01 – Livros

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Eu realmente não lembro qual foi o primeiro livro que li na minha vida. Muitos, muitos passaram pelas minhas mãos desde quando era bem pequena até quando pude obter uma consciência do que era ler e o que isso significava realmente. Mas eu lembro, com certeza, o primeiro livro que me fez amar outros livros: Senhora, de José de Alencar.
Eu lembro como se fosse ontem a primeira vez que toquei neste livro. Eu não estava bem naquele dia. Tinha 13 anos, estava na 8ª série e a vida já estava acontecendo para mim. Naquele dia, minha turma foi obrigada a ver o vídeo “An Inconvenient Truth”, do Al Gore, na sala de vídeo – que também era chamada de Sala de Leitura, porque estudava numa escola pública e era tudo no mesmo lugar – e fiquei sentada numa mesa perto da estante de livros. Os minutos passaram, o vídeo tava me dando nos nervos (tinha muito animal morrendo, a cena dos porquinhos se afogando me traumatiza até hoje, não agüentei olhar), eu já estava de saco cheio daquilo tudo, de todas as pessoas ao meu redor e foi nesse momento que virei a cabeça para o lado para tentar respirar fundo e manter o controle. Foi quando olhei para um livro em particular e vi o nome “Senhora”. O primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi de realmente uma senhora de 80 anos, com um colar de pérolas e fazendo crochê em uma cadeira de balanço (sim, essa era a imagem preconceituosa e ignorante que vinha à minha cabeça cada vez que ouvia a palavra ‘senhora’). Lembro que perguntei-me porque diabos alguém escreveria sobre uma senhora de 80 anos e como aquilo daria um livro (again, perdoem o preconceito estúpido da idade). E foi entupida de curiosidade que tirei o livro da estante. Não exagero quando digo que imediatamente senti uma conexão especial com aquele livro, principalmente quando li a sinopse e vi que se tratava de um casamento arranjado e amor/ódio, que são meus tipos favoritos de histórias.
O tempo da aula acabou, coloquei o livro de volta na estante e fui para casa sem tirar ele da cabeça. No dia seguinte, assim que bateu o sinal do intervalo, eu já estava na sala de leitura com o livro na mão e com o meu nome já anotado no caderninho de empréstimos.
Vocês devem estar se perguntando porque diabos eu estou falando de um livro em particular quando o título desse primeiro pensamento se chama “LIVROS”. A resposta é simples: Senhora foi o primeiro livro que curou a dor do momento.
Eu sempre fui lerda pra ler (ainda sou!), mas li Senhora em 3 dias, se não me engano. O primeiro livro que fiquei enrolando para terminar, pois não queria que aquela história acabasse de jeito nenhum. Como iria me despedir de Aurélia e Fernando dessa forma, quando vivi 3 intensos dias todo o turbilhão de sentimentos, de amores e orgulhos extremamente feridos, dentro de uma única casa? Eu vivia  história desses dois como se estivesse ali, como se eles fossem meus parentes, onde a dor, a frustração, o amor e todos os sentimentos deles também fossem meus.
Quando digo que Senhora foi o primeiro livro que curou a minha dor, não falo num sentido figurado, mas no literal mesmo. A sensação que me arrebatou quando acabei o livro foi tão intensa que, pelo menos por um par de dias ou um pouco mais, eu ainda estava vivendo com Aurélia e Fernando e tudo o que estava vivendo na minha vida naquela época foi meio que guardado em uma caixinha e, por alguns dias, ficou mais fácil respirar.
Eu sempre gostei de ler, desde que aprendi a juntar A com B, mas os livros para mim nada mais eram do que histórias sem noção e divertidas da coleção vaga-lume. Mas Senhora foi o divisor de águas, o que me fez aprender não só a ler como se deve um livro, mas também a vivê-lo intensamente. Nem mesmo Harry Potter, que foi o divisor de águas da minha geração, conseguiu esse efeito sobre mim.
Engraçado como os momentos-chave de nossas vidas acontecem da mesma forma: apenas aquele 1 segundo, 1 objeto, 1 brevíssimo espaço de tempo que muda todo o rumo de nossa história. A moral de todo esse texto é que, se eu não tivesse virado a cabeça naquele momento, olhado para aquele livro em particular e não pensasse porque alguém faria um livro sobre uma pessoa idosa, tudo seria diferente. Eu fui uma pessoa diferente antes e depois de Senhora.
Se eu achava que as coisas estavam melancólicas em 2005 é porque minha mente inocente não fazia ideia do que me esperava nos anos seguintes. Sem entrar em mais detalhes, eu posso dizer com toda a segurança do mundo que os livros (junto com algumas pessoas incomparáveis e especiais), salvaram minha vida.
Se hoje escrevo, é por causa dos livros.
Se as melhores pessoas do mundo hoje fazem parte da minha vida, é por causa dos livros.
Se hoje estou pobre de marré, também é por causa dos livros, porque eu compro uns 5 por mês, mesmo sabendo que nem duas vidas serão o bastante para ler tudo o que eu tenho aqui.
Existem pessoas que dizem que eu não vivo, que só sei ficar agarrada a uma ilusão e que isso não vai me levar a lugar algum. Pessoas que nunca leram um livro, claro, que nunca tiveram a oportunidade de pegar em um “Senhora” da vida e passar a ver o mundo sob uma nova perspectiva. Elas dizem que sou louca, mas loucas são elas, que vivem na entediante e insuportável realidade como se fosse a coisa mais sábia e sadia do mundo.
Quem me conhece pelo menos um pouquinho sabe que meu livro favorito de todos os tempos é A Menina Que Roubava Livros. Este foi outro que mudou a minha percepção sobre certos fatos da vida e, como costuma dizer uma das pessoas mais perfeitas do mundo, depois dele nunca mais vou sorrir. Mas ele só foi importante assim porque foi Senhora quem me ensinou a ler diferente, quem me ensinou a ler com outros olhos. Entendem esse rolo todo que eu falei aqui?
A verdade, a mais pura verdade é  que livros, palavras e histórias, têm o poder de transformar uma vida, de fazer-te olhar o mundo com outros olhos e até mesmo permitir que você seja uma pessoa muito, muito melhor.
Tenho a plena certeza de que quem diz que não gosta de ler é porque ainda não achou um “Senhora”, ou seja, não achou o livro certo.
Eu espero realmente que você encontre um livro assim e possa entender com plenitude cada palavra escrita aqui.

