#6 – Vestido Azul

cccd

Sentada na cama, ela o encarava.
O relógio mostrava dez da noite. Estava atrasada. Não conseguia mover as pernas, não tinha forças para levantar. Olhou para o telefone pelo menos duas vezes. Pensou em ligar para Adriana. Seria muito simples; todo mundo já havia feito isso na vida.
“Oi, então, não vai dar pra ir.. Cólicas intensas, você sabe!” ou até mesmo “Preciso de verdade estudar pra aquela prova de estatística!”.
Adriana ficaria um pouco chateada, era o tipo de pessoa que amava ver todos os amigos reunidos. Estava contando com sua presença. “Você vai finalmente conhecer minha irmã!”, ela lhe disse com alegria no dia em que lhe entregou o convite. “Está louca para conhecer alguém tão apaixonada pela Irlanda quanto ela!”
Patrícia realmente queria ir, mas não conseguia. Estava a quase uma hora encarando o vestido, não sabendo se ia, não sabendo se ficava… Ela queria. Mas não podia. Teria de passar por aquilo tudo de novo. Mais uma festa, mais uma estresse, mais um dia se sentindo mais como uma coisa do que como uma mulher.
Ainda sentada na cama, ela encarava o vestido azul.
Podia ir de calça, era verdade. Calça jeans, uma blusa bem larga e brilhosa talvez distraísse os olhares das pessoas. Se esconder atrás de panos sempre fora sua maior especialidade. Teve uma vida inteira de treinamento para isso. Patrícia pensava que todos a viam como ela via o seu próprio reflexo no espelho: com nojo. Por mais que seus pais, sua psicóloga, suas amigas e a maioria das pessoas de sua vida dissessem que ela era linda e que seus 112 quilos não importavam ou que não diminuíam sua personalidade, que atraia qualquer pessoa com apenas 2 minutos de conversa, era impossível não se sentir um verme quando um rapaz a olhava com um sorrisinho de deboche no rosto. Um sorriso que lhe dizia com todas as letras: “Você nunca será amada, sua gorda imunda!”. E ela acreditava nisso.
Mas estava tentando, ah, como estava! Fazia terapia há três anos para tentar se odiar um pouquinho menos e já conseguira alguns avanços. Já gostava mais dos seus cabelos negros, bem cheios e brilhosos. Aprendera a gostar do contorno dos seus olhos, mesmo que sua íris tivesse a coloração comum do castanho escuro. Sua boca parecia ter sido perfeitamente delineada por um desenhista profissional e ficava muito atraente quando passava um batom vermelho. Viu como estava tentando? Patrícia conseguia já acreditar que seu rosto era algo bonito de se ver. No passado, nem isso. Porém, precisava de mais.
O vestido azul a encarava de volta, pendurado em um cabide sobre a cadeira do computador. Patrícia amava aquele vestido! Ele era realmente lindo! Um tecido leve, com a cor do céu azul nos melhores dias do verão, rodado, um certo estilo dos anos 60. Sua mãe comprara-o com o dinheiro de seu curto salário por causa do sorriso brilhante que vira na filha ao admirar aquele vestido na vitrine. Sua mãe faria de tudo para vê-la feliz e satisfeita e Patrícia se sentira a mulher mais sortuda do mundo quando teve o vestido dos sonhos nas mãos. E agora não conseguia levantar da cama e colocá-lo.
A decisão de não ir era uma derrota. Mais uma. Existem poucas coisas no mundo mais difíceis do que lutar diariamente contra a própria cabeça. Contra os fantasmas debruçados sobre os ombros, nos dizendo que não vamos conseguir, que não vai dar certo, que não somos bons o bastante. Fantasma que têm a voz de pessoas que conhecemos pelo caminho, que guardamos numa caixa de ferro dentro de nossa mente e que não possui nenhum cadeado. Ela fica fechada na maioria das vezes e fingimos para o nosso reflexo que estamos lidando com tudo, que estamos bem. Mas é só aparecer uma situação ameaçadora para o nosso orgulho, para a nossa vaidade, que a caixa se abre como uma caixa de Pandora, liberando todos os maus pensamentos e os discursos derrotistas que sabotam qualquer felicidade que, por acaso, pudesse estar passeando por ali.
Patrícia perdia constantemente para si mesma quase todos os dias. Hoje seria mais um desses dias, se não fosse a mensagem que recebida quando estava prestes a guardar o vestido no armário.

“Patty, você não vem? Estamos todos aqui te esperando! Não sei o que houve, mas, por favor, não deixe de vir! Minha irmã já separou toda a coleção de The Corrs para a gente ouvir aqui mais tarde! Nós te amamos muito e queremos você aqui! Mande notícias! Beijos!”

Patrícia largou o vestido e tornou a sentar-se na cama com lágrimas nos olhos. A frase “Nós te amamos muito!” brilhava para ela como as mais belas luzes que enfeitam a cidade na época do Natal. Enquanto Patrícia estava a uma hora frente ao espelho, odiando cada centímetro do seu corpo, existiam pessoas que a amavam mais do que conseguira se amar em 22 anos de vida.
Patrícia era uma decepção para si mesma em todos os sentidos. Ela já estava acostumada com isso. Mas ser uma decepção para as pessoas que a amavam era mais do que poderia suportar.
Limpando as primeiras lágrimas que caíam dos olhos, Patrícia reuniu toda a coragem que tinha, levantou-se da cama e tirou o vestido do cabide. Olhou-o mais uma vez e admirou a beleza daquela peça. Ela podia fazer isso. Ela podia usar um vestido lindo e ficar linda. Ela era maior do que seus quilos, do que o ódio que ainda tinha de sua imagem, do que o sorriso debochado de babacas que jamais teriam a sorte de ter uma pessoa como ela em sua vida, que jamais teriam a sorte de serem amados como ela. Patrícia era maior do que tudo isso. E provaria ao mundo, provaria a si mesma, entrando no banheiro e vestindo o seu adorado vestido azul.
Afinal, na festa de Adriana, o amor esperava por ela.

#5 – O Caderno Mágico De Miguel

caderno

 

