17 – Ainda Temos Onde Nos Agarrar?

girl-with-a-balloon-by-banksy

 

O mundo inteiro acompanhou ontem a apuração de votos da eleição americana. Mesmo aqueles que nunca haviam se interessado por política americana ficaram ligados, seja pela internet ou pela TV, para acompanhar o maior embate político dos últimos tempos. E acredito que a maioria não tenha se apaixonado pela política da noite por dia… Mas sabiam que um candidato racista, misógino, xenófobo etc. não podia sair vencedor da eleição mais importante do mundo, principalmente quando esse mesmo mundo precisa cada vez mais de amor e aceitação. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Acordamos assustados. Acordamos sabendo que um louco, sem qualquer experiência prévia na política ou nas forças armadas, agora tem um enorme poder nas mãos. Um homem que abusa de mulheres, que dispara frases de ódio contra mulçumanos e latinos, que prega um discurso bélico, e que agora tem o poder de decidir sobre o uso de armas nucleares ou se lutar contra o aquecimento global vale a pena ou não.
Pessoalmente, me interesso e leio muito sobre política americana desde o 11 de Setembro. E não porque acho os EUA um lugar maravilhoso ou porque desgosto do meu país, mas sim porque desde então eu me dei conta de que tudo o que acontece por lá afeta todos nós. E se ainda tem alguém que pensa que o que aconteceu ontem não vai afetar ninguém além das fronteiras americanas e que isso não deve ser da preocupação de brasileiros, por favor, se informe, estude, saiba o que está acontecendo fora da sua bolha, porque sempre afetou e continuará afetando cada vez mais. Goste ou não, os EUA detém o poder sobre a maior parte do mundo. Se um pauzinho dos pilares do planeta como conhecemos hoje for retirado por eles, caímos quase todos. É uma droga, mas é assim que é.
O ódio está crescendo como um câncer fora de controle. Banalizamos a violência, achamos normal o machismo, vemos crianças morrendo afogadas ou soterradas por prédios explodidos na Síria e em seguida vamos jantar. E ainda continuamos com o discurso de “não adianta fazer nada”. Por quanto tempo mais seguiremos apáticos em relação a tudo o que acontece?
É verdade, talvez não tenhamos poder político ou financeiro para fazer muita coisa. Nossas vidas já são complicadas o bastante. Mas você não precisa sustentar a África ou concorrer a um cargo político para fazer a diferença. A mudança se apresenta aos nossos olhos todos os dias, nas mínimas coisas, e geralmente passam despercebidas. Não são os acordos políticos que mudam o mundo. São os pequenos gestos de cada dia. E isso todos nós podemos fazer… juntos!
Após o desespero e a estupefação que tomou conta de todos ontem à noite, enquanto muitos choravam e outros sentiam raiva daqueles que batem no peito e se orgulham por discriminar um semelhante, uma luzinha de esperança começou a surgir. No Twitter, famosos e não famosos fizeram uma pequena promessa, uma promessa de 140 caracteres, de cuidar um do outro em tempos tão difíceis. Prometeram que serão pacientes com os que ainda não entenderam a gravidade da exclusão; prometeram que irão agir cada vez que virem alguma discriminação nas ruas, que irão defender as minorias, que espalharão paz e amor em todas as oportunidades, até nas mais difíceis; prometeram que serão luz no meio de tanta escuridão, um sopro de esperança para os desesperados, a força que não possuem os mais fracos. Façamos o mesmo por aqui.
A vitória de Donald Trump deu voz àqueles que lutam por uma supremacia de raça, de gênero e de religião. Cada vez mais vemos a quantidades de lobos que estão espalhados pelo mundo, uivando suas ideias loucas e assassinas. E a pior parte de tudo é ver pessoas que amamos fazerem coros a essas vozes. Li comentários que pregavam que deveríamos virar às costas para quem apóia esse tipo de políticos. Entretanto, será esse o caminho certo? Não será que virar as costas para nossos amigos, para nossas famílias, para aqueles que amamos por causa de suas visões “tortas” do mundo é fazer o mesmo que “o lado de lá”, que é excluir? Se lutamos contra a exclusão, não é incoerente fazer o mesmo “do lado de cá”? Eu proponho uma outra ideia. A ideia de que podemos conversar, convencer, informar aos que estão próximos de que a ideia do totalitarismo e a falta de empatia num mundo globalizado como o nosso já não cabe mais. Que somos livres para desgostar de muitas coisas, mas que não podemos deixar que esse nosso desgosto saia de nós e machuque alguém. Pregar a ideia de que seu direito acaba quando começa o direito do seu próximo. E precisamos fazer isso com a voz baixa, com paciência e com um olhar amoroso. Não é berrando e atirando pedras que vamos ser diferentes daqueles que julgamos ruins e nocivos, pois eles fazem exatamente isso. O maior perigo de uma luta talvez seja nos transformar naquilo que mais desprezamos.
Mantenham isso em mente. Assim como ontem centenas de pessoas começaram uma corrente de promessas para o bem, comecemos uma hoje aqui também. Não iremos mudar a cabeça de todo mundo, mas qualquer pessoa que consiga ver o absurdo e o crime que é odiar alguém por causa das escolhas que essa pessoa fez para a própria vida, já será uma vitória. Não desistam daqueles que ainda mantêm uma mente fechada: com calma, amor e muita, mas muita paciência, você pode obter resultados inimagináveis. Vamos acreditar e lutar por isso.
Hoje é um dia de luto para todos aqueles que tinham a esperança de ver uma mulher presidente do maior cargo político do mundo e que acreditam na integração e na compreensão entre povos. Vamos chorar nossas lágrimas e tirar esse dia para refletir tendo em mente que, a partir de amanhã, nossa luta por um lugar melhor precisa recomeçar. É muito difícil tirar forças do nada quando vemos tanta maldade e morte todos os dias ante nossos olhos. Nesta manhã eu mesma acordei pensando se isso tudo vale a pena e se ainda há no que se agarrar. Até que minha mente me lembrou de uma cena da minha história favorita de todos os tempos, que queria deixar aqui e compartilhar com vocês. Esta cena mudou minha vida e me dá forças cada vez que eu começo a acreditar que nada vale a pena. Espero que tenha o mesmo efeito sobre vocês também.

