O Dia Dos Maias.

maias

 

Se o mundo acabasse mesmo antes do amanhecer
Como aqueles Maias fizeram crer
Já no começo da noite
Pedidos e mais pedidos de arrependimento Deus iria receber
Pois no inferno ninguém quer perecer.

Se o mundo acabasse mesmo antes do amanhecer
Alguém duvida que os restaurantes iriam encher?
Pois no último dia de vida
Uma pizza todos querem comer
Ou a última cerveja beber.

Afinal, o que teriam a temer?
Se for pra morrer, que seja com prazer!

Pessoas estranhas, lamentos arrependidos
Unir-se-iam num único choro, num único sentido
Morreriam abraçadas sem nunca terem se conhecido
Ah, que ironia deste mundo esquisito!
No último minuto do planeta
Os seres humanos finalmente estariam unidos.

Se o mundo acabasse mesmo antes do amanhecer
Atrás de seus sonhos pessoas iriam correr
E num período de 12 horas iriam enlouquecer
Pois já não daria tempo de nenhum gênio da lâmpada aparecer
Para realizar qualquer querer.

Mas eu? Como iria proceder?
Não há dúvidas, é muito fácil de responder!

Se o mundo acabasse mesmo antes do amanhecer
Tudo o que eu iria fazer
Seria beijar seus lábios antes de morrer
E morreria de vez ao dizer
O quanto sempre estive apaixonada por você.

O Silêncio da Madrugada.

madrugada

Existe algo no silêncio da madrugada
Uma esperança sutil, a paz encontrada
Talvez seja apenas essa presença do nada
Que tranquiliza a mente e me deixa inspirada.

Não há carros, não há ônibus
Não há barulhos, não há incômodos
Não há escolas com suas crianças agitadas
Existem apenas insones no silêncio da madrugada.

A noite esconde, mas o calar de vozes delata
O suspiro de um trabalhador esgotado
E a lágrima da mulher largada
A dor é densa antes do início da alvorada
Os sofredores se revelam no silêncio da madrugada.

Às vezes surge o latido de um cachorro ou o miado de um gato
E também o grito bêbado da vizinha do 104
Mas no geral respiro aliviada
Por poder criar sem ser incomodada.

O mundo fecha os olhos enquanto permaneço acordada
E obedeço às histórias que pedem para ser contadas
A insônia é sempre minha maior aliada
Quando crio vidas no silêncio da madrugada.

Casinha de Cobertores.

essa

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Nesta noite gelada de agosto, vamos pegar todas as mantas e edredons do armário e colocá-los sobre duas cordas de varal, que cruzam uniformemente o quarto.
Vamos brincar de ser criança, de ser feliz.
Vamos criar nosso mundo particular, com tudo o que a gente sempre quis.
Vamos pegar travesseiros, fronhas, lençóis e tudo o que for necessário para construirmos nosso cantinho.

Prometo que seremos apenas eu e você.
Seremos eu e você como sempre deve ser.

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Assim mesmo, bem simples.
Um pouco enrolada e desengonçada; um pouco embolada e bagunçada… Mas muito, muito adorada.
Venha, não tenha medo.
É apenas uma brincadeirinha.
Me dê a mão e não tenha medo.
Eu jamais o deixarei sozinho. Jamais o deixarei perdido.
Deixemos celulares, notebooks, telefones ou qualquer outro objeto que emita um ruído banal que possa atrapalhar este momento.
Deixemos máscaras, armaduras e as enormes muralhas.
Deixemos o mundo.
Deixemos a falsidade e a mediocridade. Porque em nossa casinha de cobertores só é permitida a verdade.
Apaguemos as luzes. Assim será melhor.
Será mais fácil desnudarmos nossas almas.
Será mais fácil ouvir-lhe os lamentos, os sofrimentos e os tormentos que vêm maltratando o seu coração durante todo esse tempo.
A claridade pode ser cruel demais.
Ela mostra para quem quiser ver um par de olhos lacrimejantes, um rosto vermelho e uma postura curvada que nada tem de elegante.
Por isso, em nossa casinha de cobertores não pode haver claridade.
Apenas eu e você em nossa máxima vulnerabilidade.

