#16 – Quando O Vento Sopra (E Ele Sempre Vem Soprar)

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Sempre que podia, Vanessa escondia toda a poeira por debaixo do tapete.
Não aquela que fica no canto da sala, o pozinho branco que insiste em aparecer diariamente nos lugares mais cerrados e inimagináveis. Mas a poeira que se escondia atrás de seu peito quando suas emoções ficavam fora de controle.
Vanessa não era uma pessoa comum. Algo diferente acontecia com ela: seus sentimentos não eram apenas aquela sensação incômoda que a maioria das pessoas sente na região do estômago ou do coração. Os sentimentos de Vanessa viravam poeira concreta, tão concreta que era possível pegar nas mãos e ver escorrer entre os dedos, como um punhado de areia. Era um transtorno para a jovem garota ter de limpar todos os dias a sujeira causada pela sensibilidade de seu corpo. Odiava ver aquilo, sentir-se coberta de pó o tempo inteiro era irritante. Por isso, cada vez que sua sensibilidade era afetada e um monte de poeira caía sobre o chão, Vanessa pegava a vassoura e escondia tudo debaixo do tapete o mais rápido possível.
Havia uma outra solução, dizia a curandeira (ou feiticeira, como dizia as más línguas), de seu vilarejo. Em um dia do passado, quando foi procurar secretamente ajuda para seu problema, a velha curandeira disse-lhe que uma outra opção seria encarar de frente sua sujeira, revirar todo o pó negro e asqueroso que espalhava pelo chão. Compreender e a aceitar o que seu corpo produzia era a melhor maneira para afinar aquela poeira. Ela desaparecia no minuto em que Vanessa fizesse isso. Mas Vanessa não acreditou, apressou-se a negar tal solução, isso era impossível, disse enquanto abria a porta da pequena casa e deixava a curandeira falando sozinha.
Retornou à casa inconformada, revoltada por ter nascido sob tal condição. Era uma amaldiçoada, com certeza alguém lá em cima a detestava para criá-la desse jeito. Ou era um karma muito grande a se pagar, se é que essa baboseira de vidas passadas realmente existia. Toda a raiva de si mesmo e do mundo produziu mais e mais poeira, cada vez mais suja, cada vez mais espessa. E lá ia pobre Vanessa, pegar uma vassoura para esconder tudo debaixo do tapete.
Vanessa foi ficado mais velha e sua casa não tinha mais tapetes para esconder tanta sujeira. Continuava olhando o mundo pela sua janela, imaginando uma vida perfeita, imaginando um destino diferente, desses que as pessoas de sorte possuem, enquanto atrás de si a poeira só ia aumentando e ganhando o formato de pequenas dunas, que as centenas de tapetes comprados já não conseguiam mais esconder.
Foi na primeira semana de outono que aconteceu. Após um dia de muito calor, a cidade foi invadida por uma ventania arrebatadora. O vento foi engolindo tudo o que aparecia pela frente, janelas, portas, telhados e até mesmo alguns animais de pequeno porte.
Vanessa tentou se esconder, mas não tinha espaço. A casa estava completa de poeira, a sua poeira que acumulou debaixo de tapetes, da cama, atrás do sofá e dentro do armário. Quando o vento entrou, não teve piedade de sua condição. Descobriu toda a poeira que Vanessa acumulou durante a vida e arrastou a garota para dentro do que havia construído.
Vanessa afogou-se em seu próprio mar.

*

Quando as pessoas saíram de suas casas para ver os estragos causados pelo vento, perceberam uma montanha de terra negra no lugar que antes era a casa de Vanessa. Olhos perdidos buscavam em outros olhos alguma explicação para tal fenômeno, mas ninguém parecia achar uma resposta para o sumiço da moça e o aparecimento daquele monte de terra escura e pesada. Percebendo que havia bastante trabalho a ser feito para reconstruir o vilarejo, as pessoas se afastaram aos poucos, comentando ainda com perplexidade o acontecido.
Apenas um rosto triste permaneceu.
Com lágrimas nos olhos, a velha curandeira ajoelhou-se e fez o sinal da cruz para o monte de terra à sua frente. Fez uma rápida e sincera prece, dedicou um último olhar à poeira da menina e foi embora desejando que ela tivesse um pouco mais de coragem na próxima vida.

#15 – Mulher XXI

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Uma sala vazia.
Uma mulher.
Um livro.
Paz.
Finalmente.

“No fim de estradas desertas e sinuosas encontra-se…”

Passos no corredor.
Ele acordou.
Vai começar a falar em 3…2…1…

– Querida, já deixou as crianças na escola?
– Aham.

“No fim de estradas desertas e sinuosas encontra-se o caminho…”

– Eles foram bem? Felipe e Marcos se comportaram no trajeto?
– Aham e aham.

“No fim de…”

Ele se senta ao seu lado.
Vai começar a falar de novo.
3…2…1…

– Finalmente! Anda difícil controlar aqueles dois. Sei que irmãos brigam, mas está ficando preocupante. Você deveria conversar de novo com eles.
– Vou ver.

“No fim de estradas desertas…”

– Tem que ver mesmo, antes que seja tarde demais. Enfim, vou me arrumar para o trabalho. O café da manhã está pronto?
– O café está na cafeteira e tem pão, presunto e manteiga na geladeira.