Fé.

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As pessoas, os poetas, os românticos, ou o que for, costumam dizer que o sentimento mais forte é o amor. Que é o que move o mundo, que é o que nos faz viver plenamente e conseguir atravessar uma noite tempestuosa. Mas, para mim, o sentimento mais forte, o que realmente move o mundo é a fé.
Porque quando acreditamos em algo, somos mais fortes. Quando acreditamos no invisível, esse mundo tão distinto aos nossos olhos medíocres, se faz presente em cada poro de nossa pele, sussurrando uma voz em nosso ouvido que devemos continuar. Que devemos acreditar. Porque, no fim, as vozes sempre têm razão.
O ser humano é um ser melhor quando acredita. Quando acredita em si mesmo, quando acredita em um mundo melhor, quando acredita que a noite uma hora irá acabar e que o sol voltará a nascer. É só aprender a olhar mais um pouquinho adiante. Afinal, as melhores coisas do mundo foram feitas na base da fé. E eu ainda sigo me perguntando por que, mesmo depois de todas as provas, de todos os fatos, nos esquecemos de acreditar naquilo que nos mantém vivos e acabamos por viver por tanto tempo apenas sobrevivendo à vida.
Eu acredito agora.
Eu estou vendo um pouco mais adiante.
Eu estou onde sempre quis estar.
Eu tenho fé.

Lobos.

wolf

Inspirado na música “Hunters And The Wolves”, por Delta Goodrem.

