#26 – Catarina E A Noite

catarina

Catarina se esconde da noite.
Quando o sol se põe atrás do morro de sua humilde casa, ela corre pelos corredores acendendo todos os interruptores que encontra pela frente.
“É para evitar que o dia acabe”, diz Catarina com os olhos arregalados.
Catarina tem vinte anos de idade e muita memória na cabeça. Suas irmãs já não sabem o que fazer, os vizinhos olham desconfiados quando passam por ela, julgam-lhe anormal. Catarina não tem nada de anormal, assim como não tem nada de pais ou de amigos. Tem apenas um ursinho de pelúcia que carrega sempre consigo.
Janaína e Mara, as irmãs, já tentaram arranjar-lhe um marido, mas que homem quer disputar a atenção com um bichinho de pelúcia? Quer pessoa quer cuidar de alguém que ficou parada no tempo?
Ah, o tempo! Vamos falar sobre o tempo!
Vamos falar sobre aquela data, sobre aquela noite, quinze anos atrás.
“Vamos, vamos falar”, diz Catarina, mas ninguém quer ouvir. Melhor é ignorar, deixar que o silêncio leve as pegadas das palavras que ainda restam ser ditas.
Catarina fala sobre a sombra em seu quarto, sobre o medo chegando, sobre a dor, muita, muita, muita dor! Janaína sai da sala, Mara sacode a menina esperando que suas memórias chacoalhem tanto até virar areia. Areia que pode ser varrida para fora de casa e se perder com o sopro do vento.
Ninguém aguenta mais Catarina e suas memórias.
Ninguém aguenta mais Catarina… Nem Catarina!

Catarina se esconde da noite.
Luzes, lanternas, abajures, tudo está aceso, só para prevenir. Mas… e se não der pra prevenir? E se não der para evitar como não evitou quinze anos atrás?
Catarina mantém os olhos abertos.
Pode acabar a luz, pode ficar escuro, pode sim, tudo pode acontecer, a qualquer momento tudo pode acontecer!
A menina mantém os olhos abertos, põe o seu ursinho de pelúcia como sentinela e espera…. espera… espera…
Faltam 8 horas para o sol nascer, por volta de 5:15 da manhã, já até sabe a hora certinha, Catarina sempre sabe… Catarina sempre sabe, sempre soube, mas finge não saber. É sempre mais fácil, mais suportável não saber…
Faltam 8 horas, falta muito, ah, como falta!
Mas ela iria esperar, como todos os dias, iria esperar, de olhos abertos e luzes acesas.
Uma hora o sol vai nascer, pode demorar, mas uma hora ele aparece lá de trás do morro. Uma hora a luz toca a janela de seu quarto, marca suas pegadas pelo chão e abraça Catarina com uma segurança materna.
Catarina ainda vive, só vive, porque o sol uma hora aparece…
E a boa notícia, ah, Catarina!
A boa notícia é que ele sempre aparece…