“No fim…”

– Poxa, amor, que que custa preparar para mim? Vou ter um dia tão cansativo hoje!
– Marcelo, suas mãos não estão aí só para enfeitar! E caso você não tenha reparado, eu estou tentando ler um livro!
– Ah, mas isso você pode fazer depois! Se eu for me arrumar e ainda ter que preparar o café da manhã, vou chegar atrasado ao trabalho.
– Então faça que nem eu: acorde cedo e adiante tudo o que você precisa fazer. E se estiver precisando de uma empregada, contrate uma, porque eu não sou obrigada! Agora me dá licença que eu vou ler no banheiro!

Passos no corredor.
Resmungos vindo da sala.
Uma porta é batida.
Suspiro.
Abre novamente o livro.
Paz.
Finalmente.
Mas por quanto tempo?
Por quanto tempo até que ele precise usar o banheiro?

“No fim de estradas desertas e sinuosas, existe o caminho para a liberdade…”

#14 – A Arte De Contar Borboletas

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Alicia decidiu viver pela beleza.
Não a beleza superficial de pessoas, rostos, corpos. Mas pela beleza estampada em cada canto do mundo. Decidiu deixar-se guiar pelos seus olhos, caçando motivos para continuar por aqui mais um dia.
“Um dia após o outro”, eles diziam. Nada de pensar em futuros, deixar-se comer pela ansiedade do desconhecido. “Conte até dez”, diziam à exaustão no grupo de apoio, “cada vez que você pensar em desistir.” Mas números não fariam ninguém continuar lutando. Números eram feios, sem forma, chatos. Números habitavam o abstrato, nunca fizeram muito sentido. Alicia decidiu contar borboletas, dessas de asfaltos, que pareciam tão perdidas quanto ela mesma.
Desde criança amava deixar-se levar pelo bater de asas hipnotizante de uma borboleta. Havia algo no jeito do pequeno inseto que fazia com que Alicia fechasse momentaneamente as feridas. Toda a violência, o medo, o pânico, a falta de ar pareciam fazer parte de uma outra vida quando por ela um grupo de borboletas passava, em busca de um canteiro de flores para ali admirarem a tarde. E parada no meio da calçada, Alicia passava a tarde com elas, numa comunhão silenciosa de beleza e alegria.
No grupo de apoio também disseram que cada pessoa precisa encontrar um motivo, por menor que fosse, para continuar vivendo. Acorde e faça um desenho, acorde e faça uma poesia, acorde e adote um animal, veja um filme, grave um documentário, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo já seria o suficiente para manter uma vida dentro de um corpo. Alicia decidiu acordar e procurar pela beleza de borboletas nos mínimos lugares. Identificava-se com elas. Imaginava a diferença de uma borboleta de asfalto, que precisava buscar o colorido de uma flor dentre tanta fumaça, barulho e pessoas, para uma borboleta do campo, que poderia ter um tapete de rosas, margaridas, camélias e gardênias ou até mesmo muros repletos de bouganvilles, todos à sua disposição. Borboletas de asfalto pareciam mais tristes e não sabiam como voltar para seu lugar de origem. As borboletas a faziam se sentir menos incompreendida neste mundo cinza do asfalto.
Comprou uma agenda para que pudesse registrar o número certinho diariamente. Ao invés de ficar em casa velando o seu passado em uma redoma de vidro, Alicia passou a sair todos os dias pela cidade que tanto detestava apenas para caçar a beleza nas asas de uma borboleta.
1, 2, 3, 4 e Alicia conseguia respirar sem a pressão contra o peito.
5, 6, 7, 8 e Alicia abria um sorriso ao imaginar-se como uma borboleta voando pra longe dali. Quem sabe, para longe de si.
Alicia sabia que não podia ficar só nisso. Um dia precisaria olhar nos olhos do monstro que lhe habitava e lutar contra ele. Mas ainda não. Ainda precisava de mais tempo para acalmar a respiração e controlar os pensamentos autodestrutivos. Seu tempo era o tempo de uma criança; passinhos de bebê, como costumava dizer.
Hoje, sua maior preocupação era chegar ao grupo de apoio e contar a todos sobre a beleza da arte de contar borboletas. Era algo pequeno, que qualquer pessoa podia fazer, mas que, de alguma forma, a deixava com vontade de levantar da cama pela manhã. Encontrar beleza nas pequenas coisas realmente pode salvar vidas.
Pela primeira vez em muito tempo Alicia se sentia parte de algo. Como uma borboleta de asfalto, procurar pelo colorido do mundo seria o seu objetivo.
Por hora, era o bastante.