Os lobos me perseguem diariamente.
Posso ver suas presas em um sorriso malicioso e indecoroso.
Posso ver a salivação em suas bocas em um desejo irrefreável e pavoroso.
Ouço seus uivos crescentes e indecentes em meus ouvidos, impregnando meu cérebro com imagens pecaminosas.
Acreditam que sou uma presa fácil e que meu corpo seria uma deliciosa fonte de prazer.
Eu poderia deixá-los me pegarem, me usarem, me matarem com suas garras sujas e luxuriosas.
Eu poderia deixá-los fazer o que quiserem comigo e ainda pediria por mais.
Mas me contenho.
Evito, disfarço, me escondo.
Finjo que não vejo, finjo que não sinto, finjo que não ouço.
Finjo que eles não existem.
E talvez não existam mesmo.
Pelo menos não no mundo onde você existe pra mim.
Não da forma que você existe pra mim.
Mas você é apenas um cachorrinho apavorado no meio dessa enorme matilha.
És apenas o menor animalzinho que não tem coragem de se aproximar e dar a primeira mordida.
Meu corpo seria todo para você, se ao menos o quisesse.
Minha alma seria toda para você se ao menos a quisesse.
Eu poderia fazê-lo o homem mais feliz do mundo se ao menos quisesse.
Mas você não vem.
Você finge não ver, finge não notar, finge não desejar, exatamente como faço com os outros, nesta interminável cadeia alimentar.
Eu estou preparada.
Estou preparada para deixá-los me pegar, para deixá-los me devorar como um pedaço de carne descartável. Mais do que preparada, eu quero que eles o façam.
Quero que possuam meu corpo, alimentem-se de toda esta carcaça que restou de mim e acabem com esta frustração interminável que é viver sob uma pele como a minha.
Quero que tirem todo o prazer que tem para tirar e me permitam finalmente respirar.
Eles se aproximam cada vez mais e sinto que estou pronta para me entregar.
Olho para você uma última vez e tudo o que fazes é se afastar.
Você desistiu antes mesmo de começar.
Eu sou a presa fácil que todos eles estão lentamente a devorar.
Eu sou aquela mulher frustrada que nunca poderá te amar.
Acabou.
Poderia ser você.
Oh, como poderia ser você!
Exatamente como deveria ser eu…

No Próximo Verão.

cliff

É a história mais antiga do mundo.
Mais antiga que a primeira folha da Bíblia escrita.
Mais antiga que a idéia de Odisseu e Penélope na cabeça de Homero.
Mais antiga que a criação da religião entre os homens.
Ela sempre começa da mesma forma:
Um entardecer melancólico.
Um navio afastando-se da terra firme sobre as águas salgadas.
E uma mulher no topo de um penhasco vendo um pedaço – ou quase toda – sua alma desvanecer lentamente, até sumir no horizonte.
É a história mais antiga do mundo.
Mães esperando por seus filhos, jovens esperando por seus noivos, esposas esperando por seus maridos, irmãs esperando por seus irmãos…
Mulheres que jamais voltarão a ser as mesmas.
Mulheres que tiveram suas almas modificadas da pior forma. Não só nesta vida, mas nas futuras também.
É irônico perceber como os mesmos deuses que criaram uma raça tão apegada como a raça humana, são os mesmos deuses que comandam este Universo sob uma lei de desapego da qual nunca irei entender.
E esse paradoxo cruel me faz querer morrer.
É a história mais antiga do mundo.
É a mais antiga porque a guerra nasceu com o homem.
É a mais antiga porque o amor nasceu também.
Então, seja por ódio ou seja por amor, o homem, o marido, o amante, tem sempre motivos para partir.
A mesma cena se repete com o passar dos séculos, através de todas as nações.
Promessas são feitas, lágrimas são derramadas e corações são destruídos.
Desde que o mundo é mundo, nós, mulheres, somos conhecidas pela fragilidade, enquanto os homens são definidos pela força bruta.
Mas eles não sabem… Oh, não! Eles não fazem ideia!
Eles não entendem a energia sobre-humana que toda essa interminável espera nos consome.
Como dói, como desespera, como mata acordar com o espírito inundado de esperanças e ter de ir dormir com o corpo destroçado por mais um dia que parece ter sido completamente em vão.
E eu juro que ainda não aprendi a lidar com um sentimento dessa dimensão.
Essa é mesmo a história mais antiga do mundo.
Um entardecer melancólico.
Um navio afastando-se da terra firme sobre águas salgadas.
E uma mulher no topo de um penhasco vendo um pedaço – ou quase toda – sua alma desvanecer lentamente, até sumir no horizonte.
Essa história irá sempre começar da mesma forma.
E, ironicamente, é sempre assim que ela terminará também

Deveria Ser Eu.