#25 – Um Tal Futebol

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Ninguém avisou a Michel que tanta dor poderia caber em um pequeno corpo. Tinha apenas dez anos de idade, mas já pensava saber tudo o que precisava sobre frustrações e sofrimentos. Se existisse algo além do que ele sentiu naquela noite, depois daquele momento, ele realmente não queria saber.
Tudo começou quando seu pai lhe entregou aquela caixa grande e azul, no dia do seu sexto aniversário. Michel já tinha ouvido falar num tal de futebol, algo bem ao longe, nas conversas de família em datas comemorativas, mas nunca havia se importado muito, sequer tinha visto um jogo inteiro na vida. Mas aí veio seu pai e caixa grande e bonita, que fez seus olhinhos brilharem mesmo sem saber o que havia ali dentro. Michel rasgou o embrulho com sua ansiedade de criança e, quando abriu a caixa, ali estava: um uniforme de time de futebol, um time de sua cidade, Barcelona, que tinha como principal jogador um craque argentino com um sobrenome engraçado. Michel enrugou o nariz , mas preferiu não discutir. Fazia um ano que não morava mais com seu pai e só o via aos fins de semana. Sentia muita falta de sua companhia diária, de vê-lo chegar do trabalho e ir correndo abraçá-lo. Então quando seu pai lhe deu aquele uniforme azul e grená, Michel preferiu fingir que havia adorado, pois temia que ele desaparecesse para sempre caso dissesse que não havia gostado do presente.
Então Michel colocou o uniforme e deixou-se entrar naquela vida. Começou bem de mansinho, vendo uns vídeos na internet sobre o tal craque que o seu pai mostrava com grande animação. Deixou que o pai o matriculasse numa escolinha de futebol e lá descobriu que havia jeito para a coisa. Segundo o técnico, ele tinha um talento inato, se o garoto investisse no ramo, poderia dar um grande jogador no futuro. Michel, que nunca havia sido bom em nada, principalmente na escola, começou a aceitar a ideia. Para aprender mais, começou a freqüentar o Camp Nou com o pai e passou a ver outros jogos, campeonatos de outros países, na TV. Nem sabia dizer em que momento havia começado, qual foi o ponto chave em que seu coração foi completamente amarrado por aquele esporte que até outro dia não significava nada em sua vida. Foi assim mesmo, de repente, um dia era apenas um garoto normal e no outro já estava pulando no sofá – para o desespero de sua mãe.
Os anos se passaram e Michel foi evoluindo como torcedor e jogador. Não falava de outra coisa na escola e nas aulas chatas desenhava na última folha do caderno a camisa 10 de Lionel Messi. Se algum coleguinha fosse comemorar o aniversário no dia e na hora de um jogo, seja de grande importância ou apenas um amistoso, ele já tinha a resposta na ponta da língua: “Não posso, vou ao jogo do Barcelona.”
Tudo era alegria na vida de Michel até que aquele dia chegou.
Barcelona não era um time de derrotas e, se dependesse de Michel, nunca seria. Mas nenhum time depende de seu torcedor, muito pelo contrário! Jogadores vem e vão, diretores existem e então não mais, mas os torcedores sempre são os mesmos. Se times dependessem do amor de seus torcedores, nenhum deles jamais conheceria a derrota.
Era semi-final de Liga dos Campeões e seria sua primeira vez em um estádio de Madri. Seu pai havia juntado o dinheiro para que os dois pudessem viver aquele momento juntos, para que pudessem ver seu time mais uma vez na final do torneio de clubes mais importante do mundo.  Michel ia perder o aniversário da mãe, mas ela o perdoaria, no fim, mães sempre perdoam. Mas Michel não podia deixar de estar naquele jogo, naquele momento, vendo o seu maior ídolo de perto e o time do coração.
O Barcelona ia ganhar, tinha certeza. Era o melhor time do mundo, com o melhor jogador do mundo. Não tinha como dar errado! Michel já se via no estádio da final, faria seu pai comprar os ingressos e as passagens, pois eles precisavam estar lá! Seria uma ótima oportunidade para passar ainda mais tempo com seu pai, de quem sentia tanta, tanta falta!
O jogo começou e Michel já sabia o desfecho.
Mas não sabia de verdade.
O cenário que se desenhou à sua frente não passou pela sua cabeça nem nos seus piores pesadelos. O craque argentino sumiu em campo, ninguém viu ou ouviu, algo raro de se acontecer, mas aconteceu. A defesa, sempre sólida e colecionando minutos sem levar um gol, levou dois. De cabeça. Raro de acontecer, mas aconteceu. O Barcelona foi eliminado e viu o segundo maior time de Madrid pegar a sua vaga na final. Raro de acontecer, mas aconteceu.
Seu pai lhe abraçou e lhe dedicou palavras de consolo, mas Michel não conseguia ouvir. Era como se um chão tivesse aberto sob seus pés e ele estava caindo lentamente em um buraco sem fundo. Ninguém o avisou que entrar nessa coisa louca chamada futebol lhe traria mais tristezas do que alegria. Se tivessem avisado, ele nem teria começado.
Foi para casa em silêncio, derramando algumas lágrimas de tristeza pelo sonho partido. “Tem sempre a próxima partida”, disse seu pai, tentando animá-lo. “A primeira vez é assim mesmo, parece o fim do mundo, parece injusto e é! Caramba, a gente tinha o melhor time! Mas vai passar, filho, prometo que vai passar e logo você estará gritando pelo Barça outra vez!”
“Não vai passar não!”, respondeu o menino emburrado.
Ninguém mais quis discutir o assunto.
Ao chegar em casa, Michel correu para seu quarto e fechou a porta. Aos prantos, guardou seu tão adorado uniforme dentro de uma sacola e prometeu que daria para outra pessoa. Não queria mais saber de futebol, de Barcelona, de Messi, de nada! Queria era voltar para sua vida antiga, sua vida antes de conhecer o futebol, antes de saber como era prazeroso correr atrás de uma bola e marcar um gol. Antes de saber o que era sentir a atmosfera de entrar num estádio, com toda a torcida berrando juras de amor e paixão. Antes de conhecer a glórias de mil vitórias e o peso de uma decisiva derrota. Seus amiguinhos que não gostavam de futebol não precisavam passar por isso e Michel queria ser um deles. A partir de amanhã não veria mais um jogo e nem pegaria no jornal para ver qualquer resultado. Queria distância, queria se afastar desse mundo completamente e nunca mais ver um jogador de futebol na sua frente. Iria se afastar para sempre do futebol e nada, mas nada mesmo o faria voltar atrás!
No dia seguinte, o pai de Michel ligou para saber como ele estava e lhe disse que tinha duas entradas para o próximo jogo do Barça pelo Campeonato Espanhol. Perguntou se o menino não queria se juntar a ele nessa nossa aventura junto ao time do coração e esquecer um pouco da tristeza do dia anterior.
Em dores de futebol, nenhum remédio é mais eficaz do que aquele famoso um dia após o outro.
Com um sorriso no rosto e os olhos esperançosos, Michel nem precisou pensar duas vezes: disse sim.

