#17 – Pesadelos

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Assim que Carlos colocou os pés no salão no térreo daquele prédio, pôde vislumbrar todo o seu futuro. Era o primeiro dia de trabalho naquela importante empresa e o cargo lhe daria segurança financeira para toda a vida.
Tinha lutado muito por esse emprego. Foram anos de cursinho atrás de cursinho, de concurso atrás de concurso, para finalmente pertencer a uma das maiores empresas do país. Sua mãe não poderia estar mais orgulhosa. Seu pai fazia questão de contar a todos no trabalho onde é que o seu primogênito estava indo trabalhar a partir de hoje e, se Deus quisesse, pelo resto da vida. Seu irmão menor já tinha preparado toda uma lista de presentes que queria ganhar assim que Carlos recebesse o primeiro salário.
Trabalharia no sétimo andar. Uma sala enorme, com outros 3 empregados, com direito à um computador de última geração e uma vista decente para os outros prédios da cidade.
Quando chegou à sua sala, foi cumprimentado pelos seus novos colegas de trabalho. Recebeu abraços, desejo de boas vindas, boas vibrações e até mesmo marcaram uma saideira para mais tarde, para comemorar sua grande conquista.
Carlos sentou sobre a cadeira giratória e deu uma boa olhada para a sua mesa. Um espaço enorme, dava para colocar fotos de amigos e familiares, espalhar os arquivos, trabalhar com conforto no deslumbrante computador e ainda colocar alguns mimos recebidos de sua família como recompensa por todo o esforço de anos.
Soltando um longo suspiro, Carlos começou a se preparar para o trabalho burocrático que seria o seu destino até o fim de sua aposentadoria.

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E então, o despertar.
Com o peito arfante e a testa encharcada de suor, Carlos encontrou-se em seu quarto parcialmente escuro, iluminado apenas pela lua cheia lá fora. Acendeu o abajur e levantou-se com pressa da cama, assegurando-se de que estava realmente acordado.
Carlos caminhou pelo quarto em direção ao seu pequeno espaço criativo, onde suas telas, tintas, colas, pincéis e papéis estavam em seu devido lugar. Uma sensação de alívio preencheu-lhe o peito. Ele estava seguro, onde mais amava, com o que mais amava.
Carlos lambuzou os lábios ao beijar a tela à óleo que tinha pintado no dia anterior. E, rindo consigo mesmo no meio da madrugada, agradeceu a Deus por tudo não ter passado de um pesadelo.