#4 – Pedro e a Lua.

pedro lua

O primeiro amor de Pedro foi a Lua.
Quando parou para observar o enorme céu do sítio de seu avô em Juiz de Fora, Pedro não conseguiu mais tirar os olhos da grande lua cheia que se exibia ante seus olhos. O brilho parecia hipnotizar o menino, que teve de ser arrancado da janela por sua mãe, pois se dependesse de si mesmo não moveria jamais um músculo dali. Tinha apenas cinco anos de idade, mas já tinha escolhido aquela a quem amar pelo resto de sua vida.
Depois daquela paixão à primeira vista, foi difícil retornar para sua vida normal no Rio de Janeiro. Pedro morava no segundo andar de um apartamento de fundos e tinha toda a sua visão bloqueada por um novíssimo prédio de 15 andares construído ali há pouco tempo. Qualquer tentativa de observar o céu de sua janela era inútil, o que só fez aumentar a obsessão do menino por não poder ter aquilo que mais desejava.
Pedro foi crescendo contando a todos à sua sobre a Lua. Contou-lhes como se tornaria um astronauta apenas para tocá-la pessoalmente todo o seu amor. Os coleguinhas riram e se afastaram do menino que só tinha Lua na cabeça. Os pais preocuparam-se com sua obsessão inexplicável e o levaram ao psicólogo. Depois de algumas conversas com ele, o psicólogo foi dar a boa notícia aos pais: Pedro era completamente saudável e não havia nada com que se preocupar. Sua admiração pela Lua iria passar a qualquer momento; era coisa de criança. Era só lembrá-lo constantemente que isso era apenas um sonho, falar sobre como a vida era pra ser vivida na Terra e tudo ia ficar bem. Quando se tornasse mais velho, Pedro ia encontrar uma garota que o faria esquecer qualquer obsessão infantil.
Algumas primaveras passaram até que Pedro completasse 17 anos. A paixão pelo belíssimo satélite natural teve de ser guardado em um lado oculto de seu coração se realmente quisesse viver em sociedade. Mesmo o seu enorme e eterno amor não podia salvá-lo da solidão que engole os sonhadores desde os princípios dos tempos aqui na Terra. Rendeu-se à realidade, colocou os pés no chão e tentou com todas as forças viver uma vida normal.
Pedro passou em primeiro lugar no vestibular, conheceu uma linda e encantadora moça chamada Paula, e se tornou o maior orgulho da família. Contudo, nunca antes esteve tão vazio.
Para aplacar o buraco que parecia expandir-se cada vez mais dentro de si, Pedro saía às escondidas pelas noites do Rio de Janeiro, alheio a todo o perigo, apenas para olhar a Lua. Percebendo-se sozinho em alguma rua deserta, Pedro fazia uma reverência à sua musa e entre lágrimas declarava a saudade que sentia por algo que nunca tivera em mãos. Nesses momentos particulares da madrugada, onde ninguém mais poderia estar olhando, a Lua lhe sorria em seu formato minguante no céu e aumentava mais ainda seu brilho, correspondendo-lhe o amor e devoção. Sentindo-se reenergizado e correspondido em seus sentimentos, Pedro retornava à casa disposto a viver mais um dia, por ela e pelo sonho de um dia viver ao seu lado para sempre.
Mais primaveras passaram até que Pedro completasse a faculdade sendo o queridinho dos professores e com seu nome como promessa no mundo acadêmico. Ficou noivo de Paula e conseguiu um ótimo emprego numa das maiores corporações do país. O orgulho da família se tornou o exemplo da família, foi invejado por primos e amigos, além de ganhar uma matéria de duas páginas no jornal de seu bairro. Todos estavam felizes e realizados por Pedro. Menos Pedro.
Algo ainda lhe faltava. Sua vida financeira e amorosa ia de vento em popa, sua família o amava, ele tinha todas as coisas materiais que um homem poderia desejar e… não era o bastante. Pedro calava a sua dor, pois se sentia ingrato com o mundo, com a vida, com Deus. Fazia força para ser feliz, para estar feliz, mas ao deitar sua cabeça no travesseiro à noite aquele buraco tornava a ecoar o som do vazio dentro dele. Quando o coração não agüentava mais e a dor lhe era insuportável, lá ia Pedro de novo para as ruas desertas do Rio de Janeiro fazer uma reverência à Lua e declarar-se à sua musa. Como uma amante fiel que sempre está à espera de seu amado, a Lua sorriu-lhe novamente e brilhou todo o seu brilho de volta à Pedro, partilhando da mesma dor e da mesma saudade. E mais uma vez reenergizado, Pedro retornava à casa pronto para viver mais um dia entre pessoas sem magia nos olhos e que jamais conseguiriam acolher seu sofrimento. Calar o seu amor era quase tão doloroso quanto não vivê-lo. Mas para manter-se livre de mais consultas com psicólogos e um grande risco de ir parar num hospício, ele acordava mais um dia preparado para viver a mentira que era sua própria vida.
