17 – Ainda Temos Onde Nos Agarrar?

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O mundo inteiro acompanhou ontem a apuração de votos da eleição americana. Mesmo aqueles que nunca haviam se interessado por política americana ficaram ligados, seja pela internet ou pela TV, para acompanhar o maior embate político dos últimos tempos. E acredito que a maioria não tenha se apaixonado pela política da noite por dia… Mas sabiam que um candidato racista, misógino, xenófobo etc. não podia sair vencedor da eleição mais importante do mundo, principalmente quando esse mesmo mundo precisa cada vez mais de amor e aceitação. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Acordamos assustados. Acordamos sabendo que um louco, sem qualquer experiência prévia na política ou nas forças armadas, agora tem um enorme poder nas mãos. Um homem que abusa de mulheres, que dispara frases de ódio contra mulçumanos e latinos, que prega um discurso bélico, e que agora tem o poder de decidir sobre o uso de armas nucleares ou se lutar contra o aquecimento global vale a pena ou não.
Pessoalmente, me interesso e leio muito sobre política americana desde o 11 de Setembro. E não porque acho os EUA um lugar maravilhoso ou porque desgosto do meu país, mas sim porque desde então eu me dei conta de que tudo o que acontece por lá afeta todos nós. E se ainda tem alguém que pensa que o que aconteceu ontem não vai afetar ninguém além das fronteiras americanas e que isso não deve ser da preocupação de brasileiros, por favor, se informe, estude, saiba o que está acontecendo fora da sua bolha, porque sempre afetou e continuará afetando cada vez mais. Goste ou não, os EUA detém o poder sobre a maior parte do mundo. Se um pauzinho dos pilares do planeta como conhecemos hoje for retirado por eles, caímos quase todos. É uma droga, mas é assim que é.
O ódio está crescendo como um câncer fora de controle. Banalizamos a violência, achamos normal o machismo, vemos crianças morrendo afogadas ou soterradas por prédios explodidos na Síria e em seguida vamos jantar. E ainda continuamos com o discurso de “não adianta fazer nada”. Por quanto tempo mais seguiremos apáticos em relação a tudo o que acontece?
É verdade, talvez não tenhamos poder político ou financeiro para fazer muita coisa. Nossas vidas já são complicadas o bastante. Mas você não precisa sustentar a África ou concorrer a um cargo político para fazer a diferença. A mudança se apresenta aos nossos olhos todos os dias, nas mínimas coisas, e geralmente passam despercebidas. Não são os acordos políticos que mudam o mundo. São os pequenos gestos de cada dia. E isso todos nós podemos fazer… juntos!
Após o desespero e a estupefação que tomou conta de todos ontem à noite, enquanto muitos choravam e outros sentiam raiva daqueles que batem no peito e se orgulham por discriminar um semelhante, uma luzinha de esperança começou a surgir. No Twitter, famosos e não famosos fizeram uma pequena promessa, uma promessa de 140 caracteres, de cuidar um do outro em tempos tão difíceis. Prometeram que serão pacientes com os que ainda não entenderam a gravidade da exclusão; prometeram que irão agir cada vez que virem alguma discriminação nas ruas, que irão defender as minorias, que espalharão paz e amor em todas as oportunidades, até nas mais difíceis; prometeram que serão luz no meio de tanta escuridão, um sopro de esperança para os desesperados, a força que não possuem os mais fracos. Façamos o mesmo por aqui.
A vitória de Donald Trump deu voz àqueles que lutam por uma supremacia de raça, de gênero e de religião. Cada vez mais vemos a quantidades de lobos que estão espalhados pelo mundo, uivando suas ideias loucas e assassinas. E a pior parte de tudo é ver pessoas que amamos fazerem coros a essas vozes. Li comentários que pregavam que deveríamos virar às costas para quem apóia esse tipo de políticos. Entretanto, será esse o caminho certo? Não será que virar as costas para nossos amigos, para nossas famílias, para aqueles que amamos por causa de suas visões “tortas” do mundo é fazer o mesmo que “o lado de lá”, que é excluir? Se lutamos contra a exclusão, não é incoerente fazer o mesmo “do lado de cá”? Eu proponho uma outra ideia. A ideia de que podemos conversar, convencer, informar aos que estão próximos de que a ideia do totalitarismo e a falta de empatia num mundo globalizado como o nosso já não cabe mais. Que somos livres para desgostar de muitas coisas, mas que não podemos deixar que esse nosso desgosto saia de nós e machuque alguém. Pregar a ideia de que seu direito acaba quando começa o direito do seu próximo. E precisamos fazer isso com a voz baixa, com paciência e com um olhar amoroso. Não é berrando e atirando pedras que vamos ser diferentes daqueles que julgamos ruins e nocivos, pois eles fazem exatamente isso. O maior perigo de uma luta talvez seja nos transformar naquilo que mais desprezamos.
Mantenham isso em mente. Assim como ontem centenas de pessoas começaram uma corrente de promessas para o bem, comecemos uma hoje aqui também. Não iremos mudar a cabeça de todo mundo, mas qualquer pessoa que consiga ver o absurdo e o crime que é odiar alguém por causa das escolhas que essa pessoa fez para a própria vida, já será uma vitória. Não desistam daqueles que ainda mantêm uma mente fechada: com calma, amor e muita, mas muita paciência, você pode obter resultados inimagináveis. Vamos acreditar e lutar por isso.
Hoje é um dia de luto para todos aqueles que tinham a esperança de ver uma mulher presidente do maior cargo político do mundo e que acreditam na integração e na compreensão entre povos. Vamos chorar nossas lágrimas e tirar esse dia para refletir tendo em mente que, a partir de amanhã, nossa luta por um lugar melhor precisa recomeçar. É muito difícil tirar forças do nada quando vemos tanta maldade e morte todos os dias ante nossos olhos. Nesta manhã eu mesma acordei pensando se isso tudo vale a pena e se ainda há no que se agarrar. Até que minha mente me lembrou de uma cena da minha história favorita de todos os tempos, que queria deixar aqui e compartilhar com vocês. Esta cena mudou minha vida e me dá forças cada vez que eu começo a acreditar que nada vale a pena. Espero que tenha o mesmo efeito sobre vocês também.

 

 

Para finalizar, deixo aqui minha frase preferida de Abraham Lincoln, para muitos o maior presidente americano da História. Não necessito dizer mais nada… ela fala por si só.

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Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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