se uno com os bichos, já que, assim como ele, também murmuravam, existiam através de ruídos e eram jogados para lá e para cá dependendo da condição do ambiente. Os homens brancos, como seu patrão, não se assemelhavam a ele: tinham terras, sabiam mandar, sabiam ler e contar, tinham estudo, eram gente. Apesar da biologia, eles não eram iguais e o nunca o seriam perante a sociedade.
É perturbador refletir que uma pessoa de carne e osso, que pensa, que – mal ou bem – fala e vive se sinta mais parecido com uma cabra do que com um ser humano. E é mais perturbador ainda saber que, como Fabiano, existem milhões por aí, principalmente em nosso país, em nossa esquina, que se sentem e vivem da mesma forma.

Um outro trecho, na página 76, diz: “Como ele era manipulado por não saber nada. E como ele temia saber e ser obrigado a sair de sua situação de bicho.”

Fabiano não sabia de nada desde que nascera. Seu conhecimento era de terras, de vida dura, do sertão. Não conhecia-se nem como gente e o reconhecer-se bicho já fazia tanto parte de sua personalidade – talvez a única identidade que possuía – que ele temia sair dessa condição. Se por acaso viesse a aprender a ler, escrever e ganhar algum saber, ele seria obrigado a perder essa identidade de animal e adquiriria uma identidade de homem. E então, o que seria dele? Pode ser apavorante para uma pessoa que não tem nada imaginar-se num mundo onde se tem tudo.
“Se aprendesse qualquer coisa…”, relata o narrador na página 22, “necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.” Como em Fabiano, o saber causa medo a muita gente. Não é difícil ouvir dizer por aí que ler muito pode enlouquecer as pessoas, que livros manipulam a cabeça dos jovens e alguns mais radicais colocam até o diabo na questão. Mas Graciliano mostra que é justamente o contrário: quanto mais se lê, quanto mais se sabe, mais um homem pode fazer cargo da própria vida. Quanto mais se aprende, mais um homem, pode evitar ser manipulado, mais um homem pode expressar suas ideias, sentir-se dono de seu próprio ser e ser livre para pensar e criticar tudo ao seu redor. Não à toa a primeira atitude de governos totalitários é queimar livros que ofereçam “perigo” ao poder instituído. Porque não há arma mais forte e mais poderosa que o saber. E junto com o saber vem a crítica, a luta por um mundo melhor e uma humanidade mais justa. Entretanto, o saber crítico dá trabalho e como dá! É necessário muita leitura, direcionamento por parte de professores preparados, força de vontade para sair de sua bolha, de sua zona de conforto e olhar o mundo como algo que vai muito além de você e do seu quadrado. Muitas pessoas não querem – ou não foram ensinadas – ir além de sua ignorância.
Ninguém nunca disse a Fabiano que ele poderia ser homem. Que ele tinha direito a ser homem, não biologicamente falando, mas sociologicamente. Por isso, ele nunca se sentiu e nem sabia que era possível se sentir como homem.
Um personagem que se mostra diferente devido a seu saber e costuma aparecer freqüentemente no livro, apesar de ser apenas na fala e na lembrança de Fabiano, é o Tomás da bolandeira, um homem do sertão como ele. Porém, segundo o protagonista, Tomás da bolandeira “falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros” e Fabiano sentia uma certa inveja de como o velho se expressava com eloqüência. Ele tentava imitar o respeitado senhor versado em livros, mas nunca dava certo, sempre se atrapalhava com as palavras, pois “um sujeito como ele não havia nascido para falar certo.” (pág. 22) Como não conseguia ir além de um par de palavras ditas, Fabiano encolhia-se como bicho e retornava à toca da ignorância. Para ele, não poderia haver nada além disso.
Graças à sua rudeza, Fabiano era constantemente enganado pelas pessoas ao seu redor, principalmente pelo patrão, que lhe pagava menos do que o merecido, o que foi descoberto por sua astuta esposa, Sinhá Vitória. Quando Fabiano foi questioná-lo, este usou de seu poder para lhe dizer que procurasse trabalho em outro lugar, tendo a perfeita ciência de que o maior medo daqueles que têm pouco é terminar sem nada. Diante da ameaça, o protagonista encolhe-se outra vez e pede desculpas, alegando que sua esposa deve ter feito algum cálculo errado. Fabiano sai do encontro ainda empregado, porém, ainda mais ciente de sua inexistência como homem.
Graciliano Ramos é considerado um dos maiores autores da literatura brasileira e Vidas Secas exemplifica bem o porquê disso. O livro é carregado de denúncias sobre a injustiça das classes sócias, do abuso de poder, e da miséria física e psicológica que sofre a maior parte da população brasileira. Lançado 1938, o autor escreve sobre um Brasil que ainda conhecemos em 2018. O que mudou de lá pra cá? Quantos milhões de Fabianos, que não tem nem o direito de saber assinar o nome, existem por aí? Quantos mais continuarão a existir nos anos que se seguirem?
Parafraseando o narrador, o povo brasileiro trabalha como um negro e nunca arranja a carta de alforria. E há muitos donos de escravos – sejam eles de barro nas calças ou de terno e gravata – que querem que tudo continue assim.

