Pilares.

pilares

Era uma doce tarde de outono quando um par de olhos apaixonados a avistou.
Sentada no banco da praça coberta por folhas secas, que caíam das árvores incessantemente, ele a observou perdida em profundos pensamentos.
Hesitou em aproximar-se.
Talvez preferisse ficar sozinha.
Talvez não desejasse uma voz banal entupindo seus ouvidos com palavras desperdiçadas.
Mas foi impossível dar meia volta e se afastar. Ela estava ali, à sua frente, com um espaço vazio no banco, como se este estivesse reservado para ele. E o semblante melancólico o fez perguntar se ela realmente não precisava de uma simples companhia.
Seguindo seus instintos – aqueles irritantes, que o faziam apenas desejar estar ao lado dela, mesmo que nenhuma palavra precisasse ser dita –, ele aproximou-se e sentou-se ao seu lado.

— No que pensas? – Perguntou sem mais delongas, curiosíssimo para ler aquela mente misteriosa.
— Em buracos. – respondeu baixinho com os olhos fixos em uma árvore seminua à sua frente.
— Buracos? – franziu o cenho, pondo o cérebro para trabalhar, a fim de decifrar sua linguagem constante de enigmas e metáforas. – Como assim?
— Buracos… – repetiu. – Aquela coisa preta, profunda, vazia. Buracos e mais buracos, por todos os cantos, por todos os lugares. Apenas buracos e não sei como escapar deles.
— Onde estão?
— Aqui dentro. – a ruiva colocou a palma sobre o lado esquerdo do peito. – É grande, é oco, é vazio. Acho que sempre esteve aqui, durante toda a minha vida. Sempre consegui tapá-lo. Porém, agora… – um suspiro pesado escapou de seus lábios. – Já tentei de tudo. Ciência, Filosofia, Literatura e Arte… Desde pequena, sempre foram o bastante. Desde pequena era só recorrer a eles e pronto! A mágica estava feita, o buraco estava tapado e o mundo podia ser colorido outra vez. Mas ultimamente nada tem adiantado. E sinto medo. Sinto medo do vazio fundo e eterno. Não quero cair nele.
— Você cita Ciência, Filosofia, Literatura e Arte… – disse ele, esperando tranqüilizá-la. – São quatro pilares para a saúde mental de alguém como a gente. Mas esqueceste um. O mais especial. O mais importante.
— Qual? – os olhos melancólicos finalmente caíram sobre os dele, ansiando por uma resposta imediata.
— Amor. – disse com ternura, expressando nas pequenas quatro letras a intensidade de seus sentimentos, ainda que ela não tenha notado.
— Amor… – a palavra soou estranha em seus lábios, como um tempero desconhecido e distinto, do qual nunca antes havia provado. – Amor… Já ouvi que isso pode matar. Já ouvi que isso pode causar buracos mais ainda profundos. Buracos que Ciência, Filosofia, Literatura e Arte jamais poderão fechar.
— Não é tão ruim se for correspondido…
— Mas não é este o mais difícil? Não é este exatamente o perigo? – perguntou de forma inocente e levemente temerosa. – Não o ser?
— Talvez… – respondeu incerto, um pouco confuso com suas rápidas indagações. – Mas, quem sabe, no fim, todo o risco valha a pena?

Ele esperou longos segundos por uma resposta que jamais chegou.
Ela tornou a encarar a árvore seminua à sua frente e mergulhou no mar profundo de seus pensamentos.
O rapaz não sabia se a conversa havia terminado ali. Com ela era assim: o assunto nascia e morria com a mesma velocidade, na mesma freqüência. E tudo que restava fazer era esperá-la dar o próximo passo.
E deu.
A garota levantou-se de repente e foi caminhando a passos lentos do banco, onde o espaço vazio deixado por ela começou, pouco a pouco, a deixar buracos vazios dentro dele.

— Aonde vai? – tomou a decisão de perguntar e a viu parar de repente e virar-se para ele.

A doce tarde de outono começava a se transformar em um maravilhoso crepúsculo jamais visto antes por simples olhos humanos.
Abrindo um sorriso singelo, digno de seus olhos doces e inocentes, que fez seu coração disparar violentamente dentro do peito, ela respondeu:

— Voltarei para a Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. – ela deu de ombros e suspirou. – No fim, é só o que me resta.
— E o amor?
— Não é exato. – respondeu. – Eu preciso de resultados, de contas certas que sempre terminem de forma coerente. Preciso de respostas corretas, textos que tenham um início, meio e fim e paisagens prontas pintadas à tinta óleo dentro de uma bela moldura. Preciso da precisão; da lógica que apenas Ciência, Filosofia, Literatura e Arte podem me dar.
— Precisão? – enrugou a testa, pensando no absurdo que estava dizendo. – Você nunca encontrará lógica ou coerência em nenhum deles. A Ciência não consegue provar todos os mistérios do mundo; na Filosofia sempre há mais perguntas do que respostas; na Literatura sempre existe margem para inúmeras interpretações; e a Arte, mesmo que concreta e precisa, também abre espaço para infinitas indagações. Monalisa está aí para provar o meu ponto. – ele finalmente levantou-se e ficou de frente para ela, encarando-a diretamente nos olhos. – O fato é que na vida nada é preciso; nada é seguro. Nem mesmo o 2 com 2… às vezes dá 4, às vezes vira 22. Tudo depende do ponto de vista. O mesmo com o amor: às vezes correspondido, às vezes não correspondido. Às vezes tapa buracos, às vezes abre outros mais profundos. A verdade é que nunca irá saber se não tentar.
— Prefiro deixar este para os poetas. – rebateu com toda a doçura de uma criança e toda a experiência de um idoso. – Estes falam e vivem de amor. Mas o que sou eu? Quem sou eu? Como serei digna de algo tão importante, de algo tão forte? Eu não sei brincar de fazer amor. Nunca aprendi e, honestamente, nem sei se desejo aprender deste jogo sem regras. Acho lindas as palavras afetuosas, os sentimentos sem limites, toda aquela carga que parece vir de outras vidas. Mas como irei fazê-lo? Como irei vivê-lo? Não sei, não sei como lidar com ele, não sei como aceitá-lo. Não sei como acreditar nele. Tudo o que sei é viver de Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. É tudo o que sou. É tudo o que sempre serei.

Ele abaixou os olhos e desistiu. Tirou o exército de palavras de campo e alçou a bandeira branca do silêncio.
O que haveria mais a ser dito?
Ao parecer, o par de olhos apaixonados nunca veria o outro par à sua frente olhá-lo com a mesma intensidade, com o mesmo amor.

— O buraco se foi. – ela disse de repente, fazendo-o alçar os olhos, completamente surpreso, pois acreditava que ela já tinha ido embora. – Não sei o que houve, não sei explicar. – ela sorriu de forma tímida enquanto encarava suas próprias mãos. – Você chegou e ele foi embora… O vazio. Você chegou e ele não está mais aqui.
— Fico feliz em ter ajudado. – ele bem que tentou reprimir o largo sorriso bobo que teimava em se abrir em seus lábios, mas foi impossível. Com certeza estava com o semblante mais estúpido do mundo grudado em sua face. Semblante este que refletia toda a sua excitação e alegria. Por que não é isso do que o amor é feito? Não é isso que o amor provoca? Palavras fugazes e encontros singulares que podem significar o mundo para quem ama? – Se houver mais buracos, se eles se abrirem outra vez, fazendo-a cair em todo o seu céu de escuridão e desespero… Sabe onde me encontrar.
— Você deveria sorrir mais. – ela tornou a encará-lo, agora com um brilho em sua íris. Um brilho que, por um momento, por um simples momento, ele pensou significar algo mais. – Eu sei que isso não tem nada a ver com o que estamos falando, mas achei necessário dizer. Porque gosto quando você o faz. As pessoas costumam preferir os olhos, dizem que são o espelho da alma, mas… Eu sempre vou preferir sorrisos.
— Sorrirei mais… – ele já o estava fazendo sem perceber. – Se assim desejar. Se você gosta, se você realmente se importa, o farei para deixá-la mais feliz. Mesmo quando quiser chorar.
— Ótimo, obrigada. – ela mordeu com força os pequenos lábios rosados e perguntou-se o que estava acontecendo.

Buracos… Buracos profundos, vazios, cheios de escuridão e desespero, onde estavam agora?
Procurou por eles em pouquíssimos segundos dentro de si, mas não os encontrou.
Eles não haviam desaparecido, sabia disso. Não haviam se fechado; de fato, não sabia se esse milagre poderia acontecer algum dia.
Mas agora, eles já não mais incomodavam.
Agora, ao invés de buracos, havia letras. Letras que navegavam junto à sua corrente sanguínea, fazendo com que esta esquentasse de repente. Letras embaralhadas, misturadas, que, pelo menos por agora, não faziam sentido algum.
Que palavra formariam essas letras? Ciência? Filosofia? Literatura? Arte?
Que palavra era tão poderosa que havia fechado tão rapidamente seus buracos, como se estes nunca houvessem existido?

