#11 – Sorte

sorte

Foi realmente duro vê-lo partir. De todas as dores já sofridas e de todas as esperanças destroçadas, nenhuma dor se comparava a esta. Quando gritou para que partisse e buscasse uma vida melhor, acreditou estar fazendo o certo para os dois. Mas não era verdade. Vê-lo ir embora para sempre não era o melhor para Eliseu.
Enquanto via o seu pelo amarelo desbotado e o corpo magro dobrar a esquina e perder-se de vista, lembrou de como ele havia chegado em sua vida.
Foi num dia quente, muito quente na cidade do Rio de Janeiro, desses que deixa até o mais otimista carioca se perguntando como alguém consegue agüentar tamanho calor. Se estava ruim para os empresários em sua salas refrigeradas e os carros de última geração, bem equipados para suportar uma tarde inteira no deserto do Saara, estava bem pior para Eliseu, sentado sobre o asfalto quente, debaixo de uma marquise de uma loja popular. Eliseu vivia nas ruas já há dois anos, com sua perna quebrada e uma ferida que havia infeccionado há alguns meses. Vivia de moedas jogadas sobre um potinho transparente que ele havia achado no lixo certa vez e só. Às vezes era brindado por uma alma caridosa com um salgado no quiosque ali do lado e já considerava o seu dia feito. Às vezes tudo o que lhe restava eram sobras de frutas, refrigerantes ou saquinhos parcialmente cheios de biscoitos que as pessoas jogavam no lixo do poste à sua frente.
Mas neste dia especial, apesar do calor sufocante, ele apareceu em sua vida. Magrelo, de olhinhos pretos e pelo desbotado, ele se jogou ao seu lado debaixo da marquise, muito cansado, como se tivesse andado longas distâncias para chegar até ali. O cachorro estava em petição de miséria, pior até do que Eliseu. Parecia não comer ou beber nada há semanas. Eliseu pegou o que sobrava da sua garrafinha d’água e, movendo delicadamente a cabeça do cachorro, deu-lhe de beber. Enquanto sorvia do líquido da vida, o cachorro o mirou com gratidão no olhar e foi se achegando cada vez mais perto do homem que havia lhe dado uma sobrevida. Eliseu colocou um pano velho sobre o chão e mandou que o cachorro deitasse ali para não se queimar com o calor do asfalto. Mesmo sem nunca terem se conhecido antes, o cachorro obedeceu e se esticou sobre o pano como se fosse a melhor caminha do mundo. Eliseu ficou encarando o cachorro que adormeceu ali mesmo, sob aquelas circunstâncias, e se perguntou se ele ficaria muito tempo. Afinal, mal tinha condições de salvar a própria vida. Seria muito complicado ter de alimentar uma segunda boca.
Contudo, algo muito estranho começou a acontecer. Algumas horas depois, uma velhinha se aproximou de Eliseu e perguntou se ele não estaria interessado no frango assado que havia comprado para o neto. Segundo ela, o netinho recém havia se tornado vegetariano e ela não tinha ideia do que ia fazer com aquilo. Levantando-se numa perna só, Eliseu pegou o saquinho da mão da senhora e lhe agradeceu mil vezes pelo regalo, desejando-lhe muitas bênçãos na vida. Assim que tornou a sentar-se, o cachorro despertou e levantou o focinho para sentir o aroma irresistível que vinha de dentro do saco. Os olhos do cachorro de repente foram tomados por um brilho ansioso e Eliseu não precisou de mais sinais para saber que o cachorro deveria estar mais faminto do que ele. Dividiram o frango assado com a alegria de um bêbado e Eliseu começou a chamar o pequeno cachorro de Sorte, pois desde antes de sua chegada ninguém havia lhe dado algo tão grande para comer.
Com o passar dos dias, Eliseu foi ganhando empadão, feijão com arroz, salgado no almoço e no jantar, e tudo dividia com Sorte ao seu lado. Talvez o cachorro atraísse mais pena e compaixão do que um ser humano, mas isso não importava agora.