Livro: Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Número de Páginas: 155

São Tempos Difíceis Para Os Sonhadores, Mas…

São tempos difíceis para os sonhadores.
Tudo o que falo, tudo o que digo são palavras em direção a um propósito maior. Não há mais histórias, poesia, sonhos, fantasia. Agora só há espaço para luta, para o sangue, para o grito pela vida!
São tempos difíceis para os sonhadores e aqueles que acreditam num mundo melhor. Se o mundo já foi melhor antes, por que não pode voltar a ser?
Por quanto tempo mais teremos que lutar até que todos os seres humanos se enxerguem como humanos?
É muito cansativo, me sinto exausta… está difícil respirar.
Sinto falta de sonhar. Sinto falta de ver imagens em minha cabeça que falavam de amor, de perdão, de superação. Os personagens que batiam à minha porta e diziam “hey, conte minha história!”. Mas até eles se esconderam e tremem de medo. Ninguém mais quer contar histórias. Agora só o medo reina, a ansiedade, a falta de ar constante, os olhos pesados de tantas palavras envenenadas, de tantas imagens de violência e desespero.
São tempos difíceis para os sonhadores. Mas os sonhos são nossa única arma. Nosso único meio de acabar com a violência, com a opressão, com o ódio que vem disfarçado de justiça. E se há sangue, não é justiça: é vingança.
São tempos difíceis para os sonhadores, mas de alguma maneira estamos aqui.
Se não estivermos, quem estará?
Como Atlas, somos nós que sustentamos o mundo, é por nós que tudo ainda gira, que a semente ainda cresce, que a luz se espalha, que a palavra floresce. Mesmo com as pernas bambas, com as mãos trêmulas, com o coração apertado, estamos aqui. E vamos continuar…
Tenhamos força, sonhadores! Unamos as mãos, os corpos, as palavras, os sonhos!
É tempo de lutar!
Se nós não florescermos, quem florescerá?
Se nós não criarmos, quem criará?
Se nós não sonharmos, quem sonhará?
Quem sonhará, amigos? Quem sonhará…?

Coisas Que Se Rompem.

A casa está vazia.
Sou uma menina a espera pelo pai
Um pai que ainda não chegou.
Mamãe está na cozinha
Chora e não sei por que
Quebra um prato e pede que me afaste
Pede que me afaste
E não me deixa ver.

Agora, nem os barulhos estão.
Tudo, todos nos deixaram
E nesta casa vazia
Só nos resta solidão.

Agora, mamãe chora por seu prato quebrado.
Talvez chore por mais.
Sou uma menina à espera pelo pai
E também uma menina que não se atreve
A regressar à cozinha.

O relógio marca dez e meia.
Ele ainda não chegou.
Sozinha, mamãe segue chorando
E como chora por seu prato quebrado!

Pratos, vidas, infância…
Existem coisas que se rompem e não têm mais conserto.

Sou uma menina à espera pelo pai
Mesmo já sendo mulher.
Em mim, o tempo se rompeu às dez e meia.

A casa está vazia.
O silêncio sussurra o abandono.
Ele nunca chegou.

E Se?

 

E se eu parasse de sentir medo?
E se eu abrisse a gaiola, saísse para o mundo, se abrisse meu peito, se respirasse mais fundo?
E se eu vencesse meu pavor de pessoas, se pisasse mais forte, se cantasse mais alto, se falasse o que penso sem temer os olhares, sem me importar com os lamentos?
E se acreditasse que sou inteligente (o bastante), que tenho talento (o bastante), que posso sonhar e realizar, que posso seguir, conseguir o que quero, o que preciso, o que mereço?
E se eu largasse essa necessidade de aprovação, a obsessão em ser amada – por tudo, por todos – e se eu olhasse no espelho e visse alguém que vale a pena?
E se eu pudesse perdoar meu pai, e se eu pudesse recompensar minha mãe -por tudo, por todos -, e se eu pudesse largar essa culpa por nunca conseguir ser o brilho nos olhos dos outros?
E se eu pudesse sobreviver de arte, sobreviver de letras, se pudesse dizer a verdade, a minha verdade, sem precisar me esconder para evitar sofrer – por tudo, por todos -, e se eu pudesse ser quem eu nasci para ser? (Esconder só aumenta o sofrer)
E se eu pudesse finalmente começar a viver?
E se?

O Amor Pertence Às Pessoas Bonitas.

O amor pertence às pessoas bonitas.
Isso foi o que aprendi.
Pertence àqueles que sabem olhar
Agradar, conquistar
Ou regalar um belo sorriso.

Todos nós gostamos de ver alguém bonito.
O amor também.
Ele olha uma pessoa bonita
E outra pessoa bonita
E as põem juntas.
Um corpo bonito
E outro corpo bonito
E no mundo do amor
Tudo é uma grande festa.

O amor pertence às pessoas bonitas.
Isso foi o que aprendi.
Mas o que acontece com os feios,
o que acontece?
Com os enrugados, com os marcados
no corpo
na alma
na cara
o que acontece com eles
o que acontece?
Não acontece nada.

Neste mundo de reflexos
o amor não nos escolhe
o amor nos esquece.
A nós nada pertence
talvez apenas a sorte
de amar o amor de outros.

O amor não pertence aos feios.
Isso foi o que aprendi…