— Café… – escutou a palavra escapulir dos lábios à sua frente, arrancando-a de seus pensamentos confusos. – Literário. – completou. – A duas quadras aqui, no espaço Ernest Hemingway. Sei que não gosta de café, mas misturado com livros… Acho que não terá problema nenhum. Você quer ir? – indagou, tremendo como uma folha empurrada pelo vento. Uma resposta negativa iria matá-lo.

Ah, se ela soubesse! Se soubesse o quanto era importante, o quanto apenas uma palavrinha saída daqueles lábios finos e perfeitos, poderiam fazer toda a diferença em sua medíocre e sem graça vida…

— Café Literário? Claro! – ela quase berrou devido à excitação. E estava tão animada e feliz que nem notou quando os dedos dele envolveram-se sutilmente ao redor de suas mãos, conduzindo-a para fora do parque. – Deus, como eu não fiquei sabendo? Acho que fiquei tão obcecada pelo especial sobre Nostradamus que está passando a semana inteira no History Channel que fiquei totalmente por fora das novidades literárias! Gosh, eu queria não ter de escolher entre Ciência, Filosofia, Literatura e Arte, mas sinto que o Nostradamus terá que viver sem mim hoje.
— E o que faremos em relação ao café? – sentiu seu corpo enrijecer após a pergunta, pois a ruiva entrelaçou seus dedos ao redor dos dele também, deixando todo o seu corpo completamente em êxtase com o toque.
— Bem… – ela torceu os lábios ao pensar na resposta que rapidamente encontrou. – Na companhia certa ele pode se tornar agradável. Você estará lá, não é?
— Sempre. – soprou as letras bem devagar, esperando que ela entendesse os inúmeros significados daquela palavra.

Ela era inocente demais e ingênua demais em assuntos amorosos para entender toda a sinceridade que poderia haver em um sempre, mas confiava que um dia iria descobrir.
Talvez a pequena ruivinha nerd apenas não tinha encontrado a pessoa certa. E… Oh! Ele rezava, ele clamava, implorava para todos os deuses que pudessem existir atrás do céu sobre suas cabeças, que pudesse ser ele. Que pudesse ser ele o escolhido, o certo, o único.
Pois foi o que sempre desejou desde a primeira vez em que seus olhos se cruzaram.

— Para Nostradamus não sentir muito a sua falta, conte-me sobre o que você aprendeu nesse especial.
— Você realmente quer saber? – ela parecia realmente chocada com a pergunta.
— Por que não iria?
— Não sei… – ela deu de ombros e deixou que um suspiro solitário atravessasse seus lábios. – Pessoas acham chato. Pessoas não querem saber de Nostradamus ou Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. É tudo sobre o que sei falar. E é tudo o que elas não querem ouvir. Talvez seja por isso que sou a eterna solitária: Sempre quero falar do que as pessoas não querem ouvir.
— Bem, estou aqui agora, não estou? – o aperto sutil que deu em sua mão a fez arrepiar-se de cima a baixo. E foi impossível não franzir o cenho ante essa sensação tão estranha, tão nova. – Estou aqui e quero escutar-te. Então, fale sobre Nostradamus! Fale sobre Ciência, Filosofia, Literatura e Arte. Eu gosto de ouvir. Eu gosto de aprender. Principalmente quando vem de você.
— Eu acho que você pode se arrepender disso…
— Eu tenho certeza que não.

Após abaixar por alguns momentos o rosto e sentir que suas bochechas começavam a queimar, a pequena garota tomou coragem e desandou a falar sobre Nostradamus e tudo que pudesse envolvê-lo.
Ela adorava falar. E ele adorava escutá-la.
Porque no fim, pelo menos para eles, este casal estranho que adorava discutir sobre coisas que a maioria das pessoas normais detestava ouvir, tudo se resumisse mesmo à Ciência, Filosofia, Literatura e Arte.
Mas… Ah! Quem poderá negar? Quem poderá evitar?
A palavra de 4 letras cresce e cresce sem parar, a cada toque, a cada olhar.
Ela cresce, cresce, cresce e continua crescendo, sem que possam fazer nada para impedir.
Porque, mesmo que a ruivinha ainda não saiba, mesmo que negue, mesmo que não fale, ela precisa de cinco palavras para tapar buracos, cinco pilares sustentando-a, para poder passar por esta vida sentindo-se como um todo, não apenas a metade deste:
Ciência.
Filosofia.
Literatura.
Arte e…
Ah! De amor!
Sempre de amor.
Porque, no fim, é só do que todas as pessoas que passam por este planeta necessitam.
E ele sempre estaria ali para oferecê-lo a ela.

Metade.

metade

Não gosto de escuridão. Odeio a claridade.
Detesto estar rodeada de muita gente. Odeio ficar sozinha.
Não preciso de amores doentios. Odeio não ser amada.
Detesto morrer de frio. Odeio calor.
Não gosto de livros fúteis. Odeio livros muito intelectuais.