 

 

Para finalizar, deixo aqui minha frase preferida de Abraham Lincoln, para muitos o maior presidente americano da História. Não necessito dizer mais nada… ela fala por si só.

abraham_lincoln_pode_se_enganar_a_to_nl

16 – O 1% Que Faz A Diferença (Um Desabafo!)

ccc

 

Faz mais ou menos uma hora que estou olhando para a página em branco no Word pensando no que escrever. Queria dizer algo feliz, mas não sei como. Queria escrever um post inspirado para dar esperanças às pessoas e falar que tudo vai acabar bem. Queria escrever um conto pro projeto #52contos que dissesse algo, que passasse uma boa mensagem, mas não sei o que escrever. Tenho muitas histórias para serem escritas, para fazer com que saiam de mim e existam em um papel e a fila só aumenta. Mas hoje não consigo criar uma história e fingir que nada está acontecendo. Pensei em deixar pra lá, fechar tudo e deixar pra escrever outro dia quando tudo acalmar. Mas o problema é que quero escrever. Eu quero dizer, sinto a necessidade, minhas mãos coçam, meu peito está cheio, tenho muito o que dizer ainda que saiba direito o quê.
Não é de hoje e nem de ontem que parece que o mundo enlouqueceu. Nós nos chocamos com alguma coisa agora e depois nos chocamos com outra. Talvez conseguimos um dia para respirar e então tudo volta outra vez. Parece que só piora e que tudo está perdido.
Não conheço ninguém na Franca, não conheço ninguém na Turquia, ou na Síria, ou na Nigéria ou no Iraque. Alias, é verdade, conhecer conheço pouca gente perto da maioria das pessoas. Mas existe algo chamado empatia e eu não posso evitar em me sentir mal, realmente mal, por tudo o que está acontecendo.
Sou apaixonada por culturas e religiões, devoro o que puder sobre o assunto e às vezes me sinto tão conectada a um desses lugares que até me sinto parte deles, mesmo nunca tendo pisando naquele território. O modo de vida e as crenças das pessoas me deixam apaixonada e com mais vontade ainda de viver neste mundo para saber mais e mais. Mesmo não concordando com tudo e até achando algumas coisas muito doidas, eu tento olhar sempre de fora, me reconhecendo como alguém que tem uma visão de vida diferente da que estou observando, mas que ambas compartilhamos o mundo e temos a obrigação de nos respeitar. E por isso me dói, me destrói ver essas pessoas de quem me sinto tão próxima serem ou difamadas por causa de suas crenças ou destruídas fisicamente e moralmente por essa obsessão do homem pelo poder acima de qualquer coisa. Nunca antes estivemos tão conectados e nunca antes nos destruímos tanto. A oportunidade que tínhamos de nos conhecer e de nos aproximarmos como povos e de descobrirmos as belezas de nossas vidas está sendo usada para nos matarmos. Estamos vivendo numa selva onde o “salve-se quem puder” virou lei e que tirar uma vida virou tão banal quanto arrancar uma flor de um canteiro.
Isso tem que parar!
Antes de chegar em uma rede social e endossar mais ainda o ódio que vemos nos noticiários todos os dias, se informem. Usem os 5 minutos que vocês têm pra fazer um post preconceituoso para estudar o que é de verdade a religião mulçumana, que nada tem a ver, sob nenhum aspecto, com o que o Estado Islâmico faz. Se querem criar guerra por causa de política, romper laços com amigos e familiares e falar coisas absurdas e que não tem qualquer fundamento, procurem ler mais livros sobre a história do nosso país, sobre a história da América Latina (que tudo tem a ver com a história do Brasil). Indico Eduardo Galeano e Darcy Ribeiro só pra começar. Verifiquem informações antes de tomá-las como certas e saírem reproduzindo discursos burros que ouviram da boca de outras pessoas. Se você, assim como eu, se pergunta o que pode fazer diante de tanta guerra e tantas mortes pelo mundo, procure primeiro olhar o outro como um indivíduo cheio de belezas e imperfeições, alguém que tem uma vida e uma educação totalmente diferente da sua e que ainda assim tem em mãos um mundo maravilhoso para te mostrar.
Pequenas ações levam à grandes diferenças. O Sonho de Letras , por exemplo, não tem muitos acessos, não é um lugar com mil visitas por dia mas, ainda assim, eu não consigo desistir disso aqui porque é uma maneira muito pequena que eu tenho de falar aquilo que acredito que possa fazer a diferença na vida de alguém. A Literatura e a escrita salvaram minha vida de inúmeras maneiras e me deram um presente que nada e nem ninguém mais deu: a oportunidade de reconhecer o outro como alguém além de mim e cuja vida vale tanto quanto a minha, não importa de onde viemos e no que acreditamos como certo. Se algo nesse site faz diferença na vida de pelo menos 1 pessoa, então eu já me sinto muito feliz e com a sensação de dever cumprido, de que a vida que eu vivo não é em vão.
Então, peço o mesmo a vocês. Não sabia o que escrever quando comecei este texto, mas agora acho que sei. Criem, espalhem, comuniquem o melhor de vocês! Observem a oportunidade que temos, uma oportunidade que nunca antes na Historia o ser humano teve de se comunicar e de se conhecer melhor. Usem essa oportunidade para melhorar nem que seja 1% das atrocidades que vocês vêem na TV todos os dias. Não estou dizendo que é fácil sermos amigos, darmos as mãos e cantarmos uma canção feliz ou que sei todas as soluções para os problemas do mundo. Eu sei que também julgo mal, que tenho acessos de raiva, que guardo mágoas, que às vezes posso estar usando as janelas da internet para falar algo errado, todos nós fazemos, somos humanos, mas eu juro que tento todos os dias não fazê-lo. Eu falho e falho muito, mas continuo acordando acreditando que posso dar tudo de mim para ser alguém melhor. Por que como posso pedir paz no mundo se não me esforçar e nem ser minimamente decente para as pessoas que me amam? Como eu posso pedir compreensão e amor do outro se não estou oferecendo o mesmo? Como podemos querer ver um mundo diferente se repetimos os mesmos erros todos os dias, sem nos darmos conta, porque estamos muito ocupados apontando dedos ao invés de olhar nosso reflexo no espelho?
Amanhã é bem possível que acordemos com um novo atentado, com um novo golpe, com mais vidas perdidas, mais sangue derramado e o ódio cantando sua canção assustadora pelas ruas de qualquer parte do mundo. Não sei se um dia isso vai mudar, se existirá igualdade, justiça e respeito como deve ser. Sei de pouquíssimas coisas no momento e confesso que me sinto muito assustada. Mas eu ainda acredito no poder que nós temos de sermos melhores.    Nunca comprei a filosofia de que o homem é mal por natureza e que não há nada que se possa fazer. Há muito a fazer e pessoas que foram pequenos sopros de esperança já demonstraram isso  desde o início dos tempos.
Se você quer ver uma mudança urgente no mundo, seja uma. Por favor, seja uma! O seu 1% já é o suficiente para mudar alguém e esse alguém dando mais 1% pode chegar a outra pessoa que também dará 1% e assim sucessivamente. E então esse número que parece tão insignificante  pode ser a mudança que esperamos e até hoje não vimos chegar.
Esse meu texto foi um desabafo improvisado, mas não pretendo mudar nada nele, não importa quantos erros técnicos tenha. A escritora cheia de paranoias quanto à perfeição não tem lugar aqui hoje. E isso sou eu dando 1% de mim neste momento.
Prometo amanhar dar ainda mais.