Um homem foi encontrado em uma ilha deserta no dia 25 de maio de 1982.
Resgatado por uma embarcação pesqueira que se perdeu momentaneamente da rota, foi levado de imediato ao hospital para avaliações físicas e psicológicas. Trazia consigo um caderno contra o peito, que segurava com todas as forças durante a viagem.
No hospital foi identificado como Miguel Pereira dos Santos, um trabalhador de uma fábrica de papelão que juntara tudo para realizar o sonho de conhecer a cidade de Coimbra. O barco que o levava à Portugal com mais 200 pessoas naufragou no Atlântico e apenas alguns corpos foram encontrados. Depois de dez anos desde o acontecido, ninguém esperava encontrar sobreviventes.
Perguntado sobre o caderno contra o peito e de como ele havia escrito nele, Miguel se limitou a dizer que foi a sua única maneira de sobreviver tanto tempo sozinho numa ilha deserta. Mesmo quando a comida e a água potável acabaram, ele conseguira permanecer vivo escrevendo as histórias que flutuaram por sua mente durante toda a vida, mas que nunca tivera coragem de colocar no papel. “Essas histórias…”, explicou ele, “me mantiveram vivo. Eram o alimento para o estômago e um alívio para a sede. Descobri nesses 10 anos que um homem pode viver o tempo que for sem comida ou sem água; mas viver sem histórias, sem algo para imaginar ou sonhar… ah! Isso é impossível!”
Já na sala de exames, quiseram tirar o caderno de seu colo. Miguel protestou veementemente, explicando que o único fio que o ligava à vida era aquele caderno. Dizia ser um caderno mágico, um caderno que era capaz de manter qualquer homem vivo, desde que este enchesse suas páginas com sonhos e personagens. Por não ter bebido e comido nada há tanto tempo, seu corpo estava completamente debilitado. As histórias ali escritas eram sua vida em palavras; se fossem separados, se fosse obrigado a entregar seus sonhos a outras pessoas, morreria. As palavras marcadas no papel abandonariam este mundo com ele e toda sua existência seria reduzida ao nada. E isso seria um desperdício após ter conseguido sobreviver por todos esses anos!
Os médicos sabiam muito bem que uma pessoa não pode viver mais de uma semana sem comida e sem água, e imaginaram que Miguel estava um pouco fora de si devido ao tempo que passou sozinho em um lugar totalmente ermo. Precisavam tratá-lo e não conseguiriam fazê-lo com um caderno preto enorme grudado em seu peito. Em meio a gritos e protestos de Miguel, os médicos conseguiram arrancar-lhe o caderno das mãos e tiveram de sedar o homem que queria destruir tudo ao redor para chegar ao objeto que agora se encontrava nas mãos de uma assustada enfermeira.
Já sedado, os médicos finalmente conseguiram tratá-lo. Chocaram-se ao perceber que, salvo alguns arranhões aqui e ali, Miguel Pereira Dos Santos se encontrava bastante bem. Não havia nenhum dano em seus órgãos ou em seus ossos. O resultado do exame de sangue não poderia estar melhor e Miguel poderia ser liberado no dia seguinte. Passaria apenas por uma avaliação psicológica antes de ir, mas acreditavam que ele não estava louco, apenas um pouco desorientado, e nada do que algumas consultas com o psiquiatra do hospital e alguns remédios não dessem jeito. O homem que sobrevivera dez anos em ilha deserta com pouca comida e pouca água se encontrava melhor que muita gente que passou a vida inteira na cidade. Deixaram que o paciente ficasse em observação e retornaram à suas casas ao final da noite.
No dia seguinte, veio a surpresa. Quando os médicos retornaram ao hospital para ver o ilustre paciente – que já era esperado por jornalistas na porta – tudo o que encontraram foi um cadáver revestido por uma fina camada de pele enrugada. Era como se Miguel tivesse secado completamente num período de doze horas, mortinho e desfigurado, como uma fruta ressecada muito tempo sob um fortíssimo sol. Uma das enfermeiras chorava copiosamente, explicando a todos que não saíra do lado do paciente por mais de meia hora. Buscando uma explicação maior pelo incrível acontecimento, foram olhar as câmeras de vigilância do quarto, para ver o que havia ocorrido. Corroborando a versão da enfermeira, a imagem mostrava o corpo se decompondo de forma súbita conforme se iniciava as primeiras horas da manhã.
Miguel Pereira dos Santos estava morto e não poderia dar qualquer satisfação a todos os jornalistas curiosos lá fora, ansiosos por uma história que estamparia todas as capas dos jornais.
“O caderno!”, lembrou um dos médicos, correndo em direção ao objeto que com certeza continha toda a vida do falecido nos últimos dez anos. Os envolvidos no caso se reuniram ao redor do caderno como crianças se reúnem em volta a um baú de brinquedos.
Em seguida, a verdade apareceu ante os olhos de todos.
Quando abriram o grande e preto caderno de Miguel, viram que todas as palavras tinham ido embora com ele.

#4 – Pedro e a Lua.