Talvez, no fim das contas, eu apenas precise encontrar um meio de dividir as coisas. Uma metade, uma separação, uma parte que não me enlouqueça. Mas não consigo alcançar o meio termo. Porque simplesmente sou inteira em tudo…

(Need, Capítulo 2)

Cidade do Vento.

cidade do vento

“Você não faz ideia de quanto tempo te esperei”

Eu tive um sonho. O mais belo de todos. O mais estranho de todos. Mas principalmente, o mais verdadeiro de todos.
Andava por uma longa estrada, sem caminho, seu rumo, parecia que eu estava em busca de algo, ainda que não soubesse certamente o quê.
Uma leve brisa soprava meus cabelos, empurrando-os para frente. Era como se o vento estivesse me dizendo para continuar nos momentos em que eu tinha vontade de desistir. Estava sendo empurrado, guiado para algum lugar. Para alguém.
E então, escutei uma voz.
Um sussurro.
Era como se o vento estivesse falando comigo.
Era como se o vento estivesse me chamando.
Assim que abri os olhos ao despertar, decidir seguir esse vento. Há sonhos que não são simplesmente sonhos e sim algum aviso para mudarmos nossa forma de ser ou de viver. E estava na hora de pegar a estrada. A estrada da qual havia sonhado. E deixar que o vento me guiasse.
Com uma mochila nas costas e sem esquecer das pessoas que estava deixando para trás, dei o primeiro passo para sair de casa. Estava em busca de algum maravilhoso mundo novo ou de alguma nova canção para minha vida tocar.
A verdade é que eu estava em busca da vida. E só poderia encontrá-la se fosse atrás do movimento.
Um convite bate à nossa porta todos os dias. Um convite invisível, talvez também incompreensível, mas que está ali. Porém as pessoas não vêem, viram a cara, têm medo. Elas não querem sair da rotina. Porque o desconhecido é um terreno bastante perigoso.
Eu atendi ao convite da vida. E estava à procura da felicidade.
Mas como tudo na vida, a felicidade é algo desconhecido. O ser humano luta e às vezes pode matar por ela, mas quando a alcançamos verdadeiramente, parece que ainda falta algo. Oh, que bicho egoísta e mesquinho é o ser humano! Sempre à procura de algo mais… Mesmo quando ele já encontrou tudo.
Durante o caminho encontrei muitas pedras. Enfrentei muitas tempestades, passei fome e sede. Lutei contra dragões perigosos e andei sobre o mar. Saltei até segurar uma nuvem em minhas mãos e, ao prová-la, vi que era mesmo feita de algodão doce.
O mundo pode ser cheio de magia se passarmos a vê-lo com outros olhos. Se o enxergarmos com os olhos de nossa alma, poderemos ver aquilo que o ser humano, com sua visão superficial tapada pela grande nuvem negra e suja da maldade, não consegue ver com sua inteligência mal aplicada.
Cumprimentei fadas, lutei ao lado dos elfos e ajudei aos duendes reestruturarem uma floresta destruída pelo fogo da ganância e do poder.
Andei mais por vários dias. Em uma noite de exaustão e desânimo, me deitei sob as estrelas, pensando que tudo tinha sido em vão. Por que eu, aquele típico ser humano que está sempre querendo mais do que pode ter, ainda não estava satisfeito. Por um momento a razão falou mais alto e pensei que talvez fosse uma completa loucura largar a minha vida para buscar algo que eu nem mesmo sabia o que podia ser. E entre pensamentos abatidos e desesperançosos, adormeci.
Sonhei com anjos. As nuvens – que eram mesmo de algodão doce – estavam repletas deles, vestidos com suas túnicas brancas e abençoados com as auréolas em suas cabeças. Todos me observavam, enquanto eu seguia deitado na relva, encarando todo aquele público que me olhava. De repente o menor dos anjos saiu detrás das nuvens, com algo em sua mão. Era uma criança, que descia dos céus para me dar um presente.
Eu não conseguia me mover. Estava entorpecido por toda aquela áurea angelical. A menina loira e de cabelos cacheados colocou algo sobre minha mão. Mas era invisível.
E ela meu deu um beijo e me disse : “Siga a rosa branca”.
E então partiu.
E eu acordei.
O vento soprou no momento em que abri meus olhos. O vento outra vez. Ele me passava as mensagens, ele me impulsionava a continuar. Eu só tinha que seguir meu caminho, pois estava me tornando igual aos outros seres humanos: alguém com medo do desconhecido e que desistia por não encontrar o caminho em linha reta e fácil, apenas o sinuoso e complicado.
Peguei novamente minha mochila e reconstruí os sonhos e as esperanças. Se eu já havia percorrido tanto, deveria ter algum propósito. Ninguém recebe tantos sinais se não for para segui-los. E eu seguiria o meu destino.
Parei de contar os dias, as horas, os minutos, pois tudo isso atrasa a vida de alguém. Deixei o sopro do vento me conduzir para o caminho certo, acompanhei seu rumo e prossegui sem medo. O que interrompe a estrada de alguém não são as tempestades ferozes ou o sol escaldante. É simplesmente o medo. E eu fiz questão de mantê-lo bem longe de mim.
Uma canção de amor sussurrava em minha mente quando pisei no primeiro paralelepípedo. Só então notei que a estrada arenosa havia acabado e que havia chegado a algum lugar. Levantei meu rosto e pude ver uma cidade à minha frente, com um arco-íris circundando-a devido à leve chuva que havia caído junto com o sol que escalava o azul do céu aos poucos.