15 – Precisamos Falar Sobre Muitas Coisas, Mas Será Que Estamos Nos Ouvindo?

Conversation Pop Art

É comum vermos o termo “precisamos falar sobre” pelas redes sociais quando alguém faz um texto querendo explorar um determinado assunto polêmico para elucidar o público quanto à sua importância. Feminismo, homossexualismo, racismo, xenofobia e intolerância religiosa estão entre os temas mais discutidos e, como sempre, são temas que causam bastante discussão e seria muito saudável ter uma discussão diária sobre todas essas coisas se ao menos conseguíssemos, de verdade, falar sobre isso. O problema é que o assunto quase nunca é só falado. Ele é brigado, é berrado, se torna agressão e até uma Terceira Guerra Mundial, principalmente no Facebook. Então, do que estamos mesmo falando?
São tempos difíceis, tensos, não só para o Brasil, mas também para o mundo. As pessoas parecem estar sempre à flor da pele e prontas para fazer o Michael Douglas no aclamado “Um Dia De Fúria”. É muito mais fácil agredir alguém e perguntar depois do que praticarmos a paciência e “corrigir” algum pensamento equivocado com explicações e não xingamentos.
A humanidade está passando por uma transformação importantíssima, as sociedades estão evoluindo ao reparar os próprios erros e tentar corrigi-los através do progresso. Não é mais aceitável diminuir alguém por causa da cor da pele, pelo sexo, pela religião, pelo lugar onde nasceu etc. e cada vez mais as pessoas estão tomando consciência disso (ainda tem muita gente sem noção e preconceituosa, mas eu prefiro acreditar que a maioria está tentando melhorar e fazer deste lugar um mundo melhor). Mas nenhuma transformação ocorre de um dia para o outro. Mudar a cabeça e fazer seres humanos entenderem que precisam se respeitar acima de tudo é algo muito complicado, leva tempo e requer paciência. E estamos todos suscetíveis ao erro, sejam estes pequenos ou grandes.
Textos bem intencionados que procuram divulgar a ideia de igualdade viram discussões agressivas porque o autor empregou uma palavra ou usou um termo que não se deve usar mais. Às vezes a culpa não é nem da palavra mal empregada e sim um erro de interpretação de um leitor, que leva outros leitores preguiçosos a interpretarem com a cabeça deste primeiro leitor, e todo mundo sai partindo para uma batalha que ninguém sabe de onde saiu em primeiro lugar. No fim, todos saem agredidos e feridos e o protagonista da história, que era a causa a ser defendida, fica em segundo, terceiro ou em nenhum plano.
Precisamos falar sobre muitas coisas, todos os dias para evoluirmos, mas não estamos nos entendendo. E o mais curioso é que não estou falando de pessoas com ideias opostas, o clássico coxinhas x petralhas. Estou me referindo a pessoas que defendem a mesma causa e ainda assim conseguem arranjar um motivo para se odiarem e organizarem um motim na internet uma contra a outra. Qual é o sentido disso tudo?
É preciso entender que errar faz parte da transformação, do esclarecimento. Se aquele autor fez um texto com o intuito de falar sobre a importância de ver um ser humano além da raça e empregou aquela palavrinha errada que é uma reprodução que ele ouviu dos avós, cabe a você chegar e dizer: “Fulano, essa palavra está mal empregada por isso, isso e isso, não faz mais parte do contexto hoje em dia. Abraços!” e não sair escrevendo em caps lock que o cara é um racista enrustido. Se uma amiga sua que luta pela causa feminista acabou reproduzindo uma frase machista sem se dar conta, cabe a você explicar porque ela não deve mais usar aquele termo e porque esta frase não cabe dentro da luta feminista. E não chamá-la de machista (isso é o que mais vejo em discussões feministas!) ou falsa porque ela simplesmente se equivocou.
A verdade é que ainda reproduzimos muito do que nos foi dito ao longo da vida por uma sociedade que oprimia as minorias desde o nascimento do primeiro ser humano. Não pensamos em cada palavra que sai de nossa boca (mas devemos!) e às vezes não nos damos conta que aquilo é errado. Dê uma chance, pelo menos uma chance, de uma pessoa se equivocar antes de xingá-la de tudo quanto é nome e criar um mal estar em uma rede social ou até mesmo pessoalmente que pode deixar cicatrizes para a vida inteira. Devemos acabar com este mundo de guerras, dentro e fora das redes sociais, e não contribuir para a criação de mais uma.
Com a liberdade de expressão que a internet deu para as pessoas da nossa geração, queremos e precisamos falar sobre muitas coisas. Entretanto, é importantíssimo e urgente refletir o quanto, de verdade, estamos ouvindo uns aos outros.

