#22 – O Milagre

saa

 

Luane não acreditava em milagres, mas vivia pedindo uma vida a Deus.
Não que estivesse morta ou perto de bater as botas – muito pelo contrário, estava gozando de uma ótima saúde! – mas Luane sentia falta de sentir uma vida dentro de sua vida.
Era assim desde criança ou talvez até antes. Acreditava ter vindo ao mundo com um defeito de nascença. Não tinha apreço por muitas coisas ou não conseguia sentir algo pulsando dentro dela. Enquanto seus coleguinhas de escola se comparavam a bichos, personalidades ou jogadores de futebol, Luane se via como um recipiente vazio. Os professores não lhe davam muita atenção, seus pais – olha só! – até esqueciam de que tinha uma filha em casa, e amigos circulavam pelo seu quarto através dos anos, mas nunca nenhum deles parou por muito tempo ali. Luane não sabia como ser pessoa e, mesmo já tendo completado duas décadas de vida, ainda não aprendera a sê-lo.
Então pedia, mesmo que não acreditasse, mesmo que Deus fosse tão real para ela como uma Fênix dos livros mitológicos, ela pedia. “Só quero ver vida”, repetia todas as noites, exaustivamente, numa prece que durava menos do que dez segundos. Mas os dias passavam, os meses se arrastavam e nenhuma vida parecia acordar dentro dela.
Luane continuou seguindo em frente com sua vida sem vida, arranjou um emprego, fez mais alguns amigos que sabia que não ia durar, ligou para familiares nas datas comemorativas e continuou a ignorar o vazio dentro de si enquanto esperava o seu pequeno milagre.
“Milagres demoram a acontecer”, disse-lhe um amigo bastante religioso um dia, e era verdade, Luane não acreditava em muitas coisas, mas acreditava nisso. Se fosse fácil, se fosse só pedir um potinho de tesouro e – paft! – ele aparecesse na sua frente e resolvesse todos os seus problemas até que você conseguisse o seu final feliz antes dos 30, pra que habitar este mundo, não é mesmo?
Foi de súbito, assim de repente, enquanto lavava a louça, que Luane se deu conta de que talvez aqueles que viviam uma vida sem vida eram os que tinham um potinho de ouro nas mãos quando e onde desejassem. Esse pensamento, essa nova forma de olhar para o mundo começou a arrancar-lhe sorrisos e Luane até arriscou-se a fazer algumas piadas para os seus novos amigos. Luane resolveu largar essa ideia de milagres pra cá e vida pra lá e decidiu viver pela busca. Busca de quê, de quem, de que lugar, isso não importava. Mas deu-se conta de que existir era movimentar-se e enquanto não parasse de buscar, de uma maneira ou de outra, ela ficaria bem.
E foi numa manhã de abril que Luane  encontrou o milagre que tanto desejara! Passou tanto tempo imersa em si mesma que só naquele dia foi reparar num ninho de sabiá feito no vão embaixo do parapeito de sua janela. Ela chegou bem na hora do nascimento, quando pequenas cabecinhas quebravam a casca do ovo e gritavam ao ver o mundo pela primeira vez.
Com lágrimas nos olhos, Luane correu para pegar sua câmera fotográfica para registrar aquele momento. Tirou várias fotos, de diversos ângulos e ia guardá-las num lugar especial para lembrá-la no futuro, quando as coisas ficassem difíceis e o vazio se tornasse insuportável, que preces de dez segundos também são atendidas e pequenos milagres sempre acontecem à nossa volta.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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