#9 – Autobiografia

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Aconteceu numa pequena cidade, lá pelo interior de Minas Gerais.
Como forma de propagar a literatura e o interesse pelas palavras, um concurso foi proposto por um grupo de intelectuais e escritores: escrever uma autobiografia resumida e impactante. O vencedor seria aquele que conseguisse colocar em poucas palavras toda sua vida até o momento.
Professores, políticos e até mesmo os banqueiros da cidade apressam-se em escrever a melhor autobiografia possível.
Professores escreveram páginas como se fossem Machado ou Shakespeare; alguns até mesmo fizeram uma poesia impecável, com direito a métricas, rimas e aliterações.
Para os políticos foi bastante complicado resumir toda a glória de uma vida política em um par de laudas. Mas o talento para manipular as palavras foi o suficiente para que colocassem sobre o papel o necessário para conseguir convencer aos possíveis futuros eleitores que eles eram a melhor saída para qualquer problema da cidade.
Já os banqueiros focaram em como sua carreira de sucesso havia sido construída em prol dos mais pobres e necessitados e esperavam que, ao vencer o concurso, o banco seria um porto seguro para os homens endividados que precisavam fazer dívidas para pagar outras dívidas.
Todos estavam ansiosíssimos pelo resultado, pela ideia da fama e da glória que vencer o concurso lhes traria. O prêmio de ganhar 20 livros à sua escolha, além de um curso gratuito de escrita criativa para aprimorar seus dons literários não lhes valia de nada.
No centro da cidade, todos se reuniram para ouvir o nome do grande campeão.
E então, a surpresa.
Apesar dos esforços dessas estimadas e ilustres pessoas, a vencedora foi uma moça de 17 anos, chamada Luísa Barreto. Segundo o júri, uma única frase foi o bastante para resumir o que tinha sido sua vida até o presente momento.
Professores protestaram ao dizer que o concurso era uma fraude e que a tola menina deveria ser parente de algum jurado para conseguir o prêmio.
Políticos não se conformaram e prometeram que os jurados jamais voltariam colocar os pés na sua cidade.
Banqueiros rasgaram dinheiro com raiva e juraram que se qualquer um dos jurados dependesse de um banco para um empréstimo, iam morrer de fome.
E quanto a Luísa… Luísa segurou o prêmio de pé sobre o pequeno palanque improvisado que havia sido construído apenas para o anúncio do resultado do concurso. O único aplauso que se ouvia do humilde público era de sua mãe, que chorava de alegria e orgulho pela sua menina de ouro.
Pela primeira vez desde que se conhecia por gente, Luísa sentiu que sorria de verdade.

Abaixo, a autobiografia vencedora do concurso:

“Ele foi embora.”

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Se considera escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
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