Pedro foi promovido e passou a ganhar ainda mais dinheiro e prestígio. Ganhou uma sala no último andar do prédio da corporação, marcou finalmente a data de casamento com Paula e a cada decisão tomada, mais infeliz ficava. Com a promoção o seu trabalho aumentou tanto, mas tanto, que não podia mais sair às madrugadas para amar em silêncio o objeto de seu desejo. Sem a energia da Lua, Pedro acordava cada vez mais cansado, cada vez mais infeliz, cada vez mais desistindo de respirar, pois até isso lhe parecia exaustivo. Pensou em se matar inúmeras vezes. Talvez fosse a única saída para escapar desta dor da qual ele não podia partilhar com ninguém. Entretanto, outra vez seus sentimentos pela Lua o impediam de parar sete palmos abaixo da Terra. Pedro não era a pessoa mais religiosa do mundo, porém não podia afirmar o que realmente havia do outro lado. Se fosse o inferno, não poderia mais ver sua amada. Se fosse o nada, o vazio e a escuridão da não-existência, também não poderia mais vê-la. Por via das dúvidas, sempre arranja um jeito de viver por mais um dia, pois sua única certeza era que sua Lua estaria lá, em algum lugar do céu, esperando por ele, pronto para banhar sua alma com brilho mais uma noite.
Foi numa tarde de sábado que aconteceu. Ninguém poderia prever, ninguém poderia imaginar que aquele homem que parecia tão feliz, tão invejado por todos, pudesse ter uma crise nervosa que ressoou por todos os andares da corporação e chegou até ser matéria de alguns jornais da cidade.  O que se dizia pelos corredores era que o grande senhor Pedro Barbosa trabalhou mais do que seu corpo e sua mente conseguiram aguentar. Surtou, enlouqueceu, pirou na batatinha… Essas coisas normais do século XXI que faz com que os mais próximos lamentem brevemente o ocorrido e logo retornem aos seus afazeres.
A verdade era que a pele de Pedro não conseguia mais segurar os sentimentos reprimidos durante tantos anos e acabou rachando e liberando grandes quantidades de pó de Lua. Seu amor foi jogado para fora, foi vomitado sobre carpetes do escritório em tantas quantidades que foi sufocado por tudo aquilo reprimido durante tantos anos. Se sua secretária não tivesse chamando um médico a tempo, com certeza não teria sobrevivido.
Abrindo novamente os olhos para a realidade à sua frente, Pedro viu o semblante preocupado de seus pais que sorriram e fizeram festa quando viram que o filho havia acordado vinte e quatro horas depois do ocorrido. Deram uma explicação realista ao filho, dizendo que ele havia sofrido um acesso de vômitos e choros devido a uma crise nervosa em função da grande quantidade de trabalho acumulada nos últimos anos. Pedro lembrava muito bem do ocorrido e sabia que não foi exatamente isso o que aconteceu. Contudo, preferiu manter-se quieto mais uma vez, pois ninguém acreditaria na versão da história.
Pedro retornou à casa e foi cuidado atenciosamente por sua noiva. Conseguiu uma licença de duas semanas no trabalho para poder se reestruturar e prometeu a todos da família que ia se cuidar melhor e que logo voltaria a ser a mesma pessoa de sempre. Mas Pedro não queria ser a mesma pessoa de sempre. Fazia as mesmas coisas desde criança para agradar a todos e ter uma vida considerada perfeita pela sociedade e, ainda assim, nunca havia provado o verdadeiro gosto da felicidade. Quando lembrava dos momentos desesperadores de sua crise nervosa, de sua pele rachando ante seus olhos e das toneladas de pó de Lua engolindo-o como uma areia movediça, a única coisa que desejou em seu momento de maior desespero foi ver uma última vez sua amada. Pedro então deu-se conta da fragilidade da vida, da finitude que sempre nos espreita por cada esquina. Olhou para Paula dormindo ao seu lado, sua querida noiva, e perguntou-se o que estava verdadeiramente fazendo ali. Ela era uma mulher maravilhosa, que era capaz de fazer qualquer homem feliz… Qualquer homem, menos ele. Pedro jamais poderia amá-la. Ele já amava outra desde os seus cinco anos de idade. Não podia continuar enganando-a e enganando a si mesmo por mais tempo. Era hora de se tornar homem e ir atrás de sua verdadeira felicidade.
Muitos dizem ter sido mais uma crise nervosa, mais um acesso de loucura, quando encontraram o bilhete de despedida na cabeceira da cama e o armário de roupas parcialmente vazio. No bilhete, Pedro se desculpava com Paula, explicando que não poderia casar-se com ela quando por toda a sua vida amou outra mulher. Aos pais, escreveu seus mais profundos agradecimentos por lhe terem concedido a vida e muito mais, mas que agora ele precisava cuidar e construir a própria felicidade. E precisava fazer isso sozinho.
Com uma mala nas costas e o coração cheio de esperanças, Pedro pegou o primeiro ônibus para Pernambuco e foi em busca de um lugar onde pudesse viver para sempre perto de sua amada.

**

Hoje, anos depois de sua partida, seus pais contam a todo mundo que o promissor filho está bem e vivendo em algum lugar do Nordeste, que nem eles sabem onde é. Se recuperou de todo o estresse de um opressivo trabalho e agora leva uma vida feliz e tranquila ao lado de sua nova esposa.
A verdade é que Pedro encontrou o seu lugar lá na cidade de Igarassu. Virou pescador e possui uma casinha à beira do rio onde pesca e vive com o mínimo que seu trabalho lhe dá. À noite ele se deita em seu humilde barco de madeira, admira a Lua com os seus olhos e toca com sutileza o seu reflexo sobre as águas.
Na pequenina cidade de Pernambuco, ninguém sabia explicar porque a Lua parecia explodir seu brilho pelo céu nos últimos anos.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Se considera escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
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