pedro lua

O primeiro amor de Pedro foi a Lua.
Quando parou para observar o enorme céu do sítio de seu avô em Juiz de Fora, Pedro não conseguiu mais tirar os olhos da grande lua cheia que se exibia ante seus olhos. O brilho parecia hipnotizar o menino, que teve de ser arrancado da janela por sua mãe, pois se dependesse de si mesmo não moveria jamais um músculo dali. Tinha apenas cinco anos de idade, mas já tinha escolhido aquela a quem amar pelo resto de sua vida.
Depois daquela paixão à primeira vista, foi difícil retornar para sua vida normal no Rio de Janeiro. Pedro morava no segundo andar de um apartamento de fundos e tinha toda a sua visão bloqueada por um novíssimo prédio de 15 andares construído ali há pouco tempo. Qualquer tentativa de observar o céu de sua janela era inútil, o que só fez aumentar a obsessão do menino por não poder ter aquilo que mais desejava.
Pedro foi crescendo contando a todos à sua sobre a Lua. Contou-lhes como se tornaria um astronauta apenas para tocá-la pessoalmente todo o seu amor. Os coleguinhas riram e se afastaram do menino que só tinha Lua na cabeça. Os pais preocuparam-se com sua obsessão inexplicável e o levaram ao psicólogo. Depois de algumas conversas com ele, o psicólogo foi dar a boa notícia aos pais: Pedro era completamente saudável e não havia nada com que se preocupar. Sua admiração pela Lua iria passar a qualquer momento; era coisa de criança. Era só lembrá-lo constantemente que isso era apenas um sonho, falar sobre como a vida era pra ser vivida na Terra e tudo ia ficar bem. Quando se tornasse mais velho, Pedro ia encontrar uma garota que o faria esquecer qualquer obsessão infantil.
Algumas primaveras passaram até que Pedro completasse 17 anos. A paixão pelo belíssimo satélite natural teve de ser guardado em um lado oculto de seu coração se realmente quisesse viver em sociedade. Mesmo o seu enorme e eterno amor não podia salvá-lo da solidão que engole os sonhadores desde os princípios dos tempos aqui na Terra. Rendeu-se à realidade, colocou os pés no chão e tentou com todas as forças viver uma vida normal.
Pedro passou em primeiro lugar no vestibular, conheceu uma linda e encantadora moça chamada Paula, e se tornou o maior orgulho da família. Contudo, nunca antes esteve tão vazio.
Para aplacar o buraco que parecia expandir-se cada vez mais dentro de si, Pedro saía às escondidas pelas noites do Rio de Janeiro, alheio a todo o perigo, apenas para olhar a Lua. Percebendo-se sozinho em alguma rua deserta, Pedro fazia uma reverência à sua musa e entre lágrimas declarava a saudade que sentia por algo que nunca tivera em mãos. Nesses momentos particulares da madrugada, onde ninguém mais poderia estar olhando, a Lua lhe sorria em seu formato minguante no céu e aumentava mais ainda seu brilho, correspondendo-lhe o amor e devoção. Sentindo-se reenergizado e correspondido em seus sentimentos, Pedro retornava à casa disposto a viver mais um dia, por ela e pelo sonho de um dia viver ao seu lado para sempre.
Mais primaveras passaram até que Pedro completasse a faculdade sendo o queridinho dos professores e com seu nome como promessa no mundo acadêmico. Ficou noivo de Paula e conseguiu um ótimo emprego numa das maiores corporações do país. O orgulho da família se tornou o exemplo da família, foi invejado por primos e amigos, além de ganhar uma matéria de duas páginas no jornal de seu bairro. Todos estavam felizes e realizados por Pedro. Menos Pedro.
Algo ainda lhe faltava. Sua vida financeira e amorosa ia de vento em popa, sua família o amava, ele tinha todas as coisas materiais que um homem poderia desejar e… não era o bastante. Pedro calava a sua dor, pois se sentia ingrato com o mundo, com a vida, com Deus. Fazia força para ser feliz, para estar feliz, mas ao deitar sua cabeça no travesseiro à noite aquele buraco tornava a ecoar o som do vazio dentro dele. Quando o coração não agüentava mais e a dor lhe era insuportável, lá ia Pedro de novo para as ruas desertas do Rio de Janeiro fazer uma reverência à Lua e declarar-se à sua musa. Como uma amante fiel que sempre está à espera de seu amado, a Lua sorriu-lhe novamente e brilhou todo o seu brilho de volta à Pedro, partilhando da mesma dor e da mesma saudade. E mais uma vez reenergizado, Pedro retornava à casa pronto para viver mais um dia entre pessoas sem magia nos olhos e que jamais conseguiriam acolher seu sofrimento. Calar o seu amor era quase tão doloroso quanto não vivê-lo. Mas para manter-se livre de mais consultas com psicólogos e um grande risco de ir parar num hospício, ele acordava mais um dia preparado para viver a mentira que era sua própria vida.
Pedro foi promovido e passou a ganhar ainda mais dinheiro e prestígio. Ganhou uma sala no último andar do prédio da corporação, marcou finalmente a data de casamento com Paula e a cada decisão tomada, mais infeliz ficava. Com a promoção o seu trabalho aumentou tanto, mas tanto, que não podia mais sair às madrugadas para amar em silêncio o objeto de seu desejo. Sem a energia da Lua, Pedro acordava cada vez mais cansado, cada vez mais infeliz, cada vez mais desistindo de respirar, pois até isso lhe parecia exaustivo. Pensou em se matar inúmeras vezes. Talvez fosse a única saída para escapar desta dor da qual ele não podia partilhar com ninguém. Entretanto, outra vez seus sentimentos pela Lua o impediam de parar sete palmos abaixo da Terra. Pedro não era a pessoa mais religiosa do mundo, porém não podia afirmar o que realmente havia do outro lado. Se fosse o inferno, não poderia mais ver sua amada. Se fosse o nada, o vazio e a escuridão da não-existência, também não poderia mais vê-la. Por via das dúvidas, sempre arranja um jeito de viver por mais um dia, pois sua única certeza era que sua Lua estaria lá, em algum lugar do céu, esperando por ele, pronto para banhar sua alma com brilho mais uma noite.
Foi numa tarde de sábado que aconteceu. Ninguém poderia prever, ninguém poderia imaginar que aquele homem que parecia tão feliz, tão invejado por todos, pudesse ter uma crise nervosa que ressoou por todos os andares da corporação e chegou até ser matéria de alguns jornais da cidade.  O que se dizia pelos corredores era que o grande senhor Pedro Barbosa trabalhou mais do que seu corpo e sua mente conseguiram aguentar. Surtou, enlouqueceu, pirou na batatinha… Essas coisas normais do século XXI que faz com que os mais próximos lamentem brevemente o ocorrido e logo retornem aos seus afazeres.
A verdade era que a pele de Pedro não conseguia mais segurar os sentimentos reprimidos durante tantos anos e acabou rachando e liberando grandes quantidades de pó de Lua. Seu amor foi jogado para fora, foi vomitado sobre carpetes do escritório em tantas quantidades que foi sufocado por tudo aquilo reprimido durante tantos anos. Se sua secretária não tivesse chamando um médico a tempo, com certeza não teria sobrevivido.
Abrindo novamente os olhos para a realidade à sua frente, Pedro viu o semblante preocupado de seus pais que sorriram e fizeram festa quando viram que o filho havia acordado vinte e quatro horas depois do ocorrido. Deram uma explicação realista ao filho, dizendo que ele havia sofrido um acesso de vômitos e choros devido a uma crise nervosa em função da grande quantidade de trabalho acumulada nos últimos anos. Pedro lembrava muito bem do ocorrido e sabia que não foi exatamente isso o que aconteceu. Contudo, preferiu manter-se quieto mais uma vez, pois ninguém acreditaria na versão da história.
Pedro retornou à casa e foi cuidado atenciosamente por sua noiva. Conseguiu uma licença de duas semanas no trabalho para poder se reestruturar e prometeu a todos da família que ia se cuidar melhor e que logo voltaria a ser a mesma pessoa de sempre. Mas Pedro não queria ser a mesma pessoa de sempre. Fazia as mesmas coisas desde criança para agradar a todos e ter uma vida considerada perfeita pela sociedade e, ainda assim, nunca havia provado o verdadeiro gosto da felicidade. Quando lembrava dos momentos desesperadores de sua crise nervosa, de sua pele rachando ante seus olhos e das toneladas de pó de Lua engolindo-o como uma areia movediça, a única coisa que desejou em seu momento de maior desespero foi ver uma última vez sua amada. Pedro então deu-se conta da fragilidade da vida, da finitude que sempre nos espreita por cada esquina. Olhou para Paula dormindo ao seu lado, sua querida noiva, e perguntou-se o que estava verdadeiramente fazendo ali. Ela era uma mulher maravilhosa, que era capaz de fazer qualquer homem feliz… Qualquer homem, menos ele. Pedro jamais poderia amá-la. Ele já amava outra desde os seus cinco anos de idade. Não podia continuar enganando-a e enganando a si mesmo por mais tempo. Era hora de se tornar homem e ir atrás de sua verdadeira felicidade.
Muitos dizem ter sido mais uma crise nervosa, mais um acesso de loucura, quando encontraram o bilhete de despedida na cabeceira da cama e o armário de roupas parcialmente vazio. No bilhete, Pedro se desculpava com Paula, explicando que não poderia casar-se com ela quando por toda a sua vida amou outra mulher. Aos pais, escreveu seus mais profundos agradecimentos por lhe terem concedido a vida e muito mais, mas que agora ele precisava cuidar e construir a própria felicidade. E precisava fazer isso sozinho.
Com uma mala nas costas e o coração cheio de esperanças, Pedro pegou o primeiro ônibus para Pernambuco e foi em busca de um lugar onde pudesse viver para sempre perto de sua amada.

**

Hoje, anos depois de sua partida, seus pais contam a todo mundo que o promissor filho está bem e vivendo em algum lugar do Nordeste, que nem eles sabem onde é. Se recuperou de todo o estresse de um opressivo trabalho e agora leva uma vida feliz e tranquila ao lado de sua nova esposa.
A verdade é que Pedro encontrou o seu lugar lá na cidade de Igarassu. Virou pescador e possui uma casinha à beira do rio onde pesca e vive com o mínimo que seu trabalho lhe dá. À noite ele se deita em seu humilde barco de madeira, admira a Lua com os seus olhos e toca com sutileza o seu reflexo sobre as águas.
Na pequenina cidade de Pernambuco, ninguém sabia explicar porque a Lua parecia explodir seu brilho pelo céu nos últimos anos.