Há estrelas.
Há estrelas no teto de nossa casinha de cobertores e está quentinho.
Há estrelas no teto de nossa casinha de cobertores e minha mão morna encontra a sua enquanto as palavras brilhantes que saem de sua boca vão formando mais estrelas.
Cada palavra é uma dor. E cada dor é uma estrela.
E há milhares de estrelas no teto de nossa casinha de cobertores.
As horas passam, a respiração pesa e você adormece.
Meus olhos velam com amor seu sono tranquilo ao mesmo tempo que deslizo inocentemente minha mão pelo seu corpo, oferecendo toda a afeição que sua alma carece.
Coloco emocionada meus dedos sobre seu coração e faço uma prece.
Rezo para que os anjos ouçam o meu apelo e cuidem de seus sentimentos com bastante zelo.
Rezo para que possa encontrar alguém que o ame de verdade.
E que, um dia, essa verdade possa ser eu.
Rezo.
Rezo.
Rezo.
Até toda a dor passar.
Rezo até o amor triunfar.
O meu amor.
O meu amor por você.

Vamos criar uma casinha de cobertores.
Uma hoje, uma amanhã, uma todos os dias.
Uma assim, sem compromissos, sem dissabores.
Uma assim, de brincadeira; assim, de bobeira.
Uma casa, uma ilusão, sempre de portas fechadas à realidade.
Uma casa onde jamais entrará a saudade.
Uma casa onde estrelas substituem as dores.
Uma casa só nossa.
A nossa casinha de cobertores.

Deixe Haver Amor.

jjj

Deixe haver amor
Deixe haver amor
Deixe também haver amor próprio, amor recíproco.
Deixe haver amor
Deixe haver amor
Deixe também que haja a verdade
Deixe também que haja a sinceridade
Deixe haver amor
Deixe haver amor
Mas deixe haver também a inteligência, a percepção, nunca a enganação.
Deixe haver amor quando for realidade
Deixe haver amor quando houver saudade.
Deixe haver amor com liberdade, jamais com promiscuidade.
Nunca deixe existir palavras ao vento, corações enganados, corações iludidos.
Corações esperando algo que o seu nunca poderá retribuir.
Deixe haver amor
Deixe haver amor…
Sim.
Sempre deixe haver amor.
Deixe haver, deixe-o se expor.
Mas apenas quando ele verdadeiramente existir.
Porque prefiro alçar a mão em um adeus
A ver-te continuar a mentir.

Vagalume.

firefly

Hey, vagalume
Traga de volta o meu amor
Voe junto com o vento para longe
Até ao tempo transpor.

Hey, vagalume
Não se esqueça de brilhar
Quando na janela dele pousar
Permita sua beleza enfeitiçar.

Vivendo neste planeta Terra
Só vemos ódio, dor e guerra
Não seria a coisa mais bela
Acordar com um vagalume na janela?

Então, por favor, vagalume
Segure em suas mãos quando o encontrar
Seja atencioso e ensine-o a voar
Para que ele possa a mim voltar.

Eu estarei aqui esperando
Tentando segurar o meu pranto
Eu estarei aqui esperando
E a ele sempre amando.

Por favor, vagalume
Traga o meu amor assim que começar o dia
Traga o meu amor para a minha alegria
E livre-me desta vida vazia.

Olha Só, Que Azar!