#13 – W.O

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Marcela e Rodrigo foram os escolhidos para disputar a final de um concurso literário promovido pela prefeitura de sua cidade.
Depois de várias etapas, pelas quais passaram com maestria, deixando os jurados embasbacados com tamanho talento para a escrita, era a hora de ver quem seria o melhor escritor jovem da cidade.
O desafio seria escrever um curto romance de até 120 páginas, tema livre. Teriam duas semanas para realizar o feito e entregar seus trabalhos. A partir do primeiro dia da grande final, Marcela e Rodrigo prepararam todo um cronograma para dar conta do desafio.
Rodrigo resolveu faltar as aulas na faculdade para focar-se em seu livro e sair vencedor do concurso. Durante as duas semanas, não colocou o pé fora de casa, não falou com amigos, não viu sequer a Juventus jogar a final da Champions League na televisão. Quando fazia uma pausa para descansar, Rodrigo ia comer o delicioso jantar preparado por sua mãe e em seguida fazia um roteiro das próximas cenas do romance, ajeitando todos os personagens que iriam se cruzar, as cenas, as frases de efeito que choviam em sua cabeça e os mínimos detalhes que fariam com que o livro não tivesse qualquer falha. No último dia do desafio, assim que colocou o ponto final em sua história, Rodrigo jogou-se na cama e dormiu até a hora de entregar o trabalho finalizado.
Marcela também preparou-se para a maratona. Tinha a ideia pronta na cabeça, inicio, meio e fim. A menina fora abençoada por alguém lá em cima com um talento para contar histórias. Era só imaginar um cenário, misturar a algo que realmente quisesse dizer e pronto! Todo um universo de personagens, enredo e estrutura fixavam-se em sua mente, dispensando a necessidade de anotar qualquer coisa no papel. Desde o primeiro dia, Marcela já sabia o que iria escrever e sabia que seria bom.
Porém, no segundo dia, sua mãe caiu doente. Dengue, foi o que os médicos disseram. O corre-corre fez com que Marcela adiasse seus planos de escrita. Afinal, família vem sempre em primeiro lugar.
Seu pai não pôde fazer muita coisa, pois trabalhava de 6h às 17h e tinha um patrão que não aceitava quaisquer desculpas. Chegava em casa cansado, quase morto, louco para comer o jantar que sua filha mais velha havia preparado.
No terceiro dia, Marcela teve de levar seus dois irmãos à escola. Na volta, precisou limpar a casa, preparar o almoço, checar a saúde de sua mãe, limpar os vidros, lustrar os móveis… Sentou-se para escrever, mas não conseguiu ir além da terceira página; era hora de buscar os irmãos e não podia atrasar um minuto sequer.
Marcela passou a noite toda em claro para que no quarto dia tivesse apenas 7 páginas prontas. Tirou um cochilo de duas horas e logo já estava de pé para levar seus irmãos à escola outra vez. Neste dia, seu pai chegou mais cedo do trabalho. “Faltou água”, ele disse, largando a camisa sobre o sofá e jogando as meias no chão. “Liberaram todo mundo, pois sem água ninguém pode trabalhar”. Marcela pediu para que seu pai comesse um sanduíche para o jantar, pois precisava adiantar o seu livro para a final do concurso. “Não posso comer sanduíche na janta!” replicou, ligando a tv para ver o jornal da tarde. “Amanhã vão fazer a gente trabalhar em dobro por causa da saída precoce de hoje, preciso estar bem alimentado! Não custa nada você fazer um ovinho e esquentar o feijão!”.
Marcela nem ligou seu computador para fazer um ovinho e esquentar o feijão para o seu pai. Mais uma vez, naquela noite, dormiu um par de horas para conseguir completar apenas mais  cinco páginas de sua história.
E assim os dias seguiram. Sua mãe apresentava uma certa melhora, mas nada ainda que a deixasse levantar da cama para fazer qualquer coisa. Repouso e alimentação eram essenciais para alguém se recuperar de uma dengue. No décimo dia, Marcela já via sua chance de ganhar o concurso e se tornar uma escritora cada vez mais longe. A crise de choro que teve durante a madrugada impediu que escrevesse uma linha sequer.
Havia chegado o dia para a entrega dos trabalhos. Marcela e Rodrigo chegaram ao mesmo tempo e se cumprimentaram na escadaria da prefeitura da cidade. Rodrigo tinha um sorriso de satisfação nos lábios. Marcela tinha os olhos vermelhos e o rosto inchado.
Rodrigo foi o primeiro a entregar o trabalho para a bancada do júri. 120 páginas corretas, devidamente encadernadas. Os jurados observaram o título e as primeiras páginas e sussurraram sobre o livro que tinha tudo para ser interessante.
Marcela olhou timidamente para a bancada e hesitou antes de entregar seu trabalho. “São só 90 páginas”, explicou a menina, sendo observada pelos olhares julgadores. “Foi só o que deu pra fazer, mas a história está completa! Minha mãe teve dengue e…”
Foi interrompida. O líder da bancada de jurados não deixou que se explicasse. Afinal, regras eram regras. Se o concurso havia dito que o romance precisava ter 120 páginas, então assim deveria ser. Pediu que a menina levasse suas folhas de volta para a casa, pois não poderia ser julgada.
Rodrigo foi dado como o grande vencedor mesmo sem ter tido o seu trabalho avaliado. Fechou um contrato decente com uma importante editora, teve seu nome estampado nos jornais da cidade como o jovem mais promissor da literatura no país e mesmo antes do lançamento do livro já havia ganhado uma legião de fãs e admiradores.
Enquanto Marcela… Ah, Marcela!
Marcela regressou à casa para fazer um ovinho e esquentar o feijão.