“Seja bem-vindo à Cidade do Vento”  

A inscrição na placa de madeira fixa na entrada fez meu coração saltar.
Eu tinha seguido o vento. E ele havia me trazido até aqui.
Como mágica, o vento começou a soprar em minhas costas e eu avistei na primeira casa, uma mulher sentada em um pequeno banco. Meus olhos não conseguiram desviar-se para outro lugar e ela me avistou também. Mesmo de longe, pude ver um lindo sorriso inundar o seu belo rosto. Ela veio caminhando até a mim, com seus cabelos vermelhos balançando no ar e, quando se aproximou, vi que tinha algo em sua mão: uma rosa branca.
Naquele momento meu peito encheu-se de um ar mais puro, de uma felicidade indescritível.
Nunca a tinha visto em minha vida. Mas a conhecia de muito antes.

— Estás aqui. Finalmente. – disse com a voz baixinha, quase como num sussurro e sorriu em seguida.
— Estava esperando por mim? – indaguei, completamente hipnotizado por seu sorriso.
— Você não faz ideia de quanto tempo te esperei.
— E você não faz ideia do que eu fiz para te achar.

Então ela segurou minha mão. Mesmo não tendo se apresentado, eu a conhecia. Porque não é necessário nomes para identificar alguém. Quando essa pessoa está dentro do seu coração, podem se passar vidas ou eras, ela nunca perderá a verdadeira identidade para àquela que ama.
E sentindo seus dedos finos e calorosos entrelaçados com os meus, me conduzindo para dentro da Cidade do Vento, pude perceber, com um enorme alívio e conforto no peito, que havia conseguido alcançar meu objetivo.
Tinha encontrado o meu lugar.
Finalmente.
Eu estava em casa.

 

Fim.

Sobre Palavras, Músicas e Despedidas.

piano

Os olhos cor de mel encontram os meus numa sala vazia e sombria.
O silêncio nos consome, o medo nos corrompe e palavras nos constrangem.
O que há mais a ser dito?
Depois de todos esses anos, depois de todos esses danos, o que há mais a ser dito?
Não há nada. Não há uma única sílaba, uma única letra, uma única saída.
O ponto final em nossa história já foi posto.
Se fui eu quem colocou, se foi você quem colocou, se foram os dois, exatamente ao mesmo tempo… Isso não importa.
Nossa história acabou.
Mas quem será o primeiro a cruzar a porta?
Quisera fazer-te uma canção de despedida, escrever-te uma letra de amor perdido, mas nem isso.
As palavras nos abandonaram de vez.
O que faremos? Como sobreviveremos?
Se não podemos usá-las, então toquemos.
Toquemos uma doce melodia qualquer. Seja de Mozart, Beethoven ou Chopin.
Toquemos, ainda que seja simples, fugaz, feita em um quarto escuro às duas da manhã.
Toquemos e evitemos o constrangimento.
Evitemos o desejo errôneo de insistir em estarmos um com o outro.
Dois artistas jamais poderão tocar juntos se não estiverem afinados. Se não estiverem na mesma freqüência, no mesmo tom. Do contrário, a música não acontece, as melodias não se cruzam e tudo o que resta são duas pessoas frustradas, que fizeram de tudo para conseguirem absolutamente nada.
Não é melhor evitarmos?
Oh, não é melhor deixarmos?
Devolvam-me meu piano e me deixem respirar. Por favor, vá para o seu quarto, toque sua música, enquanto eu ficarei aqui, sozinha, largada, deixada, tentando fazer a mesma coisa com a minha alma quase apagada.
O desejo gritante e agonizante de sua companhia nunca foi o bastante para mantê-la.
Talvez você tenha desejado a minha também ou talvez apenas tenha fingido por educação.
O fato é que nenhuma canção foi composta por esta dupla fracassada, por mais que nossas mentes criativas tenham adorado o processo de criação.
Devolvam-me meu piano e me deixem tocar. Deixem-me sentir os dedos flutuarem pelas teclas brancas e negras outra vez. Deixem-me sentir ser levada pela música, por aquele toque sutil que nenhum outro instrumento é capaz de executar.
Façam com que minha alma voe para longe, para tomar um descanso, deixando corpo pesado e cansado descansar de uma vez por todas.
Deixem-me viver de música.
Devolvam-me meu piano e deixem-me viver de música.
Eu não quero mais palavras; cansei delas.
Cansei de toda a sua repetição constante, das linhas ambíguas que dizem tudo e nada ao mesmo tempo. Cansei das inúmeras rimas, do barulho seco e vazio que produzem quando são criadas.
Quero o tom úmido do dó, ré, mi e o toque sutil e anestesiante do fa, sol, la, si.
Quero viver de música.
Da música que não mente, que não engana, que não esconde.
Que não mata, que não decepciona, como as palavras fazem com maestria.
Quero viver de música e me perder em toda sua melodia.
Pois já cansei de ser a garota estúpida que ainda escreve sobre contos de fadas e acredita em magia.