14 – Virginia E Suas Ondas.

virginia

Um novo livro de Virginia Woolf está na vitrine de uma livraria. Mesmo morta há tanto tempo, mais um livro seu é lançado. Sorte para nós. Ou para mim, pelo menos. Posso respirar aliviada ao saber que existem mais letras de Virginia a serem lidas.
Virginia não é só uma escritora preferida. Não é esse alguém que morou em outro país, falava outra língua e viveu em outra época. Virginia é uma amiga. A melhor amiga. Daquelas que atravessam a pele. A que tem a coisa certa a dizer quando você mais precisa. A que te faz sentir que tudo vai ficar bem – mesmo que não tenha ficado para ela. É daquelas amigas que a gente já considera parente. Ela está comigo todos os dias, bem pertinho de mim, mais presente do que pessoas que moram em meu país, falam minha língua e vivem em minha época.
Nos conhecemos quando eu tinha dezesseis anos. Adolescentes acham o maior barato uma carta de amor suicida. Quis me aprofundar um pouco mais naquela alma atormentada e não deu outra! Nosso amor irremediável pelo mar foi o assunto principal de nossa atração. O primeiro e derradeiro laço.
Dizem-me ser quase impossível ler “As Ondas”. O fluxo de consciência, a vida manchada dos seis personagens misturando-se como cores dentro de uma bolha de sabão, a narrativa poética e que não segue o típico “início – meio – fim”… Os que conheço tiveram problemas com o livro. Eu não. Para mim não teve muita coisa estranha. Foi como ouvir uma mente que já conheço de vidas passadas falando sobre coisas e lugares que não me são desconhecidos. Foi como encontrar uma porta aberta e ver-me finalmente em casa.
Quando a vida fica difícil, quando o ar parece pesar mais que uma tonelada sobre mim, corro para os braços de minha amiga, me jogo sobre seu mar e me deixo boiar em suas ondas enquanto o mundo explode lá fora. Nossas águas se misturam, trocamos vivências, nos conhecemos mais ainda e então, de súbito, algumas das principais questões sobre o Universo me parecem claras. Para mim, Virginia e o mar sempre têm todas as respostas.
Um novo livro de Virginia Woolf está na vitrine de uma livraria. Sorrio. É hora de reencontrar minha amiga e dizer-lhe que estava morrendo de saudades.

13 – Ser Gorda Não É Pecado.

14

Não sou a primeira e com certeza não serei a última a falar sobre o culto excessivo ao corpo. Contudo, esse é um assunto que nunca sai de moda e acredito que é sempre bom debater sobre essa questão que há muitos anos vem, de uma maneira ou de outra, acabando com a vida de muita gente.
Me considero uma pessoa viciada em notícias. Diariamente estou visitando os principais sites de jornais e sempre que a TV está ligada, nunca deixo de colocar rapidinho em algum telejornal só para ver sobre o que estão falando. E é impossível deixar de perceber o quanto a ideia de que “a felicidade é sinônimo de magreza” é imposta de maneira opressora sobre nossas cabeças. Principalmente em sites onde a seção de fofocas é posta em evidência, é impossível fugir de títulos como “Fulana mostra as celulites em ensaio fotográfico” ou “Fulano mostra a barriga protuberante em dia na praia”. Isso quando não aparecem matérias sobre “Como conseguir uma barriga negativa em 15 dias!” ou coisa pior por aí.
É muito triste ver amigas minhas pegando gordurinhas mínimas em suas barrigas para encher a boca e dizerem o quanto estão GORDAS, assim mesmo, no caps lock, porque é como a palavra soa para mim. As cinco letras vêm cheias de ódio e repulsa em relação ao próprio corpo e, mesmo que eu fale o quanto elas são lindas e que estão ótimas, elas sempre voltam para aquela dieta de líquidos que vai eliminar aquele “horrendo” tecido adiposo.
A sociedade transformou o corpo da mulher num manequim. Ou pior! Outro dia, no shopping com uma amiga, percebemos que um vestido exposto na vitrine de uma loja estava justíssimo no manequim! Se o boneco tivesse uma boca de verdade para falar, garanto que estaria gritando algo como: “ME TIREM DAQUI, POR FAVOR! ESTOU SUFOCANDO!” porque era exatamente o que roupa estava fazendo. Agora imaginem uma roupa assim no corpo de uma mulher?
Somos rotuladas pelo número de nossas vestimentas, nossa felicidade depende se uma roupa coube em nós ou não. Não podemos comer chocolate, porque engorda. Pizza? Nem pensar! Em uma confraternização com amigos, só um peitinho de frango com salada e olhe lá! Se por acaso uma de nós sai da dieta e come uma lasanha inteira no almoço, num momento de vulnerabilidade e estresse, isso vira uma dor de cabeça para o mês inteiro. Retornamos rapidamente à dieta, planejamos cardápios mais magros e comemos cada vez menos. Quando reencontramos um familiar ou amigo (sem noção, diga-se de passagem), não é difícil ouvir um “nossa, você engordou, hein!” carregado de veneno e julgamento, como se isso ferisse a cartilha de moral e bons costumes.
Eu só quero saber quando, em que momento dessa sociedade que beira à doença mental, determinou que ser gorda é pecado. Que é algo ruim, que estar um pouquinho acima do peso só vai lhe trazer azar, infelicidade eterna e impedir que você atravesse os portões do paraíso. Que é algo tão nojento e repugnante que é capaz de fazer uma pessoa chegar à extremas conseqüências para conseguir o corpo da Candice Swanepoel. Porque, claro, imagino que a Candice não tenha nenhum problema na vida ou traumas que a impedem dormir à noite. Porque ela é “perfeita”, tem uma barriga negativa. E pessoas perfeitas não têm dessas coisas.
Vejam bem: eu não estou dizendo para todo mundo sair comprando 500 barras de chocolate e freqüentar rodízios todo o fim de semana. Também não estou dizendo que comer salada com peito de frango é coisa de gente doida ou ruim para alguém. Saúde SEMPRE deve estar em primeiro lugar. Uma pessoa acima do peso com certeza tem que fazer dieta e exercícios para manter-se saudável, colesterol e glicose são coisas seríssimas, é preciso tomar muito cuidado. O abuso sempre é um equívoco. O que me incomoda é essa ideia absurda de que você ou o seu corpo não valem absolutamente nada se não se enquadrarem em determinadas medidas. É ouvir piadinhas sem graça sobre as gordurinhas de alguém, sobre o peso de alguém. É ver as lojas venderem cada vez roupas menores que nem mais nos manequins estão cabendo! Nos filmes, os protagonistas sempre são magros e alcançam o seu final feliz. Nos livros de romance, a mulher esguia sempre encontra o príncipe encantado (que também é magro!) e é feliz por toda a eternidade. Quantas vezes vocês leram um livro ou viram um filme onde os protagonistas são no máximo “gordinhos”? Pois é…
Garotas coloquem uma coisa na cabeça de vocês: Ser gorda não é pecado. Não é nojento, não é errado. É normal ter gordurinhas, você é humana, você é mulher! Suas ações, suas atitudes, suas escolhas definem você, não o número que aparece quando seus pés pisam sobre uma balança. É permitido comer um cupcake, uma torta de limão, uma pizza de vez em quando. Você não vai engordar 3 kg porque almoçou uma boa macarronada na casa da sua tia num domingo em família. Se algumas pessoas vão deixar de gostar de você porque seu corpo não entra mais naquele vestido PP, me diga: o que você ainda está fazendo perto desse tipo de gente? É realmente isso que deseja para toda a sua vida?
Pessoas felizes são aquelas que se amam, que amam os outros, que espalham alegrias às pessoas, aos animais, à natureza, independente de quanto pesam. Ter uma barriga negativa não segura homem, não segura emprego, não segura felicidade, não segura nada. Do contrário, não veríamos lindas atrizes e modelos, com o corpo ideal, afundadas em drogas em batendo ponto em clínicas de reabilitação ao menos uma vez por ano.
Parem de olhar o reflexo no espelho com obsessão e passem a observar todas as coisas que o mundo tem a oferecer. Parem de se sentir culpadas por ter um corpo diferente, por pesar 2 ou 3 kg a mais que suas amigas. Pecado é odiar a si mesma quando você tem tantas, mas tantas coisas a oferecer ao mundo. As melhores pessoas – aquelas que devemos levar para toda a vida – te amarão pela sua essência, pela sua alma, não pelo seu corpo.
Façam um favor a si mesmas e passem a amar-se. Tirem esse peso das costas, essa doença da cabeça. Porque se vocês não se amarem primeiro, é verdade que ninguém mais vai fazer isso por vocês.
Pensem nisso 😉