red shirt

Deveria ser eu.
A que aquela camisa vermelha te deu.
A digna de toda a atenção dos olhos teus.
A que deveria estar ao lado seu
Desde o dia em que nasceu
Desde o momento em que cresceu
E até na primeira vez em que seu coração adoeceu.
Deveria ser eu.
A primeira a beijar os seus lábios quando a esperança em seu coração morreu
A primeira que viu suas lágrimas caírem quando anoiteceu
E a primeira que as enxugou quando amanheceu.
Deveria ser eu.
No seu momento mais baixo
Ou no seu apogeu.
Ouvindo os assuntos mais banais
Como o quanto a derrota do seu time te entristeceu
(Mesmo que este não seja o mesmo que o meu!)
Ou brigando contigo porque trabalhou tanto que até de comer esqueceu.
Deveria ser eu.
É…Deveria ser eu.
Mas não sou.
Mas não somos.
Ainda.
Talvez.
Não sei.
Juro que não sei.
Só sei que deveria ser eu.

Queria Que Você Estivesse Aqui.

ffewrwrt

A vida está boa.
Não… A vida está ótima!
Os planetas estão se alinhando
Meu coração está finalmente se ajeitando
Mas, ao invés disso, eu queria que você estivesse aqui.
Me sinto tranqüila. Me sinto alegre.
Estou dançando pelo quarto, cantando minha canção favorita com todo o ar de meu pulmão.
Mas, ao invés disso, eu queria que você estivesse aqui.
Seu olhar.
Seus olhos e o formato deles.
Seu caminhar.
Eu realmente queria que você estivesse aqui.
O Universo sorri para mim.
Eu aprendi a viver, aprendi a tocar e até aprendi a abraçar sem me apavorar.
Mas eu ainda não aprendi a desapegar.
De nada. E muito menos de você.
Eu queria que você estivesse aqui.
Sua voz.
O jeito como colocas distraidamente a mão no bolso da calça ao conversar com alguém.
Você trabalhando no notebook concentrado, enquanto eu estaria à espreita, escondida atrás da porta entreaberta, apenas para te observar. E isso tudo em nosso lar.
Exatamente como em meu sonho.
Eu queria que você estivesse aqui.

Estou sorrindo. Estou pulando na chuva.
Estou desenhando desajeitadamente formas que não fazem o menor sentido.
Estou voando com borboletas.
Estou rindo com vaga-lumes e me divertindo mais do que de costume.
Mas, ao invés disso, eu queria que você estivesse aqui.
Tudo o que me resta são os sonhos onde, ao fechar os olhos, eu consigo ver com precisão cada traço do seu rosto. Eles são o que me mantém viva.
O fantasma de você em meu pensamento é o que me ajuda a atravessar o dia. Mas, às vezes, nem isso é o bastante e me sinto sufocada.
Pois tudo o que tenho é esse pensamento, essa lembrança. Essa sombra que aos poucos se desvanece.
Tudo o que possuo é esse toque fugaz que ainda queima minha pele, mesmo que este toque não tenha sido material. Mas não importa. Porque real eu tenho certeza que foi.
Isso já aconteceu antes. Já aconteceu antes e é por esse mesmo motivo que sinto tanto medo. A rejeição foi enorme e a dor tomou proporções além do esperado. E sinto que estou cometendo os mesmos erros outra vez ao te querer assim tão loucamente.
Mas isso não me importa muito agora.
Porque, acima de todas essas coisas, eu queria muito que você estivesse aqui.

Há alguém para mim.
No final desta interminável rua, há alguém me esperando. Há alguém me amando.
E o mais estranho é que também não me importo nem um pouco com isso.
Eu trocaria todas essas coisas, trocaria todas essas pessoas por você.
Porque eu realmente queria que você estivesse aqui.
Mas eu estou cansada.
Oh, como estou cansada!
Toda essa espera, todos esses joguinhos intermináveis, sua presença sempre tão ausente e o sorriso que nunca poderei vislumbrar.
A garota à beira da praia não existe mais.
Desesperei de tanto esperar.
Queria que fosse diferente, daria tudo para que fosse diferente, mas eu não posso mais.
Eu realmente queria que você estivesse aqui.
Mas já é hora de aceitar que você nunca estará.

Hoje.

hoje

Para Nayara Marques.

