#23 – Dona Adélia

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Dona Adélia tinha 65 anos e morava num modesto prédio na rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Até onde se sabia era sozinha, pois por ali nunca se havia visto parentes ou amigos. As únicas pessoas que iam até o lar de Dona Adélia eram os entregadores de comida, que entravam com uma cara e saíam com outra.
Dona Adélia tentou ter um gato, mas ele desapareceu no segundo dia. Tentou ter um sabiá, mas o danadinho arranjou um jeito de fugir da gaiola em menos de uma semana e nunca mais voltou.
Outra coisa que se conhecia sobre Dona Adélia era sua antipatia feroz. Ela não só não  cumprimentava os outros moradores quando se cruzavam pelo corredor do prédio, como também parecia odiar que lhe dirigisse qualquer cumprimento. Fazia questão de olhar na cara das pessoas e enrugar o nariz, como se todos à sua volta fedessem. Era o terror nas reuniões de condomínio, pois, apesar da ótima administração do prédio, onde o síndico resolvia tudo o mais rápido possível, Dona Adélia reclamava e como reclamava! Reclamava que as cartas não eram colocadas corretamente em seu escaninho, reclamava dos latidos dos cachorros, dos choros dos bebês, do produto – que só ela achava – fedorento com o qual as meninas da limpeza desinfetavam os corredores e uma vez até arranjou um caso porque – pasmem só! – a senhora Adriana do 307 desceu no elevador amamentando sua menina de 3 meses.
A cada fim de ano Dona Adélia só colocava 10 centavos na caixinha de Natal dos funcionários do prédio porque, como disse para seu vizinho de uma porta uma vez, não gostava de fomentar a preguiça entre os subordinados. “Pois esse povo é assim”, dizia ela sem notar a cara de enfado do vizinho, “você dá um dinheirinho a mais e daqui a pouco tão pensando que estão acima de você!”
Ninguém tinha a menor paciência com Dona Adélia, nem mesmo as crianças mais carinhosas. Mas a maior vítima de seus ataques histéricos era Orlandinho, o porteiro negro que frequentemente ouvia reclamações e comentários maldosos em relação à sua cor de pele. Dona Adélia já havia recebido duas cartas de notificação por seu comportamento racista para com o porteiro, que era adorado por todos os moradores do prédio, mas ela nunca perdia a oportunidade de abrir a boca para falar mais besteiras cada vez que passava pela portaria.
Até que aconteceu um caso curioso, que Dona Adélia nunca conseguiu desvendar, por mais que pensasse sobre isso no futuro.
Estava saindo, como de costume, numa manhã de domingo – pois era uma pessoa de bem que nunca faltava à missa aos domingos – e acabou ficando presa no elevador entre o terceiro e o segundo andar. A velha senhora apertou o alarme, mas ninguém veio. Bateu com força na porta e berrou pedindo ajuda, mas ninguém respondeu. Tentou ligar para o síndico, mas o celular estava fora de área. Esperou por alguns minutos ouvir qualquer voz, mas não havia nada. Parecia não existir nenhuma alma viva naquele dia para vir ao socorro de Dona Adélia, que precisou sentar no chão para que suas pernas parassem de doer de tanto esperar.
Ficou quase uma hora presa até que o porteiro finalmente veio ao seu socorro e conseguiu abrir a porta. Esbravejando para todos os lados, Dona Adélia perguntou ao rapaz como era possível que, num prédio com mais de 100 moradores e em um domingo de manhã, onde a maioria das pessoas estava em casa, ninguém tivesse ouvido seus gritos por socorro.
Segurando o riso, Orlandinho apenas deu de ombros e disse que não tinha a menor ideia.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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