Antes de chegar à sua vida, Eliseu não tinha noção de que pior do que um estômago vazio, era um coração vazio. Sempre acreditou não ser digno de amor e desde sua infância aceitou essa ideia. Algumas pessoas nasciam para a felicidade e outras não. Eliseu fazia parte do segundo grupo. Muitos colegas seus de rua praguejavam contra os céus e tinham ódio de tudo e todos à sua volta, maldizendo os que eram felizes e haviam nascido em berço de ouro. Eliseu apenas aceitava a vida que lhe fora designada e procurava não analisar toda a sua história. Se inconformar e se revoltar não o faria rico, não o faria mais feliz, não traria nada de bom. Então, como um morto-vivo, Eliseu vagava pelas ruas vivendo um dia após o outro, como alguém que esqueceu seu passado e não possui quaisquer perspectivas para o futuro. Mas isso foi até Sorte chegar. Ele admitia que no começo havia deixado o cachorro ficar pois era graças ao animal que ele estava comendo muito melhor. Mas ao contrário de Eliseu, Sorte não vivia apenas para comer. Durante o dia ficava correndo ao redor dele, querendo brincar e com uma felicidade estampada no rosto de alguém que não tinha ideia do quão miserável é a própria vida. Mesmo com uma perna inutilizada, Eliseu fazia o que podia para corresponder às investidas do animalzinho e, em troca, ganhava grandes e babadas lambidas no rosto. À noite, Sorte abandonava o seu paninho para se enroscar junto às pernas de Eliseu. No começo ele tentou protestar e mandou o cachorro de volta para sua cama, mas era inútil. No meio da madrugada, Sorte sempre voltava para junto de suas pernas, até que um dia Eliseu desistiu de lutar contra e deixou que o cachorro dormisse com ele. Com o passar dos meses, Sorte foi abrindo um espaço no coração de Eliseu que o mendigo nem lembrava que existia. Desde então sua vida era uma vida melhor, o calor não parecia tão calor assim e, quando a tristeza vinha sem ser convidada, Sorte a espantava com seus olhos negros e pelo desbotado. Eliseu sentiu que tinha tudo o que precisava… Até que começou a ouvir a palavra “crise” pela boca do povo. E com o passar dos dias foram desaparecendo os frangos assados, os empadões, os pratos feitos e qualquer sorte de ganhar comida que o cachorro havia trazido consigo. Sorte, que já estava mais gordinho e com um pelo até mais bonito, voltou a exibir ossos no corpo e pelo desbotado. O coração de Eliseu apertou-se e a sensação de impotência lhe trouxe pesadelos todas as noites. Agüentou por muito tempo o seu próprio estômago vazio e a ideia da morte nunca lhe havia sido assustadora. Mas ver seu cachorrinho cada vez mais magro, sem energia e sem conseguir abrir os olhos de tão fraco era muito diferente. Ver o sofrimento de alguém amado era a pior das dores e não sabia o que fazer para manter os dois vivos.
Numa manhã fresca, Eliseu teve de tomar a pior decisão de sua vida. Acordou Sorte e começou a conversar com ele. As pessoas que passavam por ali franziam o cenho e julgavam-lhe louco, mas Eliseu sabia que  Sorte podia entendê-lo muito bem.
Com lágrimas nos olhos, pediu para que fosse embora. Ao contrário de Eliseu, o cachorro podia andar e ir buscar um lugar melhor para viver. Sorte precisava buscar a esperança, precisava procurar algo para comer e sobreviver. O tempo que haviam passado juntos fora o melhor de sua existência, mas agora ele tinha que deixá-lo ir embora. O cachorro esboçou um gemido e os olhos negros e tristes arrebentaram o coração de Eliseu. Porém, não podia ser fraco. Guardou o paninho do cachorro e o expulsou do local que havia sido o lar dos dois grandes amigos por quase um ano. Sorte fez de tudo para voltar, para tentar convencê-lo de que era ali onde ele queria estar, mas os gritos de Eliseu foram mais fortes e o assustaram a ponto de fazer o cachorro sair correndo com medo do dono que havia se transformado tão de repente.