#3 – Estrelas

estrelas

Não havia espaço para o Natal no coração de Roberto Teixeira.
Depois do falecimento de sua esposa, dois anos atrás, nada mais daquelas baboseiras de presentes, cantorias e histórias ridículas de Papai Noel importavam. Eram apenas um punhado de ilusões para distrair as mentes jovens das vicissitudes da vida – como se eles não tivessem que encará-las em algum momento. A alegria era tanta que lhe parecia irritante até sair na rua para comprar qualquer coisa para comer!
Todo um misto de gargalhadas, músicas, cores vibrantes que iam do vermelho ao dourado, uma miscelânea de símbolos lhe causavam uma irritação da qual não podia controlar. Uma irritação que o levou ao ponto de ser grosseiro com a caixa do supermercado, que lhe desejou um sorridente “Feliz Natal” e o levou a responder um “Não me enche a paciência!”. Obviamente se sentia arrependido agora. Roberto não era esse tipo de pessoa. Quem o conheceu uns três anos atrás poderia jurar para a mocinha do supermercado que ele não era a pessoa que a havia deixado assustada com sua atitude. Ele já foi melhor do que hoje; melhor do que essa versão mal humorada em que havia se transformado. Entretanto, em sua defesa, qualquer pessoa que tenha visto a mulher sucumbir ao câncer nos últimos anos talvez agisse da mesma maneira. É impossível ser feliz quando o amor de sua vida foi levado por um monstro invisível e praticamente indestrutível. É impossível ter qualquer brilho nos olhos quando o lado direito da cama está vazio pela manhã. O mundo que o perdoasse, mas ele não ia conseguir sorrir outra vez. Pelo menos não nesta vida.
A véspera de Natal parecia nunca ter fim. Quanto mais olhava para o relógio, menos a hora passava. Era uma tortura ter de ouvir as gargalhadas e as canções natalinas na casa dos vizinhos! A janela de seu apartamento de fundos era quase dentro do apartamento do vizinho da frente. Mesmo fechando-a e enfiando a cabeça debaixo do travesseiro, o barulho o vinha perturbar como uma má memória que acaba por nos visitar a todo momento.
Roberto Teixeira desistiu de lutar contra a alegria da data. Desceu para a portaria e ficou sentado sobre um banco um pouco atrás do portão de entrada, olhando as estrelas que não conseguia ver de sua janela. Mirando o alto, imaginou se sua mulher estaria em algum lugar ali do outro lado, pensando e esperando por ele. Se existia mesmo uma vida atrás do céu, se sua Margarida o estava olhando de volta através do olhar das estrelas, então porque seu coração inda doía com sua partida? Por que Deus não o levou primeiro, para que ele pudesse esperá-la do outro lado? Margarida sempre fora doce e paciente. O tipo de pessoa que sempre gostava de ajudar os outros e com um otimismo de causar inveja! Ela seria capaz de esperar em vida por ele, caso a situação fosse contrária. Para Roberto, a experiência era insuportável.
Seus pensamentos foram cortados quando um vulto que parecia uma pequena estrela cadente se jogou sobre ele, fazendo com que quase caísse do banco.

— Feliz Natal, Papai Noel! – disse uma voz fininha e alegre de encontro ao seu rosto. Roberto estava ciente que precisava fazer a sua barba branca e que a barriga estava um pouco avantajada, mas acreditava não ser o suficiente para ser confundido com o Papai Noel. Talvez não devesse ter posto aquela camisa vermelha para um dia como este.
— Carolina, por favor! – uma mulher alta e muito bem vestida arrancou a menina do colo do velho com o rosto ruborizado. – Mil desculpas, senhor! Peço mil vezes perdão pelo comportamento de minha filha!
— Mas mamãe, este não é o Papai Noel? Olhe, ele é velho e está de vermelho! – a garotinha seguiu falando, para o desespero da mãe.

Roberto olhou para o rosto iluminado da pequena criança que havia se jogado sobre ele. Seus olhos azuis e os cabelos negros estavam cheios de esperanças e possuíam uma luz intensa. Por mais mal humorado que estivesse aquele dia, ele jamais conseguiria ser grosso com aquele anjinho de vestidinho amarelo. O abraço que recebera da criança fez com que uma parte da dor dentro de si derretesse de forma instantânea. Nem mesmo Roberto sabia o quanto sua alma precisava de um abraço carinhoso.
Emocionado, acariciou o rosto da pequena garota e, pela primeira vez em todo o ano, sorriu.

— Não sou o Papai Noel, minha filha. – respondeu Roberto com toda a simpatia que conseguiu. – Gostaria de ser, pois você é uma menininha que seguramente merece muitos presentes!
— Ah, sim, isso sim! – respondeu a menina. – Me comportei muito bem o ano inteiro, não é, mamãe? – a menina olhou para sua mãe ávida por sua aprovação.
— Sim, se comportou muito bem! Mas hoje está me fazendo passar uma vergonha enorme! Desculpe novamente, senhor! Minha filha tem esse jeito… espontâneo de ser.
— Não se desculpe mais, por favor! – respondeu Roberto com a voz embargada. – Esse pequeno momento foi muito especial para mim, acredite. Perdi a minha esposa há dois anos e desde então não tenho tido muitos motivos para sorrir. Pensei que hoje seria um dia como todos os outros, mas sua filha veio me dar este maravilhoso presente!
— Eu sinto muito pela sua esposa, senhor! Meu marido também perdeu o pai recentemente e tem sido um momento difícil para todos nós. Mas hoje, principalmente em nome de Carolina, estamos dispostos a fazer com que seja um dia muito especial. As crianças esperam o ano inteiro por este momento… Por elas tudo vale a pena, o senhor não concorda?
— Sim, imagino que sim… – respondeu Roberto com a voz mais baixa. – Ainda que não tenha a noção exata, como a senhora, pois nunca tive filhos.
— Oh, então o senhor está sozinho? – o velho afirmou com a cabeça, sendo observado por um par de curiosos olhos azuis. – Eu sinto muito! Ninguém deveria passar o Natal sozinho!
— Não se preocupe, senhora. Passei a data sozinho ano passado e passarei este ano também. Com o tempo a gente acostuma.
— Mas ninguém deveria se acostumar com uma coisa dessas! – a mulher fez uma pausa antes de continuar e o olhou um par de vezes antes de verbalizar a pergunta que estava pensando. – O senhor já jantou?
— Como? – indagou Roberto confuso, tentando colocar os pensamentos em ordem ante a surpresa daquela pergunta. – Não… digo, sim! Digo… comi um pão com queijo.
— O senhor não gostaria de jantar conosco?
— Mamãe, você está chamando o Papai Noel para comer com a gente? – perguntou a menininha com um sorriso de lua nos lábios.
— Ele não é o Papai Noel, meu amor, mas estou sim! Se ele aceitar, claro.
— Agradeço a gentileza, senhora, mas não quero incomodar… – respondeu com sinceridade, ainda surpreso com o súbito pedido. De todas as formas que pensou que essa noite iria terminar, esta com certeza seria a última.
— Não será incômodo nenhum! Minha filha o adorou e estou segura que o senhor e meu marido poderão partilhar de muitos sentimentos em comum. Creio que vai ser bom para todo mundo.
— Vamos Papai Noel, por favor! – insistiu a menina com seu jeitinho especial, incapacitando-o de responder qualquer outra coisa.
— Muito obrigado pelo convite, senhora! Espero não atrapalhar.
— Não vai atrapalhar, muito pelo contrário! Com certeza será uma honra para todos nós.