12 – Intuição.

intu

A seguinte pergunta tem rondado por minha cabeça esses dias: “Nas adversidades, como saber se devemos seguir em frente ou se os impedimentos da vida são um sinal para que sigamos outros caminhos?”
Já escutei muitas pessoas dizerem que nos momentos de dificuldades devemos continuar insistindo, seguindo em frente, por mais que tudo pareça impossível e complicado. Mas também já ouvi que, em certas ocasiões, quando tudo dá errado e você sente como se estivesse batendo o martelo no mesmo prego, insistentemente, sem que este afunde a madeira, é um sinal do Universo para que procure outro caminho ou alguma outra ferramenta para bater no martelo. Então, como saber qual das duas opções seguir? Como saber se está perdendo tempo e energia em algo que já provou de diversas vezes que dará errado ou se os obstáculos são apenas etapas, como aquelas fases de videogame, que apenas estão em seu caminho para que você possa superar-se e ganhar o pote de ouro no fim da estrada? O mau ator deve continuar insistindo em uma carreira artística, mesmo quando todos são bem claros quanto a ele não possuir talento algum? Um cantor deve continuar perseguindo o seu sonho mesmo quando não consegue acertar uma nota aguda sequer?
Eu não sei se tenho as respostas certas para estas perguntas. Não sou uma acadêmica de filosofia ou algo do tipo para chegar a conclusões assertivas acerca de tais questões. Contudo, penso que os dois caminhos são válidos. Muitas pessoas seguem certas direções acreditando que aquilo será o melhor para suas vidas ou por pressões familiares. E quando se chega a uma etapa do processo em que a coisa não anda, em que suas expectativas não são alcançadas e a frustração vira o seu nome do meio, talvez seja mesmo a hora de rumar por outras estradas. Principalmente se você não se sente encaixado ou pertencente a determinado lugar. Persistir em algo que não o faz feliz realmente é um erro.
E então existe o outro lado, onde o que se está buscando é o que o faz feliz, é o que o faz pertencer a algum lugar. Chame de intuição ou sexto sentido, existe algo dentro de nós, como uma luzinha em um escuro e longo túnel, como uma chama que acabou de nascer, que nos faz sentir que estamos no caminho. Mesmo que você seja um ator muito criticado ou um cantor muito desafinado, você simplesmente sabe que aquela é sua vida, não importa se terá milhões no banco ou se terá de batalhar por um mínimo no final do mês para pagar as contas pelo resto de seus dias. Quando realmente queremos, quando desejamos algo com afinco, mesmo que nosso talento seja limitado, com disposição e muita persistência podemos aprender cada vez mais até atingir o nosso objetivo. Se você é um mau ator, procure melhorar. Faça caretas frente ao espelho, veja 5 filmes por dia, anote o que você mais gostou na atuação de alguém e tente imitar. Se você é um cantor desafinado, prossiga nas aulas de canto, veja as 1001 formas com que pode usar a sua voz. Eu peguei essas duas profissões como parâmetros para explicar que é possível ser quem desejar, apesar das dificuldades e obstáculos que parecem nunca sair do caminho, se você realmente lutar e persistir naquilo que ama.
Penso que cada vez que nos depararmos com a questão “desistir ou seguir em frente?”, cada vez que nos vemos encarando tantas dúvidas em relação ao nosso futuro, quando tudo parece estar errado, devemos, antes de mais nada, nos perguntar: “É isso mesmo o que eu quero? É isso o que eu quero fazer pelo resto da minha vida?”
Por um breve minuto, esqueçam dinheiro, família ou promessas passadas feitas a si próprio. Reserve-se um momento em silêncio, procure bem lá no fundo a sua luz no fim do túnel ou a chama nascente e sinta o que ela realmente quer lhe dizer. Mesmo que demore alguns dias ou algumas semanas, a sua intuição o levará à decisão correta por mais que agora tudo pareça tão confuso e conflitante. Se você confiar em si mesmo e na sua voz interior, sem qualquer medo interferindo em seu julgamento, eu garanto: não há como errar.