Hoje acabou.
Depois de tantas idas e vindas, de tantas rotas perdidas e becos sem saída, finalmente encontrei o caminho de volta pra casa; de volta pra mim.
Hoje abro a porta da frente e deixo para trás o masoquismo. Deixo para trás o profundo abismo onde me deixaste abandonada, largada, amargurada, gritando aos quatro ventos por ajuda e apenas conseguindo ouvir o eco da minha própria voz.
Hoje paro e deixo de lado a obsessão, a solidão vazia e profunda que sinto diariamente pela frustração por tentar fazer-te amar-me. De tentar fazer-te enxergar-me, adorar-me e aceitar-me. Mas todo esse vício por sua atenção sempre ausente apenas resultou em um amor ignorado e um orgulho altamente ferido.
Mas hoje não.
Hoje não e nunca mais.
Porque aprendi a me olhar no espelho e perceber que mereço mais, muito mais.
Que existe sim alguém neste mundo capaz de me amar com minhas inseguranças, loucuras, paranóias e que até mesmo esteja disposto a lutar contra os meus fantasmas comigo. Que me ame pela minha alma, pelo que eu sou por inteiro e pelo posso vir a ser.
Por isso, hoje, deixo ir embora as esperanças de que poderias ser esta pessoa. Que se te ensinasse a lidar comigo, você iria querer realmente aprender. Mas não adianta. Porque é tudo apenas uma inútil agridoce ilusão. Afinal, tudo o que tenho de você não passa de uma piedade vulgar que com certeza não me levará a nenhum lugar.
Porém, dói… Ai, como dói!
Largar o vício e desgarrar da idéia do “pode ser” provoca uma dor insuportável. Me dói a alma, me invade o vazio, tremo de frio…
Ainda nem cruzei a porta e o pensamento de uma vida sem a sua presença, ainda que superficial, já se torna indescritivelmente dolorosa.
Ainda nem cruzei a porta e já sinto a ausência de seus olhos castanhos, de sua voz melodiosa cantando ao pé do meu ouvido, de seus beijos em lugares proibidos e de todos os momentos fugazes vividos.
Porém, dentre todas as coisas deste mundo, nada me fará mais falta do que seu sublime sorriso. Você sabe muito bem que ele é a minha perdição. Não importa o que faças, não importa o que aconteça, é só abrir os lábios sutilmente, desse jeitinho que você faz, que já tens todo o meu perdão.
Mas hoje não.
Hoje aprendi a amar o reflexo da garota em frente ao espelho e sigo em frente.
Deixo para trás toda uma vida sobre a areia movediça e desisto de vez deste amor parasita.
Então é isso.
Alço minha mão em um adeus definitivo e deixo as lágrimas rolarem pelo meu rosto.  Porque minha vida está prestes a mudar e ela está esperando ansiosamente por mim. Há um novo mundo a ser explorado e, para que isso suceda, preciso deixar o velho, onde você ainda vive, para trás.
Eu apenas posso lamentar sua falta de interesse e seu descaso eminente, pois se você fosse um pouco mais inteligente, veria que sou muito, muito mais do que apenas uma mulher carente.
Entretanto, hoje vejo que assim foi melhor. Percebo que se tivéssemos a oportunidade de construir uma relação, nossos mundos acabariam em completa destruição.
Por isso, já não há mais razão.
Então… Ah! Hoje eu respiro e sigo em frente! Coloco um pé após o outro e vou em busca da vida que sempre quis.
E consigo mesmo acreditar que finalmente posso ser feliz.

Um Comportado Soldado.

soldado

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Não possuo sentimentos, não me interessa mais o conhecimento e de qualquer relação mais profunda me isento.
Uso termos pejorativos, acho tudo enjoativo e nunca me sinto entretido.
Nada me fere, nada me abala.
Nada me confunde, nada me atrapalha.
Sou um comportado soldado.
Bato continência à sociedade e obedeço determinado ao padronizado comportamento social.
Sigo meu capitão com a farda impecável e possuo uma autoconfiança invejável.
Sou descolado, nunca ignorado e sempre passo longe dos mal amados.
Consigo falar de absolutamente nada usando mil palavras e sempre danço conforme a música tocada.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Eu sei de mim.
Será mesmo?
Vamos tentar de novo.
Vamos começar outra vez.

Sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o homem com sangue patrício.
Sou sentimental, às vezes passional e sinto diariamente um vazio abissal que não consigo preencher com qualquer coisa normal.
Tudo me fere, tudo me abala.
Tudo me confunde, tudo me atrapalha.
Finjo-me de um comportado soldado porque não suporto mais ser desprezado, destruído, excluído, e sou obcecado com o reflexo que vejo no espelho.
Porque não enxergo, não entendo, não compreendo o motivo de não ter sido o escolhido.
Não aceito, não posso, não consigo entender porque ela o encontrou, porque ela se entregou, porque ela o amou.
Porque ela me deixou, porque ela me olvidou e me largou aqui neste mar vazio assombroso, espantoso, revolto e desolador.
Sou um soldado comportado, padronizado, obedeço a um capitão porque estou perdido em solidão, ironicamente, em uma vasta multidão de pessoas que não conseguem me preencher.
Estou desesperado.
Quero atenção, quero compaixão, mas não sei como expressar toda essa confusão.
Estou revoltado, paralisado, amargurado com todo o desprezo, com tão pouco caso.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Homem não chora, homem não se enamora ou molha a cama quando uma mulher vai embora.
Por isso, levanto a cabeça, dia após dia, e me escondo.
Escondo-me de meus sentimentos; enterrei-os em algum lugar dentro de mim e desejo nunca mais encará-los nesta vida.
Misturo-me à multidão para que o barulho dessas vozes banais e superficiais bloqueim o eco do grito desesperado de minha alma.
Comporto-me como eles para esquecer de mim.
E consigo até acreditar que sou medíocre assim.
Eu sei de tudo.
Eu sei de todos.
Mas não sei de mim.
Ainda não aprendi a encarar a imagem refletida no espelho e nem sei como fazê-lo.
Ainda não aprendi a olhar alguém diretamente nos olhos, pois temos que esse alguém consiga ver o que não quero ver; o que me recuso a enxergar.
Que possam notar que possuo toda essa fragilidade tão vulgar estampada em meu olhar.
Mas ninguém pode ver, oh não!
Ninguém pode ouvir, ninguém pode saber, oh não!
Porque eu sei de tudo.
Porque eu sei de todos.
E acredito que sei de mim.

Eu sou o maioral.
O garoto prodígio.
O menino especial.
E o soldado com um orgulho imortal.

Às Vezes.

Às vezes eu uso “às vezes” bastante vezes em meus textos. Às vezes por não saber qual sinônimo utilizar ou encaixar; às vezes por simplesmente gostar.

Às vezes tenho necessidade de escrever sobre mim e não esconder isso. Como em um patético diário adolescente, preciso largar a máscara de meus personagens e desnudar minha alma, a fim de me aliviar. Porque, às vezes, nem mesmo o meu tão amado orgulho consegue me sustentar.

Às vezes preciso apenas estar sozinha. Mesmo na presença de pessoas agradáveis e adoradas, preciso me afastar, nem que seja por cinco minutos, para estar sozinha e respirar. Para entrar temporariamente em meu mundo particular e relaxar. Porque, mesmo depois de todos esses anos, continuo achando o contato social bastante exaustivo e, às vezes, desesperador.

Às vezes quero ser normal.
Quero me sentir como uma garota comum (e principalmente me comportar como uma!), falar de forma menos teatral, ser menos azeda, menos sensível e crítica… Ser simplesmente normal.  Penso e sair do meu mundo intelectual, falar de algo mais banal, parar de ser tão radical para que finalmente possa ser aceita como igual. Mas essa idéia estúpida não dura muito, pois é só estar ao lado de pessoas desse tipo, de mentes tão pequenas e entediantes, que tenho certeza que é em meu mundo autista onde quero morar para sempre.
Não importa se serei excluída ou não. Pois é em minhas maluquices e macaquices onde encontro a melhor versão de mim mesma.

Às vezes, em pensamentos, consigo largar o vício da autopiedade  e me permito ser um pouquinho arrogante. Me permito pensar que aquele que me despreza ou não faz questão de me conhecer é um pobre coitado. Porque essa pessoa nunca vai conhecer outro alguém mais criativo, mais inteligente, mais dedicada, desvairada, profunda, louca, retardada e outros muitos adjetivos que não cabem  em uma folha de papel. Não vai conhecer um amor como o meu, um carinho como o meu e todo o apoio que posso oferecer em momentos de crises. Afinal, já estive muito tempo nelas. Ajudar outras pessoas a atravessá-las é mais do que um prazer pra mim.
Mas esse pensamento também dura muito, muito pouco. Porque um dia novo começa e eu volto a ser aquele ser irritante que acredita que nada tem de interessante.