Os olhos cor de mel encontram novamente os meus numa sala vazia e sombria.
O silêncio ainda nos consome, o medo ainda nos corrompe e palavras ainda nos constrangem.
Nossas almas já sabem, já entendem que nossa história já está morta.
E no fim de tudo, eu sou a primeira a cruzar a porta.

Sobre Amores e Estações.

Acordo num sobressalto, após um pesadelo.
Meu corpo ainda treme de medo e o coração disparado no peito dificulta qualquer tentativa de respiração tranqüila. Estico o braço para o lado direito da cama, em busca de seu corpo, de seu abraço, de proteção, mas não há nada. Não há nada além do lençol amassado e o vazio deixado pela sombra de sua carne.
Ponho-me de pé e passo a mão pelo rosto. Escuto o barulho da louça vindo da cozinha e mordo os lábios, sem saber como começar. Sem saber como iniciar este dia tão distinto, tão cinza, tão sombrio. Apenas mais um dentre os muitos dias acinzentados que temos vivido.
Olho no espelho. A maquiagem borrada – que havia esquecido de retirar – denuncia todo o martírio de uma noite gelada e silenciosa. Pergunto-me o que estou fazendo. Pergunto-me por que ainda sigo aqui, com os pés descalços e os sonhos destroçados. Quando olho para você, tento vislumbrar qualquer resquício de esperança, qualquer fragmento de um amor que agora parece uma lembrança longínqua. Talvez eu veja essa luz ou talvez eu apenas a imagine. Porque ainda me custa acreditar que tudo está por acabar.
Você nega. Você diz que estou louca. Você me dá todos os adjetivos do mundo e beija minha cabeça de forma condescendente antes de ir para o trabalho. Promete que nada vai mudar, que somos os de antes e que sempre seremos. Tudo o que consigo fazer é esticar meus lábios com muita dificuldade em um sorriso amargo e tomar um café bem forte, enquanto meus olhos acompanham-te deixar esta casa.
Sinto-te cada vez mais longe. Sinto-te escorregando por entre meus dedos, como grãos de areia que escorrem por minha pele até tocar o chão. Por mais que tente agarrá-los, tudo o que sobra em minha mão são grãos de terra, que parecem não significar mais nada.
Os dias passam. O calor do verão se esvai com a chegada do outono.
As folhas secas se jogam sutilmente das árvores e meus olhos acompanham cada detalhe da natureza enquanto tento arranjar alguma forma de voltar ao passado. De voltar ao primeiro olhar trocado, à primeira sensação de borboletas no estômago e o arrepio gostoso que sobe e desce freneticamente pela espinha. De retornar ao primeiro beijo, às primeiras palavras românticas e das pioneiras promessas que cruzaram seus lábios em forma de algodão doce.
Mas não há como. A porta da máquina do tempo está trancafiada, me obrigando a viver no presente. Me obrigando a olhar o fantasma do que você já foi um dia e me forçando a aceitar isso.
A pior parte de tudo é que não consigo ir embora. Não consigo atravessar a porta, deixar seus olhos cor de mel para trás, junto com todos os sonhos, todas as palavras, todas as promessas. Não consigo pegar a mala e largar o seu sorriso, a sua gargalhada gostosa e a voz que por tantas vezes sussurrou em meus ouvidos que viveríamos para sempre.
Não posso. Não consigo. Sou fraca, incapaz, inútil… Não consigo.
Meu corpo sempre dá um jeito de pedir desesperadamente pelo seu. Mesmo estando tão perto, mesmo com toda a parede de gelo entre nós, eu ainda me sinto como uma adolescente, boba, apaixonada e admirada pelo homem que você é. Afinal, não é isso do que se trata o amor? Um pouco de admiração, uma carga de paixão e muita, muita frustração? Muita, muita rejeição? Não sei o que os poetas pensam, o que querem dizer com os textos melados e sem sentido, mas, para mim, é como parece. Porque quanto mais você me ignora, quanto mais você me despreza e finge não se importar, eu sinto vontade de continuar aqui, esperando o dia em que você voltará a me amar. Esperando, sempre esperando, o dia que retornaremos aos cenários épicos dos nossos melhores momentos juntos. É doentio, é insuportável, é repugnante essa necessidade de te ter aqui, de vê-lo sempre perto de mim, mesmo que não sinta mais o mesmo por mim. É ridículo, deplorável, deprimente, mas, infelizmente, não há nada que eu possa fazer.