11 – Futebol: Amor Que Não Se Explica.

amor que não se explica

A primeira Copa do Mundo que acompanhei foi a da França, em 1998. Eu tinha apenas 6 anos de idade. Lembro das ruas sendo enfeitadas e o nervosismo de meus pais nos primeiros jogos, ainda sem muito entender o significado de tudo aquilo. Fiquei chateada com a derrota do Brasil porque meus pais ficaram e tomei nojo da França porque meus pais tomaram.
A segunda Copa do Mundo que acompanhei foi a de 2002, sediada na Coreia do Sul e no Japão. Não lembro de nenhuma partida em especial da época, a não ser a final contra a seleção – até então pra mim desconhecida – da Alemanha. Tudo o que eu sabia sobre a Alemanha era que eles tinham um goleiro que era chamado de “muito feito” por quase todas as pessoas ao meu redor, como se feiura ou beleza realmente fizessem alguma diferença em uma partida de futebol. Eu tinha 10 anos de idade e começava a flertar com este esporte que andava me chamando muita atenção nos campeonatos brasileiros que meu avô via na televisão a todo momento. Fiquei feliz com a vitória do Brasil porque todos ao meu redor ficaram. Novamente, eu não entendia a importância de tudo aquilo.
A terceira Copa do Mundo que acompanhei foi a de 2006. Eu tinha 14 anos de idade. E um pouco antes dessa Copa, conheci alguém que iria mudar tudo, de diversas formas, na minha vida.
Flávia era uma garota cheia de personalidade e que não se importava com que os outros achavam dela. Dentre as 1001 coisas que a destacavam entre as pessoas, ela me disse um dia, em uma de nossas inúmeras conversas sobre futebol, que torcia pela Alemanha. “Como alguém pode torcer por alguma seleção de outro país?”, pensei naquele momento. Mesmo verbalizando a pergunta, ela não me deu qualquer resposta que fizesse sentido, mas mandou que eu visse uma partida da Alemanha e prestasse atenção num tal de Michael Ballack. Além de ser o melhor jogador do time, ele era o mais bonito também (palavras dela!). Fiz o que minha amiga me pediu e vi um jogo da Alemanha antes que começasse a tão esperada Copa daquele ano. Prestei muita atenção no tal Michael Ballack, mas meus olhos também acharam um tal de Lukas Podolski, e foi amor à primeira vista. A Alemanha tinha um jeito diferente de jogar, uma força, um empenho diferente, um estilo singular que nunca antes tinha visto em qualquer outra seleção. Poucos dias antes de começar a Copa que, coincidentemente – ou não – seria na Alemanha, falei para Flávia o quanto tinha gostado daquele time e que iria torcer para eles, caso o Brasil fosse eliminado.
Acho que não preciso relembrar o quão apático o Brasil estava em quase todos os jogos. O descaso em campo e o churrasco realizado na casa do Ronaldinho Gaúcho após de, mais uma vez, termos sido eliminados pela França, me fizeram pegar birra pela Seleção Brasileira. Como prometido, após a queda vergonhosa do Brasil, passei a torcer pela Alemanha. Infelizmente a seleção foi eliminada na semi-final pela Itália e eu só me lembro do choro da torcida na arquibancada e as lágrimas rolando pelo rosto do Ballack em campo. Naquele dia, aconteceu comigo algo que nunca antes havia acontecido em uma Copa do Mundo: eu havia sentido algo, não porque minha família e amigos sentiram, mas porque eu havia sentido. Desde aquele dia, eu passei a ver todos os jogos da Alemanha que consegui, mesmo que isso significasse negligenciar qualquer dever que me impedisse de sentar frente à televisão. Minha amiga singular e cheia de personalidade veio a falecer um ano e meio depois. Mas deixou comigo esse amor e essa torcida que eu não consigo explicar com palavras. Minha birra para com o Brasil passou, mas meus sentimentos por essa seleção estrangeira, não.
Muitos hoje me fazem a mesma pergunta (com direito à nariz enrugado e olhares tortos) que eu fiz para minha amiga anos atrás: “Como você pode torcer por uma seleção de outro país que não o seu?”. E, assim como ela, eu não tenho qualquer resposta plausível para dar.
Futebol é mesmo um bando de homem correndo atrás de uma bola, se você for enxergar através da razão. Assim como Tênis são duas pessoas batendo bolinha por um tempo interminável sobre uma pequena rede, assim como Basquete é bater uma bola grande no chão até arremessá-la numa cesta. Mas o esporte é puro sentimento, é puro coração, ele salva vidas. Quem possui uma visão mais limitada acerca de esportes, seja ele qual for, nunca vai entender qual é a emoção de torcer para alguém em especial ou para um time. Como a alegria daquela pessoa, daquelas pessoas, de alguma forma mágica, se torna a sua, não importa em que parte do mundo você esteja.
O futebol não é o esporte mais popular do mundo à toa. À princípio pode parecer estranho e sem sentido, mas a partir do momento em que você começa a entendê-lo e se identifica com um grupo, com um time, é impossível não se deleitar (e sofrer também!) com este jogo tão sensacional e arrebatador. E não tem, não tem mesmo explicação. Por mais que um intelectual faça todo um estudo crítico e minucioso acerca do esporte, ele nunca vai conseguir capturar tudo o que este representa. Se fosse algo lógico, assim como 2+2 dá 4, não existiriam pais Flamenguistas com um filho Vascaíno ou pais com filhos Atleticanos e Cruzeirenses. Todos estes foram criados na mesma casa, com as mesmas regras, com a mesma educação e, assim como tudo na vida, têm opções diferentes, têm sensações diferentes. Talvez essa seja a resposta que mais chegue perto da pergunta “Como você pode torcer para uma seleção de outro país que não o seu?”, porém ainda não abarca todo o sentimento que eu e, acredito que muitas pessoas, possuem dentro de si.
Amor, sob qualquer forma, realmente não se explica. Por isso, nesta Copa do Mundo, torça para quem quiser, para a seleção que faça você realmente sentir alguma coisa por você mesmo, um sentimento do qual nunca conseguirá explicar exatamente o que é e de como surgiu. Essa é toda a magia do futebol, essa é a graça da coisa.
Que todos possamos torcer para nossas seleções do coração, sem julgarmos, criticarmos ou brigarmos com o outro, só por termos opiniões e sentimentos diferentes. Esse é o verdadeiro espírito e finalidade do esporte.
E que vença o melhor!