#12 – Mentirinhas

reflection

Amanhã tudo seria diferente. Ela só precisava tentar mais um dia, dar mais uma chance, esperar que as coisas se colocassem no lugar. Se tivesse boa vontade e tentasse olhar a situação com outros olhos, tudo voltaria a ser como antes.
Lorena precisava acreditar nisso. Seu casamento e a felicidade de outras pessoas dependiam de suas decisões. Não podia desistir só porque havia ficado difícil, vazio, sem sentido. Sempre ouvira que não tinha resistência ante as dificuldades, como sempre largava tudo aquilo que não lhe fazia bem e era verdade, tinha que admitir. Mas uma pessoa… Uma pessoa era uma pessoa. Jorge tinha sentimentos, responsabilidades, fizera tanto por ela e por sua família! Ela não podia desistir. Não podia simplesmente chamar seu nome na hora do almoço e dizer: “quero o divórcio”. Por mais que pensasse em fazer isso todos os dias nos últimos dois anos.
A felicidade veio com rapidez no começo! Jorge era um psiquiatra respeitável, um ótimo homem, que sempre sustentou e cuidou de sua família e amigos. Ele era o tipo de pessoa que todo mundo gostava de estar perto, sua energia era atraente e tinha um olhar que fez as pernas de Lorena tremerem na primeira vez em que se viram. Sete meses de namoro foram necessários para que ambos soubessem que se amariam para sempre. Mas o para sempre não parece tão sempre quando se tem vinte e um anos. Pelo menos não parecia para Lorena.
Dez anos de casamento e ainda o amava, de certa forma. Contudo, não queria mais uma eternidade ao lado de alguém que a fazia se sentir como um nada. O tempo, as pessoas, a vida, tudo muda. Menos a liberdade de tomar decisões sem ser cruelmente julgado. E Lorena sabia que teria de romper, não só com Jorge, mas com as duas famílias. Seria um desastre, uma Terceira Guerra Mundial, um dilúvio bíblico. Afinal, o que mais esperar de um casal bonito, perfeito, a match made in heaven que tem tudo na vida, se não a felicidade eterna? No fim de tudo era a felicidade dele que importava.
Lorena não possuía nenhuma dívida com bancos, mas sentia-se moralmente endividada com todas as pessoas que lhe deram o mundo. Seus pais ficariam arrasados em ter uma filha divorciada, depois de todo o dinheiro gasto com educação e tempo perdido tentando fazer com que fosse uma boa cristã. Suas irmãs, tão certinhas e católicas, provavelmente não falariam mais com ela. E Jorge… Jorge se sentiria o homem mais injustiçado do planeta! Depois de todas as coisas, depois de todos os momentos de dor, dos segredos compartilhados, da ajuda financeira que havia dado à sua família quando seu pai quase perdeu tudo em um mau negócio, como ela se atreveria a deixá-lo assim? Não, não, não podia ser! Seria uma bruxa, uma ingrata, uma mulher cruel. E por isso continuava, por isso se esforçava todos os dias para que tudo voltasse como era antes, para uma época onde sentia algo dentro de si e podia encontrar alguém que conhecia ao olhar-se no espelho.
Jorge agora dormia ao seu lado e ela deveria tentar fazer o mesmo. Pensar em sua própria vida só causava uma queimação inquietante na garganta e uma taquicardia que só se acalmava com alguns comprimidos que uma amiga havia dado em segredo para reduzir o estresse. Se continuasse deixando que esses pensamentos criassem raiz em sua cabeça só iria acabar em lágrimas e sem saber como explicar a Jorge o motivo de seu choro convulsivo.
Amanhã tudo seria diferente. Essa fase, esses dois últimos anos desapareceriam alguma hora, algum dia. Se conseguisse dormir agora, se conseguisse relaxar e se convencer de que era uma mulher de sorte, teria o seu final feliz. Pequenas mentirinhas talvez em algum momento se tornem grandes verdades.
Amanhã tudo seria diferente.
Amanhã ela seria feliz.

Quando levantou-se da cama no dia seguinte, Lorena procurou esperançosa por seu reflexo no espelho e não o encontrou.