#24 – A História De Martha

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Grades de ferro matavam a liberdade de Martha.
Estava presa há tanto tempo que nem se lembrava como havia parado ali pela primeira vez. Talvez estivesse presa desde criança, não sabia ao certo. Não tinha memória e nem história, era apenas Martha, a mulher presa atrás das grades.
A prisão de Martha não era uma prisão qualquer. Todas as paredes eram grades e, desta forma, Martha podia ver tudo o que acontecia ao seu redor. Ela via o céu, os campos verdes, os animais e as pessoas que por ali passavam. Martha via as pessoas, mas as pessoas não viam Martha. Ela e sua prisão eram como as árvores do local: já faziam parte da paisagem. Gritava por ajuda, para que alguém viesse abrir a porta de sua prisão, mas ninguém escutava. E Martha chorava, chorava e chorava pela sua má sorte, pelo destino que alguém em algum lugar havia reservado para si.
Martha não tinha sobrenome, nem parente, Martha era um acidente da vida, alguém que havia surgido naquele lugar e que ali deveria ficar. Ela tentou aceitar este fato, tentou se convencer de que talvez havia nascido mesmo para ser árvore, e que seu papel no mundo era apenas existir até que alguém a enxergasse e viesse abrir sua porta. Ela tentou bastante, mas a vontade de ser mais do que árvore era latente demais e impossível de ser ignorada. Martha gritava, chorava e esperneava para que algum chave caísse do céu ou que algum vendaval viesse para arrancar as grades do chão e libertá-la desta existência inerte. Mas só a chuva caía do céu para Martha e o máximo que a força do vento naquele local conseguia era despentear seus cabelos escuros.
Então, se rendeu. Desistiu de lutar e de se jogar contra as grades. Deixou seu corpo escorregar pela porta de sua prisão e, sem querer, seu cotovelo esbarrou na maçaneta da porta e esta, de repente e sem qualquer maior esforço, se abriu. Martha caiu de costas sobre a grama e pela primeira vez na vida viu o sol sob outro ângulo. Levantou-se rapidamente, tirou a terra do corpo e checou com assombro que a porta nunca havia estado trancada.  Não era preciso nenhuma chave mágica ou um monstruoso vendaval. No fim das contas, o segredo para sua liberdade não era nada mais do que girar a maçaneta.
Martha saiu correndo em direção ao mundo que estava à sua frente. Não sabia para onde ia, mas estava indo. Não era mais a Martha entre grades, a prisioneira de seu destino ou a desafortunada pela vida. Era Martha livre, era Martha liberdade.
Sua história começa agora.