Eliseu não tirou os olhos de Sorte até que ele desaparece de vez. E ao ver-se sozinho e com um enorme buraco dentro de si, deitou sobre o seu pano e começou a chorar copiosamente.
Eliseu havia perdido tudo na vida, mas nada lhe afetou tanto como a perda de seu melhor amigo. A fome e a sede já não importavam mais; Eliseu só queria morrer e se livrar desta desgraçada vida que lhe fora dada. Se sentia um azarado, um inútil que mal tinha pernas, que mal tinha ossos, que não tinha nada e nada podia fazer. Chorou e chorou durante a tarde, durante a noite, durante a madrugada, até finalmente adormecer.
Acordou no susto, sentindo algo gelado tocar o seu pescoço. Piscou varias vezes até que seus olhos focassem no focinho preto e na língua arfante estirada à sua frente. Sorte havia regressado e, ao seu lado, permanecia uma grande coxa de frango intacta. Eliseu não podia acreditar que ele havia regressado depois de como havia agido no dia anterior! Sorte não tinha apenas voltado, ele havia trazido o resultado de sua pequena caçada pelos lixões por aí e havia trazido comida para ambos, como num bando, como numa família. Abraçou o cachorro entre lágrimas e recebeu várias lambidas de amor em troca. Eliseu pediu mil desculpas ao cãozinho, prometendo nunca mais expulsá-lo, nem que para isso os dois precisassem morrer juntos com toda aquela miséria. Dividiram a coxa de frango e comeram como se fosse o último banquete de suas vidas.
Ainda inebriado pelos acontecimentos dos últimos minutos, Eliseu não percebeu uma menina se aproximar. Havia acabado de comer sua parte da coxa enquanto ela se apresentou como Carina, uma estudante de medicina que fazia parte de um projeto social que reabilitava e dava uma nova vida aos moradores de rua. Ainda em silêncio, Eliseu escutou como a menina explicava que a infecção em sua perna era muito grave e que se não buscasse um tratamento ele poderia perder o membro. Com o jeito doce de uma jovem que ainda acredita que pode mudar o mundo, Carina perguntou-lhe se ele queria essa ajuda. Ela poderia ligar a qualquer momento para a ambulância do hospital em que trabalhava e ele seria levado para cuidar de sua saúde.
“Mas… E ele?”, perguntou Eliseu olhando para o seu cãozinho que tinha no rosto a felicidade de quem acaba de comer uma ótima refeição. Carina sorriu e disse que o cachorro seria muito bem cuidado na casa de apoio enquanto Eliseu tratava da ferida no hospital. Ele não era o único morador de rua a ter um melhor amigo de quatro patas e ela prometeu que o cachorro seria muito bem cuidado e que brincaria com outros amiguinhos na sua ausência.
Eliseu olhou para Sorte e caiu outra vez em prantos. Sorte não havia trazido apenas uma coxa de frango para o almoço. Todas as coisas boas pareciam girar ao redor do cachorro e Eliseu teve a plena certeza de que essa menina havia cruzado seu caminho somente porque Sorte havia regressado. Entre lágrimas e gemidos incompreensíveis, Eliseu conseguiu responder que sim, que estava disposto a se tratar, que estava disposto a ter uma nova vida e fazer tudo o que fosse preciso, desde que ela garantisse que ele poderia viver ao lado do seu melhor amigo. Do contrário, preferia continuar nas ruas. Carina pediu um voto de confiança e lhe garantiu que o final feliz deles estava assegurado. E finalmente com sua permissão, ligou para o hospital e pediu que viessem pegar Eliseu e Sorte.
Já dentro da ambulância, deitado sobre a maca, enquanto mediam sua pressão e avaliavam o seu estado físico, Eliseu olhou para Sorte e o agradeceu por existir. Em resposta, o cachorro deu duas lambidas em sua mão e o encarou com um olhar de amor.