#11 – Sorte

sorte

Foi realmente duro vê-lo partir. De todas as dores já sofridas e de todas as esperanças destroçadas, nenhuma dor se comparava a esta. Quando gritou para que partisse e buscasse uma vida melhor, acreditou estar fazendo o certo para os dois. Mas não era verdade. Vê-lo ir embora para sempre não era o melhor para Eliseu.
Enquanto via o seu pelo amarelo desbotado e o corpo magro dobrar a esquina e perder-se de vista, lembrou de como ele havia chegado em sua vida.
Foi num dia quente, muito quente na cidade do Rio de Janeiro, desses que deixa até o mais otimista carioca se perguntando como alguém consegue agüentar tamanho calor. Se estava ruim para os empresários em sua salas refrigeradas e os carros de última geração, bem equipados para suportar uma tarde inteira no deserto do Saara, estava bem pior para Eliseu, sentado sobre o asfalto quente, debaixo de uma marquise de uma loja popular. Eliseu vivia nas ruas já há dois anos, com sua perna quebrada e uma ferida que havia infeccionado há alguns meses. Vivia de moedas jogadas sobre um potinho transparente que ele havia achado no lixo certa vez e só. Às vezes era brindado por uma alma caridosa com um salgado no quiosque ali do lado e já considerava o seu dia feito. Às vezes tudo o que lhe restava eram sobras de frutas, refrigerantes ou saquinhos parcialmente cheios de biscoitos que as pessoas jogavam no lixo do poste à sua frente.
Mas neste dia especial, apesar do calor sufocante, ele apareceu em sua vida. Magrelo, de olhinhos pretos e pelo desbotado, ele se jogou ao seu lado debaixo da marquise, muito cansado, como se tivesse andado longas distâncias para chegar até ali. O cachorro estava em petição de miséria, pior até do que Eliseu. Parecia não comer ou beber nada há semanas. Eliseu pegou o que sobrava da sua garrafinha d’água e, movendo delicadamente a cabeça do cachorro, deu-lhe de beber. Enquanto sorvia do líquido da vida, o cachorro o mirou com gratidão no olhar e foi se achegando cada vez mais perto do homem que havia lhe dado uma sobrevida. Eliseu colocou um pano velho sobre o chão e mandou que o cachorro deitasse ali para não se queimar com o calor do asfalto. Mesmo sem nunca terem se conhecido antes, o cachorro obedeceu e se esticou sobre o pano como se fosse a melhor caminha do mundo. Eliseu ficou encarando o cachorro que adormeceu ali mesmo, sob aquelas circunstâncias, e se perguntou se ele ficaria muito tempo. Afinal, mal tinha condições de salvar a própria vida. Seria muito complicado ter de alimentar uma segunda boca.
Contudo, algo muito estranho começou a acontecer. Algumas horas depois, uma velhinha se aproximou de Eliseu e perguntou se ele não estaria interessado no frango assado que havia comprado para o neto. Segundo ela, o netinho recém havia se tornado vegetariano e ela não tinha ideia do que ia fazer com aquilo. Levantando-se numa perna só, Eliseu pegou o saquinho da mão da senhora e lhe agradeceu mil vezes pelo regalo, desejando-lhe muitas bênçãos na vida. Assim que tornou a sentar-se, o cachorro despertou e levantou o focinho para sentir o aroma irresistível que vinha de dentro do saco. Os olhos do cachorro de repente foram tomados por um brilho ansioso e Eliseu não precisou de mais sinais para saber que o cachorro deveria estar mais faminto do que ele. Dividiram o frango assado com a alegria de um bêbado e Eliseu começou a chamar o pequeno cachorro de Sorte, pois desde antes de sua chegada ninguém havia lhe dado algo tão grande para comer.
Com o passar dos dias, Eliseu foi ganhando empadão, feijão com arroz, salgado no almoço e no jantar, e tudo dividia com Sorte ao seu lado. Talvez o cachorro atraísse mais pena e compaixão do que um ser humano, mas isso não importava agora.
Antes de chegar à sua vida, Eliseu não tinha noção de que pior do que um estômago vazio, era um coração vazio. Sempre acreditou não ser digno de amor e desde sua infância aceitou essa ideia. Algumas pessoas nasciam para a felicidade e outras não. Eliseu fazia parte do segundo grupo. Muitos colegas seus de rua praguejavam contra os céus e tinham ódio de tudo e todos à sua volta, maldizendo os que eram felizes e haviam nascido em berço de ouro. Eliseu apenas aceitava a vida que lhe fora designada e procurava não analisar toda a sua história. Se inconformar e se revoltar não o faria rico, não o faria mais feliz, não traria nada de bom. Então, como um morto-vivo, Eliseu vagava pelas ruas vivendo um dia após o outro, como alguém que esqueceu seu passado e não possui quaisquer perspectivas para o futuro. Mas isso foi até Sorte chegar. Ele admitia que no começo havia deixado o cachorro ficar pois era graças ao animal que ele estava comendo muito melhor. Mas ao contrário de Eliseu, Sorte não vivia apenas para comer. Durante o dia ficava correndo ao redor dele, querendo brincar e com uma felicidade estampada no rosto de alguém que não tinha ideia do quão miserável é a própria vida. Mesmo com uma perna inutilizada, Eliseu fazia o que podia para corresponder às investidas do animalzinho e, em troca, ganhava grandes e babadas lambidas no rosto. À noite, Sorte abandonava o seu paninho para se enroscar junto às pernas de Eliseu. No começo ele tentou protestar e mandou o cachorro de volta para sua cama, mas era inútil. No meio da madrugada, Sorte sempre voltava para junto de suas pernas, até que um dia Eliseu desistiu de lutar contra e deixou que o cachorro dormisse com ele. Com o passar dos meses, Sorte foi abrindo um espaço no coração de Eliseu que o mendigo nem lembrava que existia. Desde então sua vida era uma vida melhor, o calor não parecia tão calor assim