Rendido pelos pedidos carinhosos, Roberto seguiu a menininha animada e sua mãe para a prometida cena em família.
Antes de entrar novamente pela portaria do prédio, lançou um último olhar  ao céu para encontrar uma estrela brilhando mais do que as outras, brilhando diretamente para ele. Uma estrela que continha o mesmo brilho dos olhos de Margarida.

#2 – Fios

fios

Ela estava ali comigo. Depois de tanto tempo, ela finalmente estava ali.
Minha cabeça repousava sobre seu colo. Sentia sua pele, sua carne, seus ossos… E seus longos cabelos vermelhos deslizando sobre o meu nariz. Os cabelos vermelhos de Laura! Ah, aqueles cabelos! Cabelos que nunca tive a sorte de ter; puxei ao papai. Fios negros e sensibilidade à flor da pele. Tudo graças a ele.
De frente para mim seu sorriso aberto iluminava todo o meu rosto. Ela parecia tão feliz! Tão feliz que meus olhos teimosos começaram a transbordar em lágrimas desesperadas que embaçavam toda aquela bonita imagem.
“Não sofra mais por mim, minha irmã…” seus dedos secaram minhas lágrimas exatamente como quando éramos crianças, quando eu abria o berreiro por qualquer coisa e ela estava lá, com os cabelos vermelhos esvoaçantes e o sorriso capaz de curar qualquer dor. Ela tinha o poder de fazer com que tudo fosse mais fácil. Como se tudo sempre fosse ficar bem. Com Laura, de fato, tudo ficava.
Sua ausência veio sujar minha pele quando abri os olhos e tudo o que me restava era a lembrança de sua risada que ainda ecoava em meus ouvidos. Impossível acreditar nesta realidade! A senti tão perto, tão presente, tão viva, e precisei de alguns minutos para entender que essa era a vida de verdade. A minha vida, a minha vida sem Laura. Minha irmã, tão bonita e contagiante, agora não passava de uma lembrança com a qual eu tinha a sorte de sonhar. Um nó apertava minha garganta ao pensar que, no fim, toda a nossa existência acaba reduzida a um punhado de memórias embaçadas na mente dos que ficam.
A saudade era como um balde de areia sobre o meu corpo. Suja, pesada, salgada… insuportável! A saudade sempre vinha se jogar sobre mim como uma amante apaixonada e obcecada. Eu sempre acabava vencida por seu peso antes mesmo de levantar.
Laura em meu sonho pediu para não sofrer por ela. Um pedido doce e sincero, com o mesmo tom, a mesma vibração com a qual me dizia para amar mais a mim mesma e ao mundo quando se encontrava viva. Às vezes me perguntava se Laura não estava mesmo existindo em algum lugar por aí iluminando mentes escuras com seu sorriso e impactando olhos ordinários com seus belíssimos cabelos vermelhos. Minha negação obrigava-me a admitir o quão difícil era acreditar que tudo havia sido mesmo um sonho.
Reunindo coragem e forças em homenagem à memória de minha irmã, levantei-me da cama disposta a arrancar a saudade arenosa de minha pele. Evitando o reflexo no espelho, tirei as roupas de dormir e liguei o chuveiro. A água sempre ajudava a lavar todas as sujeiras, até mesmo essas sujeiras de sentimentos que cismam em grudar na pele. Água de chuva ou água de chuveiro, não importava! O fato é que a água sempre exerceu um enorme poder de purificação sobre mim.
Deixei que as gotas geladas caíssem sobre meus cabelos negros como em um batizado. Em nome de Laura, eu precisava tentar seguir em frente mais um dia.
Quando peguei meus cabelos molhados na mão, senti alguns fios soltando-se facilmente. Ao olhá-los, um gemido de surpresa emergiu de minha garganta.
De encontro à minha palma, três fios de cabelos vermelhos sorriam para mim.