10 – A Correnteza.

tides

Sempre vivi à mercê da correnteza. Não aquela do mar, que com sua força e revolta vai arrastando tudo o que pelo caminho encontra. Mas a correnteza da vida, a que está sempre querendo me levar a algum lugar.
Não sei dizer quando a senti pela primeira vez. A memória do meu cérebro é fraca, só lembro de coisas inúteis, que geralmente envolve Hollywood ou erros pretéritos de pessoas amadas. O fato é que sei reconhecê-la quando se faz presente. Alguns chamam essa sensação de intuição. Mas eu, como sou chata e gosto sempre de fugir ao normal ou ao que está na ‘moda’, gosto de dar nomes a sentimentos que são constantes na minha vida. Por isso, chamo esse sentimento de correnteza: pois é uma força invisível que me arrasta em direção a algum lugar. Um lugar do qual eu preciso estar.
A correnteza se fez presente quando decidi criar a primeira fanfic no Orkut, dando asas à minha sempre prolífica imaginação, mesmo quando me perguntava mil vezes se as pessoas iam gostar ou se aquela história ia ficar abandonada para sempre em uma rede social que logo mais seria esquecida. A correnteza se fez presente quando eu aceitei a sugestão de meu pai para colocar o artesanato de minha avó à venda em uma feirinha, mesmo sendo uma pessoa completamente tímida e, na época, saindo de um longo e difícil período na vida, além de ser incapaz de manter uma conversa com alguém que eu não conheço. Se fez presente quando comecei a trabalhar no meu primeiro emprego fixo. E também estava lá quando, quase 2 anos depois, decidi abandoná-lo porque simplesmente sabia que tinha chegado a hora de ir. Mas acima dessas e de todas as outras coisas, de todas as situações e obstáculos da vida, a correnteza praticamente afogou-me quando, ao escrever para uma das minhas mil fanfics no Orkut, tive um momento de epifania e decidi, naquele momento e naquela hora, que eu não só queria, como também podia ser escritora; que estava na hora de lutar para isso. E, consequentemente, lutar contra uma família que presa um ‘emprego fixo’ como a base para a felicidade de um ser humano.
Eu gosto quando ela aparece. Quando ela se faz presente e sorri para mim, sei que uma mudança está chegando. E que é das grandes. Assim como minha imaginação, a minha correnteza aposta alto, como um all-in num jogo de pôquer. Eu sei que ela chegou quando eu sinto que devo fazer algo, assim, do nada, em uma de muitas minhas epifanias, mesmo quando não quero ou morro de medo de fazê-lo. E como um ser humano ignorante e teimoso, eu sempre tento nadar contra, dar braçadas cada vez mais fortes para escapar dela e voltar à segurança de minha praia morna e acolhedora. Mas no fim, acabo desistindo, pois é inútil nadar contra ela. É perda de tempo, de esforço e uma burrice. Então, apenas fecho os olhos, pego todo o fôlego de coragem que consigo e deixo que ela me leve para o lugar onde preciso estar. E sempre, sempre dá certo. Quando ela vai embora e eu consigo ver tudo de forma mais clara, percebo que me tornei um ser humano melhor, mais corajoso e sábio. E que devo continuar onde estou, fazendo o que devo fazer, até que ela retorne com toda a sua poderosa força, arrastando-me para outro lugar.
Chame de intuição ou chame de correnteza, sempre preste atenção quando ela estiver presente. Quando uma força maior estiver te empurrando em uma determinada direção, mesmo que você esteja morrendo de medo, vergonha ou incerteza, apenas feche os olhos e deixe-se levar. Confie nela. A princípio você pode se revoltar ao ver-se diante de uma situação complicada e difícil de entender. Você pode pensar em mil e um outros caminhos que deveria ter tomado para encontrar a felicidade, mas é exatamente aí que está a chave de toda a vida: a intuição não serve apenas para nos levar a lugares mágicos e cheios de arco-íris. Ela não tem a obrigação nenhuma de deixar-nos felizes e saltitantes para todo o sempre, porque uma existência não é construída somente à base de sorrisos e confortos. Ela existe para que você aprenda, cresça e conheça cada vez mais o reflexo que seus olhos veem todo dia ao mirarem um espelho. E sua missão é tirar o melhor resultado que conseguir de todas as experiências para onde a correnteza te leva.

09 – O Triste É Belo.

ffddd

Estava revisando meus textos ultimamente, separando o que eu posso reaproveitar, o que dá uma continuação, o que posso melhorar etc., e me dei conta de uma coisa: Eu só escrevo coisas tristes. É até possível achar alguma coisa aqui ou ali que tenha um pouco mais de comédia, um pouco mais de graça, mas 95% dos escritos terão um forte tom melancólico e uma carga emocional profunda. Ao notar este fato, sentei para escrever algo mais alegre, algo que quebrasse um pouco essa névoa acinzentada que sobrevoa por minhas letras fictícias. E o resultado foi mais um relato melancólico de algum personagem que está sofrendo ou passando por um momento difícil ou de reflexão profunda.
Eu não sou uma pessoa infeliz. Pelo menos não me considero assim no momento. Fora algumas ansiedades costumeiras e surtos na TPM, eu sou bem feliz sim. Então, por que não consigo escrever coisas felizes? Com esse pensamento na minha cabeça, fui descobrindo e refletindo um pouco mais sobre a minha própria personalidade. E não me refiro só à minha personalidade na escrita, mas de uma forma geral. E cheguei à seguinte conclusão: O triste é bonito. Pelo menos eu acho. Ao reparar que só escrevo sobre melancolias e abandonos, amores perdidos, mortes e coisas do tipo, também notei que essa parte de minha personalidade está presente em todos os aspectos. Meus filmes favoritos são tristes. Minhas músicas favoritas são tristes. Meus livros favoritos são tristes. Até o meu instrumento musical favorito – o piano – é um dos instrumentos que mais conseguem expressar melancolia, ao lado do violino.
Pensei e pensei (gosto de pensar!) muito sobre isso. Pode parecer bobo, pois seguramente existem coisas mais importantes a serem pensadas, ao invés de ficar refletindo sobre o tipo de humor de meus escritos, mas creio que pensar é a melhor forma de se chegar às respostas e eu sou uma pessoa que detesta perguntas e mistérios insolúveis. Para mim tudo precisa fazer sentido, precisa ter uma explicação lógica para a minha cabeça. Pensei até se eu não estaria triste sem saber, pode acontecer, quem sabe? Mas ainda não era a resposta que buscava. Até que a encontrei recentemente e por isso vim escrever esse texto. A tristeza é bonita. Muito bonita. Pelo menos aos meus olhos. Todas as artes que carregam uma melancolia na bagagem são os melhores tipos de arte, são as que entram para a história, são as que tocam o coração como nenhum outro tipo de arte menos densa o faz.
Não quero que isso seja entendido de forma errada. Vejam, eu não acho que todo mundo deva padecer eternamente para o mundo se tornar mais bonito. Não é isso a que me refiro. Mas tem algo na dor, na melancolia que prende, que é denso, que leva à uma reflexão. Acho que a dor é grande responsável pelas maiores respostas da vida. A dor geralmente precede aquela sensação de epifania que temos perante a certas questões e isso é bonito. É lindo, na verdade. Aquilo que falei sobre gostar da resolução de mistérios tem tudo a ver. A tristeza tira o véu que encobre grandes perguntas. E é esse descobrir que faz um caminho até a felicidade. E então aquela máxima se torna ainda mais exata: Tudo está ligado. Alegrias e tristezas, o masculino e o feminino, a luz a escuridão, ying e yang… São opostos que se conectam, que necessitam coexistir no mundo para que este possa evoluir e progredir. Um é o caminho do outro, um descobre o mistério que o outro causa. Como alguém não pode achar isso bonito?
Nas últimas semanas eu estava quebrando minha cabeça para escrever algo feliz, algo que não rimasse amor com dor, mas não obtive sucesso algum. Acho que faz parte de mim. Sempre fez. Desde pequena as primeiras histórias que escrevi são baseadas em sentimentos melancólicos. Mesmo que eu não me sinta assim. Talvez não faça sentido para muitas pessoas, mas para mim faz. E acho que tentar forçar uma mudança em relação a isso é como trair a mim mesma. É como tentar ser alguém que não sou. Que nem faço questão de ser.
Talvez chegue um dia em que eu mude, em que eu passe a escrever sobre coisas cor-de-rosa, sobre como o amor é lindo ou como a vida é bela. Mas não sei… Não sei se conseguirei largar a densidade dos meus escritos, do que acho verdadeiramente belo. A descoberta me é bela e dificilmente a verei de outra maneira.
Acho que a felicidade é o final de qualquer caminho. É a linha de chegada. O corredor precisa sofrer, suar, cair, levantar para chegar até à linha, até o seu objetivo, até à sua resposta. Essas são as melhores histórias. Isso é o bonito da vida. A trajetória. E a tristeza faz parte da trajetória das melhores pessoas que conheço.