e, quando a tristeza vinha sem ser convidada, Sorte a espantava com seus olhos negros e pelo desbotado. Eliseu sentiu que tinha tudo o que precisava… Até que começou a ouvir a palavra “crise” pela boca do povo. E com o passar dos dias foram desaparecendo os frangos assados, os empadões, os pratos feitos e qualquer sorte de ganhar comida que o cachorro havia trazido consigo. Sorte, que já estava mais gordinho e com um pelo até mais bonito, voltou a exibir ossos no corpo e pelo desbotado. O coração de Eliseu apertou-se e a sensação de impotência lhe trouxe pesadelos todas as noites. Agüentou por muito tempo o seu próprio estômago vazio e a ideia da morte nunca lhe havia sido assustadora. Mas ver seu cachorrinho cada vez mais magro, sem energia e sem conseguir abrir os olhos de tão fraco era muito diferente. Ver o sofrimento de alguém amado era a pior das dores e não sabia o que fazer para manter os dois vivos.
Numa manhã fresca, Eliseu teve de tomar a pior decisão de sua vida. Acordou Sorte e começou a conversar com ele. As pessoas que passavam por ali franziam o cenho e julgavam-lhe louco, mas Eliseu sabia que  Sorte podia entendê-lo muito bem.
Com lágrimas nos olhos, pediu para que fosse embora. Ao contrário de Eliseu, o cachorro podia andar e ir buscar um lugar melhor para viver. Sorte precisava buscar a esperança, precisava procurar algo para comer e sobreviver. O tempo que haviam passado juntos fora o melhor de sua existência, mas agora ele tinha que deixá-lo ir embora. O cachorro esboçou um gemido e os olhos negros e tristes arrebentaram o coração de Eliseu. Porém, não podia ser fraco. Guardou o paninho do cachorro e o expulsou do local que havia sido o lar dos dois grandes amigos por quase um ano. Sorte fez de tudo para voltar, para tentar convencê-lo de que era ali onde ele queria estar, mas os gritos de Eliseu foram mais fortes e o assustaram a ponto de fazer o cachorro sair correndo com medo do dono que havia se transformado tão de repente.
Eliseu não tirou os olhos de Sorte até que ele desaparece de vez. E ao ver-se sozinho e com um enorme buraco dentro de si, deitou sobre o seu pano e começou a chorar copiosamente.
Eliseu havia perdido tudo na vida, mas nada lhe afetou tanto como a perda de seu melhor amigo. A fome e a sede já não importavam mais; Eliseu só queria morrer e se livrar desta desgraçada vida que lhe fora dada. Se sentia um azarado, um inútil que mal tinha pernas, que mal tinha ossos, que não tinha nada e nada podia fazer. Chorou e chorou durante a tarde, durante a noite, durante a madrugada, até finalmente adormecer.
Acordou no susto, sentindo algo gelado tocar o seu pescoço. Piscou varias vezes até que seus olhos focassem no focinho preto e na língua arfante estirada à sua frente. Sorte havia regressado e, ao seu lado, permanecia uma grande coxa de frango intacta. Eliseu não podia acreditar que ele havia regressado depois de como havia agido no dia anterior! Sorte não tinha apenas voltado, ele havia trazido o resultado de sua pequena caçada pelos lixões por aí e havia trazido comida para ambos, como num bando, como numa família. Abraçou o cachorro entre lágrimas e recebeu várias lambidas de amor em troca. Eliseu pediu mil desculpas ao cãozinho, prometendo nunca mais expulsá-lo, nem que para isso os dois precisassem morrer juntos com toda aquela miséria. Dividiram a coxa de frango e comeram como se fosse o último banquete de suas vidas.
Ainda inebriado pelos acontecimentos dos últimos minutos, Eliseu não percebeu uma menina se aproximar. Havia acabado de comer sua parte da coxa enquanto ela se apresentou como Carina, uma estudante de medicina que fazia parte de um projeto social que reabilitava e dava uma nova vida aos moradores de rua. Ainda em silêncio, Eliseu escutou como a menina explicava que a infecção em sua perna era muito grave e que se não buscasse um tratamento ele poderia perder o membro. Com o jeito doce de uma jovem que ainda acredita que pode mudar o mundo, Carina perguntou-lhe se ele queria essa ajuda. Ela poderia ligar a qualquer momento para a ambulância do hospital em que trabalhava e ele seria levado para cuidar de sua saúde.
“Mas… E ele?”, perguntou Eliseu olhando para o seu cãozinho que tinha no rosto a felicidade de quem acaba de comer uma ótima refeição. Carina sorriu e disse que o cachorro seria muito bem cuidado na casa de apoio enquanto Eliseu tratava da ferida no hospital. Ele não era o único morador de rua a ter um melhor amigo de quatro patas e ela prometeu que o cachorro seria muito bem cuidado e que brincaria com outros amiguinhos na sua ausência.
Eliseu olhou para Sorte e caiu outra vez em prantos. Sorte não havia trazido apenas uma coxa de frango para o almoço. Todas as coisas boas pareciam girar ao redor do cachorro e Eliseu teve a plena certeza de que essa menina havia cruzado seu caminho somente porque Sorte havia regressado. Entre lágrimas e gemidos incompreensíveis, Eliseu conseguiu responder que sim, que estava disposto a se tratar, que estava disposto a ter uma nova vida e fazer tudo o que fosse preciso, desde que ela garantisse que ele poderia viver ao lado do seu melhor amigo. Do contrário, preferia continuar nas ruas. Carina pediu um voto de confiança e lhe garantiu que o final feliz deles estava assegurado. E finalmente com sua permissão, ligou para o hospital e pediu que viessem pegar Eliseu e Sorte.
Já dentro da ambulância, deitado sobre a maca, enquanto mediam sua pressão e avaliavam o seu estado físico, Eliseu olhou para Sorte e o agradeceu por existir. Em resposta, o cachorro deu duas lambidas em sua mão e o encarou com um olhar de amor.