#1 – Maria Cecília

rtr4444

Maria Cecília de Souza Andrade nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1951.
Enquanto toda a família planejava o futuro da recém-nascida do lado de fora do quarto de hospital, a menina dava o seu primeiro berro de desespero por chegar a este mundo. Seu pai, o importante banqueiro Mario de Souza Andrade, escrevia no papel do seu inseparável bloquinho de anotações todas as aulas que a menina faria assim que tivesse um pouco de consciência de si mesma. Angélica Faria de Andrade segurou o bebê no colo com os olhos brilhantes, prevendo a bonequinha de luxo que teria a oportunidade de criar. Já poderia vê-la sentando-se com postura, estampando os jornais da alta sociedade como a moça mais bela e educada que esse país já vira. Planejava aulas de ballet, sapateado e etiqueta, isso só para começar! As outras atividades viriam com o tempo e Angélica já sentia-se ansiosa pelo futuro da menina.
Porém, Maria Cecília estava longe de ser uma menina educada ou uma bonequinha de porcelana. Começou a aparentar isso desde a mais tenra idade, para o desespero de seus pais. Corria como um menino, exatamente como o seu irmão mais velho e seus primos faziam, sujando-se da cabeça aos pés a cada encontro com sua grande família. Sua mãe com freqüência se irritava com esse seu jeito moleque e batia no bumbum da garota, obrigando-a sentar-se à mesa junto com suas primas, que desde pequena já sabiam ajeitar-se de forma ereta e mastigar de boca fechada. Suas tias as olhavam de soslaio, pensando que deveria haver algo errado com a sobrinha.
Maria Cecília era diferente até mesmo na cor dos olhos. Sua íris tinha uma coloração semelhante ao açafrão, o que atraia a curiosidade de todos que tinham o prazer de cruzar os seus olhos com os dela. Mas eram vazios. Eram opacos, quase desbotados, como uma cor cansada e já muito usada.
Perdida na escuridão da noite, Maria Cecília sentia falta. De algo. Na verdade, sentia falta de muitas coisas. Primeiro, do sono que custava a chegar. Segundo, de um abraço caloroso de seu pai ou de um olhar de aprovação de sua mãe. Sua consciência de criança não se dava conta disso. Mas a velhice de seu espírito, que iria se manifestar anos mais tarde, atestava que algo ali estava muito errado. A sensação de abandono a esmagava, apertava como uma mão crua e ossuda, retirando o ar de seus pulmões. Nesses momentos desertos às 3 da madrugada, a cor dos seus olhos iam clareando em função das águas que os lavavam diariamente.
Angélica colocou a filha em aulas de ballet, sapateado e etiqueta, como havia planejado desde o seu nascimento. Mas os problemas só continuaram. A menina não sabia dar um passo direito no ballet e sua barriga já saliente aos 6 anos de idade era motivo de chacota para as outras garotas que mantinham o corpo de uma dançarina profissional. Na etiqueta, Maria Cecília ficava surda com os berros da professora que tentava a todo custo atrair sua atenção. Maria Cecília bem que tentava, principalmente porque desejava mais do que qualquer outra coisa no mundo ver um sorriso de orgulho surgir nos lábios de sua mãe, mas logo seus olhos se distraiam com alguma mosca passando ou com o belo papel de parede do lugar.
Mario de Souza Andrade e sua esposa acreditavam que era só uma fase. Afinal, algumas crianças eram mais lentas que as outras. No futuro Maria Cecília iria se destacar. Era só insistir mais um pouco. Tinham absoluta certeza disso.
Ao contrário das expectativas dos pais, Maria Cecília nunca se destacou. Pelo menos não positivamente. Os anos se passaram, mas a sua lerdeza e falta de atenção para o mundo em que vivia continuaram iguais.
Enquanto o seu irmão mais velho, Alberto de Souza Andrade, preparava-se para embarcar num navio rumo à importante Universidade de Cambridge, na Inglaterra, a garota ganhava a sua primeira suspensão na escola. Havia batido numa coleguinha que, segundo Maria Cecília, a havia chamado de burra e lenta, e passara o dia inteiro na direção, com as mãos sobre o colo e os pés debaixo do vão da cadeira, no aguardo de sua sentença. Só não havia sido expulsa em função dos apelos do pai. Mario de Souza Andrade havia insistido para as freiras que sua filha ia se comportar e, em troca de uma segunda chance para a menina, ofereceria importantes “caridades” para a manutenção de obras no colégio e na capela onde as crianças rezavam todas as manhãs.
Mario de Souza Andrade pensou que esta seria a última vez que visitaria o colégio para tratar de assuntos desse tipo e esvaziar os seus bolsos. Mas a vida não seguiu o roteiro de sua mente.
Na sala de aula, enquanto o professor de matemática explicava como resolver alguns problemas de divisão – que seguramente iria colocar com um terceiro grau de dificuldade na prova – Maria Cecília olhava para o relógio redondo grudado na parede acima do quadro negro. Além de contar quantos minutos faltavam para acabar aquele torturante episódio, ela indagava como alguém conseguira medir o tempo de rotação da Terra num trocinho redondo e cheio de números e ponteiros que calculava todo o tempo de sua vida. Por que dizia que o sol nascia às 6 da manhã quando, na verdade, ele nunca “morria” propriamente. O fato de seu país estar de costas para ele não significava que havia morrido ou escolhido descansar, como disse sua mãe uma vez quando lhe dirigiu esta pergunta.
Não era só isso. Outras coisas estavam erradas com o relógio e a criação acerca deste.
Como aquele trocinho redondo e cheio de números e ponteiros determinava que tinha, naquele momento, dez anos de idade? Como ele conseguia? Ele não poderia estar certo, poderia? Se sua vida estava sendo contada desde o dia em que nascera, dez anos atrás, porque sentia que estava tudo errado? Olhava para as suas mãos e as via enrugadas. Olhava para seus olhos refletidos nos espelho e via toda uma história por trás de sua íris cor de açafrão. Como dez anos haviam se passado fora quando, ali dentro, dois milênios pareciam girar dentro dela?
Havia algo muito, muito estranho com o relógio.
O professor gritou seu nome, acordando-a desse mundo milenar interior no qual havia cochilado por algum tempo. Indagou qual era a resposta da questão no quadro e Maria Cecília disse que não sabia e que nem interessava. Estava mais preocupada com a soma dos seus dias na Terra, com a multiplicação de suas ideias,  não com a divisão boba de uns números que nada lhe significavam. O professor de matemática cerrou os lábios, trincou os dentes e ficou vermelho do queixo à sua careca bastante lustrada. Sem que Maria Cecília pudesse prever, seus ouvidos foram inundados com berros que chacoalharam seu pequeno cérebro, como se a guitarra de Elvis Presley estivesse sendo tocada ao pé de seu ouvido. A menina foi mandada para a direção e novamente teve de esperar seus pais com as mãos sobre o colo e com os pés escondidos debaixo do vão da cadeira. Mais uma vez Mario de Souza Andrade assinou um gordo cheque para a freira, em troca de um novo perdão à sua pequena filha. Com a promessa de que a garota iria melhorar, Maria Cecília retornou à casa com o olhar de desprezo dos pais e uma ardência no bumbum que a mão de seu genitor havia marcado como retaliação pela vergonha que tiveram de passar.
Naquele dia, mais do que nos outros dias, Maria Cecília foi dormir com lágrimas nos olhos e fez uma prece para que aparecesse algo que pudesse de todo esse inferno salvar.
O milagre veio rápido, pois Deus gosta de fazer crianças que indagam sobre o tempo e têm a memória carregada de passado felizes. Depois, também é um gozador, um piadista de marca maior, pois fez este milagre vir através das mãos de sua mãe.
Angélica Faria de Andrade arrancou a menina da cama logo na manhã seguinte e, deixando que tomasse apenas uma água, disse à pequena que iria ter de aprender a se comportar de uma vez por todas. Pegou dois livros grossos e pesados e obrigou a garota a colocá-los sobre a cabeça.
“Já chega desse comportamento de bicho que você tem! Agora que está crescendo, precisa aprender a se comportar como uma verdadeira dama! Para a mulher, a disciplina tem que começar primeiro no corpo, para depois atingir as outras áreas”.
Sem dar um pio sequer, a menina obedeceu à mãe, desejando mostrar que poderia ser boa o bastante para o que fosse. Maria Cecília faria de tudo para ver um sorriso de satisfação nos lábios de Angélica Faria de Andrade, inclusive colocar dois pesadíssimos livros sobre sua cabeça e andar em linha reta por toda a extensão da sala. Faria sim. Faria qualquer coisa para se sentir amada.
Naquela manhã, Maria Cecília iria ter uma das mais importantes lições de sua vida, que ia muito além de qualquer pose e etiqueta: existe um grande abismo entre nossas expectativas e a realidade como ela realmente é.
Como de costume, a menina não podia dar mais do que três passos sem que os livros se esborrachassem no chão, junto com o seu pequeno corpo. Ao invés de um sorriso de satisfação e a sensação de ser amada, Maria Cecília ganhou mais broncas e tapas.
Foi salva pelo gongo. Ou melhor, pela campainha de sua casa.
Um empregado veio dizer à senhora Angélica que o senhor Samir Chopra, um indiano e importante amigo de negócios de seu pai, estava à porta, desejando ter com o dono da casa. Mario de Souza Andrade não se encontrava, mas Angélica sabia que era uma visita muito importante para ser recusada. Agitada, mandou que Maria Cecília pegasse os livros sobre o chão e corresse para o quarto. Deu ordem restritas para que a menina não saísse dali até que ordenasse. A garota não hesitou um segundo. Cambaleando com os livros pesados em suas mãos, Maria Cecília trancou-se no quarto, podendo ouvir apenas vozes vindo da sala.
Vendo-se sozinha na companhia de dois livros, resolveu abrir um deles. Deslizou o seu indicador pela capa grossa e azul, até chegar no nome com letras douradas: Oliver Twist. Exercendo a curiosidade que a acompanhava desde os primeiros dias de vida, Maria Cecília abriu o livro e leu rapidamente suas primeiras palavras.
Exatamente às quatorze horas daquele dia, quando Angélica Faria de Andrade abriu as portas do quarto da menina, tomou um susto! Maria Cecília estava ao pé da cama, agarrada ao livro como se fosse um amigo que acabara de falecer, olhando para um ponto fixo na parede, com lágrimas rolando pelo seu rosto. Angélica Faria de Andrade não soube o que fazer e tampouco entendia a situação. Sua filha chorava em silêncio e parecia nem ter notado a sua presença no quarto. Quando aproximou-se e perguntou o que havia acontecido, tudo o que saiu dos lábios da garota foi um fraco e sussurrado: “Acabou…” Angélica limitou-se a tirar o livro das mãos da menina e ordenou que fosse tomar um banho, pois o amigo de seu pai tinha ido embora e o almoço já estava na mesa. A garota obedeceu silenciosamente, entrando no banheiro como um zumbi.