 

08 – Nelson Mandela

mandela3

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

                                                               – Nelson Mandela

Ao ouvir a notícia da morte de Nelson Mandela nos jornais televisivos ontem à noite, lágrimas invadiram meus olhos. Já era de se esperar que algo assim acontecesse, dada à sua idade avançada e sua saúde debilitada desde a época do exílio. Ainda assim, todos recebemos a notícia com muita tristeza.
Não sou negra e nem sul-africana e acho que nem é necessário o ser para admirar este grande homem que nos deixou neste 5 de dezembro. Seu carisma, seu senso de justiça, toda a sua história de vida, digna de um filme de Hollywood, o fez ídolo entre pessoas de todas as raças, tribos e dos mais diferentes lugares.
Eu admiro muita gente. Sou quase uma colecionadora de ídolos. Amor ler biografias e saber mais sobre a vida de certos líderes, sejam políticos, religiosos, artísticos, etc. Nelson Mandela seguramente figurava entre os primeiros lugares desta minha “lista”. Fui conhecer sua história mais a fundo após o filme “Invictus” e desde então procurei saber mais sobre o ex-presidente da África do Sul. Para quem não conhece sua trajetória, aqui vai um pequeníssimo resumo: Desde jovem, Nelson Mandela mostrou-se insatisfeito com o abuso físico e mental que os brancos faziam sobre os negros na antiga África do Sul. Envolveu-se em seguidos movimentos estudantis até virar líder na luta contra o Apartheid (regime de segregação racial que durou de 1948 a 1994) e em 1964 foi preso e condenado à prisão perpétua por “conspirar” contra o governo. Passou 27 em cárcere, sujeito a trabalhos pesadíssimos, sem qualquer comunicação do lado de fora, sendo proibido de ler jornais ou até mesmo ouvir rádio. Porém, Mandela sabia que para se combater um inimigo, é necessário conhecê-lo primeiro. Sendo assim, fez questão de estudar e aprender o africâner, língua falada pelos brancos sul africanos, e tudo o que podia sobre o rugby, esporte favorito dos mesmos. Foi solto em 1990 e o que aconteceu depois todo mundo sabe: tornou-se não só o presidente da África do Sul, mas alguém admirado por todo o mundo.
Sua humildade é uma das características que mais admiro. Eu desconfio de qualquer líder que seja vaidoso e orgulhoso, colocando sua imagem e seus caprichos à frente da opinião do povo que este represente. Não me refiro só a lideres políticos, religiosos ou outros. Me refiro a qualquer pessoa que represente um determinado grupo. Antes de ser amado ou odiado, o líder deve ser respeitado. E o respeito só é possível quando é uma via de mão-dupla. Nelson Mandela tinha a plena noção disso. Desde o momento em que se tornou presidente, ele nunca se colocou acima de qualquer pessoa, seja esta negra, branca ou de qualquer outra raça ou tribo. Naquele lugar, ele não representava só o direito dos negros, que a muito custo o conseguiram, mas também dos brancos, pois estes também faziam parte da nação. Não seria lindo que os nossos políticos (e os de outros países também) usassem Mandela como exemplo e entendessem que não estão onde estão por um acaso do destino, mas por que o povo os colocou ali e eles têm a obrigação de nos representar? Infelizmente não é isso o que vemos.
O corpo de Mandela se foi, mas sua memória, sua história, sua alma continuará pairando sobre este globo por milênios. Que ele sempre seja um exemplo de aceitação, humildade, paciência e perseverança. Que suas palavras permaneçam em nossas mentes, em nossos corações, inspirando-nos a acreditarmos, não só em nós mesmos, mas em um planeta melhor, onde todos possam se respeitar como um único ser humano que somos, independente de raças, crenças, tribos, país etc. E que seu nome esteja sempre presente em nossos lábios como símbolo de lutas incessantes contra as adversidades e as muitas injustiças que ainda existem por aqui.
Que descanse em paz, Madiba.

Ps: Quem se interessa ou gosta de ler biografias, não deixem de comprar alguns dos muitos relatos sobre Mandela pelas livrarias. Para quem quiser sanar rapidamente a curiosidade, procure a sua história pelo Google. Garanto que será uma leitura enriquecedora.