#10 – O Girassol

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Numa manhã de primavera, um girassol abriu-se em flor pela primeira vez no mundo.
Quando os primeiros raios do sol tocaram suas pétalas, apaixonou-se. A luz atravessou suas folhas, passou pelo caule, até tocar a raiz e fazer o pequeno girassol transbordar de amor em cada canto de sua existência. Era recém-chegado à vida, mas o girassol já sabia que havia nascido, que fora criado para amar o sol e para sempre ser-lhe fiel.
Não havia outras flores ao redor. Era uma flor solitária que tinha florescido em um vasto campo verde com vista para a montanha. Assim seria melhor, ele pensou. Dessa forma poderia amar sozinho o sol e ser amado por ele, sem que nenhuma outra flor entrasse no caminho para competir.
Durante todo o dia o girassol sentiu-se feliz para sempre. Seria eterno enquanto o sol existisse. O sol insistia em mudar de lugar, movimentando-se da direita para a esquerda lentamente, se afastando cada vez mais da flor apaixonada. Mas o girassol, insistente e apaixonado, seguia seu rastro movendo também seu centro da esquerda para a direita, sem deixar o amado sair de vista. Entretanto, apesar das tentativas, o sol parecia escapar-lhe cada vez mais, indo em direção à montanha.
A brisa gelada trouxe consigo o crepúsculo. O girassol, agora doído e desesperado, não podia mais seguir o sol. Sua luz ia aos poucos desaparecendo atrás da montanha e não havia como correr até o outro lado para ver aonde o sol estava indo. O girassol tentou falar, pedir para que o sol ficasse, para que não o deixasse; mas não tinha voz. Era uma planta inútil, presa à terra, alma solitária em um terreno ermo. O sol era sua única esperança de vida. Se o sol não estava ali, não poderia existir.
A noite veio quando todo o brilho do sol desapareceu atrás da montanha. O girassol, triste e desolado, curvou-se, encarando a terra que o aprisionava. Seu corpo não era mais preenchido de luz, de calor, de nada. Era uma planta vazia, sem propósito de existência, sem ter para quem mirar o seu centro. A tristeza do girassol arrebentou-lhe, enfraqueceu-lhe as pétalas e uma por uma foi caindo sobre o campo verde que assistia a tudo sem nada poder fazer.
Durante toda a madrugada, o girassol foi definhando aos poucos, desprendendo-se de si mesmo, desprendendo-se da vida. A cruel solidão da noite lhe desmanchou em fragmentos com suas mãos frias e impiedosas. Olhando uma última vez para a montanha que escondeu o seu amado para sempre, o girassol deixou-se terminar pela escuridão que o devorou.
O vento veio recolher os seus restos e os levou pelos ares, carregando sua alma em direção ao desconhecido.
Sobre o vasto campo verde em uma madrugada de primavera, não havia mais nenhuma flor.
Quando o sol voltou a nascer na manhã seguinte, o girassol apaixonado não estava mais ali para recebê-lo.

#9 – Autobiografia

auto

 

Aconteceu numa pequena cidade, lá pelo interior de Minas Gerais.
Como forma de propagar a literatura e o interesse pelas palavras, um concurso foi proposto por um grupo de intelectuais e escritores: escrever uma autobiografia resumida e impactante. O vencedor seria aquele que conseguisse colocar em poucas palavras toda sua vida até o momento.
Professores, políticos e até mesmo os banqueiros da cidade apressam-se em escrever a melhor autobiografia possível.
Professores escreveram páginas como se fossem Machado ou Shakespeare; alguns até mesmo fizeram uma poesia impecável, com direito a métricas, rimas e aliterações.
Para os políticos foi bastante complicado resumir toda a glória de uma vida política em um par de laudas. Mas o talento para manipular as palavras foi o suficiente para que colocassem sobre o papel o necessário para conseguir convencer aos possíveis futuros eleitores que eles eram a melhor saída para qualquer problema da cidade.
Já os banqueiros focaram em como sua carreira de sucesso havia sido construída em prol dos mais pobres e necessitados e esperavam que, ao vencer o concurso, o banco seria um porto seguro para os homens endividados que precisavam fazer dívidas para pagar outras dívidas.
Todos estavam ansiosíssimos pelo resultado, pela ideia da fama e da glória que vencer o concurso lhes traria. O prêmio de ganhar 20 livros à sua escolha, além de um curso gratuito de escrita criativa para aprimorar seus dons literários não lhes valia de nada.
No centro da cidade, todos se reuniram para ouvir o nome do grande campeão.
E então, a surpresa.
Apesar dos esforços dessas estimadas e ilustres pessoas, a vencedora foi uma moça de 17 anos, chamada Luísa Barreto. Segundo o júri, uma única frase foi o bastante para resumir o que tinha sido sua vida até o presente momento.
Professores protestaram ao dizer que o concurso era uma fraude e que a tola menina deveria ser parente de algum jurado para conseguir o prêmio.
Políticos não se conformaram e prometeram que os jurados jamais voltariam colocar os pés na sua cidade.
Banqueiros rasgaram dinheiro com raiva e juraram que se qualquer um dos jurados dependesse de um banco para um empréstimo, iam morrer de fome.
E quanto a Luísa… Luísa segurou o prêmio de pé sobre o pequeno palanque improvisado que havia sido construído apenas para o anúncio do resultado do concurso. O único aplauso que se ouvia do humilde público era de sua mãe, que chorava de alegria e orgulho pela sua menina de ouro.
Pela primeira vez desde que se conhecia por gente, Luísa sentiu que sorria de verdade.

Abaixo, a autobiografia vencedora do concurso:

“Ele foi embora.”