Por ser uma grande observadora, das pequenas até as maiores coisas, Maria Cecília tirava lições e aprendizados de quase tudo. E a lição aprendida aquele dia era que um punhado de folhas e palavras organizadas sabiamente dentro de uma capa azul (ou preta, ou verde, ou vermelha, como viria a descobrir depois), poderia mudar a vida de alguém a qualquer momento.
As paixões em nossas vidas começam sempre da mesma forma: sentimos aquela cosquinha intuitiva no estômago de que algo importante está prestes a começar, passamos a beber cada vez mais daquela fonte, até encontrar a saciedade que a nossa alma tanto implora por obter. O problema é que a satisfação completa nunca chega, levando-nos ao vício.
Quando o silêncio veio de mãos dadas com a noite, Maria Cecília escapuliu sorrateiramente de seu quarto em direção ao escritório do pai. Debruçou sobre uma cadeira e pegou um livro aleatoriamente na estante. Em sua mente de criança, queria um título com um nome tão bonito quanto o seu ou quanto o de Oliver. Dessa vez escolheu um de cor vermelha que se chamava “Alice no País das Maravilhas”.
Suas jornadas noturnas ao escritório do pai não pararam mais. Maria Cecília aproveitava a falta de sono da madrugada e devorava aquelas letras até o amanhecer. Para que sua mãe não visse sua loucura ao acordar, Maria Cecília enfiava o livro sob o travesseiro quando Angélica vinha acordá-la para ir à escola. Com o passar do tempo, Maria Cecília começou a dormir em todas as aulas por ficar tanto tempo acordada à noite, devorando páginas e mais páginas de um livro.
Em 5 meses ela já havia lido 50 livros.
Em 5 meses, todo o vazio que inundava seu peito desde que nascera prontamente desapareceu.
E em 5 meses suas notas despencaram de vez.
No fim do ano, Mario de Souza de Andrade foi chamado novamente à direção do colégio de sua filha. O assunto em questão foram as notas baixíssimas da menina, que a fariam repetir a série no ano seguinte. A filha de um dos maiores banqueiros do país não poderia ser uma repetente. De jeito algum! Rapidamente um acordo foi feito e o nome de sua filha já tinha sido passado para os aprovados do ano seguinte.
Enquanto o pai dava mais um cheque à diretora do colégio, Maria Cecília acompanhava o trajeto de uma lagarta, que subia pacientemente uma árvore. Tinha uma cor vinho e era tão peludinha que dava até vontade de tocar! Mas, segundo o livro: “Biologia para Iniciantes, volume 1” que havia folheado na biblioteca do colégio, era melhor não fazê-lo, pois podia se queimar. Tinha lido no livro também que aquele bichinho rastejante se transformaria numa linda borboleta, dessas que apareciam em sua ampla casa de verão que tinha em Ouro Preto. Maria Cecília amava borboletas e brincava de voar com elas sempre que seus pais tiravam férias. Porém, agora, olhando para os pelos em seu corpo, que começavam a crescer, e sua barriga, que nunca tinha sido muito reta, Maria Cecília viu que estava mais para lagarta do que para borboleta. Seus olhos cor de açafrão se encheram de lágrimas. Não queria ser lagarta. Nada contra a bichinha peluda e gordinha, ela era até muito simpática. Mas borboletas podiam voar! E esse era o desejo que a menina possuía desde que se conhecia como ser humano.
Bem, não podia ser difícil. Se a lagarta, um bichinho tão pequeno e lento conseguia virar uma borboleta, por que ela não? Maria Cecília escalou a árvore como se o fizesse com freqüência. Com certa dificuldade, chegou até o primeiro galho e sentou-se ali, agarrando-se ao tronco. E agora, o que fazer? Segundo lembrava de ter lido no livro, a metamorfose era um processo. Talvez fosse só ficar ali, esperando. Uma hora a mágica iria acontecer e ela sairia voando para longe, como sempre quis.
Esperou um, dez, vinte, trinta minutos e nada acontecia. Não sentia nem um pelinho sequer cair do corpo ou qualquer mudança mais significativa. A única mudança que havia notado era o som estridente da voz de sua mãe, gritando o seu nome, procurando-a sem parar pelo colégio.
Ao ver que a mudança não acontecia, a decepção lhe atingiu. Começou a chorar copiosamente, pois seus maiores sonhos e expectativas não haviam se realizado. Novamente Maria Cecília se via caindo no abismo da desilusão e parecia doer mais ainda do que a primeira vez.
Ao abrir o berreiro, Mario de Souza Andrade avistou a filha no galho da árvore. Um empregado do colégio foi designado para tirar a menina de lá e ele assim o fez. Levando novamente mais palmadas no bumbum, seu pai prometeu que ia fazer a menina finalmente estudar e tirar boas de qualquer jeito. Contratou professores particulares, comprou mais livros didáticos, cadernos de exercícios, tudo, tudo pra que a menina tomasse jeito e se encaixasse nos sonhos que lhe foram impostos desde o primeiro suspiro. Mas todos os esforços foram nulos perto do desinteresse da menina em ser alguém na vida.
Para que estudar quando havia toda uma biblioteca a explorar?
Não sabia por que tinha que absorver todas aquelas coisas que jamais lhe seriam úteis, quando todo o conhecimento que precisava, sobre a vida e as pessoas, poderia ser buscado nas paredes mágicas de uma biblioteca, nas páginas dos milhões de livros que existiam pelo mundo. Poderia aprender o que quisesse e quando quisesse, sem pressão de professores autoritários, sem os gritos dos seus pais que faziam questão de lembrá-la que ela nunca seria o bastante para nada, sem uma nota sobre o papel de uma prova não constasse o quanto verdadeiramente valia o seu cérebro.
Por toda sua curta vida sentira-se como uma peça de quebra-cabeças do qual nunca fez parte. Era como um defeito de fábrica, uma peça que havia caído naquela caixa por acidente e o comprador tentava a todo custo enfiá-la num buraco ao qual nunca pertencera.
Maria Cecília cresceu, mas não apareceu.
Sua mãe insistia em apresentar-lhe pretendentes da alta sociedade. Pretendentes que possuíam carros pomposos e apenas compravam seus chiquérrimos paletós de um famoso alfaiate de Paris. “Uma mulher apenas se torna mulher quando se casa”, repetia a sua mãe vinte e quatro horas por dia, esperando que o conto clássico da donzela indefesa entrasse na cabeça de uma menina de uma vez por todas. Afinal, todas as mulheres nascem de um pecado que nem foi cometido por elas. E só um homem viril, bonito e rico para tirar tal desgraça do sexo feminino.
Maria Cecília apenas revirava os olhos, enquanto deixava seu pescoço ser rodeado por colares de pérolas e prendia a respiração cada vez que a responsável pelo seu nascimento tentava faze-la caber num vestido menor do que seu tamanho.
Mas Maria… Ah, Maria!
Maria Cecília não nascera para ser Bela Adormecida. Com todo o respeito que devia aos irmãos Grimm, sua personagem principal era a personificação de tudo o que ela mais desprezava no mundo. Preguiça, acomodação e amores eternos, despertados por um beijo, não faziam qualquer sentido à sua mente.
Maria Cecília queria viajar. Conhecer o Oriente, visitar a Muralha da China e passar por lugares históricos onde suas heroínas favoritas haviam conquistados grandes feitos. De acordo com os livros que devorava diariamente na biblioteca de sua cidade, o oriente era um lugar mágico, povoado de lendas encantadoras, dragões que jogavam fogo pela boca, samurais que se tornavam líderes espirituais, batalhas épicas, travadas em nome de um bem maior e doutrinas transcendentais que alguns livros diziam até vir de outro planeta.
Maria Cecília queria uma vida de heroína, não de princesa.
Não nascera para saias, vestidos, colares de pérolas, bailes às dez da noite e pretendentes que assemelhavam-se a príncipes de histórias infantis.
Nascera para a vida. Para a verdadeira vida: aquela que é vivida lá fora. Queria usar calças, montar livremente num cavalo, percorrer as montanhas da Índia, chegar ao Tibet, visitar monges, aprender novas culturas, novas línguas, novas formas de saber, novas formas de viver. Para Maria Cecília, a vida era uma fonte inesgotável de riqueza que ia muito além de um marido ao seu lado e um diploma em sua gaveta.
Mas era uma heroína apenas em sua cabeça. Dentro de sua enorme casa, cheia de pessoas com mentes vazias, Maria Cecília não era nada além de mais um móvel encostado em um ângulo qualquer, que poderia ser manejado e manobrado de acordo com a vontade de seus donos. Tentava falar, mas não tinha voz. Tentava lutar, mas não tinha forças. Sentia-se invisível. Era vista, era tocada, ouvia seu nome todos os dias, mas percebia-se como um fantasma transparente e vazio, que existia apenas por existir, sem qualquer propósito maior neste mundo.
Sentia-se sozinha ao lado de pessoas. Quanto mais vivia e convivia com elas, mais achava-se só. Seus ouvidos eram entupidos o tempo todo com discursos sobre como toda mulher precisava da companhia de um marido para não morrer sozinha. Esta ideia a aterrorizava. Quando vislumbrava seu futuro em sonhos, não se via como um amálgama de alguém, como se sua alma fosse de outro corpo que não o seu.
Queria que a vissem. Queria que a enxergassem. Ela estava ali, ela existia, se fazia presente. Tinha sonhos, desejos, vontades. Tinha pavor de limão, amava a arroz e achava o vermelho a cor mais sensacional do mundo. Mas ninguém se importava, ninguém perguntava. Aos poucos, foi desaparecendo dentro de sua própria casa. Aos poucos foi desaparecendo dentro de si mesma.
Foi aos 19 anos que resolveu tomar uma decisão radical. A fome que tinha pela vida não poderia mais ser aniquilada dentro de uma prisão de luxo. Ela queria mais, muito mais do mundo. E iria em busca dele.
Maria Cecília pegou uma mochila, colocou 4 livros, uma blusa, uma peça de roupa íntima, 2 pacotes de biscoitos e deu um último adeus ao seu quarto, companheiro de todas as dores, amigo de todas as horas e confidente dos gritos que gritara em silêncio. Sua mãe conversava com o pai no jardim de inverno, enquanto os empregados estavam ocupados demais com a preparação da festa de aniversário do senhor da casa para notar uma moça baixinha e com o universo no olhar dirigir-se à porta com sua pesada mochila.
Maria Cecília foi embora pela porta da frente com um sorriso nos lábios e os sonhos nas costas. Seus olhos de açafrão finalmente explodiram em cor.
Em casa, ninguém notou sua ausência.