O inverno entra pela porta mascarado de uma corrente de ar frio.
Você está trabalhando sobre a mesa da cozinha, enquanto eu sigo com minha caneca de café forte sobre os lábios, admirando cada gesto seu. Me dou conta de que apenas um “bom dia” saiu de sua boca hoje e o como isso dói. De como o silêncio se torna enlouquecedor em meus ouvidos porque vem de você.
Há outro me esperando. Há outro me amando, me querendo, me aceitando.
Mas que outro? Quem, como? Porque não há. Não em mim. Não no meu mundo. Porque dentro de mim, fora de mim, ao redor de mim só há você. Só há você e apenas você. Apenas você e sua frieza, sua indiferença, mas ainda assim você. Eu não sei o que fazer, como proceder, mas ainda assim você.
Minha cabeça continua gritando que estamos morrendo.
Mas meu coração lembra que, após toda morte, há renascimento.
E que de cada renascimento vem um vida completamente nova para se viver.
Coloco a caneca sobre a pia de mármore e seguro de repente seu rosto entre minhas mãos. Meus lábios capturam os seus em um gesto rápido, porém profundo. Passo a língua sobre minha boca após sentir o seu gosto e respiro fundo ao sentir o sabor das memórias que construímos juntos. Porém seu rosto continua impassível, como se não tivesse sido afetado. Você apenas abre um sorriso misterioso, que sou incapaz de decifrar, e continua fazendo seu trabalho.
Estamos tão perto e me dói, me dói tanto.
Estamos tão longe e me dói, me dói tanto…
Abro os olhos e posso avistar uma flor desabrochar sobre o vaso em minha janela, anunciando o início da primavera.
Não olho para trás, com medo de ver mais uma vez o seu corpo ausente e apenas um lençol amassado e vazio. Permaneço no mesmo lugar, exausta, morta por dentro, gelada por inteiro.
Não consigo imaginar minha vida sem sua agridoce companhia, sem um dia ao seu lado, mas não há mais jeito. Talvez consertar o que está quebrado seja uma perda de tempo, quando é mais fácil e melhor trocar por outro. Talvez persistir em um amor cinzento seja o mesmo que persistir em um erro, que só cometemos porque não admitimos ao próprio orgulho de que ele estava certo. De que perdemos e que, mais uma vez, nos perdemos.
Por causa do amor. Sempre por causa do amor.
Respiro fundo e decido que já está na hora de partir. Que já está na hora de levantar e partir.
Mas não consigo. Não por fraqueza, não por incompetência, não por covardia… Não; não dessa vez.
Pois, agora, o que me puxa na direção contrária é um cálido braço que faz meu corpo chocar-se de leve contra o dele, fazendo-me arregalar os olhos.
“Não vá”, sussurra em meus ouvidos, como se tivesse lendo meus pensamentos. “Não levante. Tive um pesadelo. Fique aqui. Preciso de você.”
“E se eu realmente precisar ir?”, respondi com a voz trêmula e os olhos inundados de lágrimas cristalizadas.
“O que seria de um dia meu sem você?”, ele responde com a voz suave, delicada como veludo. “É primavera. Fique aqui. Atravessamos o vazio outono e sobrevivemos ao gelado inverno. É primavera. Não há porque ir. Fique aqui”.
Eu fico.
Não respondo com palavras, apenas o abraço.
Eu fico.
Não dou explicação para o meu choro, ele sabe.
Eu fico.
Não digo que ainda o amo, ele sente.
Eu fico.
O amor cinzento pode tornar a ser azul celeste. Pode sim. Sei disso.
Eu fico.
Consertar algo é sempre melhor que trocar.
Eu fico.
Afinal, o que seria de um dia meu sem ele?
Afinal, o que seria de um dia dele sem mim?
E o que seria do mundo sem nós dois juntos?
Eu sempre fico. Sempre.
E esta história recomeça com o amor levantando-se após a longa e árdua batalha dizendo, com todas as letras, para o derrotado orgulho: “Você perdeu. Porque eu… Ah! Eu finalmente me encontrei”.