#8 – Silêncio

silence

 

Tudo o que deixamos para trás é o silêncio.
Nos poucos minutos antes da despedida, só resta a ausência de palavras. O que mais precisa ser dito? O que precisa ser expressado que já não tenha sido em todas as declarações, em todas as brigas, nos xingamentos e até mesmo quando pensávamos que o outro não estava ouvindo? Não, não é necessário. Momentos antes de uma porta ser fechada para sempre tudo o que se escuta é o tic-tac dos ponteiros do relógio cronometrando quantos segundos faltam até que tudo acabe definitivamente.
Relógios, cronômetros, tempos… no começo eles estão ao nosso lado. São nossos melhores amigos quando encontramos aquele olhar em alguma esquina e as coisas ao redor parecem se mover lentamente. Tudo perde o seu ritmo habitual para que duas pessoas se encontrem, se olhem, se apaixonem. E uma vez que o objetivo do Universo é concretizado, o mundo volta a acelerar e retorna à sua correria de sempre.
Agora ele está indo embora.
Agora eu escuto os zíperes da mala se fechando, enquanto finjo checar qualquer coisa em meu celular. O tempo corre e corre sem parar. Pisco os olhos e os minutos avançam. Talvez seja o tempo nos cobrando, no fim de tudo, o hercúleo esforço que teve para retardar o mundo e fazer com que nossos caminhos pela primeira vez se encontrassem.
Agora as rodinhas da mala passam pela sala fazendo um ruído baixinho pelo piso frio. Fico esperando que ele diga qualquer coisa, qualquer coisa inútil mesmo, ainda que horas atrás tenhamos concordado aqui, nessa mesma sala, que juntos não dávamos mais certo.
Mas ele não fala.
No primeiro encontro tudo o que se ouvia no ambiente era a sua voz alegre fazendo questão de dizer às pessoas ao redor que ele havia encontrado a mulher com quem se casaria e teria muitos filhos.
Agora de seus lábios não saíam nem um suspiro e seu olhar foi incapaz de despedir-se do meu.
A casa estava limpa de suas coisas, de seu toque, de seu cheiro. A casa estava limpa dele. Escutei a porta abrir e em seguida fechar.
Acabou.
Tudo o que ele deixou para trás foi seu silêncio. E uma aliança de casamento sobre a mesma da sala.

#7 – Joana

joana

 

Dedicado à todas as “Joanas” espalhadas pelo mundo.

Ela era uma vencedora.
Pela sua pele pálida e as olheiras abaixo dos olhos negros, ninguém diria isso. Aparentemente era apenas uma mulher comum; mais uma mulher, mais uma Joana no mundo. Acordava, comia, trabalhava, voltava para casa, dormia… Vivia a rotina que a maioria vive diariamente. Por ser tão comum e desaparecer no meio da multidão, as pessoas mal notavam sua presença. Mas naquele dia, como em todos os outros dias anteriores, ela estava fazendo algo excepcional.
Ninguém sabia, ninguém via, mas Joana não era essa pessoa comum que todos pensavam. Todos os dias travava uma batalha contra si mesma, contra os fantasmas em sua cabeça, sob sua pele, correndo por suas veias, lutava contra o próprio corpo que se recusava deixá-la em paz. Viver sob as ameaças de um transtorno de ansiedade misturada a uma depressão que parecia ter nascido com ela era insuportável. Vivia medicada e isso melhorava seu humor na maioria das vezes, mas não era o bastante. Continuava insuportável para os outros, continuava insuportável para si mesma. Afastara de si a maioria dos amigos, pois não aguentava mais ter seus problemas definidos como frescura, como algo que passa, como um brinquedo que se conserta e então está pronto para durar por mais alguns anos. Joana não apenas tinha um problema; ela se sentia um problema, um estorvo, um peso para a maioria das pessoas à sua volta. Tentou tirar sua vida duas vezes e tudo o que ouviu da família foram as palavras “covarde” e “egoísta”. Quando toda a sua pele parece rachar, quando o coração incha de tanta melancolia e os olhos não se fecham nem por um minuto durante a noite, é difícil ser alguém altruísta. Mas a família que nunca estava presente nos piores momentos parecia não entender isso.
Graças a Deus tinha ainda pelo que lutar. Quando abria os olhos pela manhã, Joana lutava pelo sorriso no rosto da sua mãe, que sempre esteve ao seu lado, cheia de amor, confiança e sem julgamentos. Quando levantava o corpo da cama e colocava os pés no chão, Joana lutava pelo sonho de estudar Arte em uma das melhores universidades em Florença, na Itália. Quando pegava a roupa no armário e se vestia para ir ao trabalho burocrático que tanto detestava, Joana lutava pelo sustento de seus estudos em um país estrangeiro. Quando saía de casa para enfrentar a atmosfera suja e barulhenta que lhe esperava, Joana lutava para manter a sua atenção nos parques, nas crianças, nas flores, nas imagens bonitas que poderia pintar para expressar seus sonhos e suas dores sobre a tela.
Após a segunda tentativa frustrada de suicídio, Joana prometera à sua mãe e a si mesma que iria tentar, passo a passo, pouco a pouco a cada dia, tomando seus remédios regularmente e com intenso acompanhamento psicológico. E por mais que lhe parecesse impossível após uma noite de insônia e dores, ela se lembrava dessa promessa, de seus sonhos, das coisas bonitas que lhe ajudavam a respirar e seguia em frente.
Todos os dias Joana chegava ao trabalho como mais uma pessoa naquela enorme empresa; mas ela não era apenas mais uma pessoa.
Joana era alguém que lutava contra um transtorno de ansiedade e depressão há anos. E estava viva.
Hoje, por mais um dia, ela venceu.