Projeto #52contos – 1 Conto Por Semana Durante 1 ano

gh

Faz um tempo desde que terminei o meu projeto #365secrets, onde diariamente postava algo sobre mim todos os dias no período de 1 ano. Foi com este projeto que o Sonhos de Letras começou. Gosto muito de projetos. Eles costumam ajudar, principalmente a pessoas indisciplinadas como eu, a dedicar-se a algo e manter-se na linha e me fazem sentir que eu realmente sou capaz de me comprometer com algo e terminá-lo.
Ray Bradbury, escritor americano e autor do famoso livro Fahrenheit 45, deu um importante conselho a novos escritores: não começar com romances (o que fiz, já que comecei a escrever com fanfics que iam de 200 a 470 páginas, e acho que posso chamá-las de romances, mesmo que a qualidade seja… bem, qualidade de fanfic…), mas sim por contos. Segundo Bradbury, se você escrever um conto por semana durante um ano, no fim terá 52 contos produzidos e dificilmente todos eles serão horríveis. É escrevendo que se aprende a escrever, é errando e fazendo muito feio que conseguimos chegar a realizar algo primoroso. Como já disse e digo de novo, sou muito indisciplinada e insegura, dificilmente termino algo na minha vida e é de se admirar que eu tenha realmente terminado mais de 10 histórias completas alguns anos atrás. Além disso, eu preciso escrever. Muito. Sinto que tenho escrito muito pouco, que estou aprendendo muito pouco e tenho ânimo pra produzir muito pouco ou quase nada. Por isso resolvi seguir os conselhos do tio Ray e iniciar esse projeto, do qual eu prometo – com a mão direita levantada e a coluna ereta – postar 1 conto a cada quinta-feira, até dezembro de 2016. E salvo alguns imprevistos que sempre acontecem na vida, prometo ir até o fim do projeto com muita disciplina e determinação! E, acima de tudo, querendo aprender e melhorar cada vez mais a minha escrita e o meu trabalho como um todo.
Postarei também no meu instagram toda quinta-feira (ou talvez antes, se a minha disciplina me surpreender) uma foto com um trecho do conto, antecipando o que vocês – esperoporfavorleiammeuscontosnuncapedinadatenhonervosodeescreverprovazioentãoleiamamovocesobrigada – vão ler na versão final.
Sei que vai ser difícil trazer algo ótimo toda semana até 2016, mas prometo dar o melhor de mim em cada linha escrita e sempre trazer algo que seja verdadeiro e que possa chegar, de alguma forma, ao coração de vocês.
Obrigada eternamente a quem sempre visita o site e gosta do escrevo, espero que sigam me acompanhando neste novo projeto! <3