Inspirado da música “Que Sería?”, de Francisca Valenzuela.

Caixinha de Cristal.

crystal

Se eu pudesse, te guardaria em uma caixinha de cristal.
Te deixaria lá dentro, com todas as coisas que precisas e me limitaria a olhar-te por quanto tempo fosse necessário. Te cuidaria, te vigiaria, te amaria. E você estaria sempre aqui.
Você nem precisava saber. Podia ser uma enorme caixinha de cristal, onde você continuaria vivendo sua vida como sempre fez. Como sempre fez antes de me conhecer. E meu trabalho seria apenas vigiar-te e cuidar-te.
Se você estivesse prestes a tropeçar em alguma pedra, imediatamente a tiraria do caminho, para que você pudesse continuar andando livremente e sem perigos.
Se estivesse distraído o bastante para não ver um carro se aproximando, eu pararia o tempo dentro da caixinha de cristal. O carro pararia e você poderia continuar andando livremente e sem perigos.
Se estivesse enamorado de uma mulher que lhe partiu o coração, eu imediatamente a arrancaria da caixinha de cristal e a mandaria para uma caixa de papelão quente e suja. E se as lágrimas começassem a rolar pelo seu rosto, costuraria seu coração durante a noite, em seu profundo sono, e você acordaria sentindo-se renovado, como se nenhuma dor jamais houvesse atingido o pequeno e frágil músculo do lado esquerdo do peito. Você sabe, eu sou uma boa costureira. E você poderia continuar andando livremente e sem perigos. Eu poderia fazer isso sim. Poderia fazer isso e muitas outras coisas. Se ao menos pudesse ter você por perto. Se ao menos pudesse ter você aqui, dentro de uma caixinha de cristal para sempre.
Porque o efêmero nunca me satisfez. O fugaz nunca me alimentou. E a inconstância sempre foi meu desespero.
Em uma caixinha de cristal você poderia ser livre perto de mim. Nós não precisaríamos tomar caminhos diferentes. Você não precisaria ir para a esquerda, enquanto eu sigo a direita. Você não precisaria ir subindo enquanto minha vida desceria cada vez mais por estar longe de sua presença. Você não precisaria pisar no branco, enquanto eu estaria me afogando no negro.
Em uma caixinha de cristal você estaria aqui. Sempre aqui.
Porque eu sinto. Eu sinto, eu posso ver. O dia em que teremos de seguir caminhos contrários está chegando. O dia em que teremos de alçar nossas mãos em um melancólico adeus e seguirmos direções opostas está cada vez mais próximo.
Eu já estou recuperada. Já estou bem, já estou perfeita. Já tenho (quase) tudo o que eu preciso.
O que você irá fazer comigo? Como irá me manter, sem qualquer outra desculpa que possa ser usada?
Me colocará em uma caixinha de cristal também? Não… eu acho que não. Ou melhor… eu tenho certeza que não.
Por isso, fique em silêncio e viva em minha caixinha de cristal.
Porque talvez um dia eu crie coragem suficiente e entre nessa caixinha.
Porque talvez um dia eu resolva passar pela mesma rua que você, na mesma hora, no mesmo bairro.
Porque talvez um dia eu esteja pronta para olhar-te nos olhos e dizer todos os sentimentos que estão vivendo em cada célula do meu corpo. E que esses sentimentos são todos para você.
Porque talvez um dia, em uma hora qualquer, em um evento inesperado, nós possamos nos reunir outra vez, nos encontrar outra vez e nos amarmos pela primeira vez.
E então viveríamos, finalmente, felizes para sempre, em minha preciosa caixinha de cristal.

Reflexos.

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Me tiraram tudo o que eu tinha de mais bonito. E, agora, não sei lidar com o feio.
Odeio chorar na claridade. Me envergonha. Ver minha própria miséria me incomoda. Sim… me incomoda. Sinto vergonha. Sinto-me fraca. A claridade, a claridade!
Por favor, dê-me um pouco de noite, de lágrimas derramadas debaixo do edredon. Eu simplesmente… não posso me olhar no espelho agora…

(Need, Capítulo 6)