Às vezes pego alguém pra admirar. Assim mesmo, do nada. Sem qualquer interesse romântico. Sem qualquer razão aparente. Apenas alguém que me inspire, independente de raça, sexo, cor da pele ou qualquer outra característica. Apenas alguém diferente nesse mundo cheio de pessoas iguais. Apenas alguém especial, com um sorriso admirável, um caminhar adorável e uma voz espetacular.
O mais engraçado disso é imaginar que elas nem imaginam. Que não fazem idéia de que há mil textos e poemas meus dedicados a elas. Que não sabem que há uma louca observando-os silenciosamente ao longe. E que toda essa observação atenciosa irá se transformar em trabalhos escritos às  3 da manhã e que logo serão divulgados para quem quiser ler. E, às vezes, fico assustada com essa minha capacidade de admirar alguém que nunca sequer trocou um par de palavras comigo.

Às vezes preciso parar, mesmo que queira continuar.
Preciso colocar um fim em um texto ou uma história que para mim poderia ser eterna. Porque minha imaginação é sem limites. E enquanto houver palavras disponíveis no mundo, há histórias. Há textos, há criatividade.
O problema é que não há alguém capaz de ler por toda a eternidade.

E, pra terminar, às vezes tenho dificuldade para terminar.
Não sei como colocar um ponto, quando ainda há muito mais o que falar. Principalmente agora, com essa nova mania de rimar.
Como tudo na minha vida, o “acabar” me faz chorar. Me faz lutar, brigar e pirraçar até cansar. Até cansar e a bandeira branca da redenção ser obrigada a alçar.
Por isso, às vezes, acho que o “fim” é uma palavra vulgar. Mas sei que ela ainda acabará por me matar.

A Casa Dos Gritos.

scream

Parem de gritar. Parem agora.
Vão embora e jamais sequer pensem voltar em outra hora.
Vocês não veem?
Vocês não sentem?
Nessa casa cheia de gritos, há uma garota debaixo da cama.
Nessa casa cheia de gritos, todos os cômodos já foram entupidos de drama.
Parem os gritos.
Apenas parem.
A mente da menina não aguenta mais.
As pequenas mãozinhas não conseguem bloquear a passagem dos sons estridentes e sem sentido que atropelam as frestas da porta, prontos para agarrá-la.
Prontos para fincarem suas unhas em uma sanidade há muito abalada.
Será que não vocês não veem?
Será que vocês não sentem?
Os anos passam, o mundo muda, mas os ecos de uma família quebrada vão terminar por deixá-la surda.
Será que não veem?
Não, eu sei que não.
Tenho certeza que não.
Porque vocês não enxergam.
Não possuem olhos, não possuem ouvidos, não possuem sentimentos.
Porque vocês só sabem gritar, gritar e gritar.
Vocês só sabem gritar até conseguirem o pulmão estourar.
Vocês só sabem gritar até a voz falhar.
E a pior parte de tudo é que ela nunca falha!
A garota debaixo da cama não agüenta mais.
Isso não é vida!
Porque em uma casa de gritos simplesmente não há saída.
Será que um dia vão conseguir ver?
Como esta garota irá crescer?
Como ela conseguirá viver sem enlouquecer?
Ela não poderá, certo?
Porque ela já enlouqueceu.
Porque qualquer lugar onde as vozes se manifestam em um tom mais elevado já é motivo para se sentir em um inferno na Terra.
Ela não poderá, certo?
Porque uma multidão  gritante já lhe é apavorante.
E todo esse pavor é motivo para mais gritos. Gritos internos, gritos com ecos, que ressoam contra paredes escuras e vazias de um organismo doente.
Será que nunca conseguirão ver?
Será que nunca conseguirão entender?
A garota tapando os ouvidos debaixo da cama quer finalmente viver.
Pois nessa casa gritos ela não quer mais perecer.
Por isso, parem de gritar. Parem agora.
Parem de gritar e vão embora!
E jamais, sequer, pensem em voltar outra hora.