#23 – Dona Adélia

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Dona Adélia tinha 65 anos e morava num modesto prédio na rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Até onde se sabia era sozinha, pois por ali nunca se havia visto parentes ou amigos. As únicas pessoas que iam até o lar de Dona Adélia eram os entregadores de comida, que entravam com uma cara e saíam com outra.
Dona Adélia tentou ter um gato, mas ele desapareceu no segundo dia. Tentou ter um sabiá, mas o danadinho arranjou um jeito de fugir da gaiola em menos de uma semana e nunca mais voltou.
Outra coisa que se conhecia sobre Dona Adélia era sua antipatia feroz. Ela não só não  cumprimentava os outros moradores quando se cruzavam pelo corredor do prédio, como também parecia odiar que lhe dirigisse qualquer cumprimento. Fazia questão de olhar na cara das pessoas e enrugar o nariz, como se todos à sua volta fedessem. Era o terror nas reuniões de condomínio, pois, apesar da ótima administração do prédio, onde o síndico resolvia tudo o mais rápido possível, Dona Adélia reclamava e como reclamava! Reclamava que as cartas não eram colocadas corretamente em seu escaninho, reclamava dos latidos dos cachorros, dos choros dos bebês, do produto – que só ela achava – fedorento com o qual as meninas da limpeza desinfetavam os corredores e uma vez até arranjou um caso porque – pasmem só! – a senhora Adriana do 307 desceu no elevador amamentando sua menina de 3 meses.
A cada fim de ano Dona Adélia só colocava 10 centavos na caixinha de Natal dos funcionários do prédio porque, como disse para seu vizinho de uma porta uma vez, não gostava de fomentar a preguiça entre os subordinados. “Pois esse povo é assim”, dizia ela sem notar a cara de enfado do vizinho, “você dá um dinheirinho a mais e daqui a pouco tão pensando que estão acima de você!”
Ninguém tinha a menor paciência com Dona Adélia, nem mesmo as crianças mais carinhosas. Mas a maior vítima de seus ataques histéricos era Orlandinho, o porteiro negro que frequentemente ouvia reclamações e comentários maldosos em relação à sua cor de pele. Dona Adélia já havia recebido duas cartas de notificação por seu comportamento racista para com o porteiro, que era adorado por todos os moradores do prédio, mas ela nunca perdia a oportunidade de abrir a boca para falar mais besteiras cada vez que passava pela portaria.
Até que aconteceu um caso curioso, que Dona Adélia nunca conseguiu desvendar, por mais que pensasse sobre isso no futuro.
Estava saindo, como de costume, numa manhã de domingo – pois era uma pessoa de bem que nunca faltava à missa aos domingos – e acabou ficando presa no elevador entre o terceiro e o segundo andar. A velha senhora apertou o alarme, mas ninguém veio. Bateu com força na porta e berrou pedindo ajuda, mas ninguém respondeu. Tentou ligar para o síndico, mas o celular estava fora de área. Esperou por alguns minutos ouvir qualquer voz, mas não havia nada. Parecia não existir nenhuma alma viva naquele dia para vir ao socorro de Dona Adélia, que precisou sentar no chão para que suas pernas parassem de doer de tanto esperar.
Ficou quase uma hora presa até que o porteiro finalmente veio ao seu socorro e conseguiu abrir a porta. Esbravejando para todos os lados, Dona Adélia perguntou ao rapaz como era possível que, num prédio com mais de 100 moradores e em um domingo de manhã, onde a maioria das pessoas estava em casa, ninguém tivesse ouvido seus gritos por socorro.
Segurando o riso, Orlandinho apenas deu de ombros e disse que não tinha a menor ideia.

#17 – Pesadelos

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Assim que Carlos colocou os pés no salão no térreo daquele prédio, pôde vislumbrar todo o seu futuro. Era o primeiro dia de trabalho naquela importante empresa e o cargo lhe daria segurança financeira para toda a vida.
Tinha lutado muito por esse emprego. Foram anos de cursinho atrás de cursinho, de concurso atrás de concurso, para finalmente pertencer a uma das maiores empresas do país. Sua mãe não poderia estar mais orgulhosa. Seu pai fazia questão de contar a todos no trabalho onde é que o seu primogênito estava indo trabalhar a partir de hoje e, se Deus quisesse, pelo resto da vida. Seu irmão menor já tinha preparado toda uma lista de presentes que queria ganhar assim que Carlos recebesse o primeiro salário.
Trabalharia no sétimo andar. Uma sala enorme, com outros 3 empregados, com direito à um computador de última geração e uma vista decente para os outros prédios da cidade.
Quando chegou à sua sala, foi cumprimentado pelos seus novos colegas de trabalho. Recebeu abraços, desejo de boas vindas, boas vibrações e até mesmo marcaram uma saideira para mais tarde, para comemorar sua grande conquista.
Carlos sentou sobre a cadeira giratória e deu uma boa olhada para a sua mesa. Um espaço enorme, dava para colocar fotos de amigos e familiares, espalhar os arquivos, trabalhar com conforto no deslumbrante computador e ainda colocar alguns mimos recebidos de sua família como recompensa por todo o esforço de anos.
Soltando um longo suspiro, Carlos começou a se preparar para o trabalho burocrático que seria o seu destino até o fim de sua aposentadoria.

**

E então, o despertar.
Com o peito arfante e a testa encharcada de suor, Carlos encontrou-se em seu quarto parcialmente escuro, iluminado apenas pela lua cheia lá fora. Acendeu o abajur e levantou-se com pressa da cama, assegurando-se de que estava realmente acordado.
Carlos caminhou pelo quarto em direção ao seu pequeno espaço criativo, onde suas telas, tintas, colas, pincéis e papéis estavam em seu devido lugar. Uma sensação de alívio preencheu-lhe o peito. Ele estava seguro, onde mais amava, com o que mais amava.
Carlos lambuzou os lábios ao beijar a tela à óleo que tinha pintado no dia anterior. E, rindo consigo mesmo no meio da madrugada, agradeceu a Deus por tudo não ter passado de um pesadelo.