olha só

Coloquei meu melhor vestido
Aquele branquinho, estampado com flores azuis.
Coloquei meu melhor vestido e também um par de sandálias brancas para combinar
Tudo, tudo para ver meu amor passar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Coloquei um banco frente à porta de casa e comecei a estampar almofadas
Para que você visse o quão boa esposa eu poderia dar
Eu costurei, costurei
E a tarde inteira esperei
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Eu compus uma canção de amor
Compus uma canção inspirada nesse seu sorriso perfeito
Que por inteira me faz arrepiar
Peguei o violão, dedilhei algumas notas
E até me arrisquei a cantar
Tudo isso apenas para que você pudesse me notar
Eu compus uma canção e esperei você passar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Alguns rapazes passaram
Outros até mesmo pararam
Pararam e perguntaram
O que uma moça de vestido branco com estampas de flores azuis
Fazia todo dia ali sentada
Seja com um violão ou com uma almofada
Na frente da porta de casa.
Eles sim passaram
E também pararam
Pararam e me chamaram para sair
Assim, sem compromisso
Assim, sem rebuliço
“É apenas um convite”, diziam eles “que pode a sua vida mudar”.
“Oh, não!”, respondia com delicadeza. “Muito obrigada pelo convite, senhor, mas eu não posso ir. Não posso daqui sair, pois estou esperando o meu amor.”

Um a um, eles desistiram
E em conquistar meu coração não mais insistiram
Porque, olha só, que azar!
Por uma moça apaixonada eles foram se apaixonar.

Naquela pequena cidade do interior
Um rumor sobre minha história não tardou a começar
Um rumor sobre uma moça que por um impossível amor
Para sempre iria esperar.

Tapei meus ouvidos
Recusei-me a escutar
Pois as palavras do povo eram apenas ruídos
Que jamais poderiam me afetar.

O tempo não tardou a passar
Eu continuava costurando, costurando
Ou dedilhando e cantando
Sem parar
Fiz de tudo para o tempo matar
Mas, olha só, que azar!
Por aqui você não veio andar.

Foi em uma tarde de abril
Que a vida novamente resolveu me sabotar
Você reapareceu com seu sorriso, seu andar, seu olhar
Na exata hora em que meu estômago começou a gritar
Um minutinho com certeza não iria atrapalhar
E para a cozinha fui cozinhar
Mas, olha só, que mundo vil!
Depois de tanto esforço, você nem me viu.

Essa é a história que tenho para contar
Da menina que desesperou de tanto esperar
Da menina que, com fome, resolveu cozinhar
E deixou de ver, mais uma vez, o seu amor passar.

Sombras Ao Vento.

vento

Nós costumávamos ser tão radiantes e alegres
Como um arco-íris sob a luz do sol
Como lindas e intermináveis estrelas no céu noturno
Tão perfeitos e de qualquer pecado isentos
Mas agora somos apenas sombras ao vento

Gritando contra todas essas paredes
Eu me encontro aqui
No meio do turbilhão de todo este sentimento
Lembrando-me de quando acreditava que passaríamos a vida juntos
Como um só elemento
Mas agora somos apenas sombras ao vento

Nós estamos desvanecendo no tempo
Tão, mas tão cansados de tentar!
Nós estamos desvanecendo no tempo
Como simples sombras ao vento

Engolidos pela areia-movediça dos dias e das horas
Arrancamos de volta cada pedaço de nossas memórias
As mesmas mãos do destino que não fazem cair mais e mais
Também me fazem prometer que não entregarei meu coração nunca mais

E dessa vez…
Ah, dessa vez!
Dessa vez acabou.
E agora é para sempre.
Porque agora não passo de uma sombra negra ao vento
Desejando encontrar algo que me traga alento

Agora não somos nada além de dois navios sobre o mar
Tentando de tudo para não naufragar
O nosso lindo sonho se tornou um tormento
Nós nos tornamos apenas sombras ao vento.

Uma Casa Não É Um Lar.

old house

6 metros de espaço.
6 metros de separação.
Nenhuma palavra.
Nenhum gesto.
Solidão.

Uma casa não é um lar quando há divisão.
Quando não há cara a cara ou uma troca de olhar.
Uma casa não é um lar em nenhum lugar.
Pelo menos não para mim.
Pelo menos não aqui.

À direita há gritos e ofensas.
À esquerda há silêncio e vazio.
Não me encaixo. Não faço parte.
Seja fora ou seja dentro, eu nunca me acho.

Uma casa não é um lar de maneira alguma.
Como um indigente que procura um teto para dormir,
Eu procuro um lar para sorrir.
E não há. Não agora.
Não hoje. Para mim.

Uma casa não é um lar.
Enquanto eu estiver sozinha assim.